segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Em busca de companhia, conselhos e calor humano no Canadá

Todo mundo que muda para Toronto sempre conta a mesma história. A cidade é ótima: limpa, organizada e segura. Transporte público funciona de maneira eficiente. E a cidade tem o maior números de restaurantes per capita, além de ter um parque em cada esquina e ser bastante arborizada. Ou seja, ótima pra trabalhar e para viver. O único problema é fazer amigos. Os canadenses são simpáticos e bem-humorados, mas eles não socializam como os brasileiros. Ou seja, nada de almoços longos durante o horário comercial. Ao contrário, como nos EUA, o pessoal aqui em geral não almoça ou traz um sanduichinho pra comer enquanto responde emails. Entre cinco e seis da tarde, todos estão indo pra casa. Nada de barzinho, chopinho e happy hour.

Nesse ambiente, é difícil fazer amigos ou socializar. As pessoas são super simpáticas quando te encontram no corredor ou no banheiro, mas nada de te convidar para sair. E os convites não vêm porque os canadenses em si também não saem muito. Para vocês terem uma idéia, depois que eu me divorciei e voltei para Toronto sozinha, mencionei para algumas pessoas que eu tava estranhando ficar sozinha. Ouvi três vezes a mesma resposta: compre um cachorro. Depois da terceira vez, parei de falar sobre o assunto. Afinal, ficar ouvindo repetidamente que as pessoas não querem gastar o tempo delas com você não é lá muito agradável.

Passei alguns meses na minha solidão canadense até descobrir que as regras de socialização aqui são diferente das regras do Brasil. No Brasil, há uma espontaneidade na interação social. Niguém planeja nada. O chopinho rola no fim do expediente. Te ligam na hora da festa para te convidar. Passam na sua casa, sem avisar, para um cafezinho. Aqui, em contrapartida, as coisas são devidamente planejadas, includindo a socialização. Por exemplo, há diversos clubes para pessoas com interesses em coisas específicas. Há clubes de leitura para quem gosta de ler. Há clubes de escritores, pra quem gosta de escrever. E há clubes de corrida, pra quem gosta de correr. E a socialização ocorre através desses clubes, de maneira organizada e planejada, no melhor estilo canadense.

Em outubro comecei a participar de um desses clubes e foi só então que eu descobri como as pessoas socializam por aqui. Nos encontramos duas vezes por semana: terças e sábados. na terça, como todo mundo está vindo do trabalho e tem que ir pra casa preparar jantar depois, só corremos. No sábado, em contraste, depois da corrida, passamos uma hora em um café, jogando conversa fora. A experiência de jogar conversa fora no café com o pessoal do clube de corrida foi a coisa mais próxima que eu encontrei de um chopinho no Brasil. Com uma diferença: marcamos o dia e horário com antecedência. E a coisa tem hora pra terminar. Depois de uma hora no café, nos despedimos e vamos todas pra casa (digo todas porque o clube só tem mulheres).

O clube teve uma festa de confraternização no fim de semana passado, e cada participante trouxe um prato para o jantar. Além disso, estamos planejando uma viagem para esquiar em fevereiro. Ou seja, eventos que acabam acontecendo mais espontaneamente no Brasil, aqui são vinculados a esses clubes. E, graças ao meu clube de corrida, agora eu tenho um pouco de vida social.

Mas a socialização no Brasil tem outras funções além de jogar conversa fora no bar. Por exemplo, para quem vai ter bebê, conselhos da mãe, da família e das amigas que já tiveram filhos desempenham um papel importante em preparar a mãe para o que vem pela frente. Entretanto, quando não se têm essas redes sociais, essa transmissão de informação não ocorre espontaneamente. Até certo ponto, isso pode ser bom, pois muitas pessoas terminam por tomar decisões erradas por causa de informações inacuradas que circulam por ai. Entretanto, pode ser ruim também, pois tem muitas informação útil que não se acha facilmente na internet. Sabe aqueles segredinhos de cozinha que sua vó precisa te contar, enquanto está cozinhando, porque você não vai encontrar aquilo em nenhum livro? Pois é. Essas coisas se perdem sem socialização.

Mas os canadenses deram um jeito nisso também. Primeiro, há uma quantidade incrível de livros para quem vai virar mãe. Portanto, ao invés de conversar com amigas ou família, as grávidas aqui vão para a livraria. Mas isso cria o mesmo problema das conversar informais no Brasil: também há livros com informações erradas... Portanto, os livros precisam ser escolhidos a dedo (assim como as pessoas que você vai ouvir). Segundo, o governo canadense decidiu mandar um oficial de saúde visitar a casa de todas as pessoas que vão ter filhos para dar instruções gerais e responder perguntas. É a estatização do chá de bebê! E é bastante eficiente, pois ao invés de vinte mulheres, eles mandam só uma...

Todas essas soluções (clubes, livros e oficiais do governo) substituem aspectos importantes da socialização tal como concebida no Brasil. Mas tem um aspecto que eles não cobrem: contato humano. As pessoas aqui não se tocam, como eu já explique em um post anterior. Portanto, ainda que você participe de um clube, esteja informada e se entretenha com a conversa com a burocrata que for na sua casa quando você estiver grávida, não vai ter nada mais comprometedor do que um aperto de mão. Ou seja, aquele calor humano de chegar no bar, beijar todo mundo, ganhar uns abraços, e tocar outras pessoas não existe.

Se você pensou que os canadenses não conseguiram achar uma solução para isso, se enganou! Aqui tem um amplo mercado de massagem, e a maioria das pessoas que eu conheço frequenta regularmente uma massagista. Se você perguntar para as pessoas porque elas pagam por massagem, a maioria vai responder que é para aliviar a tensão ou dores específicas (tipo dores nas costas). Mas minha tese é que há uma razão oculta, que ninguém admite (e que talvez não seja sequer consciente): essas pessoas querem ter contato humano. Não contato sexual. Apenas o conforto de se sentir tocado e acariciado. No Brasil, a gente se dispõe a fazer isso de graça, enquanto a gente paga um preço adicional por segurança (prédios com câmeras de seguranças, carros blindados, etc). Aqui eles decidiram fazer o contrário. Não sei qual o melhor arranjo, mas devo confessar que a massagem vale a pena....



4 comentários:

Anônimo disse...

so you went for a massage? tell us about that! btw, no one tells you when they say, "get a dog" that you will end up slaving over removing dog hair from your apartment, or do they?

n.

Anônimo disse...

País dos constrastes, o Brasil é mestre do improviso, diante da falta de planejamento que reina em vários setores... Como será a reação de um canadense diante de um imprevisto? Merece um artigo.

Marcelo disse...

Mariana,
Você está me saindo uma cronista muito prendada, com graça e competência de etnografista.

Anônimo disse...

Danuza Leão que se cuide!