domingo, 19 de janeiro de 2014

Viajando no Direito Inglês


Ontem fiz uma pequena viagem de London até Salisbury, onde se pode visitar a famosa catedral com o mesmo nome, e o monumento pré-histórico Stonehenge. Achei tudo bonito e interessante, tirei fotos como qualquer turista, etc, etc. 



Mas o passeio teve uma outra dimensão, que eu apenas pude apreciar porque dou aula de direito, e mais especificamente porque vivo em um país que não apenas usa o sistema da common law, mas que ainda é bastante influenciado pela legislação inglesa. 

A common law, diferentemente do sistema brasileiro e da maioria da Europa Continental (civil law), é baseada em casos. Há muito poucas leis escritas e toda e qualquer disputa trazida perante a corte é decidida pelo juiz, com base em bom senso e, se possível, fazendo referência a casos anteriores que enfrentaram a mesma questão. 

Um dos primeiros casos que meus alunos lêem no curso de contratos trata de um comerciante inglês no século XIX que programou uma viagem de negócios após consultar os horários disponíveis de trens, segundo informação fornecida pela empresa (Denton v. Great Northern Railway Company, 1865). O viajante conseguiu ir de London até a primeira cidade, mas ao tentar embarcar para a segunda cidade descobriu que aquela linha não estava mais em operação. Processou a empresa pelo prejuízo que teve. Como ele não tinha comprado a passagem, mas simplesmente planejado a viagem, a pergunta era se havia um contrato entre ele e a empresa, que havia sido quebrado. A corte decidiu a favor do consumidor, criando um dos precedentes mais controversos do curso. 

Assim que eu comecei a programar minha viagem, consegui ver claramente o resultado do caso: as empresas de trens colocam os horários disponíveis na internet, mas avisam que não se responsabilizam por mudanças. Basta dar uma olhada nas letrinhas pequenas no último parágrafo do panfleto com os horários (aqui) E para aqueles que estão achando um absurdo as letrinhas pequenas que ninguém vai ler, há dois outros casos que discutem quão pequenas e visíveis as letrinhas devem ser. A resposta, basicamente, é: depende de quão abusiva (e portanto inesperada) for a cláusula. Nesse caso, como trata-se de senso comum, não se espera muita visibilidade. Ou seja, proteção ao consumidor aqui começou há muito tempo atrás.


Já no final do curso, discutimos um segundo caso, no qual um sujeito que tinha comprado uma pintura da catedral de Salisbury, alega que a mesma não tinha sido pintada pelo famoso John Constable (Leaf v. International Galleries, 1950). Na falta de um "satisfação garantida ou seu dinheiro de volta", o caso foi parar no judiciário inglês. A pergunta que a corte teve que responder era a seguinte: o comprador pagou pela pintura que estava na frente dele, ou ele pagou por uma pintura do tal do John Constable. No primeiro caso, se ele assumiu erroneamente que era John Constable, problema dele. No segundo caso, o fato da pintura não ser o que estava estipulado no contrato invalidava a transação e dava a ele o direito de recuperar seu dinheiro. A corte acabou não respondendo a pergunta, pois disse que reclamar cinco anos depois da compra era tarde demais. Portanto, a questão da anulação do contrato devido a "erro" teve que ser decidida em outros casos. 

Foi fascinante não apenas ver a famosa catedral de perto (por fora e por dentro), mas o mais interessante foi encontrar na lojinha de conveniências vários cartões postais com a famosa pintura de John Constable, que discuto todo ano com meus alunos. 


  

 Por fim, dentro da catedral, encontra-se uma das quatro cópias da Magna Carta, assinada em 1215 pelo rei João 1o. Todas as cláusulas estão em uma única página, afinal, papel não era fácil de achar naquela época! 



Para caber em uma única página, o documento -- disse a guia -- contém tantas abreviações que é praticamente impossível de ler sem ser um especialista. A boa notícia é que eles oferecem uma tradução em inglês que eu e minhas colegas, todas advogadas, obviamente paramos para ler cláusula por cláusula. Tem muita coisa interessante lá (assunto que vou deixar para outro post). 



Duas cláusulas que achei particulamente interessantes: 
 


  • – Logo que uma mulher fique viúva, receberá imediatamente sem dificuldade alguma, seu dote e herança, não ficando obrigada a satisfazer quantia alguma por esta restituição, nem pela pensão de viuvez, de que for credora, no tocante aos bens possuídos pelo casal, até à morte do marido; poderá permanecer na casa principal deste por espaço de quarenta dias, contados desde o do falecimento; e se lhe consignará, entretanto, dote, caso não o tenha sido antecipadamente. Estas disposições serão executadas, se a sobredita casa principal não for uma fortaleza; mas, se o for, ato contínuo, será oferecida à viúva outra casa mais conveniente, onde possa viver com decência até que se designe o seu dote, segundo aviso prévio, percebendo dos bens comuns de ambos os cônjuges o necessário para sua honesta subsistência. A pensão será conforme a terça parte das terras possuídas pelo marido, a não ser que lhe corresponda menor quantidade em virtude de um contrato celebrado ao pé dos altares ( " ad ostium Ecclesiae" ).
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  • – Nenhuma viúva poderá ser compelida, por meio do embargo de seus bens móveis, a casar-se de novo, se prefere continuar em seu estado; ficará, porém, obrigada a prestar caução de não contrair matrimônio sem nosso consentimento, se estiver debaixo de nossa dependência, ou do senhor de quem dependa diretamente.


  • Em um dos cursos que ministro, tenho uma aula dedicada a gênero e desenvolvimento. Nesse aula, os alunos descobrem que esse tipo de garantia sucessória básica para mulheres, estabelecido na Inglaterra em 1215, ainda não existe em muitos lugares do mundo, especialmente na África. Ou seja, 9 séculos depois, ainda há países que não incorporaram esse tipo de legislação.

    E o Brasil não tem muito do que se orgulhar também.  Nosso código civil de 1917 incluiu no seu artigo 219, a seguinte cláusula: "Considera-se erro essencial sobre a pessoa do outro cônjuge: (...) IV – O defloramento da mulher, ignorado pelo marido.” Ou seja, a mulher era tratada como uma pintura de Constable. Se não fosse mais virgem, o marido tinha o direito de anular o casamento (assim como o comprador podia anular o contrato de compra e venda). E o prazo para fazer a reclamação também era limitado: dez dias. A isso de acrescenta uma série de outras barbaridades, como o art. 242 que proibia a mulher de exercer qualquer ato da vida civil (assinar contratos, aceitar heranças ou ingressar com uma ação na justiça) sem autorização do marido. Não me surpreenderia, portanto, se em pleno início do século XX o Brasil não concedesse às mulheres direitos sucessórios que a Inglaterra havia garantido em 1215...

    E não é só com relação às mulheres que o Brasil faz feio. A Magna Carta afirma:
     



  • – Nenhum bailio ou outro funcionário poderá obrigar a quem quer que seja a defender-se por meio de juramento ante sua simples acusação ou testemunho, se não for confirmado por pessoas dignas de crédito.

  • – Ninguém poderá ser detido, preso ou despojado dos seus bens, costumes e liberdades, senão em virtude de julgamento de seus Pares segundo as leis do país.



  • – Não venderemos, nem recusaremos, nem dilataremos a quem quer que seja, a administração da justiça.
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  • Basta olhar para tortura policial, para Pedrinhas e para a quantidade de presos aguardando julgamento no Brasil para descobrir que quase 1000 anos depois, nós ainda não implementamos nada disso.

    Em suma, há um aspecto invisível das visitas a locais e monumentos que é difícil penetrar. Mas quando conseguimos acesso a esse mundo (seja através de guias, seja por causa da nossa profissão), a visita se torna muito mais rica e interessante. Não se trata apenas de uma janela para o passado, mas essa é também uma oportunidade para compreender melhor tudo que temos e vivemos hoje. Oxalá um dia as elites brasileiras comecem a vir para a Europa não apenas para se deslumbrar com a civilidade das pessoas, com a segurança e com a limpeza das ruas, mas também aproveitem a visita para aprender sobre os pilares invisíveis de tudo que nós admiramos por aqui, e gostaríamos que existisse no Brasil também. 


    sábado, 11 de janeiro de 2014

    O taxista londrino

    A viagem foi longa. Do aeroporto até o apartamento que eu tinha alugado em Londres, daria mais ou menos uma hora, me informa o taxista. "E vai chover", adicionou ele. 

    Como era de se esperar, o comentário sobre a chuva não parou ali. Recebi um relatório detalhado sobre a temperatura e a quantidade de chuvas na semana que tinha passado e uma comparação do volume de chuvas esse ano com o do ano anterior. Quando acabou o relatório sobre o tempo em Londres, comecou o relatório sobre o tempo no resto do país. Terríveis temporais e alagamentos, pessoas desalojadas de suas casas, etc, etc.

    Começou a chover. Olhei no relógio: 20 minutos tinham se passado desde que saímos do aeroporto. Estava curiosa para ver se o taxista iria passar os 40 minutos restantes falando sobre o tempo. Afinal, esse é o esteriótipo, não? Ingleses conversam sobre o tempo. Pois eu já estava pronta para aprender tudo o que há para se saber sobre a previsão meteorológica de um país onde chove 90% do tempo. Será que eles teriam mais de 50 palavras para descrever chuva, assim como os Inuits (habitantes do norte do Canadá) têm para descrever a neve?

    Mas para minha surpresa o taxista mudou de assunto. Tinhamos entrado na cidade e ele resolveu servir de guia turístico. Me indicava as ruas, os museus, os monumentos. Me disse que as filas nas entradas dos museums sumiriam depois do fim de semana, quando acabavam as férias escolares. Sugeriu que eu esperasse até segunda, salvo se eu gostasse muito de crianças e da companhia delas, acrescentou com uma gargalhada.... 

    Daí entramos em um rua comercial movimentada. Vi algumas lojas que eu conhecia, mas o taxista fez questão de me mostrar a Harrods. Disse que eu podia comprar de tudo lá. Perguntei se era uma loja de departamento. Ele disse que sim, mas que era muito completa. Como eu não dei muita atenção para o assunto (afinal, consumo de bens não percevíveis não é um dos meus fortes), ele completou: "você pode até comprar animais na Harrods". 

    Animais? Animais, respondeu ele entusiasmadamente.

    E daí veio a grande história sobre a Harrods. Diz ele que antigamente a Harrods não apenas vendia animais de estimação, como vende hoje, mas vendia qualquer tipo de animal. Bastava fazer o pedido e eles traziam o que você quisesse para Londres. Zebras, girafas, elefantes, etc. Enquanto listava os animais, o nível de entusiasmo do taxista ia aumentando. Mal sabia eu a história que me aguardava!

    Segundo ele, foi nesse esquema da Harrods que um sujeito resolveu comprar um leão. Criou o leão em um apartamento, até que o bicho ficou muito grande para permanecer dentro de casa. O dono resolveu então doar o bicho para uma reserva na África, onde ele viveria com outros leões, mas sob cuidados. E a história do reencontro do leão Christian com os donos foi filmada e está disponível na internet:



    Disse o taxista que, ao contrário dos donos de Christian (que foram responsáveis  e mandaram o leão para um local apropriado), muitas pessoas simplesmente soltaram seus animais em território londrino. Uma boa parte delas estava tentando evitar a multa imposta por uma nova lei, que proibia a posse de animais silvestres em residências. O taxista tinha um relatório detalhado do ano e local em que vários animais exóticos tinham sido vistos por transeuntes. Eram leopardos, onças e todo tipo de bicho nas áreas rurais de Londres. As histórias eram tantas que eu não consigo lembrar de todas. Disse ele que uma parte das histórias eram mentiras, e outras eram puro engano: a pessoa vê um bicho grande, não sabe o que é, e sai pelo mundo proclamando que era uma onça.

    E foi assim que eu descobri que o Londrinos não são apenas obcecados com o tempo, mas são obcecados também com histórias bizarras, como a do leão Christian e encontros inusitados com animais exóticos. Afinal, não dá pra passar tanto tempo dentro de um pub como eles passam só falando do tempo...

    E a viagem terminou com uma comparação cultural: 

    - "Senhor, é praxe dar gorjeta para taxistas aqui?" 
    - "Algumas pessoas dão, mas não se preocupe. A gente não é como aqueles lunáticos de Nova Iorque". 

    E enquanto ele descia do carro para carregar minhas malas até a porta do apartamento, eu pensei:  de fato, não são mesmo! Ainda bem.

     

    quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

    Minha Terra Tem Palmeiras...

    Diante desse texto de Vinícius de Moraes, desisti de tentar descrever a sensação de voltar ao país:

    "Vejo de minha janela uma nesga do mar verde-azul de Copacabana e me penetra uma infinita doçura. Estou de volta à minha terra... A máquina de escrever conta-me uma antiga história, canta-me uma antiga música no bater de seu teclado. Estou de volta à minha terra, respiro a brisa marinha que me afaga a pele, seu aroma vem da infância. Retomo o diálogo com a minha gente. Uma empregada mulata assoma ao parapeito defronte, o busto vazando do decote, há toalhas coloridas secando sobre o abismo vertical dos apartamentos,dá-me uma vertigem. Que doçura!

    Sinto borboletas no estômago, deve ter sido o tutu com torresmo de ontem misturado ao camarão à baiana de anteontem misturado à galinha ao molho pardo de trasanteontem misturada aos quindins, papos de anjo, doces de coco do primeiro dia. Digiro o Brasil. Qual o canard au sang, qual loup flambé au fenouil, qual pâté Strasbourgeois, qual nada! A calda dourada da baba de moça infiltra-se entre as papilas gustativas, elas desmaiam de prazer, tudo desagua em lentas lavas untuosas num amoroso mar de suco gástrico...

    É a brazuca! -- disse-me Antônio Carlos Jobim balançando a cabeça com ar convicto, enquanto empinava o seu VW em direção ao Arpoador."

    Trecho do livro Pois Sou bom Cozinheiro: receitas, histórias e sabores da vida de Vinícus de Moraes, p. 82.

    P.S. - Obrigada, prima, por esse delicioso presente!  

    domingo, 8 de dezembro de 2013

    Relatos do Brasil e do Amor

    No fim de semana passado, tive a oportunidade de assistir dois filmes no festival brasileiro de cinema de Toronto. Flores Raras é uma história de amor entre a poeta norte-americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares. Olga é outra história de amor entre uma revolucionária comunista alemã, Olga Benário, e Luiz Carlos Prestes. 

    As histórias tem muito em comum. Nos dois casos, duas estrangeiras vem ao Brasil com um propósito definido e acabam se apaixonando por brasileiros. Olga veio a mando do partido comunista numa missão para proteger Prestes, enquanto Bishop veio espairecer, buscando inspiração para voltar a escrever. O país, ou as respectivas paixões, incentivam a poetisa a voltar a escrever, e fazem a durona comunista amolecer. O resultado, nos dois casos, são histórias de amor conturbadas, sem finais felizes. 

    O pano de fundo são as reviravoltas políticas tão comuns na história do país. Vargas declara estado de sítio na época de Olga e o golpe militar de 64 acontece durante a estadia de Bishop. Nas duas histórias, as estrangeiras se apaixonam por pessoas profundamente envolvidas com a cena política, mas de lados opostos. Enquanto Prestes tentava derrubar o regime, através de uma revolução comunista, Lota tinha fortes laços com Carlos Lacerda, o governador do Rio que apoiou o golpe. 

    Outra semelhança é que ambos os filmes são baseados em livros. Flores Raras foi feito a partir da biografia romanceada de Carmen de Oliveira, enquanto Olga é baseado no fascinante livro de Fernando Morais. 

    As semelhanças, todavia, param aí. O relato das duas histórias é feito de forma bastante distinta nos dois filmes. Ambos os diretores estão focados na história de amor, mas enquanto Bruno Barreto celebra e trabalha em cima da complexidade das personagens e da relação entre elas, Jayme Monjardim faz exatamente o contrário.  

    Com diálogo artificiais e engessados, o diretor de Olga tenta retratar comunistas como idiotas robotizados, sem dar qualquer informação sobre o contexto político da época. Para tornar as coisas piores, o tom artificial dos diálogos em Olga não é abandonado nem no momento em que eles se apaixonam e viram protagonistas de um verdadeiro dramalhão mexicano. A quantidade de minutos usados na cena em que o regime nazista se apropria do bebê de Olga é, com certeza, um dos maiores desperdícios de película da história do cinema. Como se a história não fosse dramática o suficiente, o diretor decide jogar um pacote inteiro de açucar dentro da lata de leite condensado. 


    Flores Raras, em contraste, não ignora a realidade política do país, mas o faz sem abandonar o foco na vida pessoal das protagonistas. A cena mais marcante do filme, para mim, é o anúncio do golpe militar no rádio. Após ouvir a notícia, Bishop se dirige à janela e, para sua surpresa, vê que as pessoas estão na praia, se bronzeando e tomando sol, como se nada tivesse acontecido. Mas a surpresa maior vem quando ela descobre que Lota celebrou o golpe no gabinete do governador. O tema torna-se então um ponto de conflito entre as duas. 

    A estética também não podia ser mais diferente. Enquanto Flores Raras tem uma fotografia belíssima, com cortes e cenas estéticamente impressionantes, Olga tem um figurino que deixa a desejar, em um cenário que, de tão exagerado, parece falso. A neve de mentira apenas deixa as coisas ainda piores para o espectador.

    As diferenças não deveriam ser uma grande surpresa. Enquanto Bruno Barreto é um renomado diretor, com uma filmografia respeitável, Jayme Monjardim faz novelas para TV. Portanto, Olga não passa de uma novela com duas horas de duração. Recomendo, no caso de Olga, deixar o filme de lado. Vale mais a leitura do livro de Fernando de Morais. O filme Flores Raras, em contraste, vale a pena assistir. Assim que eu terminar de ler o livro de Carmen de Oliveira volto aqui para dizer se vale a pena também. 

    quinta-feira, 28 de novembro de 2013

    A Geek, a Comida e a Morte


    Fui na festinha. Conversei com pessoas aleatórias, sobre coisas aleatórias. Daí veio a menina. Disse que gostava de livros e das aulas na faculdade, e que conversava com os colegas sobre os tópicos das aulas nas festinhas. “Sim, eu sou geek assim!” Eu imediatamente começo a desviar o olhar em busca de alguém mais interessante ao redor.

    Eu conheci os verdadeiros “geeks”. Estudei com o Renato Werneck no segundo grau – o menino que passou em primeiro lugar em todos os vestibulares mais concorridos do Brasil, e saiu na capa da Folha e foi dar entrevista no Jô Soares por causa disso. O Renato nunca se definiria como “geek”. Parte do que define um “geek” é exatamente o fato de que ele não percebe o quanto ele está fora do mundo. Ele fica lá, durante 45 minutos te explicando porque o livro que ele leu no ultimo fim de semana está equivocado sem notar que você nunca demonstrou qualquer interesse pelo assunto.  Isso é um “geek”.

    Por alguma razão que eu não compreendo, virou moda ser “geek”. Daí “the cool kids”, as crianças bacanas, bem ajustadas e interessantes da escola, acham que se auto-descrever como “geek” é “cool”. Não sei em que universo essas crianças vivem, mas pra mim a auto-declaração é o principal atestado de que você não é definitivamente “geek”. Você chega com alguma roupa apresentável (ao invés de aparecer com uma meia de cada cor, ou com a mesma roupa que você usou nos últimos cinco dias), conversa olhando pra cara da pessoa, sorri, e não engata em um monólogo auto-centrado de 45 minutos? Definitivamente sua auto-declaração não vale nada. Sinto muito.

    Eu já tinha parado de prestar atenção no blablablá da suposta “geek” há muito tempo, quando ela mencionou que adorava comida. Imediatamente minha cabeça estava de volta na conversa. Fiz algumas perguntas. Ela gostava mesmo de comida. Quase tanto quanto eu. Compartilhamos indicações de restaurantes, debatemos os pratos preferidos, e a coisa estava até indo bem, quando a conversa passou para a metafísica da experiência gatronômica.

    A suposta “geek” me confessou que ela sentia uma grande angústia diante de um prato perfeito. Primeiro, ela tomava consciência de que não poderia saborear aquilo todos os dias. Depois, contabilizava todos os obstáculos que impediriam apreciar aquilo com bastante frequência (o restaurante era caro, o lugar era longe, etc, etc). Por fim, ela começava a especular sobre a conjunção de fatores que tinham contribuído para aquela experiência. E se o cozinheiro não conseguisse repetir o prato? E se ela estava com tanta fome naquele dia que quando voltasse ali a experiência não seria a mesma? E se a expectativa dela fosse muito alta e ela certamente se frustaria se voltasse a comer ali? Enfim, o prato perfeito para ela era, na verdade, uma grande tortura.

    Eu, ao contrario da “geek”, não tenho nenhuma angústia diante de um prato perfeito. O único pensamento que passa pela minha mente é: posso morrer aqui, agora, que eu morro feliz. O prato perfeito me dá uma sensação de realização, de completude, de finalidade.

    A suposta “geek” apelidou isso de experiência gastronômica zen budista.

    Eu disse para ela parar de se preocupar em colocar etiqueta em tudo e começar a se preocupar em viver a vida. E saí em busca de outro copo de vinho e alguém mais interessante para conversar.


    P.S. --  esse post é em parte uma homenagem a minha tia T., que fez aniversário essa semana e é definitivamente a autora das esfihas mais perfeitas que comi na vida. E é casada com meu tio, que tem seus momentos geeks, mas está sempre muito apresentável e não deixa de ter ele mesmo alguns dotes culinários altamente apreciados pela família...

    domingo, 24 de novembro de 2013

    O jardineiro, a acadêmica e a mídia

    Quando cheguei do Brasil, saí para jantar com um amigo que é escritor. Ele me perguntou como tinha sido a visita. Falei para ele que eu tinha dado entrevistas para rádio, TV e jornais e que eu era uma grande personalidade agora. Ele, ironicamente, me perguntou: porque só agora? Minha resposta: porque dessa vez alguém que tinha muito dinheiro organizou o evento, chamou a imprensa, e falou para eles prestarem atenção em mim.

    No dia seguinte, meu amigo deixou na minha porta uma cópia da edição esgotada de um livro de Jerzy Kosinski chamado Being There (a tradução do título para o português deixa a desejar: O Vidiota). Terminei de ler o livro esse fim de semana. É quase como se o escritor tivesse ouvido minha história e escrito um livro inspirado nela. 

    Um jardineiro passa a vida inteira trancado dentro de uma mansão. Suas duas atividades são apenas cuidar do jardim e assistir TV. Ele não sabe ler, não tem família ou amigos, e raramente conversa com os demais serventes que trabalham na casa. Quando o dono da mansão morre, o jardineiro encontra-se, pela primeira vez na sua vida, fora da casa e longe do jardim, em um mundo que ele não entende bem como funciona. 

    Poucas horas depois de sair da mansão, ele é atropelado pelo carro de um milionário e é levado para a casa do mesmo, para se recuperar. O fato de que ele usa ternos feitos sob medida (que eram na verdade do dono da mansão onde ele trabalhava) faz com que o milionário e sua esposa assumam que ele é um respeitado homem de negócios. Isso, por sua vez, faz com que interpretem suas frases lacônicas e sem sentido como expressões de grande sabedoria. Em poucos dias, ele está frequentando os mais altos círculos dos Estados Unidos, altamente recomendado pelo seu atropelador. Graças a essa recomendação todas suas frases sem sentido são interpretadas como grande cultura e inteligência. Quando pessoas influentes começam a citar suas frases na mídia, todos jornais e revistas querem marcar entrevistas com ele. E ele se torna uma grande personalidade, sendo inclusive cotado para concorrer a um cargo político. 

    As semelhanças são evidentes. Eu e muitas outras pessoas dentro e fora do Brasil estamos trancados em blbiotecas fazendo pesquisa há anos e a imprensa raramente se dá ao trabalho de tentar saber o que estamos estudando. Mas quando uma entidade com muito dinheiro e bastante influência política (a federação das indústrias) organiza um evento e me convida para fazer uma apresentação, a imprensa de repente se interessa por aquilo que eu tenho a dizer. 

    Enquanto o jardineiro foi atropelado por um homem rico, meu evento foi bem menos traumático: conheci por acaso uma professora brasileira que, por sua vez, me apresentou ao seu marido em um jantar. Anos depois, o marido dela, que estava organizando o evento, sugere meu nome e eu termino na mídia, como o jardineiro. O fato de que sou professora em uma faculdade de ponta no exterior dá credibilidade à minha pessoa, assim como os ternos do jardineiro. Mas fora esse atestado de credibilidade, ninguém sabe ao certo o que eu faço, e ninguém ousa perguntar -- nem a mim, nem ao jardineiro. 

    A pergunta que fica é se alguém de fato entendeu o que eu estava falando. No livro, todo mundo assume que o jardineiro está dizendo algo muito profundo, mas o pressuposto é mais baseado em quem eles pensam que ele é, do que naquilo que ele disse. Há um grande risco de que o mesmo tenha acontecido comigo. 

    Depois de tantas similaridades, não surpreende que o fim da história seja o mesmo: eu e o jardineiro, depois de experimentar toda essa esquizofrenia, apenas queremos voltar para a paz e sensatez dos nossos respectivos jardins.


     

    sábado, 16 de novembro de 2013

    O "Acadêmico"

    O esteriótipo é conhecido: acadêmico é aquela pessoa CDF (ou geek como eles preferem ser chamados). Gostam de livros, falam de coisas que ninguém entende ou pelas quais ninguém se interessa, e são geralmente mal informados sobre coisas populares como a banda que está fazendo sucesso ou o tênis da moda. Confesso que é difícil, ao menos pra mim, lutar contra esse esteriótipo. Eu de fato não acompanho a maioria das coisas que interessa à maioria das pessoas, como os últimos seriados que todo mundo anda assistindo, ou o cantor que ganhou o prêmio de música do ano passado (Emmy?)  e está tocando em todas as rádios. Como eles dizem em inglês, o acadêmico não é o "average joe", para o bem ou para o mal. 

    Mas há uma série de esteriótipos que são mais culturais e mais geograficamente localizados. Na minha última visita ao Brasil, por exemplo, um professor universitário me dizia que se um estudante de mestrado ou doutorado dele chega para uma reunião malhado e bronzeado, ele já sabe que o sujeito não tá trabalhando. Por que?, perguntei. "Porque se você está escrevendo um mestrado ou doutorado, você fica enfurnado na biblioteca, virando noites, tomando mil litros de café e sem ter uma vida social. Tanto eu quanto todo mundo que passou por isso sabe que é assim."

    É assim no Brasil, foi a minha resposta. Na América do Norte, se você está trabalhando nesse ritmo, das duas uma: ou você é muito desorganizado e deixou todo o trabalho para última hora, ou você é muito ineficiente e precisa de uma quantidade insana de horas para fazer o que alguém faria em menos da metade do tempo. Ou seja, se você está se privando de ginástica e diversão enquanto trabalhando (em qualquer coisa, não apenas na sua tese ou dissertação), você provavelmente não é tão competente quanto a pessoa que consegue balencear tudo. 

    E o pior é que essa visão cultural de que você tem que sacrificar sua vida pessoal para levar a sério seu trabalho vem da nossa história escravocata. Eu não lembro qual foi o pesquisador que mostrou isso -- talvez tenha sido o Sergio Buarque -- mas basicamente a escravatura distorceu nossa visão de trabalho. Os escravos não eram remunerados por produtividade. Portanto, uma vez que se comprava um escravo, havia um incentivo para que se usasse o escravo o máximo de horas possíveis. Para se poupar, os escravos faziam o trabalho devagar, para compensar pelas longas horas. O resultado disso é que nós  medimos trabalho pela quantidade de horas que você se dedicou aquilo (ou pelo esforço), e não pelo resultado. Assim, o sujeito que passou 10 horas na biblioteca e escreveu 10 páginas é aplaudido, enquanto que aquele que passou 5 horas, escreveu 30 páginas, e teve tempo de ir à praia antes e ir malhar depois é visto como o cara que não está levando a sério o projeto.

    Segundo, há muito pouca cultura de organização do tempo no Brasil. Portanto, o sujeito fica malhando e indo para a praia durante quatro meses e daí quando faltam dois meses para entregar a tese ele se tranca na biblioteca e não fala com ninguém. Isso é simplesmente falta de disciplina e organização. O sujeito que trabalha 5 horas por dia durante seis meses está basicamente trabalhando 900 horas (incluí aqui fins de semanas e feriados para facilitar a conta). Já aquele que resolve começar o trabalho 2 meses antes do prazo, precisa trabalhar 450 horas pro mês para conseguir trabalhar a mesma quantidade de horas que o outro trabalhou. Isso dá 15 horas de trabalho por dia. Ou seja, esse segundo aluno vai de fato ter que se trancar na biblioteca, virar noites em claro e beber muitos litros de café. Mas ele não está necessariamente trabalhando mais ou levando o projeto mais a sério que o primeito. Na verdade, o primeiro indivíduo vai trabalhar a mesma quantidade de horas que o segundo, e ainda vai conseguir ir para a praia e para a academia todos os dias.

    Em suma, precisamos seriamente rever nossas concepções de seriedade e dedicação ao trabalho, especialmente na academia brasileira. Focar no resultado e não na quantidade de horas talvez nos ajude a conseguir ao menos um único prêmio Nobel.

    Música do Dia - Ou a Melodia do Tenured Professor


    "Sleeping In"

    Last week I had the strangest dream
    Where everything was exactly how it seemed
    Where there was never any mystery of who shot John F. Kennedy
    It was just a man with something to prove
    Slightly bored and severely confused
    He steadied his rifle with his target in the center
    And became famous on that day in November

    Don't wake me I plan on sleeping
    Don't wake me I plan on sleeping in
    Don't wake me I plan on sleeping
    Don't wake me I plan on sleeping in

    Again last night I had that strange dream
    Where everything was exactly how it seemed
    Where concerns about the world getting warmer
    The people thought they were just being rewarded
    For treating others as they'd like to be treated
    For obeying stop signs and curing diseases
    For mailing letters with the address of the sender
    Now we can swim any day in November

    Don't wake me I plan on sleeping
    (now we can swim any day in November)
    Don't wake me I plan on sleeping in
    Don't wake me I plan on sleeping
    Don't wake me I plan on sleeping in

    [x3]
    Don't wake me I plan on sleeping in
    Don't wake me I plan on sleeping
    OOo oOo oOo