domingo, 28 de fevereiro de 2010

Acertando umas e errando outras

Saiu no New York Times hoje que agora há bastante evidência científica provando a importância de contato físico. Tocar outras pessoas é uma forma -- importante -- de comunicação. Tocar e ser tocado muda o modo como as pessoas pensam e se comportam. Por exemplo, alunos que são tocados pela professora nas costas ou no braço são duas vezes mais propensos a participar da aula do que os outros alunos. Da mesma forma, quando um médico toca um paciente, este tem a impressão de que a consulta durou o dobro do tempo se comparada à impressão daqueles que não foram tocados.

Eu não apenas tinha relatado aqui com canadenses são aversos ao contato físico, mas como eles também tinham resolvido a necessidade de ter contato (que acho que é natural e biológica) com um amplo mercado de serviços profissionais de massagem. O problema é que, de acordo com esses estudos que saíram no NYT hoje, massagens de uma pessoa próxima não apenas diminui a dor, mas também reduz a depressão e fortalece a relação. Portanto, quando se contrata uma massagem profissional, os canadenses se livram da dor, mas perdem dois importantes benefícios do contato humano. Portanto, ainda que os canadenses tenham achado uma solução, ela é -- na melhor das hipóteses -- imperfeita.

Eu estava, portanto, certa sobre isso. Mas parece que eu estava errada sobre o assassinato no Recife que aconteceu durante o carnaval. As provas colhidas até agora indicam que o marido e o sogro da menina foram os assassinos.

Apesar dos acertos e erros, o blog não deixou de gerar controvérsia. Minha mãe colocou o seguinte comentário no meu post sobre o assassino de João Hélio:

Discordo do ítem dois. A proteção a esse sujeito que fez o que fez em liberdade e ainda cometeu delito dentro do Abrigo onde cumpria reclusão pode ser legal , mas é uma afronta ao cidadão comum que trabalha, paga impostos e que, muitas vezes necessita de segurança , não tem.
Explico: Em janeiro , uma mulher foi assassinada pelo ex-marido, depois de ter prestado queixa e feito BO na delegacia mais de 5 vezes. Alguém ofereceu proteção?

Minha resposta: acho que o sentimento e a revolta do cidadão comum é válida e justificada. É, de fato, uma afronta. A questão é se a falta de proteção ao cidadão comum serve como justificativa para não proteger o sujeito. A resposta é não. O argumento da minha mãe, na verdade, é que temos que oferecer proteção pra todo mundo. Se esse sujeito tem direito a proteção, todos nós temos também (e a mulher assassinada pelo marido deveria ter tido também). E isso não é nada mais que um Estado de Direito. Portanto, concordo com minha mãe que temos um Estado de Direito imperfeito quando algumas pessoas têm direito a proteção, enquanto outras não têm. Mas ter alguma proteção é melhor do que não ter nenhuma (ou seja, é melhor do que viver numa terra de ninguém, como o velho oeste). Isso, todavia, não é suficiente e não devemos nos acomodar com o pouco que temos. Nesse aspecto, concordo com minha mãe!

Retomando a conversa no bar com minha família, meu tio apresentou o seguinte argumento: só tem direitos humanos no Brasil pra criminoso. Para a classe média honesta que trabalha e paga impostos (como a mulher assassinada pelo marido) não tem nada. Eu concordo que grande parte da atuação das ONGs é para proteção da população mais pobre, que não apenas é a parte da população mais propensa a se envolver com atividades criminosas, mas é também a parte da população mais propensa a sofrer abusos e violações de direitos humanos. Portanto, concordo com meu tio que os esforços para proteção de direitos humanos estão focados em uma parte da população. O ponto de discordância é que enquanto ele acha isso um absurdo, eu não acho. ONGs tem recursos limitados, e parte de fazer bom uso desses recursos é focar a atuação deles onde eles podem ser mais efetivos.
Basta ver a quantidade de gente inocente que morre no Rio quando a polícia entra na favela atirando. Grande parte da classe média brasileira nunca teve que lidar com tiroteios na porta ou dentro de suas casas, porque a polícia não entra em condomínios da barra ou nas ruas de Ipanema atirando. Reconheço que a classe média tem que lidar com umas balas perdidas aqui e acolá de vez em quando, mas o índices de morte por bala perdida não se compara ao índices de homicídios nas favelas. Há, portanto, problema nos dois lados: mas de um lado o problema toma dimensões muito maiores, e por isso exige ação muito mais enfática.

Assim como a minha mãe, meu tio apresenta o seguinte argumento: o cidadão comum se sente afrontado quando vê uma ONG protegendo um criminoso, quando o trabalhador que paga impostos não têm proteção alguma. De novo, minha resposta é a mesma: isso não é um argumento para tirar a proteção dos direitos humanos de criminosos, mas sim para garantir que todo mundo têm direito a essa proteção.

A pergunta que fica é porque a classe média -- que tem muito mais recursos humanos e financeiros que as populações carentes -- não está se organizando pra demandar que essa proteção exista e seja efetiva para todos. Eu não tenho resposta a essa pergunta, mas acho que a classe média ia se beneficiar muito se parasse de tentar se diferenciar das classes baixas com esse discurso de "nós temos mais direito a isso do que eles", e tentasse juntar forças com ONGs e "o pessoal de direitos humanos" para lutar por um estado de direito efetivo pra todo mundo no país.

E eu tenho quase absoluta certeza que eu estou certa sobre isso também...

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Um sábado na vida de uma pseudo-brasileira

Pois é. Agora que é oficial que eu estou deixando de ser brasileira, resolvi fazer algo sobre o assunto. Tive um sábado tipicamente brasileiro, pra tentar recuperar minha brasilidade (é essa a palavra?)

O dia começou com uma corrida na praia, sem quatro camadas de roupa, mas com quatro camadas de protetor solar.


Ainda assim, não consegui bater minha irmã no bronzeado. Está mais claro do que nunca qual de nós duas vive no Canadá.


Depois disso, o almoço. E a festa já começa na cozinha


E, como não poderia deixar de ser, o almoço conta com a família quase toda (quem está ao alcance do olhos está automaticamente intimado a comparecer)




A comida aqui é sempre divina (e sábado não foge à regra). Comi um bacalhau delicioso



Guaraná diet com melão



E figo de sobremesa



Minha contribuição para o almoço foi medir o açucar de quem quisesse ter seu açucar medido (que é mais idissioncrasia minha, do que um hábito canadense ou brasileiro...)





Durante a tarde, fiz o que todas mulheres brasileiras fazem: fui no cabelereiro.





E para quem ainda acha que é superficialidade de classe média ir ao cabeleleiro, me digam se vocês ainda pensam isso depois de ver esse antes e depois:



De noite, uma boa pizza, com amigos de Brasília que não via há tempos!




Terminei o dia com uma certeza: se eu virar uma barata, acho que consigo reverter de volta pra brazuca...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Um barzinho e uma boa birita, sem violão

Sexta-feira a noite, estou indo pra um bar com minha família. Pela conversa, ainda em casa, a noite promete:

- Você consegue sentir meu perfume?, pergunta minha tia.
- Não, respondo eu.
- Pois é. Comprei esse perfume caríssimo, passei litros e mais litros e nada de cheiro.
- Você só precisa passar perfume onde quiser ser beijada, segundo Coco Chanel.

A sabedoria (ou audácia) da minha mãe -- que entrou na conversa de supetão, com uma frase inesperada -- deixa todo mundo em silêncio. Minha mãe quebra o gelo apontando para o fato de que tanto eu quanto minha tia estávamos de listras, no melhor estilo Coco Chanel. Achei que listras a la Coco Chanel estavam de bom tamanho para uma acadêmica que pouco se preocupa com estilo e moda, e resolvi não pensar onde eu tinha passado perfume...

Saímos em direção ao bar.

Três mulheres bem informadas andando por ruas escuras em uma cidade no Brasil. Não deu outra: começamos a discutir a possibilidade de sermos assaltadas. Era alta, todas concordavam. Minha tia propõe que devemos voltar de táxi. A proposta se perde no meio de histórias de horror sobre assaltos a todos os membros da família. No meio dos relatos (que apenas reforçaram minhas impressões de estar em uma zona de guerra), minha mãe declara:

- Tenho dez reais.
- Tenho vinte, responde minha tia.
- Gente, se alguém assaltar a gente eles vão levar tudo, não só o dinheiro, respondo eu.

Minha mãe calmamente explica que elas estava discutindo se tinham dinheiro para voltar de táxi. E eu resignadamente pensei que ainda tenho um longo caminho a percorrer antes de conseguir acompanhar esse raciciocínio não linear das mulheres. Porque devo eu ligar a frase sobre dinheiro à proposta de pegar um táxi (que tinha se perdido há algum tempo na conversa) e não aos relatos de assalto que precederam a frase? Não sei. Preciso de um estágio intensivo nessa conversa arbustiva...

Chegamos ao bar. Típico boteco brasileiro: muitas mesas de madeira na calçada, e muita gente nas mesas. Um calor agradável para alguns, mas excessivo para outros. Ainda assim, as pessoas não se acanham com as altas temperaturas e a falta de ar condicionado: há fila para pegar mesas. Todos querem curtir a sexta-feira a noite no boteco com ventiladores da década passada.

Enquanto esperamos, minha tia reclama que desde que minha avó morreu não se joga mais baralho na família. Eu fico sem poder oferecer ajuda: não sei jogar cartas. Resta-nos, portanto, nos afogar na bebida, já que não dá pra jogar baralho e não ganhamos na loteria.



A tradição da família, todavia, não é apenas beber. Há que se beber, e se resolver os problemas do mundo ao mesmo tempo. E hoje não foi diferente. Começo a conversa perguntando porque a educação no Brasil não melhora. Resposta: está melhorando. Há mais pessoas prestando vestibular. Há quotas nas universidades. E há um mercado sedento por profissionais qualificados. Ou seja, tanto os incentivos quanto as oportunidades estão lá.

Eu pressiono mais: mas essas mudanças são muito pequenas! Quero saber porque não se promove uma reforma radical no ensino básico no Brasil. Por que não elegem um Presidente que promete erradicar o analfabetismo? Minha tia sugere que é "uma bola de neve descendo a montanha": com a demanda por pessoas com ensino superior, o ensino básico tende a melhorar. Meu tio proclama que o mercado vai resolver tudo. Minha mãe responde com ceticismo: depois de ver mudanças na política educacional do Distrito Federal a cada quatro anos (quando um novo governador era eleito), ela perdeu a esperança de ver qualquer coisa coerente ser feita no setor. Segundo ela, político tem incentivo pra construir ponte, não pra reformar a educação. Para minha mãe, portanto, a reforma tem que vir de baixo, mas ela não sabe de quem.

Pausa para fotos.


O tópico muda para o estado calamitoso da cidade de São Paulo. Meu tio conta uma história de horror sobre uma enxurrada com muito lixo descendo a ladeira da rua onde ele mora, e ameaçando o carro dele. E propõe uma tese: ele acha que São Paulo está assim por causa da ocupação urbana descontrolada (que aterrou várzeas de rios) e por causa do lixo acumulado nas ruas, que entopem os esgotos. Minha tia defende a idéia de que excesso de asfalto impede a absorção de água.

Nesse meio tempo, minha mãe olha para meu segundo copo de pinga, e me lança um olhar reprovador. Eu como mais um pedaço de toucinho e respondo:

- Que foi? Virei diabética (o que me impede de tomar cerveja), mas não virei monja.


- Párem a nave, que eu quero descer, responde minha mãe.



Todos riem e voltamos a São Paulo. Eu apresento minha tese: eu acho que o problema todo foi a falta de reforma agrária. Reação da mesa: todos de cabelo em pé. Explico ao leitor: reforma agrária é quase palavrão na minha família. Eu insisto no ponto: acho que a ditadura militar acreditava que desenvolvimento era produzido por industrialização. Eles promoveram, portanto, a mecanização da agricultura e fizeram investimentos massivos na industria de base. Resultado? Êxodo rural. Em nenhum lugar do mundo se encontra megalópolis como São Paulo e a Cidade do México. Se tivessemos feito reforma agrária, esse povo tinha ficado no campo e não tinhamos que lidar com crescimento urbao descontrolado.

Eu sabia que a resposta ia ser dura. Afinal, minha família é classe média, não classe baixa. Não deu outra.

Meu tio responde prontamente: - Isso parece discurso de estudante petista, Mariana. Você não vai mudar o mundo. As coisas não são simples assim.


Eu esclareço: - É uma análise histórica, não atual. Não sei qual o impacto que reforma agrária iria produzir no país agora, ainda que eu ache que poderia ajudar a reduzir os níves indecentes de desigualdade de renda...


Resposta unânime: - Não. Isso não ia resolver o problema. As pessoas pegam os lotes, revendem e mudam para a cidade do mesmo jeito. Brasileiro não tem uma cultura de trabalho e esforço. Brasileiro tem uma cultura de tentar conseguir almoço de graça.


Eu pergunto: - Se o problema é cultural, como resolver?
- Cultura não é imutável, responde minha tia.
- Acho que o problema é que aqui é muito quente, diz meu tio.
- O Brasil precisa de educação, é a resposta de todos.

Eu volto à minha pergunta original: se todos estão de saco cheio com os problemas do país (como que tenho a impressão que estão) e se todos concordam que devemos investir na educação, porque isso não está acontecendo? Meu tio sugere que as elites no poder querem apenas garantir benefícios próprios. Minha tia sugere que esse papo de elite no poder é coisa do passado. Meu tio insiste que países desenvolvidos não querem ajudar os países pobres, mas sim se aproveitar deles. Eu digo que, ainda que isso seja verdade, não temos uma explicação de porque o Brasil não está ajudando a si mesmo.

- Porque não estamos investindo mais em educação?
- Porque é muito complicado, diz minha tia.
- Complicado como?, pergunto eu.

Daí todo mundo virou a mesa. Decidiram perguntar o que eu achava. Queriam saber se o Canadá tinha problemas. Eu disse que sim: desde problemas políticos (o primeiro ministro fechou o parlamento), problemas de criminalidade urbana, acidentes de trânsito (14 pessoas atropeladas em Toronto só no mês de fevereiro), até problemas com sindicatos e monopólios de telecomunicações mal regulados. Mas ainda assim é um país com um nivel de desenvolvimento humano (IDH) altíssimo.

Minha tia repete a pergunta: - O que você acha que devemos fazer no Brasil? E acrescenta:- Se você colocar qualquer coisa no seu blog, vou avisar seus leitores que você já tinha tomado três doses de pinga!

Para não ser desacreditada por alto teor alcóolico, vou deixar minha opinião sobre os problemas brasileiros para uma outra oportunidade. Mas vale relatar que toda a família chegou em casa pouco perfumada, mas sã e salva.

Deixando de ser brasileira...

Minha mãe já vinha corrigindo meus erros de português há algum tempo (depois de tanto tempo fora do país, a gente começa a perder a língua). Na quarta-feira, achei que estava em uma zona de guerra quando assisti ao noticiário. Ontem a noite, foi a vez de me surpreender com a minha incapacidade de correr nesse calor.

Corri no fim do dia, quando o sol já tinha baixado e a brisa estava mais fresca, mas não adiantou. Tive que ir devagar: quase um minuto a mais para cada quilômetro que corri. E tive uma dificuldade imensa de completar meros 5km, que já viraram fichinha perto das distância que as meninas do clube de corrida me fazem correr. Os 5km podem ser fichinha com temperaturas abaixo de - 27 graus celsius, mas não acima de + 27 graus celsius.

Dizem que os ser humano é capaz de correr longas distâncias por causa da capacidade de suar (que outros animais como cavalos não têm). Minha capacidade de suar estava a todo vapor ontem (literalmente), e ainda assim eu acho que eu não conseguiria bater um vira-latas, seja na distância seja na velocidade. Quem diria um cavalo. Porém, antes de eu usar minha experiência de ontem para questionar todas as pesquisas científicas que concluem que seres humanos foram feitos para correr longas distâncias, vou lançar minha modesta hipótese: acho que eu simplesmente estou deixando de ser brasileira. Os indícios já estavam aí faz algum tempo, mas agora é oficial.

Só espero que eu não vire uma barata.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Não estou sozinha no mundo

Há mais gente que pensa que mulheres e homens são diferentes. E não é só por causa do estilo arbustivo da conversa ou do padrão não linear de pensamento...


CONTARDO CALLIGARIS


A lealdade das mulheres

Basta olhar as filas das visitas nos presídios para saber que lealdade não é qualidade masculina


NA TARDE de quinta-feira passada, estive no Presídio Feminino do Butantã, situado na rodovia Raposo Tavares, longe do bairro paulistano do Butantã.
Aconteceu assim: antes do fim de ano, Wagner Paulo da Silva, que eu não conhecia, me escreveu explicando que ele organizava um grupo de leitura regular para detentas desse presídio. O grupo (mais ou menos 25 mulheres) tinha discutido uma de minhas colunas; quem sabe eu me dispusesse a proporcionar um "encontro com o autor"?
Soube depois que Wagner da Silva e Durvalino Peco animam há anos esse grupo de leitura para detentas do presídio do Butantã e, agora, com o apoio do Estado de São Paulo, estendem o programa a 26 penitenciárias da região metropolitana (para isso, eles promovem, na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, um curso gratuito de formação de mediadores -as inscrições já estão encerradas, mas vale a pena conferir: www.fespsp. org.br/leiturativa/).
Enfim, voltando das férias, liberei uma tarde para aceitar o convite e encontrar minhas leitoras. Ficamos conversando mais ou menos duas horas, e saí de lá com algumas reflexões. Eis uma delas.
A prisão, para as mulheres, é uma punição mais severa do que para os homens, e a causa dessa diferença é um atributo feminino.
Claro, há homens leais e mulheres desleais, mas, em regra, a lealdade é uma qualidade mais feminina do que masculina. Não estou pensando na fidelidade amorosa e sexual -nesse campo, homens e mulheres são capazes das mesmas "traições". Penso numa lealdade mais fundamental, que uma comparação vai explicar facilmente.
Em dia de visita numa penitenciária masculina, a fila de mulheres (esposas, mães, filhas, irmãs) é longa: facilmente, é mais de uma visita feminina por cada preso.
Em dia de visita numa penitenciária feminina, a fila é curta e, em sua grande maioria, composta pelas mães das detentas; os homens aparecem num número irrisório. Sei lá, por 700 mulheres no presídio, uma dúzia de gatos pingados visitando. Os homens se esquecem de suas companheiras assim que as portas do presídio se fecham sobre elas. Abandonada pelo companheiro ou marido, a mulher (outra prova de lealdade) prefere duvidar de si: será que o marido nunca comparece porque ela não é, nunca foi, a mulher que ele queria?
A deslealdade masculina aparece também quando os homens são presos; eles são bem felizes de receber a visita das mulheres que voltam a cada semana, lealmente, anos a fio, mas, com frequência, se esquecem dos filhos que deixaram fora do presídio.
As mulheres presas, ao contrário, só pensam nas crianças que estão lá fora (em geral, com a avó; quase nunca com o pai). E, de novo, a lealdade com as crianças as leva a duvidarem de si mesmas: no dia em que sairão do presídio, os filhos não as reconhecerão, ou então, de qualquer forma, eles já gostam de avós, vizinhas, tutores e tutoras mais do que delas -e por aí vai.
Facilmente, as mães detentas vivem o afastamento das crianças não como consequência da punição pelos crimes que elas cometeram, mas, bem mais sofrido, como punição por elas não "merecerem" ser mães -como se os filhos estivessem longe porque elas não souberam e não saberiam ser mães.
As mulheres, qualquer criminologista sabe, agem criminosamente por razões diversas das dos homens. Em regra, matam por paixão amorosa; quando traficam ou assaltam é, frequentemente, para acompanhar o parceiro. Com isso, a prisão feminina é uma espécie de pena do talião: crimes cometidos por amor são punidos pelo sumiço dos homens amados e pelo medo da perda do amor das crianças.
Na época em que trabalhei em instituições psiquiátricas fechadas, quando o expediente terminava e estava na hora de ir embora, no fim do dia, eu era acometido por uma tristeza profunda. Acabava de compartilhar um bom tempo com os que estavam lá internados, e eis que, agora, eu ia embora, para uma casa, uma companhia, o convívio dos amigos. E eles, não; eles ficavam. A tristeza era uma espécie de culpa por abandoná-los no que era, de fato, uma desolação. Pois bem, ao sair da penitenciária do Butantã, não senti nada disso, pois não havia desolação. Não teria como fazer elogio maior à direção do presídio, à equipe que lá trabalha e às detentas que encontrei, pela resiliência de sua vontade de viver.

ccalligari@uol.com.br

Estamos só afundando num poço de problemas?

Voltar para o Brasil é como voltar para uma zona de guerra. O noticiário da hora do almoço começa repleto de notícias sobre mortes e perdas materiais causadas pelo temporal em São Paulo na quarta-feira. Quando termina essa notícia, entra o comercial. Respiro fundo, me perguntando como o governo deixou a cidade chegar nessa situação calamitosa. Enquanto isso, espero por algo mais esperançoso no quadro seguinte. Daí vem a notícia de uma turista alemã de 22 anos assassinada a quatro tiros depois de um sequestro no Recife. Entrevista com o delegado: estão investigando o marido. Penso comigo: sério? Em uma das cidades com um dos mais altos índices de homicídios per capita do mundo a polícia começa a investigação pelo marido? Seria engraçado, se não fosse trágico.

Tópico seguinte? Carnaval. Algo mais ameno, penso. Doce ilusão. O apresentador divulga o saldo de mortes nas estradas durante o feriado: entre 0h de sexta-feira e meia-noite da quarta-feira ocorreram 3.233 acidentes com 143 mortes e 1.912 feridos. Isso inclui um motoqueiro que eu vi na pista contrária da rodovia imigrantes, na vinda pra Santos na quarta-feira de manhã. E como se não bastasse o número assustador, o apresentador acrescenta o mais recente acidente (que não entrou na estatística do carnaval porque aconteceu hoje): um acidente com ônibus em Niterói matou todos os ocupantes, incluindo uma criança de 10 anos. O ônibus bateu em um poste e explodiu. O único sobrevivente conseguiu escapar pela janela.

A essa altura, já desisti de respirar fundo e estou me perguntando como que as pessoas conseguem viver nessa realidade sem se perguntar como deixamos a coisa chegar nesse ponto. Me dá a impressão de um país anestesiado. Para alguém que vem de fora, tudo isso choca. Para quem vive aqui e vê isso todos os dias, já faz parte da realidade. Deixou de chocar. Deixou de incomodar. Deixou de ser aberração e passou a ser parte do cotidiano. Que fazer? No final do noticiário toma-se outro café, acompanhado de um bom quitute. Afinal, há coisas boas no país: come-se e bebe-se aqui como no paraíso.

Mas eu pergunto se a culinária é a única coisa que nos resta. Será? Não há sequer uma única coisa que possa reavivar minha (pequena) esperança de que dias melhores virão? Saí em busca de algo que pudesse me reanimar. Encontrei? Não sei. Tudo depende da interpretação. Apresento minha lista, mas vou deixar que meu leitor avalie por si mesmo.

Meu conselho: se você não for brasileiro e/ou não estiver anestesiado, antes de ler, respire fundo (ou tome uma dose de uisque).

1) O governador (afastado) do Distrito Federal e mais cinco pessoas estão presas por se envolverem em um esquema de corrupção. Isso significa que tem pelo menos um jornalista que acha mais importante limpar o governo que ganhar uma bolada pra mentir, e temos cortes superiores que não se dobraram diante da politicagem clientelista e corrupta que domina alguns entes da federação (pelo menos até o presente momento...).

2) Estão oferecendo proteção do governo para um dos criminosos envolvidos no assassinato do João Helio. O assassino era menor na época do crime, e foi colocado em uma instituição para jovens e crianças (ao invés de ir para a cadeia). Teve que ficar numa ala separada, devido às ameaças de morte. Agora ele completou 18 anos e, com sua saída, o estado teme que ele seja morto. Portanto, o governo vai garantir proteção à sua vida. Isso significa que ainda temos Estado de Direito, e ainda que algumas pessoas se comportem como se o Brasil fosse o velho oeste, o Estado (com a ajuda de uma ONG) está tentando mostrar que isso aqui não é terra de ninguém. Até que se promulgue leis dizendo que vigora o "olho por olho, dente por dente" ou que temos pena de morte no país, essas condutas precisam e devem ser coibidas.

3) Há um programa para incentivar leitura na prisão. O programa começou com um projeto piloto de uma ONG em um presídio feminino e fez tanto sucesso que agora é financiado pelo governo e foi copiado em várias outros presídios do Estado. (O texto, infelizmente, só está acessível para assinantes da Folha, mas tem informações sobre o programa na internet). Acho que isso mostra que a sociedade civil está mais preocupada com a idéia de que presídios devem promover a recuperação e reabilitação dos indivíduos para integrá-los na sociedade, e o Estado está subscrevendo a isso, oficialmente reconhecendo as iniciativas bem sucedidas.

Enfim, estamos aos poucos chegando mais perto do que se chama o Estado de Direito. São passos de formiga, mas acho que todas essas três notícias são razões para mantermos a esperança. Meu leitor poderia argumentar, todavia, que nosso sistema político não está evoluindo tanto quanto nosso sistema legal. As políticas públicas (promovidas pelo poder executivo) para prevenir acidentes nas estradas, inundações catastróficas, escândalos de corrupção inacreditáveis, e um nível de violência urbana acima de qualquer limite aceitável não existem (ou se existem, é como se não existissem). Para chegar a essa conclusão, basta ver o noticiário.

Minha resposta? Acho que mesmo na área de políticas públicas há motivos para esperança. E aqui também eu encontrei um item para a lista. Depois de eu tanto reclamar sobre as pessoas fazendo xixi nas ruas do Rio, e depois de outros reclamarem junto comigo, o governo do Rio decidiu fazer alguma coisa: começou a prender quem estivesse fazendo xix na rua e ao mesmo tempo ofereceu condições para que os mijões cumprissem com a lei. Mijódromos holandeses para homens foram instalados em toda a cidade.

Ou seja, ainda há razões para se ter esperança. Não muita, mas há. E para manter sua esperança, ajuda bastante não ler o jornal ou assistir o noticiário...


Visitando a família...

...com meu novo MacBook. Isso significa que a gente se divertiu com o novo photo booth (que continua sendo uma razão, dentre muitas outras, para se comprar um Mac).


Eu e minha irmã usamos e abusamos da "casa de espelhos"





Daí eu minha mãe e minha irmã experimentamos os efeitos de cores, tipo sépia,
e os novos fundos (que são meios complicados de usar, como vocês podem ver)

mas a gente conseguiu usar no final (exceto pelo sombra da minha cabeça no canto superior direito da tela)




quando meu pai chegou, a gente já tava craque e saiu finalmente a foto para a posteridade!





quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Tecnologia: solução para os problemas do mundo?

Semana passada era o fio dental. Essa semana, tecnologia parece ser a panacéia.

Tradução de um parágrafo de um dos textos que eu dei para meus alunos essa semana no curso de desenvolvimento:

"George Orwell no seu livro 1984 e Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo sugeriam que tecnologia era um inimigo da liberdade e uma ferramenta do totalitarismo, mas a história seguiu um curso diferente. A tecnologia eletrônica moderna devia supostamente ter feito o Big Brother (Grande Irmão no livro de Orwell) onipotente, impondo o monitoramento que gerava nossa submissão; mas ao invés disso ela nos permitiu tornar o Big Borther impotente. Máquinas de fax, video cassetes, e a rede de TV CNN demonizaram e paralizaram ditadores e tiranos, acelarando o processo de destruição desses regimes. Como diz um ditado popular, o PC (personal computer) virou o leito de morte do CP (partido comunista, em inglês)."

E os exemplos para ilustrar isso são vários. A Revolução Laranja na Ucrânia, por exemplo, pode atribuir boa parte do seu sucesso à internet e telefonia celular. Na China, ainda que a revolução democrática não tenha acontecido,grande parte da resistência ao regime é possibilitada por tecnologia. E a lista vai longe (procure no Google).

Isso significa que aqueles jovens que querem mudar o mundo e estão prestando vestibular hoje deveriam ir fazer engenharia e não direito. As faculdade de direito estão cheias de gente que está pronta para lutar por justiça, mas não sabe como. E o direito até agora não se provou um instrumento muito efetivo para fazê-lo. Talvez isso explique porque a maioria entra na faculdade querendo mudar o mundo, e sai de lá querendo passar em um concurso público ou ganhar rios de dinheiro em um escritório de advocacia. Tecnologia, por outro lado, está aí mostrando serviço...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Diversão e arte

Final de semana passado estive em Ottawa, a capital do Canadá. A cidade é uma mistura de Brasília com Washington: tem bastante espaço e áreas verdes, como Brasília; mas ao mesmo tempo é mais amigável para pedestres e pessoas que gostam de passar a pé, como Washington. Tem, todavia, poucas opções para diversão, como Brasília. Mas quem precisa de diversão se a gente tem arte?

E foi arte o que eu vi o fim de semana todo. O Winterlude, festival de inverno, tinha uma vasta exposição de esculturas de gelo,


que ia de coisas gigantescas e monstruosas (literalmente)


até coisas super detalhadas e trabalhosas

Todavia, com a temperatura abaixo de 10 graus celsius, não dá pra ficar muito tempo vendo esculturas de gelo.

A Galeria Nacional de Arte foi, portanto, a próxima parada. Já na entrada, uma escultura gigantesca de uma aranha


que aparentemente foi inspirada na mãe do artista


(só espero que o sujeito esteja fazendo terapia...).

Dentro do museu não dá para tirar fotos. Mas eu fiquei impressionada com a coleção que eles tem do Duchamp e do Pollock, que me fizeram rememorar minhas aulas de artes e as discussões sobre o que é arte ou o que não é arte. Só pra refrescar a memória de vocês: o Duchamp é aquele cara que colocou numa exposição um mictório assinado. O Pollock é aquele que jogava tinta energeticamente (e, segundo alguns, aleatoriamente) em telas gigantescas.

Depois de ver essas obras, fiquei pensando se o Duchamp iria propor de colocar no museu os posters do restaurante onde comi um delicioso brunch:



Talvez. Mas se o Duchamp propusesse colocar meu brunch no museu eu ia protestar: arte tem que ser devidamente apreciada. E eu não consigo apreciar meu brunch fora do meu estômago....

Depois de ver tanta arte, estou agora de volta aos livros, me consolando com os dizeres de Cícero, dispostos na entrada de uma livraria na frente da Galeria Nacional de Arte:


Talvez eu só acrescentaria, no final da frase (além da biblioteca e do jardim), " e um museu na esquina".




sábado, 6 de fevereiro de 2010

Fio dental: solução para os problemas do mundo?

Essa semana o tema foi medicina. O mais interessante foi que o assunto surgiu em locais relativamente inesperados. Ou seja, não tive nenhuma consulta médica essa semana. Nem ninguém ficou doente. Ainda assim, na terça-feira, durante o workshop de direito e economia, surgiu um debate acalorado sobre os gastos com medicamentos e saúde nos E.U.A.

O workshop é onde pesquisadores apresentam as pesquisas em andamento, e recebem perguntas e questionamentos que podem ser úteis no futuro. A idéia básica é que se você está errado sobre algo (o que ocorre frequentemente com pessoas que ficam tentando criar teorias sobre tudo, tipo acadêmicos), você deveria saber disso antes publicar seu artigo. Para evitar o problema, os acadêmicos apresentam seus rascunhos em workshops e em conferências. A idéia é que nessas apresentações você pode receber críticas e evitar quase todo tipo de situação embaraçosa depois da publicação.

Pois bem. Na terça-feira o workshop foi sobre medicamentos genéricos. O pesquisador, um professor da Universidade de Columbia nos Estados Unidos, está fazendo uma pesquisa super interessante sobre a disputa por patentes entre fabricantes de medicantos genéricos. O argumento central do artigo é que as disputas sobre patentes está fundamentalmente relacionada a dois fatores: (i) volume de venda do medicamento; (ii) “qualidade” da patente. Ou seja, quanto mais um medicamento vende, maior a probabilidade de que os fabricantes de genéricos questionem a patente. Além disso, quanto mais “fraca” a patente, maior a probabilidade da patente ser questionada também.

O argumento do artigo é um pouco mais complexo que isso, mas o importante é que no meio do seminário um professor do departamento de economia levantou a mão e perguntou quanto dinheiro estava sendo gasto nessas disputas judiciais. A resposta do pesquisador foi: provavelmente dois bilhões de dólares ao ano (note que isso é apenas o dinheiro gasto com custas judiciais das disputas). O professor questionou, então, porque estávamos gastando tanto nessas disputas ao invés de financiar vacinas contra malária e infrasestrutura para fornecer água potável para as pessoas na África. O comentário gerou um intenso e acalorado debate. A primeira reação foi de um outro economista, que argumentou que a expectativa de vida atual na América do Norte era em grande parte resultado desses medicamentos. A resposta cética do primeiro foi: eu conheço várias pessoas que estão sendo mantidas vivas graças às maravilhas de medicina atual, mas sinceramente acho que elas estariam melhor a sete palmos abaixo da terra.

A pergunta que se seguiu foi se estamos de fato financiando o prolongamento da vida de pessoas na América do Norte (ou em países desenvolvidos em geral) às custas de vidas na África. Uma das respostas foi um sonoro não. As empresas farmacêuticas estão aqui pra fazer dinheiro. Aliviar o sofrimento das pessoas na África não dá dinheiro. Portanto, caso o governo norte-americano proibísse esse tipo de disputa (e os gastos incorridos) sobre patente de medicamentos, esse dinheiro não iria ser imediatamente revertido para a fome da África.

A resposta me lembrou de um comentário no meu blog, quando eu coloquei um post sobre a reforma do sistema de saúde nos Estados Unidos. Meu primo, que é médico, disse:

[Sobre a reforma da saúde norte-americana]
A medicina tal como praticada nos EUA é um motor de conhecimento, um colosso, gera e incorpora tecnologia quase instantaneamente. Mas está ficando impagável, em boa parte pelo dispêndio no cuidado especializado do final da vida, largamente irrelevante. A questão não é apenas estender a cobertura para os que não podem pagar (ampliar o medicaid, por exemplo), mas como desacelerar esse motor, de maneira moralmente aceitável para a sociedade norte-americana.

Isso sugere que deixar de gastar dinheiro com essas disputas poderia não apenas salvar vidas na África, mas poderia custear assistência médica para muita gente nos Estados Unidos que atualmente não tem acesso ao benefício...


O debate foi animado, como vocês podem imaginar, mas em um certo momento decidimos voltar ao artigo e a questão ficou no ar.

Daí na quinta-feira eu fui no dentista fazer uma limpeza nos dentes. O que era para ser uma visita de rotina acabou se tornado uma conversa muito interessantes sobre diabetes e higiene bucal. A técnica que fez a limpeza me perguntou se eu estava passando fio dental todos os dias. Como uma boa advogada, eu evitei a questão. Daí ela deduziu que a resposta era não, e falou que eu precisava fazer isso todos os dias. Eu disse que eu sabia disso na teoria, mas colocar a coisa em prática era diferente de saber a coisa na teoria (os acadêmicos que o digam!).

Ela perguntou então se eu sabia da correlação entre higiene bucal e diabetes. E me disse que recentemente tinha saído um artigo em uma revista renomada ligando higiene bucal com diabetes. O argumento, segundo ela, era que falta de higiene bucal agravava os sintomas da diabetes. Minha resposta foi: se isso for verdade, você pode ter certeza que eu vou passar fio dental todos os dias. Eu não tomo muito cuidado com meus dentes, mas eu tomo MUITO cuidado com minha diabetes!

O problema foi que o incentivo para passar fio dental todo dia se esvaiu no momento em que eu fui ler o referido artigo. É verdade que as pesquisas mais recentes têm achado correlações entre falta de higiene bucal e doenças coronárias e diabetes. O problema é que correlação não implica causalidade. Ou seja, os estudos indicam que pessoas com pouca higiene bucal são mais propensas a terem infartos ou desenvolverem diabetes. Mas isso não significa que essas pessoas têm infartos ou diabetes porque elas não passam fio dental.

Até o momento, a literatura médica apenas provou que havia uma correlação. Mas correlações podem significar muito pouca coisa. Por exemplo: existe um estudo mostrando que a maioria dos países que ganharam as taças da copa do mundo de futebol são países com um sistema legal chamado civil law. Esse sistema é baseado em leis, diferentemente do sistema da common law, que é baseado em casos decididos pelos tribunais. Exemplos de países que tem civil law: Alemanha, Argentina, Brasil, França e Itália. Exemplos de países que tem common law: Austrália, Canadá (exceto Quebec) e Estados Unidos. Essa correlação, todavia, nao significa que um sistema jurídico produz melhores jogadores de futebol do que o outro. Ou seja, correlação não prova causalidade.

Portanto, o fato de que pessoas que tem pouca higiene bucal estão mais propensas a sofrerem infarto ou desenvolverem diabetes pode ser simplesmente consequência do fato de que essas pessoas não cuidam bem da saúde em geral. Mas isso não significa que elas desenvolveram essas doenças porque não passaram fio dental. Ou seja, os estudos provam correlação, mas não causalidade.

Espero que seja só o pessoal do consultório onde eu fui que esteja cometendo esse erro de confundir correlação com causalidade. Senão, daqui a pouco as pessoas vão estar argumentando que ao invés de investir em remédios para tratar de Parkinson’s nos Estados Unidos, ou malária na África, a gente devia estar distribuindo fio dental pelo mundo…