quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Não estou sozinha no mundo

Há mais gente que pensa que mulheres e homens são diferentes. E não é só por causa do estilo arbustivo da conversa ou do padrão não linear de pensamento...


CONTARDO CALLIGARIS


A lealdade das mulheres

Basta olhar as filas das visitas nos presídios para saber que lealdade não é qualidade masculina


NA TARDE de quinta-feira passada, estive no Presídio Feminino do Butantã, situado na rodovia Raposo Tavares, longe do bairro paulistano do Butantã.
Aconteceu assim: antes do fim de ano, Wagner Paulo da Silva, que eu não conhecia, me escreveu explicando que ele organizava um grupo de leitura regular para detentas desse presídio. O grupo (mais ou menos 25 mulheres) tinha discutido uma de minhas colunas; quem sabe eu me dispusesse a proporcionar um "encontro com o autor"?
Soube depois que Wagner da Silva e Durvalino Peco animam há anos esse grupo de leitura para detentas do presídio do Butantã e, agora, com o apoio do Estado de São Paulo, estendem o programa a 26 penitenciárias da região metropolitana (para isso, eles promovem, na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, um curso gratuito de formação de mediadores -as inscrições já estão encerradas, mas vale a pena conferir: www.fespsp. org.br/leiturativa/).
Enfim, voltando das férias, liberei uma tarde para aceitar o convite e encontrar minhas leitoras. Ficamos conversando mais ou menos duas horas, e saí de lá com algumas reflexões. Eis uma delas.
A prisão, para as mulheres, é uma punição mais severa do que para os homens, e a causa dessa diferença é um atributo feminino.
Claro, há homens leais e mulheres desleais, mas, em regra, a lealdade é uma qualidade mais feminina do que masculina. Não estou pensando na fidelidade amorosa e sexual -nesse campo, homens e mulheres são capazes das mesmas "traições". Penso numa lealdade mais fundamental, que uma comparação vai explicar facilmente.
Em dia de visita numa penitenciária masculina, a fila de mulheres (esposas, mães, filhas, irmãs) é longa: facilmente, é mais de uma visita feminina por cada preso.
Em dia de visita numa penitenciária feminina, a fila é curta e, em sua grande maioria, composta pelas mães das detentas; os homens aparecem num número irrisório. Sei lá, por 700 mulheres no presídio, uma dúzia de gatos pingados visitando. Os homens se esquecem de suas companheiras assim que as portas do presídio se fecham sobre elas. Abandonada pelo companheiro ou marido, a mulher (outra prova de lealdade) prefere duvidar de si: será que o marido nunca comparece porque ela não é, nunca foi, a mulher que ele queria?
A deslealdade masculina aparece também quando os homens são presos; eles são bem felizes de receber a visita das mulheres que voltam a cada semana, lealmente, anos a fio, mas, com frequência, se esquecem dos filhos que deixaram fora do presídio.
As mulheres presas, ao contrário, só pensam nas crianças que estão lá fora (em geral, com a avó; quase nunca com o pai). E, de novo, a lealdade com as crianças as leva a duvidarem de si mesmas: no dia em que sairão do presídio, os filhos não as reconhecerão, ou então, de qualquer forma, eles já gostam de avós, vizinhas, tutores e tutoras mais do que delas -e por aí vai.
Facilmente, as mães detentas vivem o afastamento das crianças não como consequência da punição pelos crimes que elas cometeram, mas, bem mais sofrido, como punição por elas não "merecerem" ser mães -como se os filhos estivessem longe porque elas não souberam e não saberiam ser mães.
As mulheres, qualquer criminologista sabe, agem criminosamente por razões diversas das dos homens. Em regra, matam por paixão amorosa; quando traficam ou assaltam é, frequentemente, para acompanhar o parceiro. Com isso, a prisão feminina é uma espécie de pena do talião: crimes cometidos por amor são punidos pelo sumiço dos homens amados e pelo medo da perda do amor das crianças.
Na época em que trabalhei em instituições psiquiátricas fechadas, quando o expediente terminava e estava na hora de ir embora, no fim do dia, eu era acometido por uma tristeza profunda. Acabava de compartilhar um bom tempo com os que estavam lá internados, e eis que, agora, eu ia embora, para uma casa, uma companhia, o convívio dos amigos. E eles, não; eles ficavam. A tristeza era uma espécie de culpa por abandoná-los no que era, de fato, uma desolação. Pois bem, ao sair da penitenciária do Butantã, não senti nada disso, pois não havia desolação. Não teria como fazer elogio maior à direção do presídio, à equipe que lá trabalha e às detentas que encontrei, pela resiliência de sua vontade de viver.

ccalligari@uol.com.br

Estamos só afundando num poço de problemas?

Voltar para o Brasil é como voltar para uma zona de guerra. O noticiário da hora do almoço começa repleto de notícias sobre mortes e perdas materiais causadas pelo temporal em São Paulo na quarta-feira. Quando termina essa notícia, entra o comercial. Respiro fundo, me perguntando como o governo deixou a cidade chegar nessa situação calamitosa. Enquanto isso, espero por algo mais esperançoso no quadro seguinte. Daí vem a notícia de uma turista alemã de 22 anos assassinada a quatro tiros depois de um sequestro no Recife. Entrevista com o delegado: estão investigando o marido. Penso comigo: sério? Em uma das cidades com um dos mais altos índices de homicídios per capita do mundo a polícia começa a investigação pelo marido? Seria engraçado, se não fosse trágico.

Tópico seguinte? Carnaval. Algo mais ameno, penso. Doce ilusão. O apresentador divulga o saldo de mortes nas estradas durante o feriado: entre 0h de sexta-feira e meia-noite da quarta-feira ocorreram 3.233 acidentes com 143 mortes e 1.912 feridos. Isso inclui um motoqueiro que eu vi na pista contrária da rodovia imigrantes, na vinda pra Santos na quarta-feira de manhã. E como se não bastasse o número assustador, o apresentador acrescenta o mais recente acidente (que não entrou na estatística do carnaval porque aconteceu hoje): um acidente com ônibus em Niterói matou todos os ocupantes, incluindo uma criança de 10 anos. O ônibus bateu em um poste e explodiu. O único sobrevivente conseguiu escapar pela janela.

A essa altura, já desisti de respirar fundo e estou me perguntando como que as pessoas conseguem viver nessa realidade sem se perguntar como deixamos a coisa chegar nesse ponto. Me dá a impressão de um país anestesiado. Para alguém que vem de fora, tudo isso choca. Para quem vive aqui e vê isso todos os dias, já faz parte da realidade. Deixou de chocar. Deixou de incomodar. Deixou de ser aberração e passou a ser parte do cotidiano. Que fazer? No final do noticiário toma-se outro café, acompanhado de um bom quitute. Afinal, há coisas boas no país: come-se e bebe-se aqui como no paraíso.

Mas eu pergunto se a culinária é a única coisa que nos resta. Será? Não há sequer uma única coisa que possa reavivar minha (pequena) esperança de que dias melhores virão? Saí em busca de algo que pudesse me reanimar. Encontrei? Não sei. Tudo depende da interpretação. Apresento minha lista, mas vou deixar que meu leitor avalie por si mesmo.

Meu conselho: se você não for brasileiro e/ou não estiver anestesiado, antes de ler, respire fundo (ou tome uma dose de uisque).

1) O governador (afastado) do Distrito Federal e mais cinco pessoas estão presas por se envolverem em um esquema de corrupção. Isso significa que tem pelo menos um jornalista que acha mais importante limpar o governo que ganhar uma bolada pra mentir, e temos cortes superiores que não se dobraram diante da politicagem clientelista e corrupta que domina alguns entes da federação (pelo menos até o presente momento...).

2) Estão oferecendo proteção do governo para um dos criminosos envolvidos no assassinato do João Helio. O assassino era menor na época do crime, e foi colocado em uma instituição para jovens e crianças (ao invés de ir para a cadeia). Teve que ficar numa ala separada, devido às ameaças de morte. Agora ele completou 18 anos e, com sua saída, o estado teme que ele seja morto. Portanto, o governo vai garantir proteção à sua vida. Isso significa que ainda temos Estado de Direito, e ainda que algumas pessoas se comportem como se o Brasil fosse o velho oeste, o Estado (com a ajuda de uma ONG) está tentando mostrar que isso aqui não é terra de ninguém. Até que se promulgue leis dizendo que vigora o "olho por olho, dente por dente" ou que temos pena de morte no país, essas condutas precisam e devem ser coibidas.

3) Há um programa para incentivar leitura na prisão. O programa começou com um projeto piloto de uma ONG em um presídio feminino e fez tanto sucesso que agora é financiado pelo governo e foi copiado em várias outros presídios do Estado. (O texto, infelizmente, só está acessível para assinantes da Folha, mas tem informações sobre o programa na internet). Acho que isso mostra que a sociedade civil está mais preocupada com a idéia de que presídios devem promover a recuperação e reabilitação dos indivíduos para integrá-los na sociedade, e o Estado está subscrevendo a isso, oficialmente reconhecendo as iniciativas bem sucedidas.

Enfim, estamos aos poucos chegando mais perto do que se chama o Estado de Direito. São passos de formiga, mas acho que todas essas três notícias são razões para mantermos a esperança. Meu leitor poderia argumentar, todavia, que nosso sistema político não está evoluindo tanto quanto nosso sistema legal. As políticas públicas (promovidas pelo poder executivo) para prevenir acidentes nas estradas, inundações catastróficas, escândalos de corrupção inacreditáveis, e um nível de violência urbana acima de qualquer limite aceitável não existem (ou se existem, é como se não existissem). Para chegar a essa conclusão, basta ver o noticiário.

Minha resposta? Acho que mesmo na área de políticas públicas há motivos para esperança. E aqui também eu encontrei um item para a lista. Depois de eu tanto reclamar sobre as pessoas fazendo xixi nas ruas do Rio, e depois de outros reclamarem junto comigo, o governo do Rio decidiu fazer alguma coisa: começou a prender quem estivesse fazendo xix na rua e ao mesmo tempo ofereceu condições para que os mijões cumprissem com a lei. Mijódromos holandeses para homens foram instalados em toda a cidade.

Ou seja, ainda há razões para se ter esperança. Não muita, mas há. E para manter sua esperança, ajuda bastante não ler o jornal ou assistir o noticiário...


Visitando a família...

...com meu novo MacBook. Isso significa que a gente se divertiu com o novo photo booth (que continua sendo uma razão, dentre muitas outras, para se comprar um Mac).


Eu e minha irmã usamos e abusamos da "casa de espelhos"





Daí eu minha mãe e minha irmã experimentamos os efeitos de cores, tipo sépia,
e os novos fundos (que são meios complicados de usar, como vocês podem ver)

mas a gente conseguiu usar no final (exceto pelo sombra da minha cabeça no canto superior direito da tela)




quando meu pai chegou, a gente já tava craque e saiu finalmente a foto para a posteridade!





quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Tecnologia: solução para os problemas do mundo?

Semana passada era o fio dental. Essa semana, tecnologia parece ser a panacéia.

Tradução de um parágrafo de um dos textos que eu dei para meus alunos essa semana no curso de desenvolvimento:

"George Orwell no seu livro 1984 e Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo sugeriam que tecnologia era um inimigo da liberdade e uma ferramenta do totalitarismo, mas a história seguiu um curso diferente. A tecnologia eletrônica moderna devia supostamente ter feito o Big Brother (Grande Irmão no livro de Orwell) onipotente, impondo o monitoramento que gerava nossa submissão; mas ao invés disso ela nos permitiu tornar o Big Borther impotente. Máquinas de fax, video cassetes, e a rede de TV CNN demonizaram e paralizaram ditadores e tiranos, acelarando o processo de destruição desses regimes. Como diz um ditado popular, o PC (personal computer) virou o leito de morte do CP (partido comunista, em inglês)."

E os exemplos para ilustrar isso são vários. A Revolução Laranja na Ucrânia, por exemplo, pode atribuir boa parte do seu sucesso à internet e telefonia celular. Na China, ainda que a revolução democrática não tenha acontecido,grande parte da resistência ao regime é possibilitada por tecnologia. E a lista vai longe (procure no Google).

Isso significa que aqueles jovens que querem mudar o mundo e estão prestando vestibular hoje deveriam ir fazer engenharia e não direito. As faculdade de direito estão cheias de gente que está pronta para lutar por justiça, mas não sabe como. E o direito até agora não se provou um instrumento muito efetivo para fazê-lo. Talvez isso explique porque a maioria entra na faculdade querendo mudar o mundo, e sai de lá querendo passar em um concurso público ou ganhar rios de dinheiro em um escritório de advocacia. Tecnologia, por outro lado, está aí mostrando serviço...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Diversão e arte

Final de semana passado estive em Ottawa, a capital do Canadá. A cidade é uma mistura de Brasília com Washington: tem bastante espaço e áreas verdes, como Brasília; mas ao mesmo tempo é mais amigável para pedestres e pessoas que gostam de passar a pé, como Washington. Tem, todavia, poucas opções para diversão, como Brasília. Mas quem precisa de diversão se a gente tem arte?

E foi arte o que eu vi o fim de semana todo. O Winterlude, festival de inverno, tinha uma vasta exposição de esculturas de gelo,


que ia de coisas gigantescas e monstruosas (literalmente)


até coisas super detalhadas e trabalhosas

Todavia, com a temperatura abaixo de 10 graus celsius, não dá pra ficar muito tempo vendo esculturas de gelo.

A Galeria Nacional de Arte foi, portanto, a próxima parada. Já na entrada, uma escultura gigantesca de uma aranha


que aparentemente foi inspirada na mãe do artista


(só espero que o sujeito esteja fazendo terapia...).

Dentro do museu não dá para tirar fotos. Mas eu fiquei impressionada com a coleção que eles tem do Duchamp e do Pollock, que me fizeram rememorar minhas aulas de artes e as discussões sobre o que é arte ou o que não é arte. Só pra refrescar a memória de vocês: o Duchamp é aquele cara que colocou numa exposição um mictório assinado. O Pollock é aquele que jogava tinta energeticamente (e, segundo alguns, aleatoriamente) em telas gigantescas.

Depois de ver essas obras, fiquei pensando se o Duchamp iria propor de colocar no museu os posters do restaurante onde comi um delicioso brunch:



Talvez. Mas se o Duchamp propusesse colocar meu brunch no museu eu ia protestar: arte tem que ser devidamente apreciada. E eu não consigo apreciar meu brunch fora do meu estômago....

Depois de ver tanta arte, estou agora de volta aos livros, me consolando com os dizeres de Cícero, dispostos na entrada de uma livraria na frente da Galeria Nacional de Arte:


Talvez eu só acrescentaria, no final da frase (além da biblioteca e do jardim), " e um museu na esquina".




sábado, 6 de fevereiro de 2010

Fio dental: solução para os problemas do mundo?

Essa semana o tema foi medicina. O mais interessante foi que o assunto surgiu em locais relativamente inesperados. Ou seja, não tive nenhuma consulta médica essa semana. Nem ninguém ficou doente. Ainda assim, na terça-feira, durante o workshop de direito e economia, surgiu um debate acalorado sobre os gastos com medicamentos e saúde nos E.U.A.

O workshop é onde pesquisadores apresentam as pesquisas em andamento, e recebem perguntas e questionamentos que podem ser úteis no futuro. A idéia básica é que se você está errado sobre algo (o que ocorre frequentemente com pessoas que ficam tentando criar teorias sobre tudo, tipo acadêmicos), você deveria saber disso antes publicar seu artigo. Para evitar o problema, os acadêmicos apresentam seus rascunhos em workshops e em conferências. A idéia é que nessas apresentações você pode receber críticas e evitar quase todo tipo de situação embaraçosa depois da publicação.

Pois bem. Na terça-feira o workshop foi sobre medicamentos genéricos. O pesquisador, um professor da Universidade de Columbia nos Estados Unidos, está fazendo uma pesquisa super interessante sobre a disputa por patentes entre fabricantes de medicantos genéricos. O argumento central do artigo é que as disputas sobre patentes está fundamentalmente relacionada a dois fatores: (i) volume de venda do medicamento; (ii) “qualidade” da patente. Ou seja, quanto mais um medicamento vende, maior a probabilidade de que os fabricantes de genéricos questionem a patente. Além disso, quanto mais “fraca” a patente, maior a probabilidade da patente ser questionada também.

O argumento do artigo é um pouco mais complexo que isso, mas o importante é que no meio do seminário um professor do departamento de economia levantou a mão e perguntou quanto dinheiro estava sendo gasto nessas disputas judiciais. A resposta do pesquisador foi: provavelmente dois bilhões de dólares ao ano (note que isso é apenas o dinheiro gasto com custas judiciais das disputas). O professor questionou, então, porque estávamos gastando tanto nessas disputas ao invés de financiar vacinas contra malária e infrasestrutura para fornecer água potável para as pessoas na África. O comentário gerou um intenso e acalorado debate. A primeira reação foi de um outro economista, que argumentou que a expectativa de vida atual na América do Norte era em grande parte resultado desses medicamentos. A resposta cética do primeiro foi: eu conheço várias pessoas que estão sendo mantidas vivas graças às maravilhas de medicina atual, mas sinceramente acho que elas estariam melhor a sete palmos abaixo da terra.

A pergunta que se seguiu foi se estamos de fato financiando o prolongamento da vida de pessoas na América do Norte (ou em países desenvolvidos em geral) às custas de vidas na África. Uma das respostas foi um sonoro não. As empresas farmacêuticas estão aqui pra fazer dinheiro. Aliviar o sofrimento das pessoas na África não dá dinheiro. Portanto, caso o governo norte-americano proibísse esse tipo de disputa (e os gastos incorridos) sobre patente de medicamentos, esse dinheiro não iria ser imediatamente revertido para a fome da África.

A resposta me lembrou de um comentário no meu blog, quando eu coloquei um post sobre a reforma do sistema de saúde nos Estados Unidos. Meu primo, que é médico, disse:

[Sobre a reforma da saúde norte-americana]
A medicina tal como praticada nos EUA é um motor de conhecimento, um colosso, gera e incorpora tecnologia quase instantaneamente. Mas está ficando impagável, em boa parte pelo dispêndio no cuidado especializado do final da vida, largamente irrelevante. A questão não é apenas estender a cobertura para os que não podem pagar (ampliar o medicaid, por exemplo), mas como desacelerar esse motor, de maneira moralmente aceitável para a sociedade norte-americana.

Isso sugere que deixar de gastar dinheiro com essas disputas poderia não apenas salvar vidas na África, mas poderia custear assistência médica para muita gente nos Estados Unidos que atualmente não tem acesso ao benefício...


O debate foi animado, como vocês podem imaginar, mas em um certo momento decidimos voltar ao artigo e a questão ficou no ar.

Daí na quinta-feira eu fui no dentista fazer uma limpeza nos dentes. O que era para ser uma visita de rotina acabou se tornado uma conversa muito interessantes sobre diabetes e higiene bucal. A técnica que fez a limpeza me perguntou se eu estava passando fio dental todos os dias. Como uma boa advogada, eu evitei a questão. Daí ela deduziu que a resposta era não, e falou que eu precisava fazer isso todos os dias. Eu disse que eu sabia disso na teoria, mas colocar a coisa em prática era diferente de saber a coisa na teoria (os acadêmicos que o digam!).

Ela perguntou então se eu sabia da correlação entre higiene bucal e diabetes. E me disse que recentemente tinha saído um artigo em uma revista renomada ligando higiene bucal com diabetes. O argumento, segundo ela, era que falta de higiene bucal agravava os sintomas da diabetes. Minha resposta foi: se isso for verdade, você pode ter certeza que eu vou passar fio dental todos os dias. Eu não tomo muito cuidado com meus dentes, mas eu tomo MUITO cuidado com minha diabetes!

O problema foi que o incentivo para passar fio dental todo dia se esvaiu no momento em que eu fui ler o referido artigo. É verdade que as pesquisas mais recentes têm achado correlações entre falta de higiene bucal e doenças coronárias e diabetes. O problema é que correlação não implica causalidade. Ou seja, os estudos indicam que pessoas com pouca higiene bucal são mais propensas a terem infartos ou desenvolverem diabetes. Mas isso não significa que essas pessoas têm infartos ou diabetes porque elas não passam fio dental.

Até o momento, a literatura médica apenas provou que havia uma correlação. Mas correlações podem significar muito pouca coisa. Por exemplo: existe um estudo mostrando que a maioria dos países que ganharam as taças da copa do mundo de futebol são países com um sistema legal chamado civil law. Esse sistema é baseado em leis, diferentemente do sistema da common law, que é baseado em casos decididos pelos tribunais. Exemplos de países que tem civil law: Alemanha, Argentina, Brasil, França e Itália. Exemplos de países que tem common law: Austrália, Canadá (exceto Quebec) e Estados Unidos. Essa correlação, todavia, nao significa que um sistema jurídico produz melhores jogadores de futebol do que o outro. Ou seja, correlação não prova causalidade.

Portanto, o fato de que pessoas que tem pouca higiene bucal estão mais propensas a sofrerem infarto ou desenvolverem diabetes pode ser simplesmente consequência do fato de que essas pessoas não cuidam bem da saúde em geral. Mas isso não significa que elas desenvolveram essas doenças porque não passaram fio dental. Ou seja, os estudos provam correlação, mas não causalidade.

Espero que seja só o pessoal do consultório onde eu fui que esteja cometendo esse erro de confundir correlação com causalidade. Senão, daqui a pouco as pessoas vão estar argumentando que ao invés de investir em remédios para tratar de Parkinson’s nos Estados Unidos, ou malária na África, a gente devia estar distribuindo fio dental pelo mundo…

domingo, 31 de janeiro de 2010

Da relatividade dos sucessos e fracassos

Tradução de um trecho de um livro muito bem humorado que estou lendo sobre relacionamentos:

"No momento em que minha avó morreu, o casamento dela se tornou um sucesso. A morte separou os meus avós, não um divórcio, e morte é a única medida de um casamento bem sucedido. Quando um casamento termina em divórcio, dizemos que ele fracassou. Por que? Porque os cônjuges saíram vivos. Não importa se a separação foi amigável, ou se ambos estão mais felizes sozinhos, ou se uma relação infeliz foi substituída por duas novas relações felizes. Um casamento que termina em divórcio fracassou. Somente um casamento que termina com um dos cônjuges enterrado sete palmos abaixo da terra é considerado um sucesso.

Essa é uma medida bastante deturpada de sucesso.

Meus avós estavam casados há 31 anos quando minha avó morreu enquanto dormia ou finalmente conseguiu se matar, o que ela vinha tentando fazer há anos. Eles se amavam, e tinha muitas coisas boas no casamento deles, mas não há dúvidas de que minha avó não estava feliz. Meus pais estavam casados há 22 anos quando eles se divorciaram. Eles sobreviveram ao primeiro casamento - sobreviveram ao divórcio, e seguiram suas vidas casando novamente. Eles foram felizes juntos por duas décadas, criaram quatro filhos e decidiram, quando os filhos já eram praticamente adultos, se divorciar. Isso não me parece um casamento que fracassou. Parece mais um casamento que atingiu seu prazo de validade, o que vêm ocorrendo com maior frequência agora que nossas expectativas de vida estão tão altas. O fato dos meus pais terem se separado, encontrado novos parceiros, e iniciado segundos casamentos bem-sucedidos foi um processo longo e doloroso, mas antes isso do que um deles decidir beber até morrer."




sábado, 30 de janeiro de 2010

Se correr o bicho come, se ficar o bicho pega

Hoje o bicho pegou no meu clube de corrida. A sensação térmica (temperatura mais vento) era de menos 25 graus quando saí de casa as 8:15 da manhã. Eu estava com todo meu equipamento, e com uma máscara para o rosto nova que comprei essa semana. Ainda assim, meu suor congelou no meu gorro (essa "penugem" branca em quase todo o gorro é suor congelado), e depois foi a vez dos meus cílios.




Estava frio pra chuchu! Mas vocês podem ver que, por baixo da minha máscara, eu estava sorrindo:


E vocês devem estar pensando porque eu faço isso. Eu fazia essa mesma pergunta antes de começar a correr, quando eu via pessoas correndo nas ruas de New Haven com a temperatura abaixo de zero. É difícil entender sem passar pessoalmente pela experiência, mas deixa eu tentar dar algumas possíveis explicações.

1. A explicação fisiológica é que correr produz endorfinas, que são hormônios ligados ao humor. Muitos corredores relatam que correr "dá um barato". Outros não chegam a tanto, mas se sentem muito mais tranquilos e relaxados depois de correr. Para mim, a sensação é de dar um "reset" no meu computador mental. Correr me dá clareza e melhora - muito! - meu humor.

2. A explicação sociológica é que clubes de corrida, de forem coesos e bem estruturados, criam uma estrutura de pressão social. É como se você assumisse um compromisso com as outras pessoas, e se sentisse obrigada a ir. Isso não só torna mais fácil criar uma disciplina de exercícios, mas é a estratégia usada por Yunnus para tornar o microcrédito um sucesso ao redor do mundo. No caso do microcrédito, os empréstimos são feitos por um grupo, e cada membro pressiona o outro para pagar a parte deles da dívida, senão a possibilidade dos outros de conseguirem créditos no futuro é muito pequena. Os índices de inadimplência nos programas de microcréditos são próximos de zero...

3. A explicação psicológica é que conversar com as meninas do grupo, durante a corrida, é uma terapia. As conversas vão de assuntos pessoais para a crise no Haiti, passando por planos para organizar festas e coisas divertidas para fazermos juntas. Uma das corredoras do nosso clube chegou a declarar oficialmente que ela corre por causa da companhia. Mas não é só com companhia que se obtém benefícios psicológicos. Meu chaveiro tem os seguintes dizeres: "Correr é mais barato que fazer terapia". Mesmo com o investimento no equipamento, é verdade.



A minha explicação pessoal é que é uma combinação das três explicações acima, mais um café quentinho e delicioso que tomamos, em muito boa companhia, depois da corrida...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O dilema entre fazer seu trabalho bem e fazer o bem

Como vocês podem imaginar, a crise humanitária no Haiti tem tomado conta dos meios de comunicação e das conversas de corredor aqui no Canadá. Dias após o desastre, a população canadense se mobilizou de tal forma que os sites das principais organizações humanitárias travaram, de tanta gente fazendo doações online. Além da mobilização econômica, há também uma mobilização política: na segunda-feira, vários líderes se reuniram em Montreal para decidir como a comunidade internacional pode ajudar o Haiti. A discussão sobre como melhor ajudar têm sido acaloradas, e os problemas com o pouco que foi feito até agora (basicamente fornecer comida e medicamentos para os sobreviventes) têm sido muitos.

Mas hoje uma outra discussão chamou minha atenção: em um crise humanitária como essa, quando devem os jornalistas ajudar, e quando eles devem simplesmente assistir e contar a história? Vários jornalistas deram suas opiniões pessoais sobre o assunto em um programa de rádio que ouvi agora a noite. Muitos argumentaram que ajudar é uma questão ética. Faz parte de ser um ser humano: quando você vê outro ser humano sofrendo, seu impulso, instinto e vontade é ajudar. E muitos deles ajudam, como podem.

A questão se complica, todavia, quando o jornalistas são questionados sobre qual a melhor forma de reconciliar a ética pessoal com a ética de trabalho. Muitos acham que ajudar não é parte da história, e jornalistas devem separar claramente os momentos de ação humanitária do trabalho profissional deles. Ou seja, eles acham errado ajudar e ao mesmo tempo transformar isso em uma história para a mídia. Muitos consideram abominável a atuação de Sanjay Guptha, médico e correspondente da CNN, que dá a volta o mundo salvando vidas na frente das câmeras. Todos concordam que isso dá Ibope (a CNN que o diga!), mas muitos acham que isso não é jornalismo. É teatro, reality show, ouu é a versão moderna do herói em quadrinhos (em um mundo em que a TV tomou conta das nossas vidas), mas não jornalismo.

Ainda que se aceite a idéia de que os jornalistas devem separar as coisas (e desligar a câmera quando decidirem que é hora de ajudar), há um outro problema que surge em algumas circunstâncias: o que fazer se o jornalista tem que escolher entre contar a história ou ajudar? Deveria o jornalista perder a história e ajudar, ou será que ele ou ela tem uma obrigação profissional de relatar o que acontece, do jeito que acontece, sem interferir na realidade? A maioria dos jornalistas entrevistados, que estavam até recentemente no Haiti, não enfrentaram esse dilema. O relato deles é que a maioria das pessoas precisa de assistência médica, o que eles não estavam qualificados para oferecer. Quem precisava de água e comida eles ajudaram, sempre que possível.

Há um caso, todavia, em que esse dilema entre trabalhar ou ajudar ficou bastante claro: o caso da foto de Kevin Carter sobre a crise humanitária no Sudão em 1994.



A foto mostra uma garotinha de 4 ou 5 anos de idade está tentando se arrastar para um campo de refugiados, em busca de comida. Ela está há tanto tempo sem comer, que não tem mais forças para se locomover. Um abutre espera pacientemente pela refeição dele. E o fotógrafo, que ganhou um prêmio pela fotografia, está observando tudo.

Eis o dilema: intervir significaria pegar a garota nos braços, levá-la para o campo de refugiados, e perder a fotografia. Assistir a tudo isso significa ganhar o registro do evento, às custas do sofrimento alheio. Deveria o fotógrafo ter abandonado a chance de conseguir essa imagem para socorrer a menina?

Uma colega minha de Yale que hoje é professora nos EUA apresentou um artigo sobre essa fotografia em uma conferência aqui na Universidade de Toronto no ano passado. A questão que ela levantava no artigo era se de fato a escolha do fotógrafo era entre ajudar a garota ou ser egoísta para ganhar prestígio e dinheiro com a imagem. Se for esse o dilema que ele enfrentou -- e alguns relatos da foto descrevem como ele passou vinte minutos esperando o melhor momento para tirar a foto e depois disso sentou debaixo de uma árvore fumando cigarros -- não há dúvidas de que há algo moralmente errado com a conduta do sujeito.

Porém, minha colega levanta um outro argumento possível: será que ele, ao decidir tirar a fotografia ao invés de ajudar, não estaria simplesmente transferindo para outros ao redor do mundo o afeto e compaixão que ele sentia pela menina? Ou seja, caso ele tivesse guardado a câmera e carregado a menina para o campo de refugiados, a maioria de nós seguiria com nossas vidas, sem perder muito tempo pensando na crise no Sudão. A partir do momento que a foto circulou na mídia, todavia, ela teve um enorme impacto. As pessoas de repente se conscientizaram da gravidade de crise. Ainda que essas pessoas não tenham se mobilizado, ao menos sofreram tanto quanto o fotógrafo parece ter sofrido ao assistir aquela cena. Ou seja, o afeto e a sensibilidade que o mundo passou a ter com o Sudão e com as pessoas afetadas com a crise humanitária aumentou depois que essa foto foi tirada. Portanto, o dilema do fotógrafo não era aquele descrito acima. Ele não estava em busca de benefícios pessoais, à custa do sofrimento alheio. Ele também não estava traçando uma linha entre as obrigações éticas e os deveres profissionais de jornalista/repórter. Ao invés disso, ele achou que era mais importante que o mundo todo se solidarizasse com aquela menina e com todas as pessoas afetadas pela crise no Sudão.

Minha colega disse que o artigo dela gerou um debate acalorado. Não me surpreende. Os jornalistas canadenses não podem ajudar muito no Haiti e isso já está gerando um debate. Imagine uma situação dessas, onde o jornalista poderia ter ajudado. Mas poderia mesmo? Há uma pequena controvérsia aqui: alguns argumentam que o fotógrafo não ajudou a menina porque os soldados da ONU tinham instruído ele a não tocar nas crianças. Isso é coerente com os relatos segundo os quais ele sentou debaixo de uma árvore e chorou por horas a fio depois de tirar a foto.

Mas, ainda que isso não tenha acontecido, acho que, no fim das contas, o argumento da minha colega é válido: ele não estava entre um dilema entre fazer o trabalho dele bem, ou fazer o bem. Ele estava entre um dilema entre fazer um bem menor (salvar a menina) ou um bem maior (conscientizar o mundo sobre a crise no Sudão, e possivelmente salvar um número maior de pessoas). Nesse sentido, ele fez seu trabalho bem e acabou fazendo o bem também.

Quatro estudantes de ética na mídia concordam comigo:









Desculpem o sumiço

A vida anda corrida por aqui... Mas espero conseguir escrever os posts atrasados (estou com um caderninho cheio de anotações) na semana que vem. Aguardem!