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sábado, 28 de janeiro de 2012

Que seja eterno

Tem algumas coisas que precisam ser eternas. Eternas de verdade. Não aquele eterno pra inglês ver do Vinícius de Moraes, “eterno enquanto dure…” A frase é bonita, mas, no fundo, no fundo, todo mundo quer que seja eterno de verdade, não? Portanto, ponha-se a poesia de lado: ou é eterno ou não é eterno. Ponto.

Em homenagem a falta de poesia e ao excesso de pragmatismo na minha vida, aqui vai minha lista de coisas que eu queria que fossem eternas de verdade.

1. Os Angry Birds. Queria que fosse eterno, com infinitas fases. Mas as fases acabam. Você baixa a versão livre e um dia ela acaba. Daí você compra a versão “Angry Birds Rio”, inspirada na animação com o mesmo nome, e ela acaba também. Demora um pouco mais que a versão gratuita, mas acaba. Estou agora com a versão “Angry Birds Seasons”, mas já acabei o “Ano do Dragão” e não vai demorar pra acabar o resto. O Seasons é uma versão mais difícil que as anteriores, o que faz ela durar um pouquinho mais. Mas ainda assim, um dia eu vou passar todas as fases, e vai acabar. E vai chegar o dia em que eu não vou ter uma versão nova pra baixar. E só isso que temo. Não temo “a morte, angústia de quem vive”, mas sim a desilusão de ter que jogar Fruit Ninja


2. O livro de crônicas do Antônio Prata. Minha irmã me deu o livro de presente de Natal e eu não conseguia parar de ler. O sujeito é muito bom. Talvez ele nem seja tão maravilhoso assim, mas temos exatamente a mesma idade. Portanto, acho que parte da história é que eu me identifico com a maioria das crônicas. Especialmente com as nostálgicas. Rolo de rir, sozinha no sofa. E o cara escreve bem. Cronista de primeira. Mas ler o livro foi doloroso. A cada página virada eu me via mais perto do final. Acho que devorei três quartos do livro em dois dias. Daí eu entrei em crise. Queria devorar o resto, mas se eu fizesse isso não ia ter mais crônicas do Antônio Prata para ler. Parecia um alcóolatra diante de uma garrafa de uísque. Decidi me disciplinar: uma crônica por noite - como um doce, que você guarda e passa o dia inteiro esperando para saboreá-lo. Mas o dia fatídico chegou. Li a última crônica e tive uma crise existencial: o que fazer sem as crônicas do Antônio Prata? Após um breve momento de pânico, comecei de novo. Releio uma crônica todo os dias, exceto nos dias em que sai uma crônica nova na Folha. Eu sei que você vai argumentar que as crônicas novas são produzidas semanalmente. Mas uma por semana não basta. Eu precisava de várias crônicas do Antônio Prata por dia, para consumir ao meu bel prazer. Mas é um bem finito, a ser apreciado com moderação. Um por dia, e uma nova por semana, enquanto durar o estoque. Só espero que Antônio Prata seja imortal, posto que ele não é chama…


3. O banho depois da corrida de sábado. Sábado é o dia que encontro com o pessoal do clube de corrida. Às vezes a gente se encontra durante a semana, mas é difícil coordenar todas as agendas profissionais. Portanto, os encontros durante a semana são ocasionais. Mas sábado é religioso. E fazemos uma longa corrida, de mais de uma hora, com mais uma hora de café, depois da corrida, pra colocar a conversa em dia. O problema é que depois de correr no frio e passar uma hora deixando o corpo esfriar, sentada em um café, chego em casa congelando. E eu não consigo colocar no papel qual é a sensação que sinto ao entrar debaixo do chuveiro quente. Não tem nenhum banho, em nenhuma circunstância, que supere a qualidade do meu banho na manhã de sábado. É quase uma experiência transcendental: os músculos cansados relaxando, a pele fria esquentando. Uma vez ouvi um programa de rádio no qual eles indicavam que moradores de rua passam anos sem dormir numa cama. Imagino que a sensação que sinto é similar a de um morador de rua deitando em uma cama pela primeira vez em vinte anos. E o mais difícil – claro -- é sair do banho. Pois todas aquelas sensações boas não desaparecem, desde que eu fique lá. Mas elas desaparecem quando eu saio debaixo do chuveiro e entro lá de novo mais tarde. Não funciona. Por isso meu dilema. Eu passo todas as minhas manhãs de sábado, debaixo do chuveiro, pensando que eu não queria que aquilo acabasse nunca. Queria ficar ali pra sempre. Por toda minha vida. Mas eu acabo saindo, porque não dá pra jogar Angry Birds ou ler o Antônio Prata no chuveiro…

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Abaixo os porcos!

Eu já havia confessado antes que sou viciada em Angry Birds.  Ainda não sei porque eu gosto tanto do joguinho. Nunca fui muito apegada a jogos. E, se você pensar, é um jogo de aves contra porcos... Ou seja, qualquer profissional com mais de trinta anos que se preze teria vergonha de confessar que passa suas horas vagas se entretendo com isso. Entretanto, pela febre que viraram os bichinhos eu imagino que não estou sozinha. E minha intuição me diz que seria ostracizado quem declarasse que não gosta do jogo, e não o contrário. 

Por que? De onde vem essa febre? O Malcom Gladwell, um dos meus escritores favoritos, escreveu um livro sugerindo que não passa de sorte ou acaso. O livro chama O Ponto da Virada e analiza vários fenômenos como esse dos Angry Brids.  Gladwell chega à conclusão de que um jogo não fica famoso porque é necessariamente melhor que outros. Apenas acontece, de maneira inexplicável.

Apesar de gostar muito do Gladwell, eu não consigo engolir a idéia de que tenha sido apenas acaso que esse jogo tenha feito tanto sucesso. Vejo por mim mesma: sou absolutamente viciada no jogo. E tenho, para explicar isso, algumas hipóteses.

A primeira é moral. É uma questão de justiça. Você usa aves que estão prontas para perder a vida para matar porcos malvados que roubaram os ovos dessas aves. É o mal contra o bem. E quando você não consegue matar os porcos, aqueles vilões verdes riem da sua cara e da cara das pobres aves injustiçadas, que foram indevidamente privadas de seus ovos. Há que se buscar um mundo mais justo. Já que não podemos fazer nada sobre a invasão do Pinheirinho, lutemos por essas pobres aves. Ou seja, it is a feel good game.

A segunda hipótese é lógica. É um jogo que exige conhecimento de física. Ângulos e velocidade contam muito. Se a ave bater no ângulo errado, você não mata o vilão, o porco. É quase como jogar sinuca. Na verdade, se você pensar que você bate bolinhas coloridas (disfarçadas de aves) em bolinhas verdes (disfarçadas de porcos), a coisa se assemelha muito à sinuca. Exceto que há alguns obstáculos no caminho. Trata-se, portanto, de uma versão ainda mais sofisticada da sinuca. Enquanto na sinuca é como você tivesse fazendo cálculos de física newtoniana, aqui você se sente fazendo física quântica. Ou seja, é um jogo de inteligência.

A terceira hipótese é mais instintiva, diria até psicológica. O jogo envolve aves kamikazes que abdicam de suas vidas e porcos que são alvos imóveis, mas ainda assim nada fáceis de ser atingidos. E há muita destruição nesse processo. Prédios desabam e bombas explodem. Ou seja, o jogo apela para algo muito primitivo dentro de nós. O mesmo senso de destruição que faz jogos de guerra parecerem atraentes para meninos na pré-adolescência. E o melhor é que toda a destruição é mascarada com cores, sons e figurinhas que fazem você se sentir melhor do que você se sentiria se tivesse atirando com uma metralhadora no soldado do exército inimigo. Afinal, nessa épocas em que impera o politicamente correto, poucas pessoas conseguem confessar que sentem prazer ao ver sangue inimigo na tela. Angry Birds não tem sangue visível, mas não é muito diferente não. Ou seja, é um jogo catártico.

Por fim, há as razões históricas. Acho que não é mera coincidência que os alvos sejam porcos malvados e mal intencionados. Esses eram os comunistas no livro do Orwell, a Revolução dos Bichos. Por outro lado, o símbolo dos Estados Unidos é uma ave, a águia. Ou seja, mais de vinte anos após a queda do muro de Berlim e a desintegração da União Soviética, estamos aqui revivendo e recriando um momento histórico. Afinal, sempre é bom reafirmar que, sim, o capitalismo venceu e os comunistas que comiam criancinhas desapareceram da face da terra... Ou seja, jogar Angry Birds é quase como escrever um posfácio para a Revolução dos Bichos, intitulado "A Contra-Revolução dos Bichos".

Escolha a que melhor lhe apetecer, mas aviso de antemão: qualquer que seja a razão, não há como vencer. Se você tentar resistir ao jogo, nunca vai ganhar. Portanto, faça como eu: se não pode vencê-los, una-se a eles. 

A luta continua, companheiro!