O tema dessa semana foi Chile. Estou com uma viagem marcada para Santiago em junho de 2010, mas as forças que regem o universo (ou o mero acaso, dependendo da preferência do leitor) passaram a semana inteira me ensinando coisas muito interessantes sobre esse país que ainda é, ao menos para mim, um grande mistério.
Sábado passado, durante uma festa, tive uma longa conversa com um chileno que tinha vivido no Chile, Brasil, Venezuela, e está há 19 anos no Canadá. Para ele, a grande diferença entre o Brasil e o Chile é que nós somos felizes. A tese dele é que o clima do Chile é frio, a cordilheira isola o país do resto do continente, e a população é relativamente homogênea. O resultado, segundo ele, é que os chilenos viraram um povo introspectivo, isolado e triste. No Brasil, em contraste, o clima é quente, o país é integrado com o continente inteiro (ou quase) e a diversidade étnica e cultural (graças à imigração e escravidão) é impressionante. Resultado: somos um dos povos mais felizes do mundo.
E os canadenses?, perguntei para o rapaz. Os canadenses estão no meio do caminho, disse ele. Quando chegou no Canadá, a impressão dele foi a de que os canadenses eram como os chilenos. Depois que ele conseguiu fazer amigos, todavia, ele viu que os canadenses eram bem mais felizes que os chilenos. O problema, disse ele, é que é muito difícil fazer amigos no Canadá. Quem leu meu post anterior consegue me imaginar na festa, segurando um copo de vinho e concordando enfaticamente com meu compatriota latino-americano. Perguntei para ele como ele fez amigos. Ele disse que só conseguiu fazer amigos depois de ter filhos. Segundo ele, há um processo intenso de socialização de adultos intermediado pelas crianças. Decidi ficar com meu clube de corrida, por enquanto...
Na terça-feira, tive uma reunião com alguns advogados chilenos que estão promovendo reformas no judiciário. Durante a reunião, listamos todos os problemas em comum que o Brasil e o Chile têm com o judiciário e o estado de direito como um todo. Mas eu parei um instante para perguntar se era verdade que o Chile era uma sociedade onde as pessoas obedeciam as regras diligentemente, sugerindo implicitamente que o Brasil não é. Os advogados chilenos concordaram que "tinham algumas diferenças" (afirmação que veio com uns sorrisinhos irônicos).
Mas foi um colega canadense quem melhor ilustrou o nivel de obediência às regras na sociedade chilena. Disse ele que encontrou no Chile, como no resto da América Latina, muitos vira-latas. Isso sempre impressiona os canadenses porque aqui não há gatos ou cachorros sem dono. Mas os cachorros chilenos tinham uma peculiaridade: obedeciam as regras de trânsito, como todo cidadão chileno. Ou seja, eles circulam somente pela calçada e cruzam a rua na faixa, quando o sinal está verde para os pedestres. Meu colega disse que ficou impressionado com as inúmeras vezes em que viu um grupo de pessoas e cães parados na esquina esperando o sinal fechar. Segundo ele, o Chile superou o Canadá, pois aqui se consegue treinar pessoas para obedecer regras de trânsito, mas não os cachorros. Não é a toa que o Chile tem um dos níveis mais altos de desenvolvimento da América Latina. Eles são um povo discipinado e disciplinante!
Na quinta-feira embarquei para Nova Iorque, onde vim encontrar uma amiga. Comprei uma passagem super barata na internet, e vim para NYC com uma companhia chilena de aviação, a LAN. Foi a primeira vez que viajei por essa companhia e a experiência foi, no mínimo, curiosa. Tudo começou no check-in. O sujeito perguntou se vou despachar bagagem e eu digo que não, vou levar a mala no avião. Ele pediu para pesar a mala e me disse que eu não posso levar uma mala de 12Kg dentro do avião. Eu simplesmente respondi: okay. Eu podia ter tentado conversar com o sujeito, mas em junho do ano passado eu já tinha tido uma experiência desagradável com a TAM, e minha expectativa é que não ia ser diferente com os chilenos.
Com a TAM, eu estava viajando com a mesma mala, que por acaso também estava pesando 12 kg. Eu estava embarcando de São Paulo para Assunción, no Paraguai, e a moça gentilmente me informou que eu não podia levar uma mala de 12kg dentro do avião. O limite para carry-on era de 5kg. Eu não esperava por aquilo: sempre que embarco de Toronto para Nova Iorque com uma empresa americana ou canadense eles só vêem o tamanho da mala, não o peso. Tentei usar o jeitinho brasileiro e expliquei que meu laptop estava dentro da mala e que eu preferia levar ela comigo. Ela respondeu que eu tinha que despachar a mala, mas não podia despachar o laptop. Eu argumentei que o laptop não cabia na minha bolsa. Ela deu de ombros. Resultado: viajei com o laptop na mão.
Voltando para a LAN. Eu devia ter previsto que a empresa latino-americana ia encrencar com o peso, mas eu simplesmente assumi que como eu estava indo de Toronto para Nova Iorque eles não iam pesar nada. Mas eles pesaram, e o limite para carry-on era 8Kg. E eu decidi não comprar briga porque eu sabia, depois da desagradável experiência com a TAM, que só ia me aborrecer. Depois do meu okay, o sujeito pergunta: tem laptop na bagagem? Eu falei que tinha, já me preparando para tirar o laptop e ter que carregar ele na mão de novo. Daí, pra minha surpresa, o sujeito responde: então tudo bem, pode levar a mala com você. Meu espírito brazuca ficou sem reação. Como assim?!? Eu nem pedi. Eu nem comecei a brigar. A gente nem bateu boca. Como você de repente advinhou que poderia ter um laptop na mala, entendeu que ia ser um problema tirar ele da bagagem, e me poupou de todo o aborrecimento de ter que tentar te convencer a me deixar levar a mala dentro do avião? Acho que o sujeito via na minha cara que eu estava absolutamente perplexa, sem entender o que tinha acabado de acontecer. Gentilmente, ele me explicou: se a mala tem laptop você pode levar dentro do avião porque é proibido despachar malas com laptops. Eu agradeci comedidamente, mas minha vontade era dar para ele um prêmio de civilidade, com direito a uma cerimônia com trompetas e toda a pompa e circunstância que a atitude merecia. Depois dessa, eu passei a acreditar que os cachorros de fato devem esperar o sinal para pedestres no Chile.
Daí, quando entrei no avião, descobri que o vôo estava indo para Santiago, com escala em Nova Iorque. Fiquei ainda mais feliz que o sujeito não tinha me obrigado a despachar a bagagem, pois havia uma alta probabilidade da minha mala parar no Chile, dado meu longo histórico de bagagens extraviadas. Mas o que me surpreendeu foi uma aeromoça me abordar e perguntar se eu estava indo para Santiago ou para Nova Iorque. Pensei com meus botões: como assim? Vocês não sabem se eu vou descer do avião em Nova Iorque ou não? Quer dizer que seu eu ficar sentadinha aqui sem falar nada posso passar o fim de semana no Chile? Por dez segundos, esse pensamento pareceu bastante atraente. Imaginem que aventura: passar o fim de semana em Santiago simplesmente porque eu não desembarquei do avião. Achei que podia dar uma história boa para o blog. Estava achando a idéia bastante atraente até pensar que provavelmente eu iria gastar alguns milhares de dólares para comprar uma passagem de volta, e decidi que era mais prudente descer em Nova Iorque mesmo. Respondi resignadamente para a aeromoça que eu ia desembarcar em Nova Iorque. Lá se ia minha aventura.
Passei dois minutos sonhando acordada com meu fim de semana no Chile, até que parei para pensar: como podia um povo tão civilizado, organizado, e desenvolvido ter uma companhia aérea que não sabe onde os passageiros vão desembarcar? Será que era uma pitadinha de latino-americanidade nesse ilha de excelência? Será que eu finalmente tinha achado alguma coisa em comum entre os chilenos e nosostros? Por um instante achei que sim. Porém, de repente, me ocorreu que talvez a aeromoça só quisesse se certificar onde eu estava sentada, para me acordar quando chegássemos em Nova Iorque, caso eu desmaiasse de sono (e acho que minha cara sugeria que eu ia de fato fazer isso). Acho essa interpretação mais condizente com todas as outras histórias que ouvi do Chile essa semana.
Em suma, o Chile parece ser de fato tudo que o Brasil quer ser um dia (ou pelos menos tudo o que EU queria que o Brasil fosse um dia...). Mas, segundo o chileno da festa, eles não são felizes. Caso a gente tenha que fazer uma escolha entre um desses dois (felicidade ou desenvolvimento), vai ser uma decisão difícil... Enquanto o momento da decisão não vem, vou ficar ansiosamente esperando minha viagem para esse lugar mágico, para ver pessoalmente se é tudo verdade.
Um comentário:
... como disse tia Ivanira, você escreve melhor que o Carlos Heitor Cony.
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