No teto da capela Sistina, por exemplo, ele decidiu representar a história do fruto proibido de maneira distinta de como nós a conhecemos. Normalmente, colocam a culpa da expulsão do paraíso na Eva. Todavia, Michelângelo criou uma cena em que Adão está ativamente pegando a maçã da árvore, sugerindo que cada pessoa é responsável pelos seus atos. As feministas de plantão agradecem!
Já no painel do dia do julgamento final (veja a foto lá embaixo), ele decidiu colocar seus amigos no céu e os inimigos no inferno. Portanto, a cena tem um significado bíblico, mas os rostos representados são de personagens que não apenas viviam naquela época, mas que era afetos ou desafetos do artista. Eu fico imaginando porque alguém ia comprar briga com um artista deste porte, se o risco era ser imortalizado de uma maneira pouco elogiosa.
Outra coisa que salta aos olhos são as cenas em que Michelangelo parece estar provocando a igreja católica. Por exemplo, ao contar a história da criação do mundo, ele não mostra Deus criando o homem. Na famosa imagem, Deus torna o homem divino ao tocar nele, mas – como Darwin esclareceu alguns séculos depois -- o homem já existia, estava vivo e passava muito bem, obrigado.
Outra provocação (ou brincadeira, se preferirem) são as expressões nos rostos das pessoas representadas na cena do juízo final. Notem que as pessoas que estão indo para o paraíso não parecem estar tão felizes como deveriam. E as pessoas no inferno também não estão tão tristes. O quadro parece sugerir que as pessoas devem pensar duas vezes antes de se comprometerem com essa idéia de evitar ir para o inferno a qualquer custo. E com certeza ele próprio estava arriscando sua sorte – caso ele acreditasse em algo da religião católica – ao pintar essas coisas dentro da capela privada do Papa.
Dizem que Michelangelo pôde tomar todas essas liberalidades porque ele era muito famoso e o Papa teve que fazer concessões para convencê-lo a ir para Roma trabalhar no Vaticano. Michelangelo morava em Veneza na época, que era um centro artistico. E basicamente não tinha nada interessante acontecendo em Roma. Portanto, quando o Papa fez o convite, Michelangelo recusou, alegando que ele era um arquiteto e escultor, não um pintor. A condição que ele impôs para ir para Roma foi que ele ia pintar a história da criação do mundo na capela Sistina e não retratos dos Papas, como o Papa queria. O sujeito tinha que ter muito poder, ou muita coragem, ou ambos pra bater de frente com o Papa desta forma. E é interessante ver que, mesmo como escultor, ele também tomou suas liberdades. Por exemplo, a Pietá retrata uma Maria muito maior que Jesus.
Se vocês olharem para a Pietá e imaginarem as duas figuras de pé, vão ver que Maria é tão grande quanto um jogador de basquete ou de futebol americano. Reza a lenda que Michelangelo fez isso de propósito: ele queria mostrar que para Maria, a mãe, Jesus sempre seria uma criança. De novo, lá vai o Michelangelo mexendo (não sei se ironicamente, respeitosamente, ou criativamente) com as crenças e valores católicos.
Todo mundo sabe que o sujeito era um grande pintor, escultor e arquiteto. O que pouca gente sabe é que ele parecia ser um cara super interessante também. Li em um guia de turismo um depoimento de uma mulher que disse que ficou absolutamente sem palavras quando viu o David de Michelangelo (que eu não tive a chance de ver).
Disse ela que se pudesse ter um único pedido na Itália, pediria para que David fosse um homem real, vivo e solteiro. Eu, por outro lado, pediria que Michelangelo estivesse vivo – ou desse uma escapulida do inferno -- e topasse tomar uma garrafa de vinho comigo em uma piazza qualquer em Roma.


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