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quinta-feira, 1 de março de 2012

Ah, se eu te pego, Antônio!

Depois da minha declaração de amor ao Antônio Prata, quero matar o sujeito. Estou aqui, na maior correria, sem tempo para respirar, fazendo um esforço pra preservar meu precioso sono e obviamente sem tempo para escrever no blog (como vocês devem ter notado). Apesar disso, reservo um momento semanalmente para ler o Antônio. Sempre alegra meu dia. Quando ele está inspirado, alegra minha semana toda. Mas essa semana, o Antônio me deixou na mão. Escreveu uma droga de uma crônica que transcrevo abaixo.  

Crônica decepcionante para uma fã estressada que estava aguardando ansiosamente a leitura? Imperdoável. Um amigo, poeta, ainda tentou defender o sujeito. Disse que ninguém acerta toda vez. Em especial quando se escreve semanalmente. Trouxe como exemplo as crônicas do João Ubaldo no Estadão. Ainda assim, não perdoei o Patrinha (apelido carinhosamente dado a ele pelo meu primo). Erra a mão qualquer outro dia, meu amigo. Mas essa semana, não!

Dada a gravidade do assunto, resolvi declarar guerra. Segue aqui minha respota à coluna da semana anterior, na qual o tal do Patrinha, muito jocosamente, tira um sarro do pessoal que se recusa a ouvir recados no celular e pede para as pessoas não gravarem mensagens. Diz ele que a moda pegou, graças a crença de todos de que estão tão ocupados, com tarefas tão importantes, que sequer sobra tempo para pegar um mero recado. Não se trata disso, meu amigo. Ninguém está em busca de eficiência e bom uso do tempo. O pessoal está em busca de paz. 


Há tempos que eu eliminei o telefone da minha vida. Primero, só tenho celular. Não tenho telefone em casa. E não dou meu número para ninguém, exceto para as pessoas que sabem que não devem ligar a não ser em caso de emergência. Semana passada, um amigo com quem encontro quase toda semana brincou comigo, falando que até hoje não tem meu telefone. Eu disse que não gostava que as pessoas me ligassem. Ele disse que notou isso no dia que a gente se conheceu, pois ele me passou o telefone dele e eu dei meu email, acrescentando: - esse é o jeito mais fácil de entrar em contato comigo. 


Anti-social? Não. Sou anti-caroneiros (free-riders em inglês). As pessoas tendem a achar que seu ouvido e seu tempo livre estão à completa disposição delas. E daí tomam carona no seu tempo, sem seu consentimento. E o telefone, infelizmente, é uma tecnologia que tornou essa -- falsa -- crença em uma realidade dolorida. As pessoas ligam e perguntam o que você está fazendo. Se a resposta é: "- nada, estava lendo uma revista no sofá", elas se sentem na liberdade de engatar em uma conversa contigo. O pressuposto é sempre que a não ser que você esteja ocupada, você quer falar com a pessoa -- nunca o contrário. Mas a verdade, ao menos para mim, é sempre o contrário: eu não quero falar com as pessoas, em especial quando aproveitando meu tempo livre!

O problema todo é que a gente criou regras sociais em que não é aceitável você virar pra pessoa e falar: - "Eu prefiro continuar a ler a minha revista, cujas reportagens são infinitamente mais interessantes do que seus problemas pessoais. Com licença." Resultado? Angústia. Milhares de pessoas, permaneciam lá, presas naquela ligação, sem poder usufruir de suas revistas, do sofá, ou do silêncio, por causas desses pentelhos que usam e abusam da maravilha tecnológica que é a telefonia. Por causa disso, alguém inventou a secretária eletrônica. Bem me lembro do dia no qual eu pude, sentada no sofá, lendo minha revista, ficar apenas esperando o recado, ver quem estava ligando, e decidir se eu queria falar com a pessoa ou não. Um maravilhoso mundo novo -- um mundo cheio de paz e liberdade -- se abriu com as secretárias eletrônicas. 


A liberdade recém adquirida com essa maquininhas parecia não ter mais fim, até chegarem os celulares. E aqui é que está o cerne do problema. Quando as mensagem ficam na sua casa, você liga de volta quando der (leia-se, quando você quiser). As desculpas são as mais variadas: estava viajando, passei o dia fora, cheguei em casa e não vi a luzinha piscando, etc. O problema é que com o celular não dá pra escapar. A pessoa espera que você ligue de volta. E ligue logo. E ela sabe que você vai ver que tem um recado e vai ouvi-lo. E daí você está perdido, de novo. Voltamos, portando, à prisão que existia no momento pré-secretária eletrônica. Exceto que agora esse pentelhos te acham mesmo quando você não está em casa. Não há local onde você esteja salvo. O momento de ler a revista no sofá talvez possa até ser preservado, por uma hora ou duas, mas nada mais que isso. 

Portanto, acho muito natural que as pessoas estejam tentando fugir disso com o pedido de não deixarem recados. Sim. Mensagens de texto não exigem resposta tão pronta, e facilitam escapatórias, pois tornam as desculpas esfarrapadas menos gaguejantes. Mais importante: as mensagens de texto (e os emails, no meu caso) preservam intacta todas essa nossa hipocrisia. Afinal, ninguém quer sair por aí falando diretamente na cara dos outros "não quero falar contigo, cai fora!". Então, continuamos a procurar maneiras diplomáticas de fazê-lo. A mensagem de texto hoje é a secretária eletrônica de ontem. 

Portanto, se liga, Pratinha: o pessoal só não quer que você fique enchendo o saco. Em vez de ficar ligando para as pessoas e perdendo tempo no telefone, você devia mesmo é trabalhar mais tempo nas crônicas pra não escrever de novo um desastre, como o dessa semana. Fica a dica. 

***






Antonio Prata
Plano

Juntar dinheiro; montar um bunker; roubar exemplares de Hamlet e, neles, inserir a frase 'Ai, se eu te pego...'
Descobrir qual é a atividade profissional mais bem remunerada. Fazer cursinho. Prestar vestibular para a área. Ser o primeiro da classe. Arrumar um emprego. Ralar, sem pensar em outra coisa, até juntar 20 milhões de dólares. Pedir demissão.

Comprar um sítio em Jundiaí. Construir um galpão subterrâneo. Adquirir as mais modernas impressoras industriais. Contratar excelentes artistas e produtores gráficos. Instalá-los no bunker.
Descobrir quais são os dez países em que mais se estuda e se monta peças de Shakespeare. Contratar quadrilhas especializadas em roubo nos dez países. Surrupiar das bibliotecas públicas e privadas, lenta e discretamente, o maior número possível de edições de Hamlet. Mandá-las para Jundiaí.

Produzir versões fac-símile destes livros, idênticas em tudo às originais, do couro da capa ao amarelo das páginas, a não ser por um detalhe: a inclusão de uma frase no final do segundo ato, uma ameaça do príncipe da Dinamarca a Cláudio, assassino de seu pai: "Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego!". Devolver as edições adulteradas às bibliotecas. Queimar as originais.

Comprar anônima e paulatinamente, nos sebos destes mesmos países, todas as edições de Hamlet que se puder encontrar. Mandá-las para Jundiaí.

Produzir versões fac-símile destes livros, idênticas em tudo às originais, dos furos das traças às manchas de café, a não ser por um detalhe: a inclusão de uma frase no final do segundo ato, uma ameaça do príncipe da Dinamarca a Cláudio, assassino de seu pai: "Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego!". Doar as obras adulteradas aos mesmos sebos em que foram compradas. Queimar as edições originais.

Comprar o silêncio das quadrilhas e dos artistas gráficos. Se preciso for, pagar mais às quadrilhas para matar os artistas gráficos e, depois, exterminar as quadrilhas.

Contratar hackers para adulterar as versões on-line de Hamlet e incluírem a frase "Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego!", no final do segundo ato. Comprar o silêncio dos hackers. Se preciso for, matar os hackers.

Sequestrar o crítico literário Harold Bloom. Mandá-lo para Jundiaí. Obrigá-lo a inventar uma explicação qualquer para a omissão do trecho "Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego", em diversas edições da peça. O erro de uma gráfica londrina, em 1756? A mão pesada de um editor marselhês, em 1809? Obrigá-lo a escrever um ensaio sobre Hamlet e citar, numa nota de rodapé, a omissão do trecho. Mandar o ensaio para a Oxford Literary Review. Dinamitar o bunker -com Harold Bloom dentro.
Esperar duas décadas.

Viajar para a Inglaterra. Reservar um camarote para assistir Hamlet, no Royal Shakespeare Theatre, em Stratford-upon-Avon. Mandar fazer um smoking sob medida. Contratar uma acompanhante eslava, loira, de olhos azuis e 1,82 m. Ir ao teatro com Nadia ou Milka ou Zora. Pedir uma garrafa de champanhe Cristal. Dar o último gole três segundos antes do final do segundo ato e ouvir o melhor ator da Royal Shakespeare Company recitar, para 1.500 homens de paletó e mulheres cobertas de brilhantes: "Oh, if I catch you, oh, oh, if I catch you!".

 Voltar para Jundiaí e passar o resto dos meus dias criando curiós.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Que seja eterno

Tem algumas coisas que precisam ser eternas. Eternas de verdade. Não aquele eterno pra inglês ver do Vinícius de Moraes, “eterno enquanto dure…” A frase é bonita, mas, no fundo, no fundo, todo mundo quer que seja eterno de verdade, não? Portanto, ponha-se a poesia de lado: ou é eterno ou não é eterno. Ponto.

Em homenagem a falta de poesia e ao excesso de pragmatismo na minha vida, aqui vai minha lista de coisas que eu queria que fossem eternas de verdade.

1. Os Angry Birds. Queria que fosse eterno, com infinitas fases. Mas as fases acabam. Você baixa a versão livre e um dia ela acaba. Daí você compra a versão “Angry Birds Rio”, inspirada na animação com o mesmo nome, e ela acaba também. Demora um pouco mais que a versão gratuita, mas acaba. Estou agora com a versão “Angry Birds Seasons”, mas já acabei o “Ano do Dragão” e não vai demorar pra acabar o resto. O Seasons é uma versão mais difícil que as anteriores, o que faz ela durar um pouquinho mais. Mas ainda assim, um dia eu vou passar todas as fases, e vai acabar. E vai chegar o dia em que eu não vou ter uma versão nova pra baixar. E só isso que temo. Não temo “a morte, angústia de quem vive”, mas sim a desilusão de ter que jogar Fruit Ninja


2. O livro de crônicas do Antônio Prata. Minha irmã me deu o livro de presente de Natal e eu não conseguia parar de ler. O sujeito é muito bom. Talvez ele nem seja tão maravilhoso assim, mas temos exatamente a mesma idade. Portanto, acho que parte da história é que eu me identifico com a maioria das crônicas. Especialmente com as nostálgicas. Rolo de rir, sozinha no sofa. E o cara escreve bem. Cronista de primeira. Mas ler o livro foi doloroso. A cada página virada eu me via mais perto do final. Acho que devorei três quartos do livro em dois dias. Daí eu entrei em crise. Queria devorar o resto, mas se eu fizesse isso não ia ter mais crônicas do Antônio Prata para ler. Parecia um alcóolatra diante de uma garrafa de uísque. Decidi me disciplinar: uma crônica por noite - como um doce, que você guarda e passa o dia inteiro esperando para saboreá-lo. Mas o dia fatídico chegou. Li a última crônica e tive uma crise existencial: o que fazer sem as crônicas do Antônio Prata? Após um breve momento de pânico, comecei de novo. Releio uma crônica todo os dias, exceto nos dias em que sai uma crônica nova na Folha. Eu sei que você vai argumentar que as crônicas novas são produzidas semanalmente. Mas uma por semana não basta. Eu precisava de várias crônicas do Antônio Prata por dia, para consumir ao meu bel prazer. Mas é um bem finito, a ser apreciado com moderação. Um por dia, e uma nova por semana, enquanto durar o estoque. Só espero que Antônio Prata seja imortal, posto que ele não é chama…


3. O banho depois da corrida de sábado. Sábado é o dia que encontro com o pessoal do clube de corrida. Às vezes a gente se encontra durante a semana, mas é difícil coordenar todas as agendas profissionais. Portanto, os encontros durante a semana são ocasionais. Mas sábado é religioso. E fazemos uma longa corrida, de mais de uma hora, com mais uma hora de café, depois da corrida, pra colocar a conversa em dia. O problema é que depois de correr no frio e passar uma hora deixando o corpo esfriar, sentada em um café, chego em casa congelando. E eu não consigo colocar no papel qual é a sensação que sinto ao entrar debaixo do chuveiro quente. Não tem nenhum banho, em nenhuma circunstância, que supere a qualidade do meu banho na manhã de sábado. É quase uma experiência transcendental: os músculos cansados relaxando, a pele fria esquentando. Uma vez ouvi um programa de rádio no qual eles indicavam que moradores de rua passam anos sem dormir numa cama. Imagino que a sensação que sinto é similar a de um morador de rua deitando em uma cama pela primeira vez em vinte anos. E o mais difícil – claro -- é sair do banho. Pois todas aquelas sensações boas não desaparecem, desde que eu fique lá. Mas elas desaparecem quando eu saio debaixo do chuveiro e entro lá de novo mais tarde. Não funciona. Por isso meu dilema. Eu passo todas as minhas manhãs de sábado, debaixo do chuveiro, pensando que eu não queria que aquilo acabasse nunca. Queria ficar ali pra sempre. Por toda minha vida. Mas eu acabo saindo, porque não dá pra jogar Angry Birds ou ler o Antônio Prata no chuveiro…