quarta-feira, 13 de agosto de 2014
sábado, 9 de agosto de 2014
O troco e a racionalidade
- Deu 27,80, senhora.
- Tá aqui, trinta. Pode ficar com o troco.
- Não, minha senhora. Pega o troco.
E em questão de segundos o sujeito sacou duas moedas de um real e duas de dez centavos. Estiquei a mão pensando: santo deus, lá vou eu voltar com um saco de quinhentas moedas pra Toronto de novo.
- Com dez trocos desses, as senhora paga outra corrida.
O ponto do taxista é muito válido. Na verdade, é uma das primeiras lições de qualquer curso de educação financeira: de pouco em pouco a galinha enche o papo. Aprendi isso em um curso em Toronto, na aula do muffin. A instrutora mostrou o preço de um muffin no Starbucks (uns Ca$2,50), e calculou quanto uma pessoa gastaria se comesse um por dia, de manhã de segunda a sexta-feira (5 x 2,50 = 12,50 por semana; ou 50 reais por mês) num período de 10 anos (52 semanas x 50 reais = 2600 por ano). E era uma quantia significativa. Tipo uns 25.000 dólares.
Lição do dia? Ao invés de ficar esperando ganhar na mega-sena, é melhor começar a contar as pequenas economias que se pode fazer no dia-a-dia, tipo não comer muffin no Starbucks e não deixar o taxista com o troco. (Confesso que não sei se você pode comprar um muffin com o troco que o taxista não aceitou - precisamos consultar um especialista).
Feliz com a idéia de que a população brasileira está começando a se familiarizar com princípios básicos de administração financeira, desço do táxi. Entro no avião e começo a revisar minhas notas de aula: "O agente racional auto-interessado busca maximizar sua utilidade individual". Essa é a premissa básica da aula que eu precisava dar assim que saísse do avião e ali estava eu, me deparando com uma situação que não parecia se encaixavar naquele modelo de racionalidade.
Se o taxista fosse um agente racional auto-interessado, teria embolsado o troco e agradecido. Portanto, como explicar para meus alunos que o modelo era válido? Seria o taxista irracional? Talvez eu pudesse inventar uma história de que era um hippie dirigindo um carro pelas ruas de São Paulo. Exceto que hippies em geral não são muito bons com princípios básicos de educação financeira - afinal, a filosofia deles é não se importar com dinheiro...
O taxista paulistano não era o primeiro a me deixar com um grande problema intelectual para resolver. Um carioca, uma vez, fez algo ainda mais inexplicável.
- São R$22,20.
Dei R$25 pra ele.
- A senhora não tem troco?
- Não tenho. Se o senhor não tiver troco, pode ficar com os R$25.
Ele imediatamente sacou a nota de 5 reais e esticou o braço insistentemente para devolvê-la.
- Não, não, minha senhora! A senhora fica com os 5 reais.
- Por que? perguntei confusa.
- Ora, porque é a senhora que vai perder mais dinheiro. Eu só perco R$2,20. A senhora ia perder R$2,80 se me deixasse com o troco.
Um era um hippie com educação financeira e o outro era o justiceiro do troco. Se alguém não tem troco, fica com a diferença quem ia perder mais dinheiro. Afinal, a outra partilha seria injusta, não? O problema dessas histórias é: como convencer meus alunos a acreditar em um modelo baseado em uma premissa de racionalidade, quando tem tanto louco no mundo?
A resposta, ao meu ver, é simples (apesar de eu ter demorado muito tempo para formulá-la...). A utilidade individual não se limita a ganhar mais dinheiro. Cada um tem uma utilidade diferente. Alguém que quer ser rico valoriza mais o dinheiro que outras coisas. Esse pegaria o troco. Mas o taxista paulistano claramente valoriza algo mais do que o dinheiro. Talvez mostrar o conhecimento dele de educação financeira seja mais importante para ele do que ficar com dois reais. Talvez o taxista carioca valorize mais a justiça do que a acumulação de riqueza. Portanto, ambos estavam maximizando sua utilidade individual e estavam portanto se comportando como agentes racionais auto-interessados.
Eu tinha acabado de salvar minha aula quando me ocorreu que a explicação poderia ser outra. Talvez ambos os taxistas tivessem ficado com o orgulho ferido de "receber esmola" de uma mulher jovem. Afinal, isso feriria o orgulho de qualquer machista. Portanto, a utilidade que ambos poderiam estar preservando ali era a superioridade dos homens sobre as mulheres. Um comportamento perfeitamente racional para cada um deles, mas bastante prejudicial para a sociedade como um todo. Portanto, já ficava ali o ponto de conexão com a próxima aula: a versão descritiva (o mundo é assim) e a versão normativa (o mundo deveria ser assim) do modelo.
Só espero que algum dia alguém escreva um livro sobre como as vezes há mais coisas a se aprender dentro de táxis do que dentro das universidades...
- Tá aqui, trinta. Pode ficar com o troco.
- Não, minha senhora. Pega o troco.
E em questão de segundos o sujeito sacou duas moedas de um real e duas de dez centavos. Estiquei a mão pensando: santo deus, lá vou eu voltar com um saco de quinhentas moedas pra Toronto de novo.
- Com dez trocos desses, as senhora paga outra corrida.
O ponto do taxista é muito válido. Na verdade, é uma das primeiras lições de qualquer curso de educação financeira: de pouco em pouco a galinha enche o papo. Aprendi isso em um curso em Toronto, na aula do muffin. A instrutora mostrou o preço de um muffin no Starbucks (uns Ca$2,50), e calculou quanto uma pessoa gastaria se comesse um por dia, de manhã de segunda a sexta-feira (5 x 2,50 = 12,50 por semana; ou 50 reais por mês) num período de 10 anos (52 semanas x 50 reais = 2600 por ano). E era uma quantia significativa. Tipo uns 25.000 dólares.
Lição do dia? Ao invés de ficar esperando ganhar na mega-sena, é melhor começar a contar as pequenas economias que se pode fazer no dia-a-dia, tipo não comer muffin no Starbucks e não deixar o taxista com o troco. (Confesso que não sei se você pode comprar um muffin com o troco que o taxista não aceitou - precisamos consultar um especialista).
Feliz com a idéia de que a população brasileira está começando a se familiarizar com princípios básicos de administração financeira, desço do táxi. Entro no avião e começo a revisar minhas notas de aula: "O agente racional auto-interessado busca maximizar sua utilidade individual". Essa é a premissa básica da aula que eu precisava dar assim que saísse do avião e ali estava eu, me deparando com uma situação que não parecia se encaixavar naquele modelo de racionalidade.
Se o taxista fosse um agente racional auto-interessado, teria embolsado o troco e agradecido. Portanto, como explicar para meus alunos que o modelo era válido? Seria o taxista irracional? Talvez eu pudesse inventar uma história de que era um hippie dirigindo um carro pelas ruas de São Paulo. Exceto que hippies em geral não são muito bons com princípios básicos de educação financeira - afinal, a filosofia deles é não se importar com dinheiro...
O taxista paulistano não era o primeiro a me deixar com um grande problema intelectual para resolver. Um carioca, uma vez, fez algo ainda mais inexplicável.
- São R$22,20.
Dei R$25 pra ele.
- A senhora não tem troco?
- Não tenho. Se o senhor não tiver troco, pode ficar com os R$25.
Ele imediatamente sacou a nota de 5 reais e esticou o braço insistentemente para devolvê-la.
- Não, não, minha senhora! A senhora fica com os 5 reais.
- Por que? perguntei confusa.
- Ora, porque é a senhora que vai perder mais dinheiro. Eu só perco R$2,20. A senhora ia perder R$2,80 se me deixasse com o troco.
Um era um hippie com educação financeira e o outro era o justiceiro do troco. Se alguém não tem troco, fica com a diferença quem ia perder mais dinheiro. Afinal, a outra partilha seria injusta, não? O problema dessas histórias é: como convencer meus alunos a acreditar em um modelo baseado em uma premissa de racionalidade, quando tem tanto louco no mundo?
A resposta, ao meu ver, é simples (apesar de eu ter demorado muito tempo para formulá-la...). A utilidade individual não se limita a ganhar mais dinheiro. Cada um tem uma utilidade diferente. Alguém que quer ser rico valoriza mais o dinheiro que outras coisas. Esse pegaria o troco. Mas o taxista paulistano claramente valoriza algo mais do que o dinheiro. Talvez mostrar o conhecimento dele de educação financeira seja mais importante para ele do que ficar com dois reais. Talvez o taxista carioca valorize mais a justiça do que a acumulação de riqueza. Portanto, ambos estavam maximizando sua utilidade individual e estavam portanto se comportando como agentes racionais auto-interessados.
Eu tinha acabado de salvar minha aula quando me ocorreu que a explicação poderia ser outra. Talvez ambos os taxistas tivessem ficado com o orgulho ferido de "receber esmola" de uma mulher jovem. Afinal, isso feriria o orgulho de qualquer machista. Portanto, a utilidade que ambos poderiam estar preservando ali era a superioridade dos homens sobre as mulheres. Um comportamento perfeitamente racional para cada um deles, mas bastante prejudicial para a sociedade como um todo. Portanto, já ficava ali o ponto de conexão com a próxima aula: a versão descritiva (o mundo é assim) e a versão normativa (o mundo deveria ser assim) do modelo.
Só espero que algum dia alguém escreva um livro sobre como as vezes há mais coisas a se aprender dentro de táxis do que dentro das universidades...
sexta-feira, 25 de julho de 2014
Sobre a polícia
Você acha que é só no Brasil? A polícia faz uso excessivo da força, mata inocentes e efetua prisões ilegais durante protestos no Canadá também. A diferença entre o Canadá e o Brasil, todavia, não é apenas a frequência com a qual tais problemas ocorrem, mas como o governo e a sociedade reagem a eles.
Dois exemplos de respostas a abusos pela polícia de Toronto:
1) Ontem, Toronto estava discutindo se o atual chefe da polícia deve ser reconduzido ao cargo. Discussão pública para determinar se ele fez um bom trabalho, e um debate acirrado sobre a questionável atuação da polícia (e consequentemente dele) ao repreender com violência e prisões ilegais os protestos na reunião dos G-20.
2) Hoje saiu o relatório propondo reformas no treinamento e preparação dos policiais para lidar com problemas que envolvem saúde mental. O relatório foi produzido depois que a polícia matou, no ano passado, com vários tiros, um jovem que estava armado com apenas uma faca em um bonde, tendo um surto psicótico.
Em suma, abuso e violência policial acontecem em vários lugares, não apenas no Brasil. A questão é: que medidas tomamos quando esses incidentes ocorrem? Punir quem agiu mal é importante (e os oficiais envolvidos nos dois casos foram condenados). Mas mais importante que isso é analisar que tipo de reformas são necessárias para evitar que esses problemas voltem a ocorrer no futuro. O Canadá, nesses dois exemplos, mostra duas estruturas institucionais que permitem isso.
Se o Brasil quer uma polícia mais funcional, precisa começar um debate público sobre quais estruturas institucionais precisamos para poder fazer os ajustes necessários quando os problemas (que serão inevitáveis) ocorrerem. Só assim podemos sonhar com uma polícia que se identifica menos com um esquadrão de justiceiros acima da lei e mais com o cidadão comum, que seria algo mais ou menos assim:
Dois exemplos de respostas a abusos pela polícia de Toronto:
1) Ontem, Toronto estava discutindo se o atual chefe da polícia deve ser reconduzido ao cargo. Discussão pública para determinar se ele fez um bom trabalho, e um debate acirrado sobre a questionável atuação da polícia (e consequentemente dele) ao repreender com violência e prisões ilegais os protestos na reunião dos G-20.
2) Hoje saiu o relatório propondo reformas no treinamento e preparação dos policiais para lidar com problemas que envolvem saúde mental. O relatório foi produzido depois que a polícia matou, no ano passado, com vários tiros, um jovem que estava armado com apenas uma faca em um bonde, tendo um surto psicótico.
Em suma, abuso e violência policial acontecem em vários lugares, não apenas no Brasil. A questão é: que medidas tomamos quando esses incidentes ocorrem? Punir quem agiu mal é importante (e os oficiais envolvidos nos dois casos foram condenados). Mas mais importante que isso é analisar que tipo de reformas são necessárias para evitar que esses problemas voltem a ocorrer no futuro. O Canadá, nesses dois exemplos, mostra duas estruturas institucionais que permitem isso.
Se o Brasil quer uma polícia mais funcional, precisa começar um debate público sobre quais estruturas institucionais precisamos para poder fazer os ajustes necessários quando os problemas (que serão inevitáveis) ocorrerem. Só assim podemos sonhar com uma polícia que se identifica menos com um esquadrão de justiceiros acima da lei e mais com o cidadão comum, que seria algo mais ou menos assim:
sexta-feira, 18 de julho de 2014
A liberdade é azul
Assisti esse filme quando ainda estava no segundo grau. Ele me marcou tanto, que voltei a vê-lo inúmeras vezes desde então. Por muito tempo, achei que era a cinematografia que me encantava. A fotografia do filme é belíssima, especialmente a predominância da cor azul. Recentemente, todavia, comecei a desconfiar que o que me atraia tanto no filme era o enredo.
A história, basicamente, é de uma mulher que perde o filho e o marido em um acidente de carro e começa a tentar cortar todos os laços que tem com outras pessoas. Ela tenta se isolar do mundo, por mais difícil que pareça a tarefa. Há várias cenas marcantes da protagonista em uma piscina vazia, buscando uma solidão que parece difícil encontrar em qualquer outro lugar.
A fotografia do filme é tão impressionante, que levamos algum tempo até voltar a racionalizar o filme. Eu, pessoalmente, levei duas décadas. Mas assim que consegui elaborar algo mais analítico, a primeira pergunta foi: o que essa história tem a ver com liberdade? Liberdade, lembremos, é o título do filme. E ao olhar para o roteiro ficamos um pouco atormentados com a idéia de que uma mulher que acaba de perder sua família em um acidente de carro possa ser descrita, a partir daí, como um ser livre.
Como a liberdade imposta parece algo que não deve ser celebrado, ou sequer contemplado, temos uma tendência natural a focar na liberdade escolhida ou desejada. Ou seja, a busca da protagonista por uma libertação de todo e qualquer vínculo com terceiros. É um desejo de se ver livre de sociedade e de todo e qualquer contato com outros seres humanos. Por que? Porque qualquer vínculo que se cria é uma potencial fonte de dor e sofrimento, porque é uma potencial perda.
Uma outra interpretação é o desejo da protagonista de se livrar de toda e qualquer memória da sua vida anterior. A cena em que ela destrói a última peça na qual seu marido, um compositor, estava trabalhando, sustenta essa hipótese: ela não quer se libertar da sociedade, mas sim do seu passado. Ela quer se livrar das memórias da vida que tinha, e que perdeu. Essa é a liberdade que busca.
Eu estava trabalhando com essas hipóteses (todas aventadas em diferentes críticas do filme) quando me deparei com uma frase bastante curiosa.
"Liberdade depois do confinamento é diferente da simples liberdade. Ainda que a liberdade em si possa ser uma forma de confinamento".
O livro de onde veio a frase não é bom, e não faz referência alguma ao filme, mas para mim a frase ofereceu uma interpretação interessante sobre o filme: a busca por isolamento da protagonista, que pode ser lida como uma busca por confinamento, é, ao mesmo tempo, uma busca por liberdade. É um ato de liberdade porque a liberdade imposta, igualmente, é um confinamento.
É quase como se ela estivesse protestando por ter sobrevivido ao acidente: se ela não podia ter o confinamento que escolheu (seu vínculo com o marido e o filho), ela também não quer desfrutar da liberdade imposta, que nada mais era que ser confinada a viver uma vida que ela não escolheu. Daí seu isolamento social: enquanto aquilo pode ser lido como um confinamento auto-imposto, ao mesmo tempo parece ser a forma mais robusta através da qual a protagonista consegue expressar sua escolha, e portanto afirmar sua liberdade.
Enfim, azul não é necessariamente a cor mais quente.
P.S. - Esse post é dedicado a T., que passou por mais perdas que qualquer pessoa poderia humanamente suportar nos últimos meses.
A história, basicamente, é de uma mulher que perde o filho e o marido em um acidente de carro e começa a tentar cortar todos os laços que tem com outras pessoas. Ela tenta se isolar do mundo, por mais difícil que pareça a tarefa. Há várias cenas marcantes da protagonista em uma piscina vazia, buscando uma solidão que parece difícil encontrar em qualquer outro lugar.
A fotografia do filme é tão impressionante, que levamos algum tempo até voltar a racionalizar o filme. Eu, pessoalmente, levei duas décadas. Mas assim que consegui elaborar algo mais analítico, a primeira pergunta foi: o que essa história tem a ver com liberdade? Liberdade, lembremos, é o título do filme. E ao olhar para o roteiro ficamos um pouco atormentados com a idéia de que uma mulher que acaba de perder sua família em um acidente de carro possa ser descrita, a partir daí, como um ser livre.
Como a liberdade imposta parece algo que não deve ser celebrado, ou sequer contemplado, temos uma tendência natural a focar na liberdade escolhida ou desejada. Ou seja, a busca da protagonista por uma libertação de todo e qualquer vínculo com terceiros. É um desejo de se ver livre de sociedade e de todo e qualquer contato com outros seres humanos. Por que? Porque qualquer vínculo que se cria é uma potencial fonte de dor e sofrimento, porque é uma potencial perda.
Uma outra interpretação é o desejo da protagonista de se livrar de toda e qualquer memória da sua vida anterior. A cena em que ela destrói a última peça na qual seu marido, um compositor, estava trabalhando, sustenta essa hipótese: ela não quer se libertar da sociedade, mas sim do seu passado. Ela quer se livrar das memórias da vida que tinha, e que perdeu. Essa é a liberdade que busca.
Eu estava trabalhando com essas hipóteses (todas aventadas em diferentes críticas do filme) quando me deparei com uma frase bastante curiosa.
"Liberdade depois do confinamento é diferente da simples liberdade. Ainda que a liberdade em si possa ser uma forma de confinamento".
O livro de onde veio a frase não é bom, e não faz referência alguma ao filme, mas para mim a frase ofereceu uma interpretação interessante sobre o filme: a busca por isolamento da protagonista, que pode ser lida como uma busca por confinamento, é, ao mesmo tempo, uma busca por liberdade. É um ato de liberdade porque a liberdade imposta, igualmente, é um confinamento.
É quase como se ela estivesse protestando por ter sobrevivido ao acidente: se ela não podia ter o confinamento que escolheu (seu vínculo com o marido e o filho), ela também não quer desfrutar da liberdade imposta, que nada mais era que ser confinada a viver uma vida que ela não escolheu. Daí seu isolamento social: enquanto aquilo pode ser lido como um confinamento auto-imposto, ao mesmo tempo parece ser a forma mais robusta através da qual a protagonista consegue expressar sua escolha, e portanto afirmar sua liberdade.
Enfim, azul não é necessariamente a cor mais quente.
P.S. - Esse post é dedicado a T., que passou por mais perdas que qualquer pessoa poderia humanamente suportar nos últimos meses.
domingo, 13 de julho de 2014
Bundas, Accountability e Miúdos
Cá estou de volta à terrinha. Me encantei tanto com o lugar na primeira visita,
que não me restou outra opção senão voltar. E uma das coisas que tinha
me encantado em Portugal da primeira vez era esse português sofisticado,
muito literário e quase poético, que eles usam para discutir idéias
sofisticadas, mas também para coisas do dia a dia.
Pois estava eu no jantar a elogiar a língua portuguesa usada por eles, quando fui interrompida por uma manifestação de amor ao modo como nós, brasileiros, usamos a língua. Exemplo? Bunda! Disseram entusiasmados. Bunda? Disse eu, incrédula. Sim, bunda. Responderam enfáticos.
Seguiu-se então uma longa declaração de amor ao fato de que inventamos coisas, jogamos com variações e damos cor a um mundo um tanto melancólico e triste (basta ouvir um fado para ver). Imagine, explicou uma das fã do nosso português, que os portugueses tem só as palavras rabo, traseiro e cú. Essa última, esclareceu ela, vocês usam apenas para o orifício, enquando nós, portugueses, a usamos de maneira mais abrangente para incluir também o que vocês chamam de bunda. Mas, segundo ela, não havia nada de mais leve e descompromissado do que a palavra bunda. Imagine o Jorge Amado tendo que falar "rabo de preta", ao invés de "bunda de negra". Perde-se metade da beleza da história só em essa troca de duas palavras.
Outra palavra que os encanta é ouvidoria. Alguém que ouve. Nada mais singelo, simpático e representativo do que fazem aqueles que exercem essa função: são ouvidores. Ouvem o que os outros dizem. E em Portugal, perguntei? Temos ouvidores, mas chamamos eles dos nomes mais exdrúxulos. Nada que se compare a ouvidoria.
A discussão sobre ouvidoria me lembrou da palavra accountability, que não tem tradução no nosso português do Brasil. Teria em Portugal?, perguntei. Também não. Perguntei se achavam que isso era sinal de que nós estávamos menos preocupados com accountability do que os países cuja língua tinha uma tradução para a palavra.
Ora, responderam, isso é como dizer que os outros não sentem saudade só porque não tem uma tradução para a palavra. Claro que eles sentem. O anglo-saxões tem o missing e longing, que não traduz saudade, mas claramente indica que eles sentem falta, assim como nós. Talvez não sintam com a intensidade que nós sentimos, e daí a necessidade de termos uma palavra específica para esse sentimento. Ou seja, talvez essas palavras sejam uma sinal de quão profundamente algumas idéias e sentimentos penetram e vivem em certas culturas. Enquanto os anglo-saxões parecem se preocupar mais intensamente com accountability, talvez nós, os portugueses, sentimos saudades com mais intensidade, ou ao menos não nos acanhamos em expressar o que estamos sentindo, afinal somos latinos, concluiram.
Divagações a parte, tentei sustentar que o português de Portugal era infinitamente mais poético que o nosso: considere, por exemplo, que vocês chamam as crianças de miúdos. Não consigo pensar em uma forma mais carinhosa e ao mesmo tempo mais representativa de descrever as crianças. Ora, responderam, miúdo é uma descrição literal do que são. Pessoas miúdas. Vocês inventam coisas, disseram, como a palavra supimpa. Outro exemplo? Pitaco.
Respondi que preferia mil vezes viver em um mundo povoado de miúdos e com bons vinhos, do que em um mundo cheio de bundas sumpimpas e pessoas dando pitacos em tudo, inclusive a língua portuguesa. E cá voltarei, sempre que puder.
Pois estava eu no jantar a elogiar a língua portuguesa usada por eles, quando fui interrompida por uma manifestação de amor ao modo como nós, brasileiros, usamos a língua. Exemplo? Bunda! Disseram entusiasmados. Bunda? Disse eu, incrédula. Sim, bunda. Responderam enfáticos.
Seguiu-se então uma longa declaração de amor ao fato de que inventamos coisas, jogamos com variações e damos cor a um mundo um tanto melancólico e triste (basta ouvir um fado para ver). Imagine, explicou uma das fã do nosso português, que os portugueses tem só as palavras rabo, traseiro e cú. Essa última, esclareceu ela, vocês usam apenas para o orifício, enquando nós, portugueses, a usamos de maneira mais abrangente para incluir também o que vocês chamam de bunda. Mas, segundo ela, não havia nada de mais leve e descompromissado do que a palavra bunda. Imagine o Jorge Amado tendo que falar "rabo de preta", ao invés de "bunda de negra". Perde-se metade da beleza da história só em essa troca de duas palavras.
Outra palavra que os encanta é ouvidoria. Alguém que ouve. Nada mais singelo, simpático e representativo do que fazem aqueles que exercem essa função: são ouvidores. Ouvem o que os outros dizem. E em Portugal, perguntei? Temos ouvidores, mas chamamos eles dos nomes mais exdrúxulos. Nada que se compare a ouvidoria.
A discussão sobre ouvidoria me lembrou da palavra accountability, que não tem tradução no nosso português do Brasil. Teria em Portugal?, perguntei. Também não. Perguntei se achavam que isso era sinal de que nós estávamos menos preocupados com accountability do que os países cuja língua tinha uma tradução para a palavra.
Ora, responderam, isso é como dizer que os outros não sentem saudade só porque não tem uma tradução para a palavra. Claro que eles sentem. O anglo-saxões tem o missing e longing, que não traduz saudade, mas claramente indica que eles sentem falta, assim como nós. Talvez não sintam com a intensidade que nós sentimos, e daí a necessidade de termos uma palavra específica para esse sentimento. Ou seja, talvez essas palavras sejam uma sinal de quão profundamente algumas idéias e sentimentos penetram e vivem em certas culturas. Enquanto os anglo-saxões parecem se preocupar mais intensamente com accountability, talvez nós, os portugueses, sentimos saudades com mais intensidade, ou ao menos não nos acanhamos em expressar o que estamos sentindo, afinal somos latinos, concluiram.
Divagações a parte, tentei sustentar que o português de Portugal era infinitamente mais poético que o nosso: considere, por exemplo, que vocês chamam as crianças de miúdos. Não consigo pensar em uma forma mais carinhosa e ao mesmo tempo mais representativa de descrever as crianças. Ora, responderam, miúdo é uma descrição literal do que são. Pessoas miúdas. Vocês inventam coisas, disseram, como a palavra supimpa. Outro exemplo? Pitaco.
Respondi que preferia mil vezes viver em um mundo povoado de miúdos e com bons vinhos, do que em um mundo cheio de bundas sumpimpas e pessoas dando pitacos em tudo, inclusive a língua portuguesa. E cá voltarei, sempre que puder.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Sobre a civilidade alemã
Me disseram que assistir o jogo na Alemanha seria tranquilo. E foi.
Todos os bares da cidade estavam com bandeiras da Alemanha e do Brasil
na entrada. Um dos alemães levou uma camiseta do Brasil para me
emprestar, pois a minha estava suja.
E começou o jogo.
Comemoraram o primeiro gol. No segundo e no terceiro, comemoraram, mas vieram me dizer que sentiam muito por aquilo que parecia uma pré anunciada derrota. No quarto, perguntaram o que estava acontecendo com o nosso time. No quinto, proclamaram que aquele resultado era excessivo. No sexto, se ofereceram para me levar de volta ao hotel, caso eu não quisesse continuar assistindo o jogo. No sétimo, decidiram pagar minha conta, pois segundo eles "eram o mínimo que podiam fazer". No final havia mais incredulidade do que celebração entre o grupo.
Me deixaram no hotel lamentando quão triste era para o Brasil perder em casa daquela forma. Perguntei com quem eles preferiam competir na final. A resposta foi nada estratégica: preferiam ver uma final com a Argentina, pois uma final com dois países europeus seria pouco representativa da diversidade que a copa do mundo deve representar. E assim será.
Deixo a Alemanha hoje, agradecida por toda a hositalidade, desejando a eles sorte na final e o mesmo brinde que me ofereceram na terça-feira: que vença o melhor time!
E começou o jogo.
Comemoraram o primeiro gol. No segundo e no terceiro, comemoraram, mas vieram me dizer que sentiam muito por aquilo que parecia uma pré anunciada derrota. No quarto, perguntaram o que estava acontecendo com o nosso time. No quinto, proclamaram que aquele resultado era excessivo. No sexto, se ofereceram para me levar de volta ao hotel, caso eu não quisesse continuar assistindo o jogo. No sétimo, decidiram pagar minha conta, pois segundo eles "eram o mínimo que podiam fazer". No final havia mais incredulidade do que celebração entre o grupo.
Me deixaram no hotel lamentando quão triste era para o Brasil perder em casa daquela forma. Perguntei com quem eles preferiam competir na final. A resposta foi nada estratégica: preferiam ver uma final com a Argentina, pois uma final com dois países europeus seria pouco representativa da diversidade que a copa do mundo deve representar. E assim será.
Deixo a Alemanha hoje, agradecida por toda a hositalidade, desejando a eles sorte na final e o mesmo brinde que me ofereceram na terça-feira: que vença o melhor time!
domingo, 15 de junho de 2014
A doçura dos cascudos
A cidade de
Santiago é infestada de cachorros de rua. Dormem por toda parte, se reúnem em
bandos nas esquinas e frequentemente estão no meio dos pedestres esperando o
sinal verde abrir para atravessar na faixa. É quase impossível perambular pela
cidade sem notá-los a cada esquina.
Da última
vez que visitei Santiago, fiquei impressionada com toda a funcionalidade
e obediência às regras desse país. A América Latina faz muitas coisas
maravilhosamente bem, mas cumprir com a lei e manter a ordem não estão na
lista. Santiago tem muitas coisas em comum com o resto do continente, mas nesse aspecto parece uma grande exceção à regra (ou falta de
regra) latino americana. E isso inclui os cascudos* nas ruas de Santiago: não
atacam ninguém, não latem, não brigam entre si e, como disse antes, esperam o
sinal fechar para atravessar a rua na faixa.
Estava
pronta para me impressionar com toda a boa governança chilena de novo mas, dessa vez, ao prestar atenção nos cascudos, outra
coisa me chamou atenção: toda a doçura que governa essa cidade.
Um dos
livros apresentados na conferência que me trouxe aqui começava com uma história
interessante sobre política municipal. Os habitantes de Santiago prefeririam
ter menos cachorros na rua, mas não apoiam sacrificar os cachorros. Portanto, o
governo fica em uma sinuca de bico, pois não podem mandar a carrocinha
“eliminar” todos os cachorros de rua. Certamente a medida seria seguida de
enormes protestos populares. Ao mesmo tempo, não pode acolher todos os
cachorros que perambulam pelas ruas de Santiago: os custos da empreitada
certamente afetaria o orçamento da saúde, educação e vigilância sanitária. Ou
seja, protestos, certamente.
Qual a
solução? Não fazer nada. Quer dizer, o governo não faz nada. A população toma
conta dos cachorros. E tomam conta de verdade. Vi cachorros dormindo na porta
de lojas de artigos de luxo e na frente da Casa da Moeda, o a palácio do
governo. Ninguém solicita delicadamente que eles saiam. Chutá-los, muito menos.
Mas o cuidado vai além disso. Há baldes de água pregados em árvores, com os dizerems "água para perritos vagos" e uma
solicitação para que não se jogue lixo no balde. E há cachorros agasalhados.
Muitos. Afinal, o inverno é frio em Santiago e alguém se deu ao trabalho de
providenciar pulôver de lã para os cascudos, que desfilam comportadamente pelas
ruas com seus agasalhos.
E a doçura da população chilena não é apenas direcionada aos cascudos. No primeiro dia que entrei no condomínio onde estava hospedada, o porteiro me chamou. Achei que ia perguntar quem eu era e onde estava indo. Ledo engano. Para minha surpresa, ele me perguntou porque eu estava mancando. Fiquei eu numa sinuca de bico: como traduzir “hip problem”? Apontei para meu “hip”, dizendo que tinha “un problema a cá”. “Ah, las caderas”. Sim, estou com um problemas nas cadeiras. Sorri, agradecida e entretida pela tradução. Ele sorriu com toda compaixão que alguém poderia ter com minhas cadeiras, e se despediu com um “se cuide”.
E o
porteiro não foi uma exceção. Da próxima vez que estiver no Chile note como
todos se despedem com um “que se vaya bien”. Eu traduzi isso como aquele “tudo
de bom” que a gente no Brasil deseja apenas a amigos e família e, em geral,
somente em aniversários e despedidas. Aqui não. Eles desejam isso para todo
mundo, todos os dias. A caixa do supermercado me desejou tudo de bom. Todos os
garçons também. Até o funcionário do metrô me desejou tudo de bom, mesmo depois
de passar meia hora lidando com minha confusão com o sistema de bilhetes deles
(tem um bilhete para hora do rush, outro para a hora dos que não tem horário, e
um terceiro para os boêmios -- e cada um é um preço). Para não deixar tanta
gentileza passar batido, saquei em cada uma dessas oportunidades o melhor do
meu portunhol: “Que se vaya bien para usted tambien!”.
E assim
foram minhas interações com esse povo chileno que consegue ser eficiente,pontual e cumprir com as leis sem perder a ternura. Jamais. Na minha última
visita, acabei associando o cumprimento de regras com o alto
índice de desenvolvimento deles. Não mudei de ideia com relação a isso, mas
acrescento aqui um novo elemento: é mais
fácil viver e cumprir com as regras numa sociedade gentil. Fui pedir orientação
aos carabineros (polícia chilena) e encontrei duas pessoas solícitas e
sorridentes que não apenas me indicaram onde ir, mas puxaram papo: perguntaram
de onde eu era e comentaram o jogo do Brasil na copa. Minhas duas tentativas de
pedir orientação a policiais no Brasil foram respondidas com uma cara feia e um
resmungo (afinal, eles estão lá para combater a criminalidade, não dar
informações, e eu obviamente estava atrapalhando a missão!).
Em suma, como
diz a camiseta: “gentileza gera gentileza”. Eu acho que gentileza gera também gera
bom comportamento. Basta olhar para os cascudos de Santiago ou para os carabineiros,
que têm um dos índices mais baixos de violência da América Latina e contam com
altos índices de confiança da população. Os cascudos são doces porque todo mundo trata eles com gentileza. Em suma, é uma doçura coletiva que se
auto-reforça, criando um ciclo virtuoso de doçura e bom comportamento por toda
a cidade.
E eu
suspeito que essa doçura chegue até o vinho, pois só isso pode explicar como
eles conseguem produzir essa coisa maravilhosa que é o vinho chileno. Um brinde
a eles! E que se vaya bien!
*P.S. "Cascudos" é o
apelido que minha irmã dá a todos os cachorros do mundo. Não sei de onde veio,
mas acho tão simpático que resolvi emprestá-lo.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
quarta-feira, 21 de maio de 2014
sábado, 17 de maio de 2014
Despedidas
Saí de Brasília em 1994. Era um tarde quente e ensolarada, como quase todas as tarde no planalto central. Para mim, tudo aquilo era uma grande aventura. Sair da casa dos meus pais. Mudar para uma cidade nova. Explorar novos horizontes. Conhecer novas pessoas. Minha animação com tudo de novo que estava por vir era tanta, que eu não estava prestando atenção no que eu estava deixando pra trás. Só olhava pra frente.
Hoje, vinte anos depois, me despeço de Londres onde passei os últimos 5 meses. E essa despedida completamente diferente da despedida em Brasília. Estou contando tudo que estou fazendo pela última vez. Última viagem no metrô, último jantar no meu restaurante preferido, último latte na esquina do escritório. Estou apenas olhando para trás e contabilizando tudo que vou deixar de fazer, ver, apreciar e degustar a partir de segunda-feira. E a razão para toda essa melancolia não é a falta de motivos para estar animada com tudo que tenho pela frente. Pelo contrário. Enquanto em 1994 toda minha animação era motivada pela oportunidade de viver e morar na paulicéia desvairada, agora a animação deveria ser ainda maior: vou visitar 8 países nos próximos dois meses. Mas não é.
Foi só hoje, no meio das despedidas, que eu entendi porque os olhos da minha mãe se encheram de água na rodoviária de Brasília há 20 anos atrás. Lembro de entrar no ônibus intrigada com aquilo. Eu não ia desintegrar. Vinha visitar. Prometi ligar todos os dias. Na minha cabeça, não havia motivo para tristeza. Eu "só" estava mudando pra São Paulo. Mas hoje, durante o último almoço com as pessoas com quem eu convivi nesses cinco meses, meus olhos encheram de água também.
É possível manter contato via skype, mas não é a mesma coisa que decidir espontaneamente tomar uma cerveja depois do expediente. É possível mandar uma mensagem perguntando se está tudo bem, mas não é a mesma coisa que estar ali, e ver na cara da pessoas que algo não está bem. E ainda que possa haver novos reencontros, eles não serão nos lugares que viraram nossos restaurantes favoritos. Nem serão as mesmas conversas, pois nossas vidas não vão mais estar interligadas da forma que estavam quando estávamos todos juntos trabalhando no mesmo lugar.
Obviamente, os laços que desenvolvi em 17 anos de Brasília eram muito mais profundos que aqueles que desenvolvi em 5 meses em Londres. Mas precisei de 20 anos para entender que algo intangível se perde quando saímos de um lugar. Isso, obviamente, não é motivo para ficar. Mudanças nos rejuvenescem. Novas experiências fazem bem pra alma. Novas pessoas virão. Mas antes de olhar para frente, decidi parar aqui um momento para celebrar o fato de que hoje, finalmente, entendi o poema de T.S. Eliott:
Hoje, vinte anos depois, me despeço de Londres onde passei os últimos 5 meses. E essa despedida completamente diferente da despedida em Brasília. Estou contando tudo que estou fazendo pela última vez. Última viagem no metrô, último jantar no meu restaurante preferido, último latte na esquina do escritório. Estou apenas olhando para trás e contabilizando tudo que vou deixar de fazer, ver, apreciar e degustar a partir de segunda-feira. E a razão para toda essa melancolia não é a falta de motivos para estar animada com tudo que tenho pela frente. Pelo contrário. Enquanto em 1994 toda minha animação era motivada pela oportunidade de viver e morar na paulicéia desvairada, agora a animação deveria ser ainda maior: vou visitar 8 países nos próximos dois meses. Mas não é.
Foi só hoje, no meio das despedidas, que eu entendi porque os olhos da minha mãe se encheram de água na rodoviária de Brasília há 20 anos atrás. Lembro de entrar no ônibus intrigada com aquilo. Eu não ia desintegrar. Vinha visitar. Prometi ligar todos os dias. Na minha cabeça, não havia motivo para tristeza. Eu "só" estava mudando pra São Paulo. Mas hoje, durante o último almoço com as pessoas com quem eu convivi nesses cinco meses, meus olhos encheram de água também.
É possível manter contato via skype, mas não é a mesma coisa que decidir espontaneamente tomar uma cerveja depois do expediente. É possível mandar uma mensagem perguntando se está tudo bem, mas não é a mesma coisa que estar ali, e ver na cara da pessoas que algo não está bem. E ainda que possa haver novos reencontros, eles não serão nos lugares que viraram nossos restaurantes favoritos. Nem serão as mesmas conversas, pois nossas vidas não vão mais estar interligadas da forma que estavam quando estávamos todos juntos trabalhando no mesmo lugar.
Obviamente, os laços que desenvolvi em 17 anos de Brasília eram muito mais profundos que aqueles que desenvolvi em 5 meses em Londres. Mas precisei de 20 anos para entender que algo intangível se perde quando saímos de um lugar. Isso, obviamente, não é motivo para ficar. Mudanças nos rejuvenescem. Novas experiências fazem bem pra alma. Novas pessoas virão. Mas antes de olhar para frente, decidi parar aqui um momento para celebrar o fato de que hoje, finalmente, entendi o poema de T.S. Eliott:
What we call the beginning is often the end And to make an end is to make a beginning. The end is where we start from. And every phrase And sentence that is right (where every word is at home, Taking its place to support the others, The word neither diffident nor ostentatious, An easy commerce of the old and the new, The common word exact without vulgarity, The formal word precise but not pedantic, The complete consort dancing together) Every phrase and every sentence is an end and a beginning, Every poem an epitaph. And any action Is a step to the block, to the fire, down the sea's throat Or to an illegible stone: and that is where we start. We die with the dying: See, they depart, and we go with them. We are born with the dead: See, they return, and bring us with them. The moment of the rose and the moment of the yew-tree Are of equal duration. A people without history Is not redeemed from time, for history is a pattern Of timeless moments. So, while the light fails On a winter's afternoon, in a secluded chapel History is now and England. With the drawing of this Love and the voice of this Calling We shall not cease from exploration And the end of all our exploring Will be to arrive where we started And know the place for the first time. Through the unknown, remembered gate When the last of earth left to discover Is that which was the beginning; At the source of the longest river The voice of the hidden waterfall And the children in the apple-tree Not known, because not looked for But heard, half-heard, in the stillness Between two waves of the sea. Quick now, here, now, always - A condition of complete simplicity (Costing not less than everything) And all shall be well and All manner of thing shall be well When the tongues of flame are in-folded Into the crowned knot of fire And the fire and the rose are one.
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