Nos últimos dias, tive todas as confirmações possíveis de que não estou sozinha no mundo.
Primeiro, descobri que Tutty Vasques também acha que a jornalista estava de TPM. Segundo, eu terminei de ler o livro de um escritor japonês que, assim como eu, corre nas horas vagas. O livro provalvemente seria chatíssimo pra quem não corre ou pra quem não é fã do escritor, o Murakami. Mas pra mim foi uma experiência única. Descobri um cara tão pessimista, idiossincrático e obsecado com trabalho quanto eu. Selecionei vários trechos pra colocar aqui, mas ainda não tive tempo de traduzir. Aguardem! Terceiro, descobri que tem um urso polar tão preocupado com privacidade quanto eu. Incomodado com os fotógrafos, ele avançou, espantou todo mundo e ainda levou o tripé da câmera como troféu. Eu teria feito exatamente a mesma coisa se viessem me importunar no meu habitat natural!
Quarto, descobri duas comidas que tornaram minha semana muito mais agradável: polenguinho canadense e pão para diabéticos. Para quem achou que Polenguinho era um nome ridículo, é melhor você rever seus conceitos. A versão canadense é feita por uma empresa que chama "A Vaca que Ri" e, ao invés de vir em quadrados, vem em triângulos. Mas é tão gostoso quanto o nosso polenguinho.
Já o pão para diabéticos foi mais uma aventura. O pão é feito com "hemp" que é a uma palavra que eu pensei que era usada pra se referir a maconha. Ou seja, como eu não posso comer farinha de trigo, eles fizeram pão com maconha só pra mim...
Todavia, o pão não deu barato. Depois me explicaram que "hemp" é a fibra do caule da planta (chamado cânhamo) e o que dá barato é a flor. Portanto, nada de ficar alegrinha com o pão. Mas eu medi o meu nível de açucar e estava de fato tudo bem! Isso significa que eu pude me dar ao luxo de comer uma torrada e um sanduiche de queijo grelhado, depois de um ano sem essas coisas. Tudo isso porque tem um bando de maconheiros pensando em como usar todos os caules que eles não conseguem fumar e decidiram explorar esse mercado dos diabéticos pra sustentar o vício deles. Uma parceria e tanto!
Por fim, saiu uma matéria no jornal sobre pessoas que tiram fotos dos pratos antes de comê-los, como eu.
Segue, portanto, minhas últimas fotos de pratos deliciosos que andei comendo por ai.
Quando as meninas saem em grupo pra se divertir, o pessoal costuma dizer que elas tiveram uma Girls Night Out. Ontem, pra comemorar o fim das aulas, eu e umas colegas tivemos um Girls Day Out. Ou seja, tivemos uma balada diurna. Como as "meninas" são todas professoras universitárias, toda a experiência foi, no mínimo, curiosa.
Decidimos assistir a uma sessão de cinema no meio da tarde. Quem pode se dar ao luxo de ir ao cinema `as 2 da tarde em plena segunda-feira? Acadêmicos sempre podem (afinal, você sempre pode varar a madrugada trabalhando no seu "paper", já que não tem chefe nenhum esperando pra você bater o ponto de entrada e de saída). O problema é que a possibilidade existe em teoria, mas não na prática. Durante o ano letivo, a gente passa o dia preparando e dando aulas pra trabalhar nos papers `a noite. Se a gente for no cinema, vamos ter um problemão no dia seguinte: ou a aula não está preparada ou não sobra tempo pra trabalhar no paper. Mas as aulas acabaram semana passada. Portanto, podemos trabalhar no nossos papers `a noite agora... Decidimos então aproveitar essa regalia.
Mas ir no cinema com acadêmicos não é facil: acadêmicos não fazem nada sem antes fazer uma pesquisa sobre o assunto. Imagine, portanto, um grupo de mulheres pesquisando freneticamente os filmes que estão passando, enquanto consideram fatores como proximidade do cinema, horário da sessão, preço do ingresso, o diretor, e todas as críticas do filme. Isso sem contar as preferências pessoais de cada uma. Ou seja, foi preciso quase uma semana toda, e muitos emails, pra conseguirmos decidir onde ir e que filme assistir. Decidimos ver Chloe, um filme com a Julianne Moore dirigido por um diretor Canadense, Atom Egoyan.
Nos encontramos depois do almoço e fomos até o cinema caminhando. Qualquer estranho ouvindo nossas conversas não ia demorar muito tempo pra descobrir que éramos acadêmicas. Primeiro, como todas carregavam mochilas, começamos a discutir as qualidades de diferentes mochilas. Todas tinham opiniões e recomendações sobre marcas, espaço, suporte, dores nas costas, etc. Afinal, carregar livros e laptops para cima e pra baixo exige infraestrutura!
Passamos das mochilas para cadeiras de escritório. Como passamos horas sentadas na frente de um computador, todas têm um vasto conhecimento sobre as marcas mais ergonômicas e ao mesmo tempo mais baratas. Claro que o sonho de consumo de todas é uma Aeron Chair da Herman Miller, mas não é todo mundo que pode pagar 1.000 dólares por uma cadeira... E já que estávamos falando de ficar horas na frente do computador, passamos para mouses e teclado e LER (lesão por esforço repetitivo). De novo, todo mundo tinha técnicas e informações sobre como evitar -- a maior parte delas adquiridas depois de alguma experiência desagradável...
Depois dessa caminhada instrutiva, chegamos ao cinema. O filme é bom até a metade, mas todas concordamos que degringola da metade para o final. O sofisticado suspense psicológico do início do filme é substituído no meio do caminho por um suspense de filme de terror. A história é muito parecida com atração fatal (em que a amante do sujeito leva um pé na bunda e começa a perseguir a família dele). Mas o mais engraçado foi sairmos todas do cinema igualmente tensas com o suspense. Eu achei que era só eu que ficava com os ombros doendo de tanta tensão com esse filmes. Descobri que não... Uma das minhas colegas saiu do cinema com dor de cabeça. Ficamos todas abaladas com o "thriller". Ou seja, além de sermos pessoas que carregam mochilas cheias de livros todos os dias, sentam na frente do computador por uma infinidade de horas e têm LER, somos também todas pessoas muito tensas.
Decidimos tomar um café depois do filme. E a conversa foi, de novo, relevadora de quantas coisas temos em comum.
***preciso avisar meus leitores que vou relevar agora o final do filme. Portanto, se você planeja assistir Chloe, deixe para terminar de ler esse post depois***
Uma colega falou que provavelmente era politicamente incorreto dizer isso, mas que ela tinha ficado aliviada quando a amante/prostituta morreu. Afinal, a confusão parecia não ter solução: depois de muitas ameaças e chantagem, a amante estava começando a se envolver com o filho do casal, pra ter acesso `a casa. Eu confessei que também tinha ficado aliviada, mas acho que mais do que falta de sensibilidade com valores socialmente aceitos esse sentimento revela nossos altos níveis de ansiedade. Sim, somos todas pessoas muito ansiosas que precisam ter controle das coisas. As coisas precisam ter horário e seguir um plano -- nosso plano.
Todas concordaram com o comentário. Uma colega disse que a cena do filme foi semelhante ao dia em que ela decidiu jogar fora todas as plantas. Disse ela que adorava cuidar de plantas, e tinha muitas. Inclusive orquídeas. Um dia, no meio do inverno, ela levantou da cama, pegou todos os vasos e colocou na lixeira, do lado de fora da casa. Disse ela que estava ficando louca com dois filhos pequenos, um doutorado pra terminar, e uma casa pra cuidar. E completou que a cena dela marchando com as plantas para fora de casa e colocando todas elas na neve foi típica de filme: uma mulher totalmente louca e fora de controle fazendo algo totalmente inesperado, como em Chloe. Mas era ela ou as plantas. Outra falou que fez a mesma coisa com o cachorro. Não dava pra cuidar da filha, do marido com pé quebrado, do doutorado por terminar, do gato e do cachorro. Foi-se o cachorro. Ou seja, amantes, plantas ou cachorros podem se tornar questões de vida ou morte para nós, acadêmicas.
Às vezes as pessoas me perguntam porque eu não mudo de profissão. As pessoas precisam apenas observar nossa tarde no cinema, pra concluir que ser uma acadêmica não é fácil. Eu acho, todavia, que o problema não é a profissão, mas nossas personalidades. Nós não somos tensas, obsecadas, controladoras a workaholics porque somos acadêmicas. Ao contrário, acho que a academia atrai esse tipo de pessoa. Ainda que eu decidisse virar caixa de supermercado, e minhas colegas decidissem ficar em casa cuidando dos filhos, iríamos agir da mesma forma. A pergunta, portanto, é porque escolhemos essa profissão. E a minha resposta é sempre a mesma: porque ao contrário de filhos, chefes, clientes, e animais de estimação nossos "papers" sempre fazem o que nós queremos, do jeito que queremos, na hora que queremos, e nunca argumentam contra a gente. E sempre podemos "matar" o paper se ele não se comportar. Não há, portanto, profissão melhor pra gente como a gente.
Li uma notícia de que uma apresentadora de TV gerou polêmica hoje por fazer comentários inesperados no noticiário. Dizem que ela estava um pouco alterada. Minha aposta é que ela estava de TPM... Mulheres ficam fora de controle quando estão de TPM.
Essa semana eu decidi tomar conta das minhas finanças. Além de me sentir muito adulta, tive várias lições sobre finanças em geral, e sobre as minhas finanças em particular. Seguem algumas curiosidades.
Primeiro, eu descobri que o sistema bancário canadense é um oligopólio, controlado por cinco grandes bancos. Portanto, as taxas bancárias são altas e o retorno para investimentos são baixos. Eu, obviamente, estava deixando minhas finanças nas mãos destes oportunistas... Mas agora tudo mudou. Descobri que esses conglomerados bancários só existem porque o sistema bancário canadense impõe uma série de obstáculos para a entrada da bancos estrangeiros no país. Enquanto os bancos canadenses estão sujeitos a um tipo de regulação, os bancos estrangeiros estão sujeitos a outro tipo. E essa regulação torna a vida deles bastante dura.
Mas banqueiros são espertos e eles descobriram mil e uma maneiras de entrar no mercado canadense e conseguir competir com o oligopólio. A minha história favorita é a da ING, que é um conglomerado holandês. Eles viram que para oferecer menores taxas e mais retorno precisavam reduzir custos. Para tanto, eles oferecem serviços no Canadá pela internet e pelo telefone, mas sem agências. Assim, eles não tem que pagar aluguel, luz, água e salários de um montão de pessoas pra operar no Canadá. Resultado? A minha poupança que rendia 1% em um dos bancos grandes agora rende 3% ao ano...
A segunda coisa que eu descobri é que eu recentemente me tornei uma "uninsurable". Acho que a tradução para o português é insegurável, o que significa uma pessoa que não consegue comprar uma apólice em nenhuma empresa de seguros. Faz sentido. Diabetes aumenta o risco de ataque do coração, derrame, perda de visão, amputação de membros, problemas com rins, etc, etc, etc. Sabendo disso, as empresas de seguro se recusam a oferecer apólicies pra quem adquiriu diabetes antes de completar 40 anos. O seguro de saúde é garantido, mas seguro de vida, ou seguro contra doenças crônicas estão, em tese, fora do meu alcance.
Mas onde tem um mercado, tem empresas tentando explorá-lo. Portanto, uma empresa de seguros viu há algumas décadas que existia um mercado grande de uninsurables, que era basicamente constituído de motoristas de caminhão. Essas pessoas viviam de maneira arriscada (do ponto de vista da empresa de seguros). Não faziam refeições regulares, consumiam comida gordurosa, bebiam muito álcool, corriam altos de riscos de acidentes graves (por estar na estrada o dia inteiro), e viviam com companhias nem sempre confiáveis, fazendo sexo nem sempre seguro. Ou seja, altíssima probabilidade de que eles iam precisar do seguro em algum momento.Daí uma empresa decidiu explorar esse mercado, e criou um seguro para motoristas de caminhão.
Pra ser precisa, o seguro já existia para outras pessoas. A novidade aqui é que ele é oferecido pra quem não conseguia comprá-lo antes. Ele funciona assim: o seguro é pago quando a pessoa é diagnosticada com alguma doença, mas sobrevive o diagnóstico. A quantia é paga um mês após o diagnóstico, e tem como propósito aliviar os custos com remédios, ausências no trabalho, ou qualquer tipo de assistência (familiar ou profissional) que for necessária. Ou seja, feito o diagnóstico, recebe-se o dinheiro em vida, diferentemente do seguro de vida. E tem uma empresa que oferece o seguro para pessoas que não conseguem uma apólice com as outras empresas por causa do estilo de vida (caminhoneiros) our por causa de outras doenças (como diabetes). A empresa chama Edge, e é parte do oligopólio.
Ou seja, depois de tirar o meu dinheiro do oligopólio, depositei minha vida nas mãos deles (pelo menos até o governo abrir o mercado de seguros aqui no Canadá).
Em suma, se eu tiver um filme assim, eu posso ficar milionária. Em contraste, os royalties de publicações talvez sejam suficientes para pagar uma entrada de cinema.
Resumo das lições da semana: existem coisas com as quais o oligopólio pode me ajudar, coisas com as quais o oligopólio vai atrapalhar, mas com certeza o oligopólio não vai nem ajudar nem me atrapalhar caso um dia eu decida me tornar uma milionária. Resta me conformar, e comprar uma câmera de vídeo portátil (just in case...).
O dia internacional da mulher foi dia 8 de março e Toronto celebrou a data com uma série de eventos, passeatas, painéis, etc. A mídia passou o dia todo falando sobre o assunto e discutindo questões relacionadas a mulheres. Semana passada, todavia, foi como um "déja vu all over again" do dia internacional das mulheres.
Na terça-feira fui em um seminário para mulheres chamado P.I.N.K. - Protection, investments and the need for knowledge. O seminário era literalmente para mulheres: ganhei uma pastinha rosa, um estojinho rosa, e uma caneta rosa que acende uma luz....rosa. E era apenas para mulheres: um dos organizadores era homem, mas foi obrigado a ficar fora da sala. A palestrante explicou que eles fizeram grupos de controle (experimentos com voluntários) e os tópicos e o tom da discussão era diferente quando havia homens na sala. Achei ótimo, pois sobrava mais queijos e vinhos para mim, já que a mulherada atacou as sobremesas...
A idéia toda do seminário era alertar as mulheres para o fato de que elas vivem mais que os homens, mas em geral investem menos. Os dados (se forem de fato acurados) são assustadores: as mulheres vivem em geral de 5 a 10 anos a mais que os homens, mas investem em geral 30% menos. Ou seja, a mensagem é que mulheres precisam investir mais.
Essa mensagem, claramente, tem muito pouco apelo para alguém como eu, que ainda tem uns trinta e poucos anos pela frente até a aposentadoria, além de ter um plano de aposentadoria da universidade. Mas o pessoal do seminário queria de fato nos persuadir e, para isso, usaram estatísticas assustadoras de mulheres com doenças crônicas, como derrame, ataques do coração e câncer. O argumento aqui é que as mulheres precisam investir pra não ter que depender da bondade alheia (que pode estar lá, ou não) caso algo desse tipo aconteça. E as estatísticas que eles mostraram sugeriam que era bastante provável que ia acontecer alguma coisa com alguém naquela sala, em algum momento.
Neste ponto, estávamos todas assustadas e completamente convencidas de que precisamos ter reservas financeiras para tempos difíceis, aposentadoria, ou caso o fim do mundo chegue (e a probabilidade de que vai chegar logo parece ser alta). Daí a palestrante passa do porquê para o como. Como investir? Primeira coisa: não se precisa de uma fortuna para se fazer fortuna. Para sustentar essa idéia, ela mostrou como um café no starbucks pode virar 1 milhão de dólares. Eu obviamente não vou conseguir reproduzir o argumento, mas era algo do tipo: se você compra café no starbucks todos os dias por cinco dólares, ao final de uma semana você gastou 25 dólares e ao final do ano 1.300 dólares. Se você investir esse dinheiro com juros a X, você vai ganhar tanto em 10 anos, tanto em 20 anos, e em 30 anos você tem um milhão de dólares (graças aos juros compostos, que é juros sobre os rendimentos gerados por juros). Ou seja, pare de tomar café e vire uma milionária! Eu já pensei em vários formas de mostrar como esse argumento é falacioso, mas vou poupar vocês das minhas idiossincrasias acadêmicas.
Qual a conclusão? Se você deixar de tomar seu café todo dia, você pode virar uma milionária, e daí você vai ter dinheiro para custear todas as doenças que você vai ter na vida (por exemplo, você vai ter que contratar uma enfermeira caso você não consiga mais tomar banho sozinha depois do derrame). E daí você pode ficar tranquila. Exceto se você pensar que os estudos mais recentes mostram que café tem vários benefícios para a saúde, incluindo diminuir o risco de diabetes (que é uma doença que aumenta muito o risco de derrame e ataque do coração...) e câncer. Ou seja, eu sai do seminário convencida de que eu deveria continuar tomando meu café, pois prefiro ser uma pessoa saudável e feliz (sim, café melhora meu humor!) a ser uma milionária que precisa de uma enfermeira pra trocar minha fralda.
Na quarta-feira as mulheres recuperaram um pouco sua reputação, depois do "desastre rosa". Na minha aula no curso de desenvolvimento, discuti com meus alunos o programa de microcrédito que foi criado em Bangladesh por um professor de economia chamado Mohammad Yunnus. Graças à invenção, o Yunnus ganhou recentemente o prêmio nobel. E a idéia do microcrédito é genial: o Yunnus criou um banco para pobres. Ele faz empréstimos de 20 a 50 dólares (40 a 100 reais) para pessoas que não tem bens para oferecer como garantia. Muitas dessas pessoas não têm sequer renda.
Como ele garante que não haverá calote? De três formas. Primeiro, todos os devedores precisam fazer um curso de educação financeira para aplicar o investimento de forma produtiva. Ou seja, se eles usarem o empréstimo para comprar cinco cafés no starbucks, eles não vão conseguir pagar a dívida. Mas se eles comprarem uma máquina de fazer café, e começarem a vender café, eles vão transformar os 20 dólares em 80 dólares, e vão conseguir pagar o empréstimo e enriquecer. O Yunnus não tenta convencer ninguém que eles vão ficar milionários se não comprarem café, mas pelo menos eles podem conseguir se sustentar e alimentar suas famílias, o que muitas dessas pessoas não conseguia fazer antes do empréstimo.
Segundo, todos os empréstimos são feitos a um grupo. Assim, dentre cinco pessoas, uma pega o empréstimo mas todas as cinco são responsáveis pelo pagamento. Os outros não podem pegar empréstimos até que a dívida do primeiro esteja quitada. E caso o primeiro dê um calote, os outros são obrigados a arcar com a dívida. Portanto, o microcrédito substituti a garantia, contrato, ou qualquer forma legal de cobrar dos devedores, por um sistema de pressão social. E o sistema é muito efetivo: as instituições de microcrédito têm uma taxa de quitação de dívidas em torno de 98%, enquanto os bancos tradicionais ficam com meros 70%.
Terceiro, o Yunnus se utilizou de psicologia básica pra estruturar o sistema de pagamento. Ao invés de emprestar o dinheiro e cobrar o pagamento com juros depois de um ano, ele faz cobranças semanais, de quantias muito pequenas (que são viáveis para os devedores). Isso tira aquela idéia assustadora de que em um determinado mês eles precisam pagar uma bolada, e acaba criando um hábito saúdavel de poupança.
E onde entram as mulheres? As mulheres são as estrelas do show aqui. O Yunnus desenvolveu o programa para mulheres, pois elas eram proibidas de usar bancos comerciais em Bangadlesh. E muitos interpretam os altos indices de quitação das dívidas ao fato de que são mulheres, e não ao fato de que são grupos. Mas ainda que não seja esse o caso, o fato de que o programa foca em mulheres e os índices são tão altos mostra que essas mulheres pobres podem ser empresárias de sucesso, se for dada a elas uma chance (e bons conselhos...).
Na quinta-feira de manhã, a reputação das mulheres dos países desenvolvidos estava de mal a pior. As mulheres supostamente liberadas e "modernas" do Canadá tinham deixado muito a desejar na terça com o desastre rosa, enquanto as mulheres pobres e "atrasadas" de Bangladesh tinham dado um banho nas Canadenses na quarta. Daí na hora do almoço de quinta-feira recebi o anúncio de um projeto muito legal (que recuperou um pouco a reputação das canadenses):
http://www.girlsandwomen.com
Uma fundação canadense está tentando inserir questões relativas a mulheres jovens na reunião dos G-20, que vai acontecer aqui em Toronto dentro de alguns meses. Segundo a página deles, as mulheres representam metade da população mundial, trabalham dois terços do total das horas trabalhadas no mundo (provavelmente contando com trabalho doméstico), e recebem um décimo da renda e possuem apenas um centésimo de toda a propriedade que existe. Ou seja, há um problema de desigualdade na distribuição de recursos.
O projeto foi criado por uma fundação de uma magnata canadense (aposto que ela não ficou rica porque parou de tomar café!) que acredita que investir em jovens mulheres é a melhor forma de promover desenvolvimento. Alguns dados do site:
"Cada dolar que uma mulher ganha, ela investe 80 centavos na família (em contraste com 30 centavos investidos pelos homens)"
Isso pode explicar o dado do P.I.N.K. de que mulheres investem menos que homens: elas ganham menos e gastam mais com a casa e as crianças. Portanto, o problema não é o café que elas compram no caminho pro trabalho....
Conclusão: vou investir em mulheres, a começar por mim mesma. E como minha cabeça funciona melhor com café, meu copinho de café continua a ser meu melhor investimento diário em mim mesma. Além de continuar a tomar café, acho que vou a um seminário para investidores homens da próxima vez. Aposto que ninguém fica falando que eles vão ficar mais ricos se eles pararem de tomar café, ou uísque, ou fumar charutos. E aposto que vão me dar uma caneta que eu posso de fato usar em público...
No dia 14 de março eu participei pela primeira vez de uma corrida organizada. Imagine uma coisa tipo a São Silvestre: corredores com números na camisa, as ruas fechadas pela polícia para os corredores passarem, os pedestres nas calçadas, dando apoio para os corredores, e tudo mais.
Foi divertido. E eu aprendi algumas coisas interessantes.
A primeira descoberta é que virar corredor é como começar a fazer parte de uma sociedade secreta. Descobri isso quando fui correr com o running club pela primeira vez e os corredores que passavam por nós sempre nos cumprimentavam. Perguntei pro pessoal se eles conheciam todo aquele povo. Elas disseram que não. É só praxe cumprimentar outros corredores, assim como você cumprimenta as pessoas no elevador do seu prédio. Pode ser praxe, mas parece mais um ritual secreto. Parece um sinal que precisamos mandar, uns para os outros, de que nós fazemos parte desse grupo. Tanto que cumprimentamos só os corredores, mas não os transeuntes que calmamente se locomovem com seus cachorros, crianças ou celulares.
A corrida é, portanto, o dia do encontro dessa sociedade secreta. É como se todos aqueles corredores, dispersos pela cidade, que passaram meses mandando sinais uns para os outros, se reunissem em um só lugar. Os momentos que antecederam a corrida foram, portanto, como uma grande celebração, apesar de todas as condições adversas: domingo de manhã, com chuva, temperaturas próxima de zero, um vento inacreditavelmente forte (ou seja, condições sob as quais qualquer pessoa sã iria ficar na cama dormindo, sem qualquer sombra de dúvida). Estávamos todos felizes de estar lá, celebrando o fato de estar juntos e esperando como uma criança espera um doce pela corrida por vir.
A segunda coisa que eu aprendi é que tem uma coisa chamada ritmo de corrida. Antes da corrida, a T. me falou que já tinha corrido 5 Km em 27 minutos. Fiquei impressionada. Nunca consegui correr 5Km em menos de 30 minutos. E achei que durante a corrida ia ser a mesma coisa. Ledo engano. Terminei a corrida em 28 minutos e 36 segundos (para aqueles que estão curiosos pra saber como eu medi, aqui vai uma curiosidade: todos os corredores recebem uma pulseira que eles amarram no pé com um chip - vejas as fotos. Quando você cruza a linha de partida, o chip é acionado, e quando você cruza a linha de chegada o chip é desligado. E os organizadores computam os resultados e disponibilizam na internet. Não é à toa, portanto, que o evento chama-se corrida organizada....)
Fiquei surpresa quando eu vi meu tempo. Não achei que tinha corrido tão rápido (para meu padrão, é claro. Não foi nada rápido se considerarmos que o primeiro lugar chegou em 16 minutos e mais ou menos 400 pessoas chegaram antes de mim). Daí, quando eu refiz na minha cabeça a corrida, eu entendi o que aconteceu. Quando você ouvi o disparo, de repente, minha mente se focou totalmente na corrida. E toda minha competitividade veio a tona. Eu queria ultrapassar pessoas. E eu ficava com raiva quando alguém me ultrapassava. Portanto, eu corri, ainda que sem notar, no limite do meu fôlego. E foi por isso que eu consegui cortar um minuto e meio do meu melhor resultado até então. E não foi tão mal: cheguei na frente de pelo menos 2000 pessoas. Enfim, não é só o coração que tem razões que a própria razão desconhece, mas as pernas também!
A terceira coisa que eu aprendi é que depois da corrida nossa sociedade secreta vira uma grande terapia de grupo. Estamos todos nos cumprimentando pela conquista, qualquer que tenha sido ela. Aqui, toda a competitividade é substituída pelo apoio e suporte de gente que entende quão difícil é conseguir o que você acaba de conseguir. Os corredores mais experientes entendem que completar uma corrida pela primeira vez é uma conquista. E os corredores que estão completando a corrida pela primeira vez, conseguem admirar as pessoas que estão há anos voltando para aquele mesmo lugar para tentar se superar e bater seu próprio record. É como participar do alcóolicos anônimos. Se você está a um dia sem beber, nos aplaudimos. Se você está a seis meses sem beber, nós aplaudimos também. E é diferente compartilhar essas pequenas conquitas com pessoas que não passaram pela experiência. Daí a terapia de grupo.
Estou lendo um livro de um escritor japonês que corre. Ele é um escritor de ficção, mas decidiu publicar um diário das corridas dele, com algumas reflexões sobre a vida. E em uma passagem ele diz o seguinte:
"As pessoas às vezes tiram sarro de quem corre todos os dias, falando que eles percorreriam qualquer distância para ter uma vida mais longa. Mas eu não acho que é essa a razão pela qual as pessoas correm. Acho que a maioria dos corredores não corre para viver mais tempo, mas sim para viver mais intensamente. Se você vai ter que viver esses anos, é melhor viver eles com objetivos claros e completamente vivo, ao invés de passar esse tempo semi-acordado. E eu acho que correr te ajudar a fazer isso. Exigir o máximo de si mesmo dentro dos seus limites: essa é a essência de correr (e para mim, de escrever também), e uma metáfora da vida." Haruki Murakami.
Acho que isso resume bem as três lições da corrida, em especial a última.
É isso aí pessoal. Como diz uma das meninas do clube de corrida: see you on the roads!
Hoje o pessoal do clube de corrida passou alguns quilômetros discutindo a elegância do uniforme do time de hóquei. O debate foi iniciado pela T., que de tão ofendida pelo meu post deixou dois comentários no blog, além de me mandar mais alguns e-mails. Resolvi perguntar a opinião da nossa fashion designer (sim, temos uma estilista de verdade no clube!). Para meu desapontamento, ela afirma veementemente que sim, as camisas do time canadense (não as do time americano) são atualmente elegantes no Canadá. Ressalva ela que não seriam se o time tivesse perdido a final. Mas, dada a vitória, o uniforme não apenas se torna elegante, mas deve assim permanecer por pelo menos dois anos. A próxima a ser consultada foi uma enfermeira. Informei a ela que estávamos tendo um debate sobre a elegância do uniforme, e ela respondeu prontamente:
- Claro que não é elegante!
A resposta encontrou um olhar fuzilante de T., e foi imediatamente remediada:
- Sim, claro que o uniforme é elegante.
T. está atualmente exigindo uma retratação minha, no blog, de preferência. Eu, como o Diogo Mainardi, continuo insistindo no meu ponto. Acho que apesar do uniforme ter se tornado um símbolo de vitória, e um motivo de orgulho, isso não muda as regras de estética da sociedade civilizada. Pode ser legal, cool ou "in", como definiu a designer. Mas bonito não é.
A segunda crítica veio da minha irmã. Diz ela, em resposta à minha aclamação por uma "revolução da classe média no Brasil":
Apesar de toda a coereência da sua teoria, acho que estudar um assunto é bem diferente de vivenciá-lo. E por isso tendo a concordar com a Regina. Afinal, que tipo de recursos temos a mais num país onde a corrupção impera? Não é comodismo; é uma sucessão de tentativas frustradas. Faz sentido. A classe média está fazendo uma análise de custo-benefício: tentar mudar o rumo das coisas exige tempo e dinheiro. Quem vai largar seus empregos e afazeres e investir seu próprio dinheiro para tentar mudar a política no país? Talvez alguns poucos altruistas topassem, se houvesse alguma garantia de sucesso. Mas não há. O custo pessoal é muito alto, para um resultado coletivo não só incerto, mas provavelmente muito pequeno. Mas eu não sei quem tentou, quanto tentou, e quantas vezes tentou. Eu não consigo ver a sucessão de tentativas frustadas nos alunos que sentam no meu curso de direito na FGV. Na verdade, eu não consigo ver tentativa nenhuma: consigo ver um bando de meninos e meninas que querem um emprego bem pago. Só isso. Portanto, eu acho que tem muito comodismo, e acho que não é resultado da uma sucessão de tentativas frustradas.
Mas ainda que alguém consiga me mostrar que a apatia é resultado de tentativas frustradas, a questão central, pra mim, é como quebrar esse ciclo. Portanto, não discordo da minha irmã quando ela apresenta a atitude da classe média como perfeitamente racional (ainda que a gente discorde da possível causa: comodismo ou frustação). Talvez o meu post seja mais um pedido veemente do que um prognóstico, pois eu acredito que se a classe média de fato se mobilizar algo pode mudar. Mas na medida em que a mobilização não é numerosa e significativa, ela acaba sendo frustrada,e gera ainda mais apatia, reforçando o ciclo. Portanto, meu único ponto é que se todo mundo começar a acreditar e começar a agir, a mudança acontece. Estou quase usando a famosa frase da campanha do Obama, "Yes, we can". Portanto, ainda que eu esteja errada nas causas da apatia, mantenho minha conclamação para que a classe média mude de atitude.
Se a pressão continuar, talvez eu até me retrate. Antes isso do que ser processada pelos meus leitores, como o Diogo Mainardi. Mas devo avisar que antes de me retratar vou utilizar uma artimanha do Harper pra acalmar os ânimos e tentar abafar as críticas: vou fazer algo completamente inesperado, como tocar uma música dos Beattles, numa apariçao surpresa em um concerto de um dos violoncelistas mais famosos do mundo, Yo Yo Ma.
Existe um livro sobre a faculdade de direito de Yale chamado Anarquia e Elegância, que capta de maneira brilhante o espírito da escola. Não tomo o espírito de Yale como representativo da sociedade americana, mas como eu sai de Yale direto para o Canada o contraste que ficou na minha cabeça foi que eu havia saído da "Anarquia e Elegância" e tinha entrado na "Ordem e Elegância". Mas meu sentimento durou apenas até domingo passado, quando aconteceu a final do hóquei masculino nas olimpíadas de inverno. Nesse dia, o Canadá perdeu toda sua ordem e elegância e virou o Brasil em dia de final de copa do mundo.
Pouco antes do jogo começar, sai para fazer compras e as ruas estavam desertas. Pouquíssimos carros (provavelmente apressados para chegar ao local onde se assistiria o jogo) e quase nenhuma pessoa na rua. No supermercado, um telão mantinha os empregados entretidos e tranquilos, afinal queriam garantia de que não perderiam a final ainda que tivessem que trabalhar. E o jogo foi sofrido, como finais da copa do mundo no Brasil. Canadá começou ganhando, mas os Estados Unidos empatou faltando 27 segundos pra terminar o jogo. Foi para a morte súbida. Quando o Canadá marcou o gol da vitória, foram gritos, fogos, buzinas, tudo. Sair na rua, depois disso, foi uma experiência antropológica. Pessoas com as cabeças para fora do carro gritavam, buzinavam e acenavam, enquanto as que estavam na calçada dançavam e acenavam de volta. O país todo em festa, sem qualquer resquício de toda a ordem com a qual eu estou acostumada.
A falta de elegância vem do uniforme de hóquei. O jogo exige tanto equipamento de proteção, que as as camisas são verdadeiras mostruosidades. Parecem uma camisola de uma tia com obesidade mórbida quando usadas sem o equipamento por baixo. E era assim que estavam vestidos a maioria dos Canadenses na rua. Um contraste radical com o que eu vi no dia seguinte, segunda-feira, quando a temperatura subiu para 1 grau positivo e as pessoas estava não apenas andando ordenadamente na rua, mas estavam elegantemente vestidas com seus sobretudos de outono, que são significativamente mais elegantes que os casacos de inverno (como vocês já devem ter notado nas minhas fotos).
Estamos, portanto, de volta à ordem e elegância característica da sociedade canadense (especialmente porque o inverno tem sido generoso e as temperaturas estão acima de zero essa semana), que contrasta muito com a realidade brasileira. E não posso deixar de especular se a causa desses constrastes é um problema de foco. Nossa bandeira diz "ordem e progresso". A constituição canadense diz "paz, ordem e bom governo". Talvez se o Brasil tivesse menos preocupado com progresso a qualquer custo e mais preocupado em ter um bom governo nós deixássemos de ser o eterno "país do futuro". Ou seja, falta um pouco de elegância nas instituições políticas brasileiras. E, como mostra o Canadá, ter instituições políticas elegantes garante ordem, gera progresso, e não tira nosso direito de celebrar desordenadamente (ou eu deveria dizer desgovernadamente?) nossas vitórias nas copas do mundo...