Essa semana o feminismo me atacou, de todos os lados, desesperadamente pedindo para entrar no blog. De fato, faz um tempo que eu não escrevo um dos meus bravados feministas , em prol de igualdade, contra discriminação, blá blá blá. Acho que feminismo ficou carente e resolveu aparecer na minha vida de todas as formas possíveis para ver se ele ganhava um espacinho aqui. Vai ganhar o espaço, como esse parágrafo denuncia. Mas, sinceramente, não estou com muita vontade de levantar a bandeira e pegar as armas de novo. Esse negócio de ficar tentando mudar o mundo dá muito trabalho...
Aos 35 anos, acho que estou começando a economizar minhas energias para outras coisas, tipo um jantar com os amigos, ou um excelente livro, ou um blog post acompanhado de um bom vinho. Segue, portanto, um relato da minha semana inundada de feminismo, regado a Syrah do Valle de Aconcagua, Chile.
Assisti na sexta-feira a nova animação da Pixar, Brave. A heroína da história é uma princesa que não quer ter um casamento forçado e prefere fazer "coisas de menino". Ela quer atirar de arco e flecha e andar a cavalo, ao invés de ficar bordando no castelo e aprendendo como usar os talheres à mesa. Ainda bem que alguém resolveu dar uma opção para as pobres crianças inundadas com princesas que usam rosa, ficam penteando o cabelo e esperando o príncipe encantado.
A Riley agradece!
Só achei ruim que em Brave a heroína tem que passar o filme todo brigando com a mãe para conseguir de fato ser a heroína. Será que não dava para ela simplesmente ser descabelada, tem um vestido azul e sair pelo mundo lutando contra o mal, ou salvando o príncipe encantado?
Daí veio todo o debate sobre o artigo da Anne-Marie Slaughter - Why Women Cannot Have it All -- sobre o fato de que as mulheres não pode ter tudo (i.e. uma carreira bem sucedida e dedicação à vida familiar).
O artigo é longo, e quem tiver paciência e tempo para ler tudo por favor me conte o que ela diz. Eu só li a primeira página, onde ela argumenta que estamos vendendo para as "working mothers" (mães no mercado de trabalho) uma grande ilusão.
Grande novidade! Não preciso de um artigo deste tamanho para saber disso. Basta eu olhar para as mulheres que viraram professoras de direito aqui em Toronto pra ver. A vasta maioria não tem filhos antes de ganhar tenure (estabilidade no cargo). Depois do tenure, para algumas só resta a opção de adotar, por causa da idade. Adotados ou não, os filhos reduzem drasticamente a produção acadêmica daquelas que embarcam na aventura, que não são todas. Enquanto isso, os homens estão lá tendo filhos e produzindo feito um loucos...
Por isso que eu decidi que a melhor versão do feminismo que encontrei essa semana foi esse vídeo:
Afinal, depois de uma certa idade, a gente começa a se divertir e delega a tarefa de mudar o mundo para os outros. Boa sorte para a Anne-Marie e o pessoal da Pixar!
terça-feira, 26 de junho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
Não Entendo Esses Americanos
O aeroporto da
cidade do México fede. Tem cheiro de vômito. Eu não sei se eles usam algum
produto de limpeza muito questionável, ou se eu dei azar de chegar na ala do
check-in no exato momento que alguém tinha tido um acidente (que não estava
visível). Mas o ponto é que eu estava com pressa para fazer o check-in e sair
dali para um local mais arejado o mais rápido possível.
Não havia fila e
eu fui direto para o balcão. O sujeito pegou meu passaporte e, antes de perguntar
meu destino, começou a bater-papo com sua colega no balcão ao lado, que estava à
toa e recebeu muito bem o convite para conversar. Eles estavam falando muito
rápido para eu entender o que discutiam, mas claramente não era trabalho, pelas
risadas dele e pelos gestos exagerados dela em resposta. Comecei a perder a
paciência e fuzilar o sujeito com meu olhar, mas ele estava tão ocupado com a
conversa que não notou.
Daí tirei minha
caderneta da bolsa e comecei a anotar o nome dele, visível no crachá, para
reclamar com a companhia. Ele imediatamente percebeu o que eu estava fazendo e
prontamente se desobrou em gentilezas, tentando ser simpático. Mas era tarde
demais. Minha paciência já tinha se exaurido há um tempo e eu fiz questão de
cortá-lo a cada investida. Ser gentil agora não iria me dissuadir
da idéia de reclamar com a companhia aérea sobre a falta de profissionalismo dele.
E daí ele tentou
sua última cartada: imprimiu meu cartão de embarque e me mostrou que eu estava
na classe executiva. Por um momento, ponderei minha ameaça de reclamação.
Talvez eu até tivesse deixado o incidente passar batido depois dessa, exceto
pelo fato que o sujeito estava tão preocupado em me agradar que esqueceu de
checar para onde eu ia. Ele imprimiu apenas o cartão de embarque do primeiro
destino, Texas, sem minha conexão para o destino final, Toronto. Ou seja, se eu
não checasse isso, ia perder minha conexão com certeza… Depois de fuzilar ele
com meu olhar novamente, pensando que tinha muita gente desempregada no México
que faria aquilo muito melhor que ele, sai o mais rápido que pude daquela sala
fedida, para bem longe da presença daquele sujeito incompetente.
Daí eu chego nos
Estados Unidos e a interação é o exato oposto. Os funcionários da companhia não
olham pra mim, nem se olham entre si. Ninguém fala com ninguém. Nenhum sorriso.
Nenhuma gentileza. Tudo rápido e eficiente, mas sem valor nutricional para a
alma. É como fast food. Tudo bem que a cultura Mexicana gera ineficiência – sendo
o imbecil do check-in o exemplo extremo – mas devo conceder que é bastante
agradável ser tratado com um pouco de cortesia e um sorriso de vez em quando.
E foi por isso
que eu me assustei quando pedi comida no vôo de Texas para Toronto e a aeromoça
discretamente acenou com a mão, em um gesto meio furtivo, falando para eu
colocar o cartão de crédito de volta na bolsa.
Parenteses para aqueles que não viajam há algum tempo: as empresas aéreas americanas não servem mais nada no vôo, a não ser na primeira classe. Se você estiver com fome, tem que comprar os snacks horríveis que eles têm. Como dizem em ingles, “they added insult to the injury”. Não bastava servir comida ruim. Agora a comida é pior do que era antes, e você ainda tem que pagar por ela!
Os precavidos forram o estômago antes de embarcar, mas como eu não tive tempo pra comer algo no aeroporto, entre as conexões, só me restou a opção da comida paga do avião. E lá estava eu me preparando para pagar quando a aeromoça americana decide me dar a comida horrenda de graça.
Parenteses para aqueles que não viajam há algum tempo: as empresas aéreas americanas não servem mais nada no vôo, a não ser na primeira classe. Se você estiver com fome, tem que comprar os snacks horríveis que eles têm. Como dizem em ingles, “they added insult to the injury”. Não bastava servir comida ruim. Agora a comida é pior do que era antes, e você ainda tem que pagar por ela!
Os precavidos forram o estômago antes de embarcar, mas como eu não tive tempo pra comer algo no aeroporto, entre as conexões, só me restou a opção da comida paga do avião. E lá estava eu me preparando para pagar quando a aeromoça americana decide me dar a comida horrenda de graça.
Eu passei o
resto do vôo especulando o que teria levado aquela senhora a me fazer aquela
gentileza (ainda que seja comida horrenda, eu estava com tanta fome que
classifica como gentileza…). Essas eram as hipóteses:
1) Eu lembrava ela de algum parente com qual
ela perdeu o contato há anos. Talvez uma filha que fugiu de casa para virar
hippie. Ou uma neta, que se perdeu no mundo das drogas e nunca mais deu sinal
de vida.
2) Eu era a única pessoa no avião com o
computador aberto e pilhas de papéis empilhadas, visivelmente estressada. Em
contraste, a maioria dos passageiros estava indo ou voltando de férias,
assistindo filmes nos seus iPads, lendo seus livros no Kindle, ou usando o
método antiquado -- e já quase em completo desuso -- de entretenimento: falar com
a pessoa no assento do lado. Talvez ela tenha ficado com pena de mim, ou se
identificado comigo – afinal nós éramos as únicas pessoas dando duro ali.
3) Eu fui a última pessoa que ela serviu, e
ela fez a gentileza porque as três coisas que eu tinha escolhido no menu não
estavam disponíveis. Daí tive que me conformar com o que tinha e ela resolveu
me dar um brinde, como cortesia da empresa.
Ou seja, não sei
se ela fez isso por ela (1), por mim (2), ou pela empresa (3), mas o fato é que
todas as minhas tentativas de interagir com ela depois disso, para agradecer a
comida, ela reagia como se não soubesse do que eu estava falando. Ou seja, a
reação dela não correspondia com nenhuma das hipóteses.
São nesses
momentos que eu me sinto bastante latino-americana. Talvez eu possa não gostar
delas, mas ao menos eu sei as regras de interação e como elas funcionam. E o
bom da interação latino-americana é que o objetivo é sempre muito claro. O
exemplo do atendente mexicano ilustra bem isso: ele queria ganhar minha simpatia
e evitar o problema com o chefe. Outro exemplo foi um comissário de bordo
brasileiro que me trouxe um sundae com calda de morango diretamente da primeira
classe. Por que? Porque eu era a única brasileira em um vôo de Israel para Nova Iorque e
o mineiro ficou tão feliz de encontrar uma candanga, no meio de tantos gringos, que resolveu confraternizar… Enfim, seja pela razão que for, com
os latino-americanos você com certeza vai ficar sabendo qual é a razão e porque você está
ganhando algo de graça...
Mas, ao
contrário dos latino-americanos, a aeromoça norte-americana me deixou lá sem
saber o que estava acontecendo! Só depois da diarréia que eu tive no dia
seguinte ao vôo, encontrei uma melhor hipótese: a
comida que ela me deu era a pior opção, dentre tudo que havia de horrendo
naquele vôo. Portanto, ela não apenas se sentiu envergonhada de me cobrar, mas
ela também não achou que tinha me feito favor algum de me servir aquilo.
E depois de passar uma semana com diarréia, eu decidi que assumir minha "brasilidade" é a melhor arma contra esse capitalismo selvagem norte-americano. Vou levar meu frango com farofa
– sem salmonela – no próximo vôo e se algum americano reclamar, eu rodo a baiana na cabeça deles!
terça-feira, 5 de junho de 2012
Dr. T.
Para aqueles que lêem inglês e apreciam bom humor, recomendo a leitura do blog da Dr. T.
E informo meus leitores que estamos correndo o risco de perder os comentários fiéis e infalíveis de Dr. T. neste blog, dado que agora ela está ocupada com seu próprio blog.
Mas é para o bem da humanidade. Então a gente deixa.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Aloha!
Encontros e desencontros é o título de um filme de Sofia Coppola, que em inglês chama-se Lost in Translation. Essa é mais uma dessas expressões idiomáticas que não tem sentido quando se faz uma tradução literal. "Perdido na tradução". Soa estranho, não?
Hoje eu me deparei com outra expressão que é difícil de traduzir. Conheci uma pessoa que nasceu e cresceu na Califórnia, mas decidiu se mudar para o Havaí há alguns anos atrás. Falei que ela havia se mudando de um lugar lindo para um lugar ainda mais lindo (onde eu me encontro nesse exato momento). E ela me disee, "I moved from heaven to paradise". Eu não consegui traduzir a expressão. Tanto heaven quanto paradise são frequentemente traduzidos como paraíso. Tentei procurar no google "do céu ao paraíso", para ver se a distinção fazia algum sentido. Confesso que abandonei o catecismo aos 9 anos de idade, e assumi que tinha uma distinção entre os termos que eu não tinha aprendido, mas a única coisa que encontrei foi essa pedra preciosa (ou esse gênio da raça, como diz meu amigo A.):
(Esse não se perdeu na tradução. Ele já tava perdido muito antes disso!)
Mas o termo mais confuso na minha cabeça no momento é Aloha. Aqui no Havaí, eles colocam Aloha em tudo: cartazes, entradas de hotel, menus de restaurante, etc, etc. Além disso, todo mundo te diz Aloha quando você chega em algum lugar. Na minha tentativa de advinhar o que significava isso antes de ter acesso ao grande mestre Google no hotel, criei a hipótese de que o termo significava bem-vindo.
Errado!
Segundo a wikipedia, nossa fonte insaciável de sabedoria, em Havaiano (se for esse o nome da língua nativa aqui) o termo Aloha significa apego, paz, compaixão e perdão. Ou seja, aquele "tudo de bom" que a gente deseja para as pessoas quando quer abreviar a longa lista de bons desejos. Daí vieram os colonizadores, se apropriaram do termo, e passaram a usar Aloha para dizer oi e tchau. De acordo com a Wikipedia, hoje em dia o termo é primordialmente usado como "olá". Afinal, colonizador que se preza não fica desejando coisas boas para as pessoas a torto e a direito (e boa sorte para quem se aventurar a traduzir essa expressão -- a torto e a direito --para o inglês!).
A wikipedia certamente explica as pessoas me comprimentando com Aloha em tudo quanto é lugar. As pessoas são genuinamente simpáticas aqui e sempre dizem Aloha abrindo um sorriso e puxando papo de uma maneira tranquila e não interessada (ou seja, eles não estão tentando me vender algo, nem me roubar, nem pedir uma ajuda...). Mas a wikipedia não explica a versão escrita do termo em todos os outros lugares. Você escreveria "Olá" no topo do menu se estivesse abrindo um restaurante? E colocaria um placa na entrada do seu hotel 5 estrelas no Leblon dizendo "Oi"? Não, né?
A coisa fica ainda mais confusa porque a língua nativa é usada em todo lugar, junto com o inglês. Ou seja, não dá pra saber se estão usando Aloha em inglês (olá) ou em havaiano (tudo de bom).
(E como vocês podem ver, as imagens universais também são traduzidas nas imagens nativas...)
Ou seja, parece que Aloha às vezes é usada como "olá", outras como "tudo de bom". Todavia, o que a wikipedia não fala é que, por vezes, as empresas se apropriam do termo e usam ele sem significar nem uma coisa nem outra. Sim, você entra no Hilton e vê um Aloha na entrada. A mesma coisa com o menu do Starbucks. Acho que as pessoas precisam ser constantemente lembradas de que estão nesse paraíso que é o Havaí, apesar de estarem tomando o mesmo café que tomam todos os dias, comendo a mesma comida, e dormindo em um um quarto idêntico a todos os outros quartos de hotel que essas pessoas se hospedaram na vida. Acho que essa é a mesma razão pela qual usa-se a língua local em todo lugar e vestem os bonequinhos do sinal de banheiro com trajes típicos.
Ou seja, acho que alguém precisa entrar na wikipedia e escrever que hoje o termo tem também um terceiro significado:
Aloha: "lembre-se, turista, mesmo quando você não está de frente para a paisagem estonteante das praias havaianas, mas sim vivendo a mesma vida que você vive todo dia em qualquer lugar dos Estados Unidos, você ainda está no Havaí!"
domingo, 3 de junho de 2012
A arma do crime
Quando entrei no banheiro do hotel e vi as toalhas brancas e a pia toda manchada, fiquei atônita. Parecia que uma guerra havia acontecido ali e, durante a confusão, ninguém conseguiu conter muito o dano. Meu pai, quase em pânico, me dizia que tinha decidido usar o banheiro para não sujar o quarto do hotel, mas ao tentar cortá-la, aquele líquido de cor fuzilante espirrou para todo o lado, deixando o banheiro na situação em que se encontrava.
- Precisamos limpar tudo, antes que o pessoal da limpeza veja isso! Falei, tentando não me deixar afetar pela cena de horror que presenciava.
E começamos a limpeza.
Mas diferentemente de outros líquidos, facilmente removíveis com água e sabão, aquele deixou sua marca em todos os cantos do banheiro. Por mais que lavassemos as toalhas, elas continuavam manchadas. Mas o pior era a pia. Ainda que os tons mais fortes saíssem com relativa facilidade, os resíduos permaneciam lá, como se tivessem penetrado nos poros da pedra e se recusassem a sair. Ou seja, as evidências – ou reminiscências -- do que tinha acontecido permaneciam no lugar, por mais que tentássemos removê-las.
Enquanto limpava, pensava como tínhamos chegado nesse ponto. Lembrei então que tudo começou com minha faxineira trazendo a arma do crime na sua bagagem, quando voltava da Jamaica. Pensei que ela teria algum esquema bem bolado para esconder a dita cuja, mas ela simplesmente colocou-a na mala, sem maior cerimônia. E assim a arma chegou as nossas mãos, em território canadense, sem ser confiscada pelas autoridades que supostamente devem fiscalizar os aeroportos e outros pontos de imigração. Chegou mais por sorte do que por mérito da nossa courier, mas ainda assim chegou. Uma mistura de medo e animação tomou conta de mim. Pensei como a facilidade de contrabandear coisas ilegais abre um mundo de possibilidades para mim, e fico animada. Penso, todavia, que as mesmas possibilidades estão abertas para outras pessoas, de reputação menos ilibada e que podem ser ainda mais perigosas para a saúde pública e a paz social do que eu. Daí o medo. Ao olhar para aquele banheiro naquele estado, todavia, pensei se de fato eu estava no grupo de pessoas com reputação minimamente ilibada...
Não olhei no relógio para ver quanto tempo havia durado a limpeza. Não queria também pensar no que aconteceria se alguém descobrisse o que havia acontecido ali. Fiquei, durante aquele tempo todo, focada no objetivo principal: eliminar todo e qualquer resquício do evento. Ao final do processo, meus músculos doíam. Mas o banheiro parecia estar de novo limpo. Ao menos não levantaria suspeitas do ocorrido naquele quarto hotel, do qual sairíamos na manhã seguinte. Meu momento de alívio, todavia, foi interrompido por um pequeno pânico. Ao olhar para a lata de lixo vejo ali, totalmente à mostra, a arma do crime. Decidi fechar o saco de lixo e levá-la para o carro. O odor ainda era forte e certamente ficaria pior se passasse a noite ali. Decidimos descartá-la na estrada, em algum lugar distante, no dia seguinte.
Até o momento, posso afirmar que cometemos o crime perfeito. Permanecemos incólumes. Ainda assim, vou pensar duas vezes antes de deixar meu pai comer manga jamaicana no banheiro do hotel da próxima vez que ele vier ao Canadá.
Nota: Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com locais, pessoas ou acontecimentos reais não passa de mera coincidência.
- Precisamos limpar tudo, antes que o pessoal da limpeza veja isso! Falei, tentando não me deixar afetar pela cena de horror que presenciava.
E começamos a limpeza.
Mas diferentemente de outros líquidos, facilmente removíveis com água e sabão, aquele deixou sua marca em todos os cantos do banheiro. Por mais que lavassemos as toalhas, elas continuavam manchadas. Mas o pior era a pia. Ainda que os tons mais fortes saíssem com relativa facilidade, os resíduos permaneciam lá, como se tivessem penetrado nos poros da pedra e se recusassem a sair. Ou seja, as evidências – ou reminiscências -- do que tinha acontecido permaneciam no lugar, por mais que tentássemos removê-las.
Enquanto limpava, pensava como tínhamos chegado nesse ponto. Lembrei então que tudo começou com minha faxineira trazendo a arma do crime na sua bagagem, quando voltava da Jamaica. Pensei que ela teria algum esquema bem bolado para esconder a dita cuja, mas ela simplesmente colocou-a na mala, sem maior cerimônia. E assim a arma chegou as nossas mãos, em território canadense, sem ser confiscada pelas autoridades que supostamente devem fiscalizar os aeroportos e outros pontos de imigração. Chegou mais por sorte do que por mérito da nossa courier, mas ainda assim chegou. Uma mistura de medo e animação tomou conta de mim. Pensei como a facilidade de contrabandear coisas ilegais abre um mundo de possibilidades para mim, e fico animada. Penso, todavia, que as mesmas possibilidades estão abertas para outras pessoas, de reputação menos ilibada e que podem ser ainda mais perigosas para a saúde pública e a paz social do que eu. Daí o medo. Ao olhar para aquele banheiro naquele estado, todavia, pensei se de fato eu estava no grupo de pessoas com reputação minimamente ilibada...
Não olhei no relógio para ver quanto tempo havia durado a limpeza. Não queria também pensar no que aconteceria se alguém descobrisse o que havia acontecido ali. Fiquei, durante aquele tempo todo, focada no objetivo principal: eliminar todo e qualquer resquício do evento. Ao final do processo, meus músculos doíam. Mas o banheiro parecia estar de novo limpo. Ao menos não levantaria suspeitas do ocorrido naquele quarto hotel, do qual sairíamos na manhã seguinte. Meu momento de alívio, todavia, foi interrompido por um pequeno pânico. Ao olhar para a lata de lixo vejo ali, totalmente à mostra, a arma do crime. Decidi fechar o saco de lixo e levá-la para o carro. O odor ainda era forte e certamente ficaria pior se passasse a noite ali. Decidimos descartá-la na estrada, em algum lugar distante, no dia seguinte.
Até o momento, posso afirmar que cometemos o crime perfeito. Permanecemos incólumes. Ainda assim, vou pensar duas vezes antes de deixar meu pai comer manga jamaicana no banheiro do hotel da próxima vez que ele vier ao Canadá.
Nota: Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com locais, pessoas ou acontecimentos reais não passa de mera coincidência.
domingo, 29 de abril de 2012
quinta-feira, 12 de abril de 2012
sábado, 7 de abril de 2012
O segredo do sucesso acadêmico
Peço licença aos meus leitores para trazê-los por um momento para esse mundo estranho e frequentemente incompreensível da academia. Esse é o mundinho que eu habito e, por causa disso, queria deixar aqui uma janela para vocês poderem espiar esse universo estranho, habitado por gênios, loucos e gênios loucos.
Na maior parte do tempo, o mundo acadêmico e o mundo real não se encontram. Passo boa parte do ano trancada no meu escritório escrevendo minhas idéias. Na outra parte do ano, viajo pelo mundo apresentando as idéias em conferências, que são frequentadas por pessoas que também ficam trancadas nos seus escritórios e pouco sabem da realidade lá fora. E daí o paper é publicado em journals (revistas acadêmicas), que basicamente tem um critério de seleção definido por acadêmicos e regras rígidas que também são únicas da academia.
Para dar uma idéia da falta de contato com a realidade que temos, note-se que eu marquei office hours (horário em que alunos podem vir ao meu escritório solucionar dúvidas e fazer perguntas) na sexta-feira santa. Esqueci que era feriado. Apenas descobri que tinha algo errado quando cheguei na faculdade e encontrei o prédio trancado e as luzes apagadas. E não foi a primeira -- nem será a última -- vez que faço isso. Os alunos acham estranho, mas decidem não reclamar (o que é sempre uma boa política com alguém que vai te avaliar no fim do semestre...).
Mas a falta de conexão com o mundo não afeta apenas meus pobres alunos que tem que vir pra faculdade em pleno feriado. Às vezes ela acaba afetando as idéias que formulamos também. Não me esqueço do dia em que um professor de Yale deu uma palestra para os estudantes de pós-graduação e nos revelou o grande segredo do sucesso acadêmico. Ele disse: escreva um paper com uma idéia que seja 1) engenhosa, 2) controversa e 3) completamente errada. Esses são os três pontos que garantem que as pessoas vão prestar atenção no seu paper.
A engenhosidade prova que você consegue pensar coisas que a maioria das pessoas teria dificuldade em imaginar. A controvérsia garante que muitas pessoas vão prestar atenção no que você está dizendo, caso contrário sua idéia pode ser engenhosa mas vai basicamente atrair a atenção de meia dúzia de gatos pingados que se importam com aquele tópico. Por fim, sua idéia precisa estar errada para as pessoas se animarem a escrever contra você. E esse último elemento é --- sem dúvida -- o mais importante. Pois na academia a importância do seu trabalho é avaliada por quantas vezes você é citado. E se muita gente estiver escrevendo contra seu paper, ele vai ser citado muitas vezes.
Não é difícil ver que esses incentivos geram papers questionáveis. Um bom exemplo é um paper que meu primo M. citou em um comentário no mês passado. O paper argumenta que recém-nacidos não são pessoas e, portanto, podem ser tratados como fetos que não nasceram ainda. Assim, concluem os ilustres autores, se por alguma razão você não fez o aborto (apesar de estar legalmente autorizada a fazê-lo) você pode matar seu recém nascido. O que leva acadêmicos a publicar esse tipo de coisa é a busca pelo sucesso rápido e fácil. São os Michel Telós da academia. Eles provavelmente não acreditam em uma palavra do que estão falando, mas querem subir na vida. Daí optam por um paper controverso e absolutamente errado. Minha previsão, todavia, é que esse paper não vai fazer sucesso porque falta engenhosidade. Eles conseguiram atenção da mídia, mas minha hipótese é que vão ser ignorados pela comunidade acadêmica. Afinal, se você se der ao trabalho de responder a uma idéia estúpida, a conclusão é que você também não é lá muito inteligente.
Se alguém quiser um exemplo de um paper que poderia ser citado como um modelo desse tipo de método para o sucesso acadêmico imediato, veja esse texto que propõe um mercado para compra e venda de bebês. O texto argumenta que o sistema de adoção gera uma alocação ineficiente de recurso e, de alguma forma, pais ricos saem com vantagens que não são devidamente reguladas. Portanto, o texto propõe oficializar a existência de um mercado e propõe um modelo regulatório. O texto se tornou um verdadeiro clássico, por conter os três elementos que mencionei antes.
Daí meu leitor se pergunta: e você, não vai fazer o mesmo? Pois é, depois de um mês terminando três paper (razão pela qual o blog ficou às moscas), descobri que meu primeiro paper não é engenhoso, o segundo não é controverso, e o terceiro não tem qualquer um dos três elementos. Ou seja, ainda sou aquele músico estupidamente talentoso (e pouco modesto!), que informalmente conhece todos os músicos famosos, mas ainda não chegou ao estrelato. E a não ser que eu queira ser um Michel Teló da academia, ainda vai demorar uns anos pra eu chegar lá...
Na maior parte do tempo, o mundo acadêmico e o mundo real não se encontram. Passo boa parte do ano trancada no meu escritório escrevendo minhas idéias. Na outra parte do ano, viajo pelo mundo apresentando as idéias em conferências, que são frequentadas por pessoas que também ficam trancadas nos seus escritórios e pouco sabem da realidade lá fora. E daí o paper é publicado em journals (revistas acadêmicas), que basicamente tem um critério de seleção definido por acadêmicos e regras rígidas que também são únicas da academia.
Para dar uma idéia da falta de contato com a realidade que temos, note-se que eu marquei office hours (horário em que alunos podem vir ao meu escritório solucionar dúvidas e fazer perguntas) na sexta-feira santa. Esqueci que era feriado. Apenas descobri que tinha algo errado quando cheguei na faculdade e encontrei o prédio trancado e as luzes apagadas. E não foi a primeira -- nem será a última -- vez que faço isso. Os alunos acham estranho, mas decidem não reclamar (o que é sempre uma boa política com alguém que vai te avaliar no fim do semestre...).
Mas a falta de conexão com o mundo não afeta apenas meus pobres alunos que tem que vir pra faculdade em pleno feriado. Às vezes ela acaba afetando as idéias que formulamos também. Não me esqueço do dia em que um professor de Yale deu uma palestra para os estudantes de pós-graduação e nos revelou o grande segredo do sucesso acadêmico. Ele disse: escreva um paper com uma idéia que seja 1) engenhosa, 2) controversa e 3) completamente errada. Esses são os três pontos que garantem que as pessoas vão prestar atenção no seu paper.
A engenhosidade prova que você consegue pensar coisas que a maioria das pessoas teria dificuldade em imaginar. A controvérsia garante que muitas pessoas vão prestar atenção no que você está dizendo, caso contrário sua idéia pode ser engenhosa mas vai basicamente atrair a atenção de meia dúzia de gatos pingados que se importam com aquele tópico. Por fim, sua idéia precisa estar errada para as pessoas se animarem a escrever contra você. E esse último elemento é --- sem dúvida -- o mais importante. Pois na academia a importância do seu trabalho é avaliada por quantas vezes você é citado. E se muita gente estiver escrevendo contra seu paper, ele vai ser citado muitas vezes.
Não é difícil ver que esses incentivos geram papers questionáveis. Um bom exemplo é um paper que meu primo M. citou em um comentário no mês passado. O paper argumenta que recém-nacidos não são pessoas e, portanto, podem ser tratados como fetos que não nasceram ainda. Assim, concluem os ilustres autores, se por alguma razão você não fez o aborto (apesar de estar legalmente autorizada a fazê-lo) você pode matar seu recém nascido. O que leva acadêmicos a publicar esse tipo de coisa é a busca pelo sucesso rápido e fácil. São os Michel Telós da academia. Eles provavelmente não acreditam em uma palavra do que estão falando, mas querem subir na vida. Daí optam por um paper controverso e absolutamente errado. Minha previsão, todavia, é que esse paper não vai fazer sucesso porque falta engenhosidade. Eles conseguiram atenção da mídia, mas minha hipótese é que vão ser ignorados pela comunidade acadêmica. Afinal, se você se der ao trabalho de responder a uma idéia estúpida, a conclusão é que você também não é lá muito inteligente.
Se alguém quiser um exemplo de um paper que poderia ser citado como um modelo desse tipo de método para o sucesso acadêmico imediato, veja esse texto que propõe um mercado para compra e venda de bebês. O texto argumenta que o sistema de adoção gera uma alocação ineficiente de recurso e, de alguma forma, pais ricos saem com vantagens que não são devidamente reguladas. Portanto, o texto propõe oficializar a existência de um mercado e propõe um modelo regulatório. O texto se tornou um verdadeiro clássico, por conter os três elementos que mencionei antes.
Daí meu leitor se pergunta: e você, não vai fazer o mesmo? Pois é, depois de um mês terminando três paper (razão pela qual o blog ficou às moscas), descobri que meu primeiro paper não é engenhoso, o segundo não é controverso, e o terceiro não tem qualquer um dos três elementos. Ou seja, ainda sou aquele músico estupidamente talentoso (e pouco modesto!), que informalmente conhece todos os músicos famosos, mas ainda não chegou ao estrelato. E a não ser que eu queira ser um Michel Teló da academia, ainda vai demorar uns anos pra eu chegar lá...
quarta-feira, 4 de abril de 2012
A louça e o choque de ordem
Antes de sair de férias e viajar para a Jamaica, minha faxineira me chamou na cozinha, apontou pra pia e falou: - lave a louça assim que usar. Se você fizer isso, sua pia sempre vai estar assim! Ela terminou a frase apontando com orgulho para sua obra-prima: a pia brilhante na minha cozinha. Eu já tinha deixado registrado aqui toda a sabedoria da minha faxineira em questões de segurança pessoal em um post em 2009. Mas mal sabia eu que ali estava ela, mas uma vez, compartilhando comigo seu vasto conhecimento de novo.
Primeira semana: lavei toda a louça, assim que usei. Chegava em casa, cozinhava o jantar e lavava a louça em seguida. Segunda semana: os prazos começaram a apertar. Eu era obrigada a deixar a louça para lá e voltar para o trabalho. Na manhã seguinte, todavia, eu tomava meu café da manhã e lavava tudo antes de sair. Na terceira semana, a memória da minha faxineira me dando instruções já estava meio vaga na minha memória. Eu estava definitivamente me sentindo menos pressionada pela figura daquela senhora baixinha e bem humorada que basicamente governa minha vida e dá todas as ordens na casa. Daí chegou o belo dia em que não deu pra lavar a louça depois do jantar e também não deu pra lavar de manhã. E a vaca foi para o brejo. A louça começou a acumular na pia. Eu levantava de manhã e tinha que procurar espaço pra fazer café. Um belo dia, não tinha mais talheres limpos. Eu tentava me convencer que o problema era a falta de tempo. Três papers para terminar até o fim do mês, sem tempo para dormir, escrever no blog, lavar a louça ou manter a casa minimamente organizada. Essa era minha desculpa.
Mas logo descobri que isso não passava de balela. E -- pasmem -- descobri isso um dia, tarde da noite, trabalhando no meu paper sobre abuso policial e segurança pública. Conhecida na literatura acadêmica sobre criminalidade como “teoria da janela quebrada” (broken window theory), a idéia básica é que uma pequena janela quebrada em uma casa é interpretada como sinal de que a casa está abandonada e faz com que as pessoas passem a se sentir a vontade para vandalizar a casa. Ou seja, uma pequena janela quebrada gera invasões, pichações e vandalismos de toda ordem. Nesse sentido, quanto mais pequenos desvios de comportamento são permitidos, mais aumenta o risco de que outros crimes ocorram naquele local. Por isso o Paes está proibindo absolutamente tudo na zona sul do Rio. A política faz parte da campanha Choque de Ordem que impôs restrições dacronianas ao comportamento do carioca na zona sul do Rio. Não se pode mais fazer xixi na rua, levar cachorros pra praia, jogar futebol na areia fora do horário determinado, ou fazer comércio ilegal.
Pois é. Ao mandar eu lavar a louça depois de usar, minha faxineira estava usando do mesmo mecanismo: choque de ordem. E funciona da mesma forma que o crime: se não tem nada lá, você não deixa louça suja na pia. Daí se você faz uma refeição e não lava aquela louça, é como a janela quebrada. Já não lavei aquela louça, então não preciso lavar essa também. E daí a coisa vai escalonando até o momento em que você não encontra uma colher limpa pra comer seu iogurte de manhã. A pior (pra mim) ou a melhor (pra minha faxineira) parte da história é que há um forte precedente a favor do choque de ordem. O prefeito Rudy Giulliani ficou famoso por ter reduzido drasticamente os índices de criminalidade em Nova Iorque no início da década de 90 graças à sua política de tolerância zero . A cidade, segundo aqueles que tiveram a oportunidade de visitá-la antes e depois, mudou da água para o vinho.
A questão é: se tudo que se fala sobre a política de segurança de Nova Iorque é verdade, como explicar esse vídeo, no qual um cineasta roubou a própria bicicleta três vezes antes de ser interpelado pela polícia? Note-se que a polícia interpelou ele somente quando ele estava em uma praça pública bem movimentada, usando uma serra elétrica (!) para quebrar a corrente.
Minha interpretação? O choque de ordem não dura pra sempre e não tem como durar. As coisas degringolam em algum momento. A não ser que haja policiais na rua o tempo todo vigiando tudo e todos, a política não é viável. Ou seja, a não ser que eu soubesse que minha faxineira estava lá pronta para me dar uma bronca no dia seguinte, os incentivos para lavar a louça são mínimos. Pra ter tolerância zero, alguém tem que estar lá manifestando intolerância. Pra ter choque de ordem, alguém tem que estar lá pra dar o choque quando a desordem começar a aparecer. E esse é o vídeo que eu vou mostrar pra minha faxineira quando ela voltar de férias e perguntar como minha pia ficou nesse estado...
domingo, 18 de março de 2012
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