segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A irmã e o sistema

O aniversário da minha irmã caiu num dia em que eu queria distância do facebook. Ainda não consegui definir bem esses dias, mas eles são basicamente caracterizados por um completo ceticismo com relação a todo aquele exercício de interação social via internet.

Fato é que eu tentei colocar algo lá. Entrei várias vezes no site (o que tem sido cada vez mais raro pra mim hoje em dia). Rascunhei uns três posts, mas desisti de todos. A minha fórmula "feliz aniversário. tudo de bom!" funciona muito bem para o resto do mundo, mas minha irmã merece algo melhor. O problema é que não baixava a inspiração. E aquele feed na lateral da tela com updates incessantes não estava ajudando meu processo criativo.  

Resolvi então buscar umas fotos para ver se alguma lembrança do passado viria com uma frase que fizesse juz ao momento. Não achei nada. No ápice do desespero, resolvi ligar. Sabe aquela coisa privada que a gente fazia antigamente e a pessoa ficava super feliz? Pois é. Liguei. Minha irmã atende e fica surpresa com a ligação. Tomei como um sinal positivo. 

Parabéns pra cá, felicidades pra lá, e logo estamos colocando a conversa em dia. As duas trabalhando muito. Será que vale a pena? Com certeza não vale. Qual a opção? Mudar pra Cuba, talvez. Sim, porque Coréia do Norte não tem capitalismo, mas tem um louco governando. Entre louco no governo ou toda a loucura do livre mercado, preferimos ficar com a segunda opção. Sem dúvida. Mas temos Cuba, que não seria de todo mal. O problema é que não sabemos o quanto vai durar. Passamos mais uns minutos sonhando com nossa vida fora do sistema e desligamos.

Minha irmã voltou à opressão do sistema capitalista e eu voltei à opressão do facebook. Enquanto minha irmã é esmagada pelo motor produtivo, eu -- que não tenho que produzir nada, e recebo um salário pra pensar grandes ideias -- fiquei lá sozinha no meu escritório confabulando com meus botões: ligação sem o post no facebook não pega bem, né? Com certeza não pega. Estou até agora imaginando as pessoas horrorizadas com meu silêncio. "Você viu, Zezinho? Mariana não desejou feliz aniversário pra própria irmã..." Discussões em bares e dentro dos lares, durante o jantar. Uma vergonha! Afinal, parabéns que se preza precisa ser aquele que todo mundo vê. Senão, não conta. 

Mas eu sei que a minha irmã entendeu meu silêncio. Ela sabia que eu estava resistindo ao sistema. Precisavamos nós duas de um pouco de esperança. E esse foi meu modo de dar a ela um dia melhor: dando o pontapé inicial pra acabar com a opressão. A revolução começa com o facebook e termina com o fim do sistema capitalista! E conseguimos nesse histórico 24 de outubro essa grande vitória: passou-se o aniversário sem post. Agora, é só aguardar, que uma vida muito melhor está por vir.
 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Surpresa do Dia


https://m.youtube.com/watch?v=zag_Masf6FA

Descobri que essa música do CD da Carla Bruni é na verdade um poema:

Promises Like Pie-Crust

by Christina Georgina Rossetti
(1830-1894)



Promise me no promises, 
So will I not promise you: 
Keep we both our liberties, 
Never false and never true: 
Let us hold the die uncast, 
Free to come as free to go: 
For I cannot know your past, 
And of mine what can you know? 

You, so warm, may once have been 
Warmer towards another one: 
I, so cold, may once have seen 
Sunlight, once have felt the sun: 
Who shall show us if it was 
Thus indeed in time of old? 
Fades the image from the glass, 
And the fortune is not told. 

If you promised, you might grieve 
For lost liberty again: 
If I promised, I believe 
I should fret to break the chain. 
Let us be the friends we were, 
Nothing more but nothing less: 
Many thrive on frugal fare 
Who would perish of excess.


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Dia de jacaré

Nada melhor para descrever meu dia, do que essa fábula do querido Pratinha:

"Vivia a floresta na mais densa calmaria até aparecer a coruja, com seu sobretudo, suas olheiras e suas ideias subversivas: "Como vocês podem se achar felizes se são paus mandados do leão? Como podem se achar livres se só fazem o que permite o leão? Como podem dormir tranquilos se correm o risco de, a qualquer momento, serem devorados pelo leão? Abaixo a ditadura leonina!". "Bravo!", gritou o coelho. "Apoiada!", bradou a gazela. "Ente, ente, ente, coruja presidente!", puxou o tatu.

Daí em diante, os animais passaram a viver revoltados, só pensando no absurdo que era estar continuamente sob o jugo daquela juba. A coruja, então, organizou uma assembleia. Depois de um caloroso debate, chegou-se à conclusão de que havia um único bicho, em toda a floresta, capaz de destronar o autoungido rei dos animais: o jacaré.


Boiando no rasinho, só com aqueles olhos melífluos pra fora d'água, o jacaré ouviu a explicação da coruja e as súplicas de seus companheiros silvícolas. "Vocês querem que eu ajude?" "Sim!", responderam todos. "Querem a paz na floresta?" "Siiim!" "Querem parar de sofrer com a supremacia leonina?" "Siiiiiim" -e, mal o coro suplicante terminou de ecoar por entre as copas das árvores, o jacaré arremeteu contra a coruja e, num bote certeiro, a engoliu inteirinha, com seu sobretudo, suas olheiras e suas ideias subversivas." 


Estou agora ao sol, de barriga cheira.

Essa e outras fábulas estão disponíveis aqui: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2014/09/1515827-fabulas-monterrosianas-ii.shtml

sábado, 20 de setembro de 2014

Música do Dia


Em busca da perenidade

Perenidade? Não sabia qual era o substantivo de perene quando pensei no título para esse post. Talvez fosse perenez ( como em lucidez)? Quiça poderia ser perenice (Como velhice)? Não sei.

Sim, estou perdendo o português. E junto com a perda vem a preguiça de checar no dicionário. Fica aqui, portanto, a ressalva: sei o que busco, ainda que não saiba como descrevê-la (perenidade, perenez ou perenice?). Um problem de PPP: perda do português e preguiça...

Em contraste com as incertezas gramaticais, o tempo está começando a esfriar. Não há incerteza alguma sobre o fato de que o inverno logo estará aqui. Decidi então registrar a existência das plantas não perenes que vão desaparecer do quintal nas próximas semanas. 

Já falei antes da minha angústia com a situação. Talvez haja alguma ironia no fato de que perder as plantas me incomode mais do que perder meu português. Mas, como expliquei antes, não se trata de uma escolha no caso das plantas. Eis o problema.

Fica aqui, portanto, minha vã tentativa de eternizá-las:












quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Colocando a Santaella na faixa vermelha

Era fã da Santaella e da semiótica quando estudava na Escola de Comunicações e Artes. Mas o tempo passa e a gente amadurece. Hoje, sou fã da Marjorie, cujo texto recomendo (ver link no fim do post). 

Depois de passar quatro dias me locomovendo com uma bicicleta em Amsterdam em julho, além de não ter carro e usar a bicicleta quase todos os dias (weather permitting) pra ir trabalhar aqui em Toronto, concordo que precisamos de uma revolução em São Paulo.

 Guilhotina para acadêmicos desinformados. E que venham mais faixas vermelhas e toda a alegria que vem junto com elas!

http://m.huffpost.com/br/entry/5816142

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Cada um tem a ciclovia que merece

Há algumas semanas, um vídeo feito por um ciclista em Toronto virou febre na internet (ao menos aqui em Toronto). O video mostra como a ciclovias da cidade são frequentemente ocupadas por veículos de todo tipo (polícia, caminhões entregando cerveja, taxis e carros privados), que dão uma "paradinha" forçando os ciclistas a entrar na faixa de automóveis para seguir seu caminho. 



Resposta dos paulistanos para o ciclista canadense? 

- Sabe de nada inocente. Você acha que tem um problema? Veja isso: 


(foto tirada por um usuário do facebook em São Paulo no dia 20 de agosto de 2014). 

E a resposta do paulistano que usa twitter para o ciclista canadense? #firstworldproblems.

Pois é, cada um com a ciclovia que merece. 

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sábado, 9 de agosto de 2014

O troco e a racionalidade

- Deu 27,80, senhora.
- Tá aqui, trinta. Pode ficar com o troco.
- Não, minha senhora. Pega o troco. 

E em questão de segundos o sujeito sacou duas moedas de um real e duas de dez centavos. Estiquei a mão pensando: santo deus, lá vou eu voltar com um saco de quinhentas moedas pra Toronto de novo. 

- Com dez trocos desses, as senhora paga outra corrida. 

O ponto do taxista é muito válido. Na verdade, é uma das primeiras lições de qualquer curso de educação financeira: de pouco em pouco a galinha enche o papo. Aprendi isso em um curso em Toronto, na aula do muffin. A instrutora mostrou o preço de um muffin no Starbucks (uns Ca$2,50), e calculou quanto uma pessoa gastaria se comesse um por dia, de manhã de segunda a sexta-feira (5 x 2,50 = 12,50 por semana; ou 50 reais por mês) num período de 10 anos (52 semanas x 50 reais = 2600 por ano). E era uma quantia significativa. Tipo uns 25.000 dólares. 

Lição do dia? Ao invés de ficar esperando ganhar na mega-sena, é melhor começar a contar as pequenas economias que se pode fazer no dia-a-dia, tipo não comer muffin no Starbucks e não deixar o taxista com o troco. (Confesso que não sei se você pode comprar um muffin com o troco que o taxista não aceitou - precisamos consultar um especialista).

Feliz com a idéia de que a população brasileira está começando a se familiarizar com princípios básicos de administração financeira, desço do táxi. Entro no avião e começo a revisar minhas notas de aula: "O agente racional auto-interessado busca maximizar sua utilidade individual". Essa é a premissa básica da aula que eu precisava dar assim que saísse do avião e ali estava eu, me deparando com uma situação que não parecia se encaixavar naquele modelo de racionalidade. 

Se o taxista fosse um agente racional auto-interessado, teria embolsado o troco e agradecido. Portanto, como explicar para meus alunos que o modelo era válido? Seria o taxista irracional? Talvez eu pudesse inventar uma história de que era um hippie dirigindo um carro pelas ruas de São Paulo. Exceto que hippies em geral não são muito bons com princípios básicos de educação financeira - afinal, a filosofia deles é não se importar com dinheiro...

O taxista paulistano não era o primeiro a me deixar com um grande problema intelectual para resolver. Um carioca, uma vez, fez algo ainda mais inexplicável.

- São R$22,20. 

Dei R$25 pra ele. 

- A senhora não tem troco?
- Não tenho. Se o senhor não tiver troco, pode ficar com os R$25.

Ele imediatamente sacou a nota de 5 reais e esticou o braço insistentemente para devolvê-la. 

- Não, não, minha senhora! A senhora fica com os 5 reais.
- Por que? perguntei confusa.
- Ora, porque é a senhora que vai perder mais dinheiro. Eu só perco R$2,20. A senhora ia perder R$2,80 se me deixasse com o troco. 

Um era um hippie com educação financeira e o outro era o justiceiro do troco. Se alguém não tem troco, fica com a diferença quem ia perder mais dinheiro. Afinal, a outra partilha seria injusta, não? O problema dessas histórias é: como convencer meus alunos a acreditar em um modelo baseado em uma premissa de racionalidade, quando tem tanto louco no mundo?

A resposta, ao meu ver, é simples (apesar de eu ter demorado muito tempo para formulá-la...). A utilidade individual não se limita a ganhar mais dinheiro. Cada um tem uma utilidade diferente. Alguém que quer ser rico valoriza mais o dinheiro que outras coisas. Esse pegaria o troco. Mas o taxista paulistano claramente valoriza algo mais do que o dinheiro. Talvez mostrar o conhecimento dele de educação financeira seja mais importante para ele do que ficar com dois reais. Talvez o taxista carioca valorize mais a justiça do que a acumulação de riqueza. Portanto, ambos estavam maximizando sua utilidade individual e estavam portanto se comportando como agentes racionais auto-interessados. 

Eu tinha acabado de salvar minha aula quando me ocorreu que a explicação poderia ser outra. Talvez ambos os taxistas tivessem ficado com o orgulho ferido de "receber esmola" de uma mulher jovem. Afinal, isso feriria o orgulho de qualquer machista. Portanto, a utilidade que ambos poderiam estar preservando ali era a superioridade dos homens sobre as mulheres. Um comportamento perfeitamente racional para cada um deles, mas bastante prejudicial para a sociedade como um todo. Portanto, já ficava ali o ponto de conexão com a próxima aula: a versão descritiva (o mundo é assim) e a versão normativa (o mundo deveria ser assim) do modelo. 
 
Só espero que algum dia alguém escreva um livro sobre como as vezes há mais coisas a se aprender dentro de táxis do que dentro das universidades...