segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A origem das coisas

Meu primo M. me mandou um texto sobre a origem da caipirinha. O autor, Marco Antonio Batan, argumenta que o cocktail surgiu em Santos (clique aqui para baixar o PDF). Confesso que eu tinha me entretido mais com as figuras do que com o texto em si, quando resolvi fazer uma busca na internet sobre o assunto. Para minha surpresa, o tal do Batan deixou de esclarecer que o texto dele busca acabar com um mito bastante difundido. Muitos acreditam que a capirinha teria surgido no interior de São Paulo. Basta fazer uma pesquisa no google (digite caipirinha + origem) e você verá que vários sites indicam que a origem da bebida é incerta, mas acredita-se, por causa do nome, que a mesma tenha sido criada na roça. O Batan tenta provar o contrário. 

Valorizei mais o texto quando vi que tratava-se de uma tese controversa. Entretanto, a decisão do autor de não indicar que o texto dele tentava corrigir a idéia errônea que veiculava pela internet (e sabe-se lá aonde mais), para mim, foi um erro. O texto enterra a sete palmos o grande valor de toda a pesquisa. O Batan deveria ter começado dizendo "vim aqui colocar os pingos nos Is". Afinal, o início de qualquer texto acadêmico é sempre o mesmo: há uma tese circulando por aí e quero provar aqui ela está errada. E quanto mais difundida for a tese, mais relevante torna-se seu texto. Ou seja, a primeira pergunta que um acadêmico faz ao ler um texto é: porque isso é relevante? E a resposta vem, em grande parte, da idéia de que a maioria das pessoas ou um grupo ínfimo de acadêmicos que são experts no assunto pensa o contrário. Em suma, na cabeça de uma acadêmico explicar uma coisa que já sabemos é como chover no molhado.

Há, além disso, um outro problema. As imagens do Batan são de tirar o chapéu, mas ao invés de ficar admirando as mesmas, eu fiquei em vão procurando a citação depois da história sobre os rapazes que pediram uma caipirinha no interior e quase foram parar na cadeia. Afinal, como posso averiguar a veracidade se não sei qual a fonte? Se tem uma coisa que a gente aprende no mundo acadêmico é que as pessoas inventam coisas dentro da cabeça delas e apresentam para você como se fosse um fato real (eu, por exemplo, faço isso sempre aqui no blog). Na falta de pílulas contra esse tipo de desvio comportamental, a academia criou a nota de rodapé. Ou seja, você não pode dizer que um fato aconteceu a não ser que indique onde o mesmo está documentado. E a citação tem que ser completa, com data, local de publicação, nome completo do autor, editora e o diabo a quatro. Isso garante que qualquer um que ache que aquilo é uma lorota, possa verificar. Por isso que eu posso colocar minhas lorotas no blog, mas não nos artigos que mando pra publicação...

Por fim, o Batan perdeu uma grande oportunidade de concluir o texto indicando que há outros temas que poderiam gerar o mesmo tipo de pesquisa. Descobri no google, por exemplo, que a origem do brigadeiro também é super incerta. Uns dizem que o doce surgiu no pós-guerra, dada a escassez de acúcar e leite fresco para fazer doces, sendo popularizado em uma campanha presidencial na qual  o Brigadeiro Eduardo Gomes concorreu (apesar de distribuir o doce gratuitamente para os eleitores, ele perdeu a eleição para o Dutra -- ou seja, os tempo eram outros!). Outros argumentam que uma senhora de minas criou o doce, que tornou-se o favorito do Brigadeiro e foi então popularizado com a campanha eleitoral. Um argentino amigo meu colocou mais lenha na fogueira ao tentar me convencer que o pão de queijo foi criado no Paraguai. Corri para o google e, de novo, descobri mais uma fonte de incerteza. Enfim, só a questão da origem dos quitutes nacionais dariam um livro inteiro pro Batan.


Enfim, já estava eu pronta para escrever um email para o Batan, com sugestões editoriais para o texto, exigências de informações detalhadas para as notas de rodapé, e uma lista de potenciais futuras pesquisas quando notei que talvez esse seja apenas meu olhar acadêmico sobre um texto que não tem qualquer pretensão científica. Cheguei à conclusão de que as "lentes acadêmicas" através das quais eu vejo o mundo estavam interferindo no que deveria ter sido uma leitura descontraída e supostamente relaxante de um texto despretensioso. Afinal, fora da academia as pessoas se entretem com um texto sem ficar se questionando sobre a importância do argumento central ou buscando notas de rodapé. Se dependesse de nós, acadêmicos, o jornal que você recebe diariamente em casa ia ter umas 500 páginas... Isso explica porque a quantidade de pessoas que lê jornais é significantivamente maior que a que lê publicações acadêmicas. Depois de me lembrar disso, decidi deixar o Batan em paz e deletei o email.

Mas se alguém tiver uma chance de dar um toque no Batan, por favor avisem ele que a dignidade nacional está em jogo com a questão do pão de queijo. Se ele puder se dedicar um pouquinho a esse assunto -- mesmo substituíndo as notas de rodapé por figuras belíssimas -- nosso orgulho agradece. Afinal, mais do que o petróleo, o pão de queijo é nosso!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Lindando com o vácuo

Sei muito pouco sobre física, mas até onde entendo, durante muito tempo, os físicos tentavam explicar a propagação da luz no espaço através de uma matéria chamada éter. Eles não conseguiam encaixar em nenhuma teoria o fato de que a luz se propagava por um espaço vazio, e argumentavam que "uma substância material preenchia o espaço, inclusive o espaço entre os planetas, entre as estrelas, em todo lugar onde parece que não há matéria haveria éter". Pois bem, graças ao Einstein, ou talvez apesar dele, hoje estamos todos reconciliados com a idéia de que a luz viaja no vácuo e tem um espaço vazio lá fora, no universo, que não está preenchido com nada. 

Parece irônico, todavia, que a gente se sinta confortável em pensar que nosso planeta está aqui flutuando no meio de um grande nada, mas a gente ainda resiste deixar espaços vazios em nossas rotinas. Essa foi a conclusão que tirei depois de ler esse post de uma blogueira que decidiu simplificar a vida e relata toda a experiência. Não só achei o post genial, mas me identifiquei muito com ela. Quando os brasileiros, acostumados com empregadas para cozinhar, lavar e passar, se mudam para o exterior, passam pelo mesmo processo que a blogueira teve que passar ao ter um bebê. Ou você torna sua vida mais simples, ou você enlouquece. 

Primeiro, você nota que as roupas que precisam ser passadas estão no armário há um tempão, pois não dá tempo de passar. Essas são as primeiras a ir embora. Depois você nota que o prédio onde você mora tem uma estante para troca de livros na lavanderia, pois ninguém tem espaço pra ficar acumulando livros indefinidamente. Os livros lidos vão rapidamente parar lá. Daí você começa a fazer o cálculo do quanto custa um carro (seguro, garagem, gasolina) e descobre que você consegue gastar muito menos se usar transporte público, uns táxis de vez em quando, e umas caminhadas para ir aonde quiser. E, de repente, você descobre que você não precisa limpar a casa todo dia, se tirar o sapato na entrada, assim que chegar. A sujeira da rua acaba não entrando, e você pode lidar com o pó uma vez por semana. E assim a vida vai ficando mais simples, quase sem você perceber. 


Tenho muita admiração por esse casal de brasileiros que passou por um processo similar, mas o fez de livre e espontânea vontade. Minha admiração vêm do fato de que eles fizeram todas as mudanças porque pararam para pensar. Pra mim simplificar era uma questão de sobrevivência, mas eles acordaram um dia e se perguntaram: quanto da nossa vida são coisas que a gente gosta e valoriza, e quantas delas são coisas que a gente acabou adquirindo por convenções sociais? E descobriram que podiam se livrar de muito do que eles tinham, e usar aquele dinheiro com coisas que gostavam, como morar um tempo no exterior, viajar mais e comer em restaurantes com maior frequência.

E não só os brasileiros sofrem desse medo do vácuo. Os canadenses tem uma absoluta fixação com casas. Sempre ficam horrorizados com o fato de que eu quero comprar um apartamento. O argumento deles é que vou ter menos espaço, pagando o mesmo preço. Não vou morar em uma casa com três andares, quintal e talvez uma piscina. Não, não vou. E não gostaria de morar em um lugar assim. Mais espaço significa mais horas limpando a casa. Um quintal significa finais de semana cuidando das plantas, ou um jardim decréptico graças à minha completa negligência. Os canadenses argumentam que posso pagar alguém pra fazer o serviço por mim. Sinceramente, prefiro gastar aquele tempo ou dinheiro indo a um restaurante. Uma piscina precisa ser mantida também. Eu prefiro acordar de manhã, no meio da cidade, passar uma hora limpando meu apartamento minúsculo e ter o resto do dia livre. Prefiro ter um Starbucks na esquina, um cinema a duas quadras e uma livraria aqui do lado. O contraste com a casa  espaçosa é claro: na casa, eu seria obrigada a pegar o carro porque eu acordei de manhã e descobri que acabou o leite. Isso sem falar que o carro é outra coisa que -- assim como a piscina -- precisa ser mantida. Ou seja, eu prefiro pagar para não ter que me preocupar com tudo isso. E os canadenses não entendem isso.  

No final do ano passado, vi o quanto a gente, sem perceber, está mais preparado para lidar com o vácuo do que imaginamos. Um belo dia, no meio do ano passado, meu ouvido deu um "ploc" e fiquei completamente surda de um lado. Fui na minha médica de família, que me mandou para um especialista, que me mandou fazer um exame. Demoraram algumas semanas para marcar o exame e, quando fizeram o teste, minha audição estava parcialmente restaurada. Ainda havia uma diferença entre um ouvido e outro, mas eu estava ouvindo. O resultado do exame disse exatamente isso: que eu havia perdido 1/3 da audição em um dos ouvidos. O médico disse que precisava investigar as causas e ia marcar um exame pra ver se era algo mecânico (dentro do ouvido) ou algo mais grave (dentro do meu cérebro). 

Você pode pensar que perder a audição de um lado não significa muita coisa. Você ainda ouve do outro lado. Mas não funciona assim. O fato de que eu lado está ouvindo e outro não cria uma série de ecos e "efeitos especiais", de tal maneira que você tem a maior dificuldade em distinguir de onde os sons estão vindo e a qual deles dar prioridade. É difícil dar aula assim. Conversar com alguém em uma festa, ou em qualquer ambiente aberto, vira um pesadelo. Portanto, ficar com a audição perfeita de um lado, mas não do outro, é um pouco complicado. Foi por isso que eu fiquei aliviada com o fato de que, aos poucos, as coisas pareciam estar voltando ao normal. De maneira quase imperceptível, minha audição parecia estar voltando e toda aquela confusão com os sons vindo de todos os lados estava desaparecendo aos poucos. Portanto, quando o dia do exame chegou, achei que o problema havia desaparecido. Fiz o exame, só pra certificar que nao estava com um tumor fatal no cérebro. Afinal, se fosse esse o caso, precisava curtir os meus últimos meses de vida em uma praia no Caribe e quanto antes eu programasse a viagem melhor!

Porém, ao pegar o resultado do exame, tive uma surpresa.  Meu médico disse que não havia nada para se preocupar: tudo estava funcionando dentro do meu cérebro. E eu respondi que não havia nada para se preocupar mesmo, pois eu estava ouvindo perfeitamente bem. Mas ele me disse que não. Eu ainda estava com uma perda de 1/3 da minha audição. Era só o meu cérebro que tinha se ajustado à mudança e por isso eu não notava mais a diferença. Achei aquilo absolutamente fascinante. É como se meu cérebro tivesse feito como os físicos, e tivesse aceitado o fato de que havia agora um vácuo, onde antes havia som. E tudo bem. 

Mas antes que você termine esse post pensando que você pode se livrar de quase tudo na vida, cuidado! Essa semana, por exemplo, perdi uma mão da minha luva. Tentei ver se meu cérebro conseguia programar uma mão pra sentir menos frio que a outra. Dois dias depois, quando a temperatura chegou a menos 12 celsius, eu declarei que o experimento tinha chegado ao fim. Afinal, eu não precisava do vácuo da luva naquele momento. Portanto, lembre-se: o céu é o limite. O vácuo pode existir depois do céu, mas se a gente tivesse vácuo na atmosfera terrestre, ao invés de deixar ele confinado ao espaço sideral, não estaríamos aqui. Ponha, portanto, mais vácuo na sua vida, mas se certifique que ele vai ficar no seu devido lugar.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Sou um vampiro!

Minha prima M. me recomendou esse teste, chamado "Que Livro é Você?". Como uma devoradora de livros, achei a idéia interessante e resolvi testar. Recomendo. 

Segue meu resultado:

Dalton Trevisan
Foto: Divulgação


"O vampiro de Curitiba", de Dalton Trevisan
Descolado, objetivo e realista. Cult. Você deve se sentir mais à vontade longe de shoppings, da TV e de qualquer coisa que grite “cultura de massa”. Nada de meias palavras: a elas, você prefere o silêncio. Você não vê o mundo através de lentes cor-de-rosa, muito pelo contrário. Procura ver o mundo como ele é, entendê-lo, senti-lo. Às vezes, bate até aquele sentimento de exclusão, ou de solidão. Mas é o preço que se paga por ser um pouco "marginal". Não se preocupe, pois você atrai a admiração de pessoas como você: modernas no melhor sentido da palavra.

Em "O vampiro de Curitiba" (1965), Nelsinho protagoniza uma variedade de contos, nos quais ele busca satisfazer sua obsessão sexual vagando pelas ruas de Curitiba - paralelamente, esta cidade de contrastes se revela ao leitor. A temática e a forma já denunciam: este não é um livro para qualquer um. Tem que ter cabeça aberta para enfrentar a linguagem nua e crua de Trevisan, que é reverenciado pelo leitor capaz de driblar velhos ranços burgueses.

Está na minha lista de leituras. Confesso que nunca li Dalton Trevisan. 

sábado, 28 de janeiro de 2012

Que seja eterno

Tem algumas coisas que precisam ser eternas. Eternas de verdade. Não aquele eterno pra inglês ver do Vinícius de Moraes, “eterno enquanto dure…” A frase é bonita, mas, no fundo, no fundo, todo mundo quer que seja eterno de verdade, não? Portanto, ponha-se a poesia de lado: ou é eterno ou não é eterno. Ponto.

Em homenagem a falta de poesia e ao excesso de pragmatismo na minha vida, aqui vai minha lista de coisas que eu queria que fossem eternas de verdade.

1. Os Angry Birds. Queria que fosse eterno, com infinitas fases. Mas as fases acabam. Você baixa a versão livre e um dia ela acaba. Daí você compra a versão “Angry Birds Rio”, inspirada na animação com o mesmo nome, e ela acaba também. Demora um pouco mais que a versão gratuita, mas acaba. Estou agora com a versão “Angry Birds Seasons”, mas já acabei o “Ano do Dragão” e não vai demorar pra acabar o resto. O Seasons é uma versão mais difícil que as anteriores, o que faz ela durar um pouquinho mais. Mas ainda assim, um dia eu vou passar todas as fases, e vai acabar. E vai chegar o dia em que eu não vou ter uma versão nova pra baixar. E só isso que temo. Não temo “a morte, angústia de quem vive”, mas sim a desilusão de ter que jogar Fruit Ninja


2. O livro de crônicas do Antônio Prata. Minha irmã me deu o livro de presente de Natal e eu não conseguia parar de ler. O sujeito é muito bom. Talvez ele nem seja tão maravilhoso assim, mas temos exatamente a mesma idade. Portanto, acho que parte da história é que eu me identifico com a maioria das crônicas. Especialmente com as nostálgicas. Rolo de rir, sozinha no sofa. E o cara escreve bem. Cronista de primeira. Mas ler o livro foi doloroso. A cada página virada eu me via mais perto do final. Acho que devorei três quartos do livro em dois dias. Daí eu entrei em crise. Queria devorar o resto, mas se eu fizesse isso não ia ter mais crônicas do Antônio Prata para ler. Parecia um alcóolatra diante de uma garrafa de uísque. Decidi me disciplinar: uma crônica por noite - como um doce, que você guarda e passa o dia inteiro esperando para saboreá-lo. Mas o dia fatídico chegou. Li a última crônica e tive uma crise existencial: o que fazer sem as crônicas do Antônio Prata? Após um breve momento de pânico, comecei de novo. Releio uma crônica todo os dias, exceto nos dias em que sai uma crônica nova na Folha. Eu sei que você vai argumentar que as crônicas novas são produzidas semanalmente. Mas uma por semana não basta. Eu precisava de várias crônicas do Antônio Prata por dia, para consumir ao meu bel prazer. Mas é um bem finito, a ser apreciado com moderação. Um por dia, e uma nova por semana, enquanto durar o estoque. Só espero que Antônio Prata seja imortal, posto que ele não é chama…


3. O banho depois da corrida de sábado. Sábado é o dia que encontro com o pessoal do clube de corrida. Às vezes a gente se encontra durante a semana, mas é difícil coordenar todas as agendas profissionais. Portanto, os encontros durante a semana são ocasionais. Mas sábado é religioso. E fazemos uma longa corrida, de mais de uma hora, com mais uma hora de café, depois da corrida, pra colocar a conversa em dia. O problema é que depois de correr no frio e passar uma hora deixando o corpo esfriar, sentada em um café, chego em casa congelando. E eu não consigo colocar no papel qual é a sensação que sinto ao entrar debaixo do chuveiro quente. Não tem nenhum banho, em nenhuma circunstância, que supere a qualidade do meu banho na manhã de sábado. É quase uma experiência transcendental: os músculos cansados relaxando, a pele fria esquentando. Uma vez ouvi um programa de rádio no qual eles indicavam que moradores de rua passam anos sem dormir numa cama. Imagino que a sensação que sinto é similar a de um morador de rua deitando em uma cama pela primeira vez em vinte anos. E o mais difícil – claro -- é sair do banho. Pois todas aquelas sensações boas não desaparecem, desde que eu fique lá. Mas elas desaparecem quando eu saio debaixo do chuveiro e entro lá de novo mais tarde. Não funciona. Por isso meu dilema. Eu passo todas as minhas manhãs de sábado, debaixo do chuveiro, pensando que eu não queria que aquilo acabasse nunca. Queria ficar ali pra sempre. Por toda minha vida. Mas eu acabo saindo, porque não dá pra jogar Angry Birds ou ler o Antônio Prata no chuveiro…

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Abaixo os porcos!

Eu já havia confessado antes que sou viciada em Angry Birds.  Ainda não sei porque eu gosto tanto do joguinho. Nunca fui muito apegada a jogos. E, se você pensar, é um jogo de aves contra porcos... Ou seja, qualquer profissional com mais de trinta anos que se preze teria vergonha de confessar que passa suas horas vagas se entretendo com isso. Entretanto, pela febre que viraram os bichinhos eu imagino que não estou sozinha. E minha intuição me diz que seria ostracizado quem declarasse que não gosta do jogo, e não o contrário. 

Por que? De onde vem essa febre? O Malcom Gladwell, um dos meus escritores favoritos, escreveu um livro sugerindo que não passa de sorte ou acaso. O livro chama O Ponto da Virada e analiza vários fenômenos como esse dos Angry Brids.  Gladwell chega à conclusão de que um jogo não fica famoso porque é necessariamente melhor que outros. Apenas acontece, de maneira inexplicável.

Apesar de gostar muito do Gladwell, eu não consigo engolir a idéia de que tenha sido apenas acaso que esse jogo tenha feito tanto sucesso. Vejo por mim mesma: sou absolutamente viciada no jogo. E tenho, para explicar isso, algumas hipóteses.

A primeira é moral. É uma questão de justiça. Você usa aves que estão prontas para perder a vida para matar porcos malvados que roubaram os ovos dessas aves. É o mal contra o bem. E quando você não consegue matar os porcos, aqueles vilões verdes riem da sua cara e da cara das pobres aves injustiçadas, que foram indevidamente privadas de seus ovos. Há que se buscar um mundo mais justo. Já que não podemos fazer nada sobre a invasão do Pinheirinho, lutemos por essas pobres aves. Ou seja, it is a feel good game.

A segunda hipótese é lógica. É um jogo que exige conhecimento de física. Ângulos e velocidade contam muito. Se a ave bater no ângulo errado, você não mata o vilão, o porco. É quase como jogar sinuca. Na verdade, se você pensar que você bate bolinhas coloridas (disfarçadas de aves) em bolinhas verdes (disfarçadas de porcos), a coisa se assemelha muito à sinuca. Exceto que há alguns obstáculos no caminho. Trata-se, portanto, de uma versão ainda mais sofisticada da sinuca. Enquanto na sinuca é como você tivesse fazendo cálculos de física newtoniana, aqui você se sente fazendo física quântica. Ou seja, é um jogo de inteligência.

A terceira hipótese é mais instintiva, diria até psicológica. O jogo envolve aves kamikazes que abdicam de suas vidas e porcos que são alvos imóveis, mas ainda assim nada fáceis de ser atingidos. E há muita destruição nesse processo. Prédios desabam e bombas explodem. Ou seja, o jogo apela para algo muito primitivo dentro de nós. O mesmo senso de destruição que faz jogos de guerra parecerem atraentes para meninos na pré-adolescência. E o melhor é que toda a destruição é mascarada com cores, sons e figurinhas que fazem você se sentir melhor do que você se sentiria se tivesse atirando com uma metralhadora no soldado do exército inimigo. Afinal, nessa épocas em que impera o politicamente correto, poucas pessoas conseguem confessar que sentem prazer ao ver sangue inimigo na tela. Angry Birds não tem sangue visível, mas não é muito diferente não. Ou seja, é um jogo catártico.

Por fim, há as razões históricas. Acho que não é mera coincidência que os alvos sejam porcos malvados e mal intencionados. Esses eram os comunistas no livro do Orwell, a Revolução dos Bichos. Por outro lado, o símbolo dos Estados Unidos é uma ave, a águia. Ou seja, mais de vinte anos após a queda do muro de Berlim e a desintegração da União Soviética, estamos aqui revivendo e recriando um momento histórico. Afinal, sempre é bom reafirmar que, sim, o capitalismo venceu e os comunistas que comiam criancinhas desapareceram da face da terra... Ou seja, jogar Angry Birds é quase como escrever um posfácio para a Revolução dos Bichos, intitulado "A Contra-Revolução dos Bichos".

Escolha a que melhor lhe apetecer, mas aviso de antemão: qualquer que seja a razão, não há como vencer. Se você tentar resistir ao jogo, nunca vai ganhar. Portanto, faça como eu: se não pode vencê-los, una-se a eles. 

A luta continua, companheiro!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Não estou sozinha!

Conquistei hoje o apoio de Tony Goes do site F5 da Folha (veja abaixo a coluna na íntegra). Se você ainda lembra do meu post sobre o Carlos Nascimento, verá que eu e o colunista concordamos ao menos na nossa discórdia sobre o Nascimento. Mas achei que dei mais valor ao meme do que ele (veja meu post sobre a Luiza). E pra quem não sabe porque a discussão do BBB está relacionada ao conceito de estupro, leia isso e isso.


Não, Carlos Nascimento, não estamos mais burros

"Ou os problemas brasileiros já estão todos resolvidos ou nós já nos tornamos perfeitos idiotas. Porque não é possível que dois assuntos tão fúteis possam chamar a atenção de um país inteiro."

Foi assim que Carlos Nascimento abriu o "Jornal do SBT" na quinta-feira passada. Conheço muita gente que concorda com ele: de acordo com essa turma, deveríamos estar debatendo soluções para a cracolândia ou para os imigrantes haitianos, ao invés de perder tempo com o "BBB" ou com Luiza, que estava no Canadá.

Já eu discordo plenamente. O primeiro assunto não tem nada de fútil, muito pelo contrário: o que se discute ali não é exatamente um programa de TV, mas se houve ou não um crime sexual em frente às câmeras. É a própria definição de estupro que está em jogo.

Também é um sinal de que os tempos mudaram, e muito: há alguns anos a culpa recairia inteiramente sobre a possível vítima, que teria bebido demais e "não se dado ao respeito". Hoje há nuances, pontos de vista diferentes, atenuadores e complicadores.

Esta já é um questão interessante por si só, mas o caso Daniel-Monique também trouxe mais uma vez à berlinda a baixaria televisiva. É ótimo que se fale sobre ética na TV. O escândalo ajudou a subir a audiência do "BBB" no começo da semana passada, mas também assustou os anunciantes. Não me espantarei se o "reality show" não voltar em 2013 por falta de patrocínio.

Além do mais, os índices do "Big Brother" caíram assim que a poeira baixou um pouco. Sintoma de que o público não está lá tão interessado no dia-a-dia da "casa mais vigiada do Brasil". Apesar do que diz Carlos Nascimento, não somos tão fúteis assim.

Não que um pouco de futilidade não faça bem de vez em quando. Eu adoro, e você também --caso contrário, não estaria aqui no "F5", um site de entretenimento. Acho até saudável um país inteiro incorporar na linguagem cotidiana uma frase engraçada proferida num comercial da Paraíba.

E digo mais: "menos Luiza, que está no Canadá" não é só uma bordão sem sentido. É também uma senha, uma maneira de nos identificarmos no escuro. Quem a repete está dizendo que está plugado na internet, e quem ouve e ri está confirmando que sim, também faz parte do mesmo grupo. Estamos juntos!

Bordões são um fenômeno típico da era da comunicação de massas. Nasceram no teatro de revista, se espalharam com o rádio e assumiram proporções nacionais a partir da televisão. Na era da internet, ganharam velocidade praticamente instantânea. Não estamos mais burros agora, Nascimento: só estamos mais rápidos.

Futilidade mesmo é achar ruim que se fale de Luiza, porque daqui a alguns dias ela será esquecida e substituída por um novo "meme". Assim como é miopia não perceber que a web mudou a maneira como nos relacionamos com a cultura e uns com os outros.

O que aconteceu no Brasil semana passada talvez seja visto no futuro como um divisor de águas: as redes sociais influíram de maneira inédita no noticiário. A circulação de informação, a possibilidade de resposta imediata, a capacidade de mobilização, tudo isto só nos deixa mais inteligentes.

Prepare-se, Nascimento: só vai aumentar.

http://f5.folha.uol.com.br/colunistas/tonygoes/1038112-nao-carlos-nascimento-nao-estamos-mais-burros.shtml

domingo, 22 de janeiro de 2012

Música do Dia