sábado, 30 de março de 2024

Simplificando a vida

 Depois de quase dez anos, volto a escrever aqui. O momento é oportuno: estou de sabático e em dois dias começo uma jornada de 300km no Caminho de Santiago de Compostela. Os preparativos para a longa caminhada foram muitos, mas todos seguem um só tema: simplificar. 

O processo começa com a mochila. Se o plano é carregá-la nas costas, a recomendação é que não ultrapasse 10% do seu peso. 7kg! As decisões são difíceis: duas calcinhas ou três? Cada item adicionado, exige que outro seja eliminado. O exercício de descobrir o que é essencial pra você durante 3 semanas é interessante. Pra mim, a decisão mais difícil foi não levar um livro, um bloquinho de anotaçőes e o laptop….

O treino começou em Santos, onde as noites quentes de verão na praia proporcionaram caminhadas muito agradáveis. Mas ainda assim, o exercício do que levar pra essas 3 ou 4 horas de caminhada já trazia seus dilemas. Uma jaqueta protege do vento frio e chuva, mas vira um pacote inconveniente se a chuva pára e a temperatura sobre.

Depois de dois meses ouvindo as ondas do mar e reidratando com água de coco, o treino continuou na Escócia, com céu nublado, muita lama e cerveja pra reidratar. As trilhas passam por uma série de abadias construídas no século XII. https://www.scotlandinfo.eu/border-abbeys/#:~:text=But%20most%20of%20all%20it's,abbeys%20and%20practice%20their%20religion. 

De novo, o tema da simplicidade volta à tona, mas de maneira mais filosófica. Nessas abadias, membros de uma ordem religiosa criavam uma comunidade auto-suficiente. Plantavam o que consumiam e passavam boa parte do dia em rituais religiosos. A ideia de abdicar dos luxos e conveniências da vida moderna, portanto, antecede a atual busca pelo minimalismo na sociedade de consumo. Muito antes do capitalismo, revolução industrial e shopping centers, uma parte da raça humana buscava um modo de vida que se resumia ao essencial pro corpo e para o espírito. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Abadia

Assim como nas abadias da Escócia, o Caminho de Santiago pretende usar a simplificação da vida material pra facilitar o acesso ao lado espiritual. Paulo Coelho, por exemplo, narra coisas bastante inacreditáveis no livro o Peregrino, e.g. o mundo inteiro ficando azul (?!?). Mas mesmo para aqueles menos inclinados a acreditar em energias místicas ou qualquer forma institucionalizada de religião relatam experiências espirituais únicas durante a caminhada. 

Um peregrino experiente, homem de negócios, relatou em um podcast que tinha algo especial no Caminho, que ele não tinha encontrado em nenhuma outra trilha, das muitas que ele tinha feito. Algo místico, que ele não sabe explicar. https://open.spotify.com/episode/4V2y3QHGuBDkpQW3iPwbeF?si=y2CB3aahQQWDolIM9jxtLA

Um outro, um amigo, ex comandante do exército, foi super preparado pro Caminho, com equipamento, treino, pesquisa e audiolivros pra não se entediar. Mas no meio da caminhada ele disse que começou a processar a morte do pai, um tema que ele tinha evitado durante anos. E diz ele que não foi voluntário. Os pensamentos começaram a vir, de maneira incontrolável e foi inevitável ter que lidar emocionalmente com eles. Segundo esse amigo, tem algo sobre o movimento de colocar um pé na frente do outro que mexe com sua cabeça. E depois de 200km, leva sua mente pra lugares que você nunca imaginou (ou sempre tentou evitar!).

Meus amigos intelectuais acham que eu vou sair dessa experiência com ideias pra livros e artigos acadêmicos. Minha mãe, que visitou Santiago de Compostela há alguns anos, disse que há muitos cartazes de gente que desapareceu pelo caminho. Como mãe, ela obviamente acha que há um psicopata escondido nas matas ao longo do trajeto, decepando e enterrando os corpos. Minha prima já tem uma hipótese mais plausível sobre os desaparecimentos: pessoas que decidiram se isolar do mundo durante a caminhada, e desaparecerem de propósito, como os monges do século XII. Se eu optar por isso, já escolhi até o destino: as Ilhas Mariana no meio do oceano pacífico! 

Enquanto a epifania não vem, vou deixar a vida monástica de lado e aproveitar a deliciosa comida e bebida da região!



sábado, 28 de novembro de 2015

A cidade lar


Em inglês, cidade natal é descrita como hometown. E há uma certa sabedoria implicita no termo. Não é a cidade onde você nasceu, mas sim a cidade onde você se sente em casa. Enquanto seu nascimento é um evento remoto e potencialmente pouco relevante pra você nesse momento, provavelmente a idéia de lar não é. Ao contrário, por mais que nos encontremos distantes do nosso local de nascimento, estamos sempre em busca de um lugar que "feels like home".

Apenas notei a sabedoria do termo em inglês quando me deparei com o fato de que eu sempre comparo as cidades onde estou morando com Brasília. E o exercício, em geral, é tentar achar as similaridades, em especial aquelas que me fazem me sentir em casa.

No verão que morei em Washington, não parava de admirar a organização lógica das ruas, avenidas e quadras. Afinal, quem cresceu com planejamento urbano matemático, nunca vai se acostumar com planejamento urbano orgânico, como em Toronto; ou falta de qualquer planejamento urbano, como em São Paulo. 

Outras coisas que sempre procuro são os espaços verdes e abertos. New Haven, uma cidade pequena nos Estados Unidos onde fiz meu doutorado, e os subúrbios de Toronto são cheios deles. E, assim como Brasília, eles vêem com um preço: é quase impossível viver lá sem um carro. Ou seja, ganhem-se as árvores e perdem-se os pedestres. Eu preferiria ter ambos, como nas superquadras de Brasília. Mas é difícil encontrar superquadras fora de Brasília...

Os prédios modernistas é um outro item que chama imediatamente minha atenção. Em qualquer selva de pedra com os mais variados estilos arquitetônicos, minha tendência é ignorar todo o resto no momento em que o prédio modernista se materializa na minha frente. Ao menos essa é a lembrança que mais me marca durante meus períodos vivendo em Boston, Londres e Toronto. 

E até recentemente eu não tinha achado um lugar com um céu tão azul quanto o de Brasília. Achei no mês passado: Sedona, no deserto do Arizona. E com o céu vêm também o tempo seco, a vegetação rasteira e esparsa e muitos calangos. 

Mas a melhor surpresa foi encontrar um prédio modernista, Chapel of Holy Cross, desenhado por uma discípula do Frank Lloyd Wright, no meio das lindas formações rochosas do Arizona.  Enquanto o modernismo parece não agradar a maioria das pessoas, eu ainda não conheci alguém que cresceu em Brasília e não gosta do estilo. Acho que quando você é constantemente -- e quase exclusivamente -- exposto a esse tipo de arquitetura nos seus anos de formação, é quase como se a estética ficasse impregnada no seu cérebro. Resultado: enquanto para o resto do mundo modernismo é exceção, para mim é norma. Se Sedona tivesse umas superquadras e uma universidade, me mudava pra lá no dia seguinte.

Na maior parte das vezes o português é muito mais poético que o inglês, mas hometown é uma exceção a essa regra. A palavra capta com muito mais sensibilidade essa conexão emocional inexplicável com a cidade onde nascemos e crescemos. Por mais estranha que ela seja -- e Brasília, convenhamos, é pra lá de estranha! -- nossa hometown acaba definindo, em grande parte, o que consideraremos, para o resto da vida, lar.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Meu pai é um lorde


Há exatamente um ano, visitei minha cidade natal e me reuni com vários amigos de infância. Muitos abraços e beijos depois, abriram-se as cervejas e começou a conversa. As histórias, como podem imaginar, eram muitas. Disputamos quem era a criança mais comportada e quem era a menos comportada. Debatemos também quem era a mais dissimulada - fingia-se de comportada entre os adultos, mas era o capeta quando ninguém estava vendo. As memórias eram boas, e concluímos todos que tivemos, de fato uma infância feliz. 

De repente, alguém na roda pergunta quem lembrava do meu pai. Foi uma avalanche de histórias. Tio C. levava a gente por parque, lembram?  Ele também levava a gente pra passear de bicicleta. Todos concordaram que era o máximo se aventurar de bicicleta acima dos limites geográficos normalmente permitido para crianças... E quando ele colocava todas as crianças no fusca e transformava as ruas da cidade na nossa montanha russa privada? Todo mundo gargalhou com a lembrança. 

A conclusão foi unânime: 
- O Tio C. era o melhor!
- Em especial quando comparado com os nossos pais, alguém menos tímido anunciou. 

E daí foi uma outra avalanche de histórias bem menos elogiosas. 

- É, nossos pais só queriam ver jogo de futebol da TV e beber cerveja. Em contraste, Tio C. descia no meio da tarde de sábado com melancia cortada pra gente comer. 
- O pior é a fixação dos nossos pais com os carros. Trocavam de carro todo ano. E davam mais atenção pro carro do que pra gente. O tio C. não! Teve o fusquinha por anos. E ainda levava a gente pra passear nele. Nunca vi tanta criança dentro de um carro... 

Daí veio a sentença final: tio C. era um lorde, perto dos ogros que chamamos de pais.

E o que a criançada não sabia era que, além de ser um lorde fora de casa, meu pai era um um lorde dentro de casa também. Um lorde vegetariano, praticante de yoga e amante da natureza. Portanto, não era só nas brincadeiras que ele era diferente dos outros pais. Ele nos ensinava a importância de comer bem, fazer alongamentos de manhã, relaxar os músculos com meditação antes de dormir, reciclar o lixo e economizar água. Ou seja, coisas que acabaram influenciando minha vida para sempre, e para melhor. 

Quando vejo meus amigos sendo pais hoje, tenho a impressão de que há bem menos ogros nesse mundo. Não sei se é porque eles tiveram a sorte de ver um tio C. em ação quando eram crianças, ou se meu pai estava muito a frente do seu tempo. Em qualquer um dos casos, quantos mais pais como meu pai, melhor! 















segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A irmã e o sistema

O aniversário da minha irmã caiu num dia em que eu queria distância do facebook. Ainda não consegui definir bem esses dias, mas eles são basicamente caracterizados por um completo ceticismo com relação a todo aquele exercício de interação social via internet.

Fato é que eu tentei colocar algo lá. Entrei várias vezes no site (o que tem sido cada vez mais raro pra mim hoje em dia). Rascunhei uns três posts, mas desisti de todos. A minha fórmula "feliz aniversário. tudo de bom!" funciona muito bem para o resto do mundo, mas minha irmã merece algo melhor. O problema é que não baixava a inspiração. E aquele feed na lateral da tela com updates incessantes não estava ajudando meu processo criativo.  

Resolvi então buscar umas fotos para ver se alguma lembrança do passado viria com uma frase que fizesse juz ao momento. Não achei nada. No ápice do desespero, resolvi ligar. Sabe aquela coisa privada que a gente fazia antigamente e a pessoa ficava super feliz? Pois é. Liguei. Minha irmã atende e fica surpresa com a ligação. Tomei como um sinal positivo. 

Parabéns pra cá, felicidades pra lá, e logo estamos colocando a conversa em dia. As duas trabalhando muito. Será que vale a pena? Com certeza não vale. Qual a opção? Mudar pra Cuba, talvez. Sim, porque Coréia do Norte não tem capitalismo, mas tem um louco governando. Entre louco no governo ou toda a loucura do livre mercado, preferimos ficar com a segunda opção. Sem dúvida. Mas temos Cuba, que não seria de todo mal. O problema é que não sabemos o quanto vai durar. Passamos mais uns minutos sonhando com nossa vida fora do sistema e desligamos.

Minha irmã voltou à opressão do sistema capitalista e eu voltei à opressão do facebook. Enquanto minha irmã é esmagada pelo motor produtivo, eu -- que não tenho que produzir nada, e recebo um salário pra pensar grandes ideias -- fiquei lá sozinha no meu escritório confabulando com meus botões: ligação sem o post no facebook não pega bem, né? Com certeza não pega. Estou até agora imaginando as pessoas horrorizadas com meu silêncio. "Você viu, Zezinho? Mariana não desejou feliz aniversário pra própria irmã..." Discussões em bares e dentro dos lares, durante o jantar. Uma vergonha! Afinal, parabéns que se preza precisa ser aquele que todo mundo vê. Senão, não conta. 

Mas eu sei que a minha irmã entendeu meu silêncio. Ela sabia que eu estava resistindo ao sistema. Precisavamos nós duas de um pouco de esperança. E esse foi meu modo de dar a ela um dia melhor: dando o pontapé inicial pra acabar com a opressão. A revolução começa com o facebook e termina com o fim do sistema capitalista! E conseguimos nesse histórico 24 de outubro essa grande vitória: passou-se o aniversário sem post. Agora, é só aguardar, que uma vida muito melhor está por vir.
 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Surpresa do Dia


https://m.youtube.com/watch?v=zag_Masf6FA

Descobri que essa música do CD da Carla Bruni é na verdade um poema:

Promises Like Pie-Crust

by Christina Georgina Rossetti
(1830-1894)



Promise me no promises, 
So will I not promise you: 
Keep we both our liberties, 
Never false and never true: 
Let us hold the die uncast, 
Free to come as free to go: 
For I cannot know your past, 
And of mine what can you know? 

You, so warm, may once have been 
Warmer towards another one: 
I, so cold, may once have seen 
Sunlight, once have felt the sun: 
Who shall show us if it was 
Thus indeed in time of old? 
Fades the image from the glass, 
And the fortune is not told. 

If you promised, you might grieve 
For lost liberty again: 
If I promised, I believe 
I should fret to break the chain. 
Let us be the friends we were, 
Nothing more but nothing less: 
Many thrive on frugal fare 
Who would perish of excess.


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Dia de jacaré

Nada melhor para descrever meu dia, do que essa fábula do querido Pratinha:

"Vivia a floresta na mais densa calmaria até aparecer a coruja, com seu sobretudo, suas olheiras e suas ideias subversivas: "Como vocês podem se achar felizes se são paus mandados do leão? Como podem se achar livres se só fazem o que permite o leão? Como podem dormir tranquilos se correm o risco de, a qualquer momento, serem devorados pelo leão? Abaixo a ditadura leonina!". "Bravo!", gritou o coelho. "Apoiada!", bradou a gazela. "Ente, ente, ente, coruja presidente!", puxou o tatu.

Daí em diante, os animais passaram a viver revoltados, só pensando no absurdo que era estar continuamente sob o jugo daquela juba. A coruja, então, organizou uma assembleia. Depois de um caloroso debate, chegou-se à conclusão de que havia um único bicho, em toda a floresta, capaz de destronar o autoungido rei dos animais: o jacaré.


Boiando no rasinho, só com aqueles olhos melífluos pra fora d'água, o jacaré ouviu a explicação da coruja e as súplicas de seus companheiros silvícolas. "Vocês querem que eu ajude?" "Sim!", responderam todos. "Querem a paz na floresta?" "Siiim!" "Querem parar de sofrer com a supremacia leonina?" "Siiiiiim" -e, mal o coro suplicante terminou de ecoar por entre as copas das árvores, o jacaré arremeteu contra a coruja e, num bote certeiro, a engoliu inteirinha, com seu sobretudo, suas olheiras e suas ideias subversivas." 


Estou agora ao sol, de barriga cheira.

Essa e outras fábulas estão disponíveis aqui: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2014/09/1515827-fabulas-monterrosianas-ii.shtml

sábado, 20 de setembro de 2014

Música do Dia


Em busca da perenidade

Perenidade? Não sabia qual era o substantivo de perene quando pensei no título para esse post. Talvez fosse perenez ( como em lucidez)? Quiça poderia ser perenice (Como velhice)? Não sei.

Sim, estou perdendo o português. E junto com a perda vem a preguiça de checar no dicionário. Fica aqui, portanto, a ressalva: sei o que busco, ainda que não saiba como descrevê-la (perenidade, perenez ou perenice?). Um problem de PPP: perda do português e preguiça...

Em contraste com as incertezas gramaticais, o tempo está começando a esfriar. Não há incerteza alguma sobre o fato de que o inverno logo estará aqui. Decidi então registrar a existência das plantas não perenes que vão desaparecer do quintal nas próximas semanas. 

Já falei antes da minha angústia com a situação. Talvez haja alguma ironia no fato de que perder as plantas me incomode mais do que perder meu português. Mas, como expliquei antes, não se trata de uma escolha no caso das plantas. Eis o problema.

Fica aqui, portanto, minha vã tentativa de eternizá-las:












quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Colocando a Santaella na faixa vermelha

Era fã da Santaella e da semiótica quando estudava na Escola de Comunicações e Artes. Mas o tempo passa e a gente amadurece. Hoje, sou fã da Marjorie, cujo texto recomendo (ver link no fim do post). 

Depois de passar quatro dias me locomovendo com uma bicicleta em Amsterdam em julho, além de não ter carro e usar a bicicleta quase todos os dias (weather permitting) pra ir trabalhar aqui em Toronto, concordo que precisamos de uma revolução em São Paulo.

 Guilhotina para acadêmicos desinformados. E que venham mais faixas vermelhas e toda a alegria que vem junto com elas!

http://m.huffpost.com/br/entry/5816142

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Cada um tem a ciclovia que merece

Há algumas semanas, um vídeo feito por um ciclista em Toronto virou febre na internet (ao menos aqui em Toronto). O video mostra como a ciclovias da cidade são frequentemente ocupadas por veículos de todo tipo (polícia, caminhões entregando cerveja, taxis e carros privados), que dão uma "paradinha" forçando os ciclistas a entrar na faixa de automóveis para seguir seu caminho. 



Resposta dos paulistanos para o ciclista canadense? 

- Sabe de nada inocente. Você acha que tem um problema? Veja isso: 


(foto tirada por um usuário do facebook em São Paulo no dia 20 de agosto de 2014). 

E a resposta do paulistano que usa twitter para o ciclista canadense? #firstworldproblems.

Pois é, cada um com a ciclovia que merece. 

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sábado, 9 de agosto de 2014

O troco e a racionalidade

- Deu 27,80, senhora.
- Tá aqui, trinta. Pode ficar com o troco.
- Não, minha senhora. Pega o troco. 

E em questão de segundos o sujeito sacou duas moedas de um real e duas de dez centavos. Estiquei a mão pensando: santo deus, lá vou eu voltar com um saco de quinhentas moedas pra Toronto de novo. 

- Com dez trocos desses, as senhora paga outra corrida. 

O ponto do taxista é muito válido. Na verdade, é uma das primeiras lições de qualquer curso de educação financeira: de pouco em pouco a galinha enche o papo. Aprendi isso em um curso em Toronto, na aula do muffin. A instrutora mostrou o preço de um muffin no Starbucks (uns Ca$2,50), e calculou quanto uma pessoa gastaria se comesse um por dia, de manhã de segunda a sexta-feira (5 x 2,50 = 12,50 por semana; ou 50 reais por mês) num período de 10 anos (52 semanas x 50 reais = 2600 por ano). E era uma quantia significativa. Tipo uns 25.000 dólares. 

Lição do dia? Ao invés de ficar esperando ganhar na mega-sena, é melhor começar a contar as pequenas economias que se pode fazer no dia-a-dia, tipo não comer muffin no Starbucks e não deixar o taxista com o troco. (Confesso que não sei se você pode comprar um muffin com o troco que o taxista não aceitou - precisamos consultar um especialista).

Feliz com a idéia de que a população brasileira está começando a se familiarizar com princípios básicos de administração financeira, desço do táxi. Entro no avião e começo a revisar minhas notas de aula: "O agente racional auto-interessado busca maximizar sua utilidade individual". Essa é a premissa básica da aula que eu precisava dar assim que saísse do avião e ali estava eu, me deparando com uma situação que não parecia se encaixavar naquele modelo de racionalidade. 

Se o taxista fosse um agente racional auto-interessado, teria embolsado o troco e agradecido. Portanto, como explicar para meus alunos que o modelo era válido? Seria o taxista irracional? Talvez eu pudesse inventar uma história de que era um hippie dirigindo um carro pelas ruas de São Paulo. Exceto que hippies em geral não são muito bons com princípios básicos de educação financeira - afinal, a filosofia deles é não se importar com dinheiro...

O taxista paulistano não era o primeiro a me deixar com um grande problema intelectual para resolver. Um carioca, uma vez, fez algo ainda mais inexplicável.

- São R$22,20. 

Dei R$25 pra ele. 

- A senhora não tem troco?
- Não tenho. Se o senhor não tiver troco, pode ficar com os R$25.

Ele imediatamente sacou a nota de 5 reais e esticou o braço insistentemente para devolvê-la. 

- Não, não, minha senhora! A senhora fica com os 5 reais.
- Por que? perguntei confusa.
- Ora, porque é a senhora que vai perder mais dinheiro. Eu só perco R$2,20. A senhora ia perder R$2,80 se me deixasse com o troco. 

Um era um hippie com educação financeira e o outro era o justiceiro do troco. Se alguém não tem troco, fica com a diferença quem ia perder mais dinheiro. Afinal, a outra partilha seria injusta, não? O problema dessas histórias é: como convencer meus alunos a acreditar em um modelo baseado em uma premissa de racionalidade, quando tem tanto louco no mundo?

A resposta, ao meu ver, é simples (apesar de eu ter demorado muito tempo para formulá-la...). A utilidade individual não se limita a ganhar mais dinheiro. Cada um tem uma utilidade diferente. Alguém que quer ser rico valoriza mais o dinheiro que outras coisas. Esse pegaria o troco. Mas o taxista paulistano claramente valoriza algo mais do que o dinheiro. Talvez mostrar o conhecimento dele de educação financeira seja mais importante para ele do que ficar com dois reais. Talvez o taxista carioca valorize mais a justiça do que a acumulação de riqueza. Portanto, ambos estavam maximizando sua utilidade individual e estavam portanto se comportando como agentes racionais auto-interessados. 

Eu tinha acabado de salvar minha aula quando me ocorreu que a explicação poderia ser outra. Talvez ambos os taxistas tivessem ficado com o orgulho ferido de "receber esmola" de uma mulher jovem. Afinal, isso feriria o orgulho de qualquer machista. Portanto, a utilidade que ambos poderiam estar preservando ali era a superioridade dos homens sobre as mulheres. Um comportamento perfeitamente racional para cada um deles, mas bastante prejudicial para a sociedade como um todo. Portanto, já ficava ali o ponto de conexão com a próxima aula: a versão descritiva (o mundo é assim) e a versão normativa (o mundo deveria ser assim) do modelo. 
 
Só espero que algum dia alguém escreva um livro sobre como as vezes há mais coisas a se aprender dentro de táxis do que dentro das universidades...







 

 
 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sobre a polícia

Você acha que é só no Brasil? A polícia faz uso excessivo da força, mata inocentes e efetua prisões ilegais durante protestos no Canadá também. A diferença entre o Canadá e o Brasil, todavia, não é apenas a frequência com a qual tais problemas ocorrem, mas como o governo e a sociedade reagem a eles.

Dois exemplos de respostas a abusos pela polícia de Toronto:

1) Ontem, Toronto estava discutindo se o atual chefe da polícia deve ser reconduzido ao cargo. Discussão pública para determinar se ele fez um bom trabalho, e um debate acirrado sobre a questionável atuação da polícia (e consequentemente dele) ao repreender com violência e prisões ilegais os protestos na reunião dos G-20.

2) Hoje saiu o relatório propondo reformas no treinamento e preparação dos policiais para lidar com problemas que envolvem saúde mental. O relatório foi produzido depois que a polícia matou, no ano passado, com vários tiros, um jovem que estava armado com apenas uma faca em um bonde, tendo um surto psicótico.

Em suma, abuso e violência policial acontecem em vários lugares, não apenas no Brasil. A questão é: que medidas tomamos quando esses incidentes ocorrem? Punir quem agiu mal é importante (e os oficiais envolvidos nos dois casos foram condenados). Mas mais importante que isso é analisar que tipo de reformas são necessárias para evitar que esses problemas voltem a ocorrer no futuro. O Canadá, nesses dois exemplos, mostra duas estruturas institucionais que permitem isso.

Se o Brasil quer uma polícia mais funcional, precisa começar um debate público sobre quais estruturas institucionais precisamos para poder fazer os ajustes necessários quando os problemas (que serão inevitáveis) ocorrerem. Só assim podemos sonhar com uma polícia que se identifica menos com um esquadrão de justiceiros acima da lei e mais com o cidadão comum, que seria algo mais ou menos assim:


sexta-feira, 18 de julho de 2014

A liberdade é azul

Assisti esse filme quando ainda estava no segundo grau. Ele me marcou tanto, que voltei a vê-lo inúmeras vezes desde então. Por muito tempo, achei que era a cinematografia que me encantava. A fotografia do filme é belíssima, especialmente a predominância da cor azul. Recentemente, todavia, comecei a desconfiar que o que me atraia tanto no filme era o enredo.

A história, basicamente, é de uma mulher que perde o filho e o marido em um acidente de carro e começa a tentar cortar todos os laços que tem com outras pessoas. Ela tenta se isolar do mundo, por mais difícil que pareça a tarefa. Há várias cenas marcantes da protagonista em uma piscina vazia, buscando uma solidão que parece difícil encontrar em qualquer outro lugar. 

A fotografia do filme é tão impressionante, que levamos algum tempo até voltar a racionalizar o filme. Eu, pessoalmente, levei duas décadas. Mas assim que consegui elaborar algo mais analítico, a primeira pergunta foi: o que essa história tem a ver com liberdade? Liberdade, lembremos, é o título do filme. E ao olhar para o roteiro ficamos um pouco atormentados com a idéia de que uma mulher que acaba de perder sua família em um acidente de carro possa ser descrita, a partir daí, como um ser livre. 

Como a liberdade imposta parece algo que não deve ser celebrado, ou sequer contemplado, temos uma tendência natural a focar na liberdade escolhida ou desejada. Ou seja, a busca da protagonista por uma libertação de todo e qualquer vínculo com terceiros. É um desejo de se ver livre de sociedade e de todo e qualquer contato com outros seres humanos. Por que? Porque qualquer vínculo que se cria é uma potencial fonte de dor e sofrimento, porque é uma potencial perda. 

Uma outra interpretação é o desejo da protagonista de se livrar de toda e qualquer memória da sua vida anterior. A cena em que ela destrói a última peça na qual seu marido, um compositor, estava trabalhando, sustenta essa hipótese: ela não quer se libertar da sociedade, mas sim do seu passado. Ela quer se livrar das memórias da vida que tinha, e que perdeu. Essa é a liberdade que busca.

Eu estava trabalhando com essas hipóteses (todas aventadas em diferentes críticas do filme) quando me deparei com uma frase bastante curiosa. 

"Liberdade depois do confinamento é diferente da simples liberdade. Ainda que a liberdade em si possa ser uma forma de confinamento". 

O livro de onde veio a frase não é bom, e não faz referência alguma ao filme, mas para mim a frase ofereceu uma interpretação interessante sobre o filme: a busca por isolamento da protagonista, que pode ser lida como uma busca por confinamento, é, ao mesmo tempo, uma busca por liberdade. É um ato de liberdade porque a liberdade imposta, igualmente, é um confinamento. 

É quase como se ela estivesse protestando por ter sobrevivido ao acidente: se ela não podia ter o confinamento que escolheu (seu vínculo com o marido e o filho), ela também não quer desfrutar da liberdade imposta, que nada mais era que ser confinada a viver uma vida que ela não escolheu. Daí seu isolamento social: enquanto aquilo pode ser lido como um confinamento auto-imposto, ao mesmo tempo parece ser a forma mais robusta através da qual a protagonista consegue expressar sua escolha, e portanto afirmar sua liberdade. 

Enfim, azul não é necessariamente a cor mais quente.


P.S. - Esse post é dedicado a T., que passou por mais perdas que qualquer pessoa poderia humanamente suportar nos últimos meses.  

domingo, 13 de julho de 2014

Bundas, Accountability e Miúdos

Cá estou de volta à terrinha. Me encantei tanto com o lugar na primeira visita, que não me restou outra opção senão voltar. E uma das coisas que tinha me encantado em Portugal da primeira vez era esse português sofisticado, muito literário e quase poético, que eles usam para discutir idéias sofisticadas, mas também para coisas do dia a dia. 

Pois estava eu no jantar a elogiar a língua portuguesa usada por eles, quando fui interrompida por uma manifestação de amor ao modo como nós, brasileiros, usamos a língua. Exemplo? Bunda! Disseram entusiasmados. Bunda? Disse eu, incrédula. Sim, bunda. Responderam enfáticos.

Seguiu-se então uma longa declaração de amor ao fato de que inventamos coisas, jogamos com variações e damos cor a um mundo um tanto melancólico e triste (basta ouvir um fado para ver). Imagine, explicou uma das fã do nosso português, que os portugueses tem só as palavras rabo, traseiro e cú. Essa última, esclareceu ela, vocês usam apenas para o orifício, enquando nós, portugueses, a usamos de maneira mais abrangente para incluir também o que vocês chamam de bunda. Mas, segundo ela, não havia nada de mais leve e descompromissado do que a palavra bunda. Imagine o Jorge Amado tendo que falar "rabo de preta", ao invés de "bunda de negra". Perde-se metade da beleza da história só em essa troca de duas palavras. 

Outra palavra que os encanta é ouvidoria. Alguém que ouve. Nada mais singelo, simpático e representativo do que fazem aqueles que exercem essa função: são ouvidores. Ouvem o que os outros dizem. E em Portugal, perguntei? Temos ouvidores, mas chamamos eles dos nomes mais exdrúxulos. Nada que se compare a ouvidoria. 

A discussão sobre ouvidoria me lembrou da palavra accountability, que não tem tradução no nosso português do Brasil. Teria em Portugal?, perguntei. Também não. Perguntei se achavam que isso era sinal de que nós estávamos menos preocupados com accountability do que os países cuja língua tinha uma tradução para a palavra. 

Ora, responderam, isso é como dizer que os outros não sentem saudade só porque não tem uma tradução para a palavra. Claro que eles sentem. O anglo-saxões tem o missing e longing, que não traduz saudade, mas claramente indica que eles sentem falta, assim como nós. Talvez não sintam com a intensidade que nós sentimos, e daí a necessidade de termos uma palavra específica para esse sentimento. Ou seja, talvez essas palavras sejam uma sinal de quão profundamente algumas idéias e sentimentos penetram e vivem em certas culturas. Enquanto os anglo-saxões parecem se preocupar mais intensamente com accountability, talvez nós, os portugueses, sentimos saudades com mais intensidade, ou ao menos não nos acanhamos em expressar o que estamos sentindo, afinal somos latinos, concluiram. 

Divagações a parte, tentei sustentar que o português de Portugal era infinitamente mais poético que o nosso: considere, por exemplo, que vocês chamam as crianças de miúdos. Não consigo pensar em uma forma mais carinhosa e ao mesmo tempo mais representativa de descrever as crianças. Ora, responderam, miúdo é uma descrição literal do que são. Pessoas miúdas. Vocês inventam coisas, disseram, como a palavra supimpa. Outro exemplo? Pitaco.

Respondi que preferia mil vezes viver em um mundo povoado de miúdos e com bons vinhos, do que em um mundo cheio de bundas sumpimpas e pessoas dando pitacos em tudo, inclusive a língua portuguesa. E cá voltarei, sempre que puder.




 

  

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Sobre a civilidade alemã

Me disseram que assistir o jogo na Alemanha seria tranquilo. E foi. Todos os bares da cidade estavam com bandeiras da Alemanha e do Brasil na entrada. Um dos alemães levou uma camiseta do Brasil para me emprestar, pois a minha estava suja.

E começou o jogo.

Comemoraram o primeiro gol. No segundo e no terceiro, comemoraram, mas vieram me dizer que sentiam muito por aquilo que parecia uma pré anunciada derrota. No quarto, perguntaram o que estava acontecendo com o nosso time. No quinto, proclamaram que aquele resultado era excessivo. No sexto, se ofereceram para me levar de volta ao hotel, caso eu não quisesse continuar assistindo o jogo. No sétimo, decidiram pagar minha conta, pois segundo eles "eram o mínimo que podiam fazer". No final havia mais incredulidade do que celebração entre o grupo.

Me deixaram no hotel lamentando quão triste era para o Brasil perder em casa daquela forma. Perguntei com quem eles preferiam competir na final. A resposta foi nada estratégica: preferiam ver uma final com a Argentina, pois uma final com dois países europeus seria pouco representativa da diversidade que a copa do mundo deve representar. E assim será.

Deixo a Alemanha hoje, agradecida por toda a hositalidade, desejando a eles sorte na final e o mesmo brinde que me ofereceram na terça-feira: que vença o melhor time!

domingo, 15 de junho de 2014

A doçura dos cascudos




A cidade de Santiago é infestada de cachorros de rua. Dormem por toda parte, se reúnem em bandos nas esquinas e frequentemente estão no meio dos pedestres esperando o sinal verde abrir para atravessar na faixa. É quase impossível perambular pela cidade sem notá-los a cada esquina.



Da última vez que visitei Santiago, fiquei impressionada com toda a funcionalidade e obediência às regras desse país. A América Latina faz muitas coisas maravilhosamente bem, mas cumprir com a lei e manter a ordem não estão na lista. Santiago tem muitas coisas em comum com o resto do continente, mas nesse aspecto parece uma grande exceção à regra (ou falta de regra) latino americana. E isso inclui os cascudos* nas ruas de Santiago: não atacam ninguém, não latem, não brigam entre si e, como disse antes, esperam o sinal fechar para atravessar a rua na faixa. 

Estava pronta para me impressionar com toda a boa governança chilena de novo mas, dessa vez, ao prestar atenção nos cascudos, outra coisa me chamou atenção: toda a doçura que governa essa cidade.


Um dos livros apresentados na conferência que me trouxe aqui começava com uma história interessante sobre política municipal. Os habitantes de Santiago prefeririam ter menos cachorros na rua, mas não apoiam sacrificar os cachorros. Portanto, o governo fica em uma sinuca de bico, pois não podem mandar a carrocinha “eliminar” todos os cachorros de rua. Certamente a medida seria seguida de enormes protestos populares. Ao mesmo tempo, não pode acolher todos os cachorros que perambulam pelas ruas de Santiago: os custos da empreitada certamente afetaria o orçamento da saúde, educação e vigilância sanitária. Ou seja, protestos, certamente.



Qual a solução? Não fazer nada. Quer dizer, o governo não faz nada. A população toma conta dos cachorros. E tomam conta de verdade. Vi cachorros dormindo na porta de lojas de artigos de luxo e na frente da Casa da Moeda, o a palácio do governo. Ninguém solicita delicadamente que eles saiam. Chutá-los, muito menos. Mas o cuidado vai além disso. Há baldes de água pregados em árvores, com os dizerems "água para perritos vagos" e uma solicitação para que não se jogue lixo no balde. E há cachorros agasalhados. Muitos. Afinal, o inverno é frio em Santiago e alguém se deu ao trabalho de providenciar pulôver de lã para os cascudos, que desfilam comportadamente pelas ruas com seus agasalhos.




E a doçura da população chilena não é apenas direcionada aos cascudos. No primeiro dia que entrei no condomínio onde estava hospedada, o porteiro me chamou. Achei que ia perguntar quem eu era e onde estava indo. Ledo engano. Para minha surpresa, ele me perguntou porque eu estava mancando. Fiquei eu numa sinuca de bico: como traduzir “hip problem”? Apontei para meu “hip”, dizendo que tinha “un problema a cá”. “Ah, las caderas”. Sim, estou com um problemas nas cadeiras. Sorri, agradecida e entretida pela tradução. Ele sorriu com toda compaixão que alguém poderia ter com minhas cadeiras, e se despediu com um “se cuide”.



E o porteiro não foi uma exceção. Da próxima vez que estiver no Chile note como todos se despedem com um “que se vaya bien”. Eu traduzi isso como aquele “tudo de bom” que a gente no Brasil deseja apenas a amigos e família e, em geral, somente em aniversários e despedidas. Aqui não. Eles desejam isso para todo mundo, todos os dias. A caixa do supermercado me desejou tudo de bom. Todos os garçons também. Até o funcionário do metrô me desejou tudo de bom, mesmo depois de passar meia hora lidando com minha confusão com o sistema de bilhetes deles (tem um bilhete para hora do rush, outro para a hora dos que não tem horário, e um terceiro para os boêmios -- e cada um é um preço). Para não deixar tanta gentileza passar batido, saquei em cada uma dessas oportunidades o melhor do meu portunhol: “Que se vaya bien para usted tambien!”.



E assim foram minhas interações com esse povo chileno que consegue ser eficiente,pontual e cumprir com as leis sem perder a ternura. Jamais. Na minha última visita, acabei associando o cumprimento de regras com o alto índice de desenvolvimento deles. Não mudei de ideia com relação a isso, mas acrescento aqui um novo elemento:  é mais fácil viver e cumprir com as regras numa sociedade gentil. Fui pedir orientação aos carabineros (polícia chilena) e encontrei duas pessoas solícitas e sorridentes que não apenas me indicaram onde ir, mas puxaram papo: perguntaram de onde eu era e comentaram o jogo do Brasil na copa. Minhas duas tentativas de pedir orientação a policiais no Brasil foram respondidas com uma cara feia e um resmungo (afinal, eles estão lá para combater a criminalidade, não dar informações, e eu obviamente estava atrapalhando a missão!).



Em suma, como diz a camiseta: “gentileza gera gentileza”. Eu acho que gentileza gera também gera bom comportamento. Basta olhar para os cascudos de Santiago ou para os carabineiros, que têm um dos índices mais baixos de violência da América Latina e contam com altos índices de confiança da população. Os cascudos são doces porque todo mundo trata eles com gentileza. Em suma, é uma doçura coletiva que se auto-reforça, criando um ciclo virtuoso de doçura e bom comportamento por toda a cidade.



E eu suspeito que essa doçura chegue até o vinho, pois só isso pode explicar como eles conseguem produzir essa coisa maravilhosa que é o vinho chileno. Um brinde a eles! E que se vaya bien!



*P.S. "Cascudos" é o apelido que minha irmã dá a todos os cachorros do mundo. Não sei de onde veio, mas acho tão simpático que resolvi emprestá-lo.