terça-feira, 30 de julho de 2013

Three Ted Talks


Deixo aqui três vídeos com o que o pessoal chama de lifehacks, truques pra lidar com a vida. Não, não é auto-ajuda. Os três são baseados em pesquisas e apresentados pelos pesquisadores, todos professores de Harvard. E todos são pesquisas que ajudam a entender como o nosso cérebro funciona, e como administrar melhor a maquininha.

( Peço desculpas aos que não falam inglês, mas os vídeos ainda não têm legenda em outras línguas)

O primeiro é sobre felicidade sintética e natural. Todos conhecem a distinção que fazemos entre a felicidade natural (conseguimos o que queríamos) e a felicidade sintética (tentamos nos convencer que o que temos está bom, apesar de não ser aquilo que queríamos). Todo mundo acha que a natural é verdadeira, e a sintética é falsa. O pesquisador mostra, todavia, que entre um grupo de pessoas que ganhou na loteria e outro que ficou paraplégico os níveis de felicidade são basicamente idênticos. 

Basicamente, a felicidade sintética é real: nós de fato mudamos nossas percepções do mundo, preferências estéticas e valores quando não conseguimos uma coisa que queríamos. Prova disso? Veja a experiência da escolha do quadro do Monet com pessoas que têm amnésia. Portanto, qual a melhor forma de ser feliz? Reduzir a quantidade de escolhas, e tornar as escolhar que fazemos irreversíveis. Ficar remoendo se essa é a escolha certa, ou se deveríamos revertê-la é receita para a infelicidade. 


O segundo vídeo é sobre linguagem corporal. Nós sabemos que a linguagem corporal revela muito sobre o que somos e o que estamos sentindo. A pesquisadora, todavia, pergunta se a linguagem corporal também pode mudar o que somos ou sentimos. Ou seja, sabemos qual a linguagem corporal de líderes e pessoas poderosas. A pergunta é: se uma pessoa normal conscientemente adotar essa linguagem corporal, ela pode passar a se sentir mais confiante e assertiva? A resposta é sim. 

A pesquisadora mostra que fazer uma "power pose", ou "postura de poder", aumenta o nível de testosterona no sangue a diminui os níveis de cortisol, o hormônio do estresse. Ou seja, a pessoa fica de fato mais assertiva. A recomendação dela é que as pessoas façam a pose da mulher maravilha, ou alguma outra pose dos experimentos durante o dia, mas especialmente antes de entrar em uma entrevista de emprego, reunião com clientes ou sentar em uma mesa de negociação. Simples assim: corra para o banheiro e finja que é a mulher maravilha.


Por fim, o terceiro vídeo é sobre felicidade também. A pergunta aqui é se nós trabalhamos para conseguir aquilo que vai nos fazer feliz, ou o contrário. Apesar da gente achar que a felicidade vai ser alcançada um dia, quando tivermos tudo que queremos, normalmente a coisa funciona da forma inversa. As pessoas felizes com a vida que tem trabalham mais e são mais produtivas, mais inteligentes e mais bem sucedidas que as outras. 

Como isso funciona? Basicamente o pesquisador mostra que o ambiente exterior influencia quase nada na felicidade das pessoas. Grande parte da felicidade vem de como as pessoas lidam com a realidade que circunda elas.  Portanto, a idéia de que você precisa dar duro para conseguir vencer na vida é completamente equivocada. A gente precisa acordar, pensar nas coisas que temos e que nos deixam felizes. Isso nos permite conseguir coisas que não conseguiríamos com pensamentos negativos.


Em suma, para garantir felicidade e o sucesso: acorde de manhã e tente evitar pensar que você devia ter comprado o iogurte que você gosta, e não essa coisa horrível que a danone lançou e você decidu experimentar. Quando terminar o iogurte, faça pose de mulher maravilha por dois minutos, enquanto faz uma lista mental de todas as coisas boas na sua vida, ainda que a lista se resuma a celebrar que você está vivo. Não esqueça de fazer de novo a pose de mulher maravilha no banheiro do escritório antes da reunião com o chefe. E na volta pra casa, entre no supermercado sem olhar para prateleira do lado em busca de novos iogurtes e assuma o compromisso de comprar, a partir de agora, sempre o mesmo iogurte, o que você gosta. Com esse pacote, você nunca mais vai precisar apostar na megasena!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Um Sabático pro Pratinha

Começo aqui minha campanha. Ele vai deixar de escovar os dentes com pressa, com certeza.

Folha de São Paulo, 28/07/2013 - 04h26

Pé de cachimbo

Antonio Prata



"Hoje é domingo, pé de cachimbo", eu cantava, quando era pequeno, e me vinha à cabeça uma árvore de madeira escura, com pencas de cachimbos pendendo das pontas dos galhos, prontos para serem colhidos e fumados. Fiquei um pouco desapontado, lá pelos dez anos, ao descobrir que o certo era "pede" cachimbo. Corrigi a música, mas o domingo, não: pra mim, ele continua sendo esse quadro pintado por Magritte e Dalí, com sua frondosa oferta de descanso e generosa sombra de melancolia.

Devo dizer que não gosto de domingos nem de cachimbos, mas sei que o errado sou eu, não eles. Queria muito ser uma pessoa que acorda cedo, que vai ao parque. Um desses caras que eu vejo do carro, pedalando pela ciclovia, a mulher ao lado e um filho atrás, em sua bicicletinha. Dá uma alegria vê-los ali, passeando pela cidade. Enquanto permanecem no meu retrovisor, parece que o mundo é justo e que cada coisa está em seu devido lugar. É mais ou menos o que sente, imagino, o sujeito que chega à varanda, ao fim de um dia de trabalho, ou afunda na poltrona, meditabundo, para fumar o seu cachimbo.

Escrevo "meditabundo" e, por um momento, quase comungo desta alegria dominical, tirando as palavras velhas do armário para tomarem sol ou pitando-as calmamente, sem tragar, só para saboreá-las. Mas, meditabundo que me encontro --é domingo--, a sombra do pé de cachimbo logo me alcança: não sou esse homem na ciclovia nem esse outro, em sua varanda, em sua poltrona, com o vento no rosto ou a fumaça na boca, displicentemente instalados no presente.

Acho que, no fundo, tenho dificuldades é com o presente. Outro dia, reparei que sempre escovo os dentes com pressa, como se estivesse atrasado para um compromisso. Que compromisso é esse? Não sei. É como se houvesse nascido atrasado, chegado ao mundo meia hora depois e a todo instante tentasse recuperar os minutos perdidos. Talvez por isso me sinta mais acolhido nos dias de semana, dedicados ao trabalho e suas promessas. Alguma hora, ali adiante, a crônica estará pronta, o livro estará editado, o roteiro estará filmado e a concretização desses projetos, acredito, me trará sei lá que conforto, sei lá que certeza sobre mim mesmo --mas nunca traz. Por que se agoniar olhando para a direita do ponto final em vez de se contentar com o que há à esquerda? (Um dia, estarei eu à direita do ponto final e aí não haverá mais o que olhar.)

Ano passado, comprei uma bicicleta. Ao tirá-la da caixa, senti certa vergonha de mim mesmo, como um velho que sai da loja calçando All Stars vermelhos: aquilo não era eu, nem poderia mudar-me. Por meses a bicicleta se tornou só mais uma pequena emissora de ansiedade --preciso usar essa bicicleta, preciso usar essa bicicleta, preciso...--, depois seus pneus murcharam e eu soube que já não era por ela que eu escovava os dentes com pressa.

Talvez eu devesse comprar é um cachimbo. Nem que fosse para enterrá-lo no jardim, regá-lo todo dia e ficar na varanda, olhando pra grama e esperando, num exercício zen, em busca da paz interior. É isso: preciso comprar um cachimbo, preciso comprar um cachimbo, preciso.

domingo, 28 de julho de 2013

Saldo do Sabático

Enquanto eu me preparo para mudar de volta para o Canadá e para o inevitável fim do sabático, estou revendo tudo que aconteceu nos últimos doze meses. 

Presto aqui minhas contas:

1) Trabalhei menos do que planejado, mas me diverti mais do que esperado. O problema é que meu corpo não estava psicologicamente preparado para tanta diversão. Meu pulmão pós-pneumonia, meu pé quebrado e a cicatriz na minha mão direita que o digam.
 
2) Li livros aleatórios sobre todo e qualquer assunto. Recomendo a experiência. Foram 27 livros não relacionados ao trabalho. Minha principal conclusão é que o Steve Jobs e o Albert Einstein eram loucos, e o autor das duas biografias é um dos melhores escritores que já conheci.  

3) Viajar é preciso. Viver não é preciso. Passagens de avião tem data e horário marcado e, mais importante, destino certo. A vida te deixa assim, solto, ao Deus dará. Para não viver na incerteza, viaje.

4) A comida em Barcelona é inacreditável. E as sangrias também. E os taxistas são a representação caricatural dos habitantes da cidade, como os taxistas de qualquer outro lugar. E, acreditem, foi viagem a trabalho!

5) O facebook é uma praga que te suga, te absorve e toma todo seu tempo. Mas eu nunca estive tão bem infomada sobre o que saiu no jornal, o que não saiu no jornal e o que as pessoas pensam sobre tudo isso. É uma experiência antropológica.

Agora, de volta à dura realidade da vida: caixas de mudança. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Explicações Desnecessárias

Já que a maioria do povo brasileiro voltou à sua rotina, e esqueceu dos protestos, volto eu à minha rotina de escrever sobre coisas menos revolucionárias e mais mundanas no blog. 

E, como o título do post sugere, a semana foi recheada de explicações absolutamente desnecessárias. Segue não apenas meu relato, mas um guia de como evitar causar esse aborrecimento a terceiros. 

1. Comparar a situação deprimente do seu interlocutor com algo não deprimente não vai chamar atenção para o que há de comum entre as duas situações. Pelo contrário.

Segunda-feira: visita ao médico, que me vê a cada duas semanas desde março, quando quebrei o pé. Basicamente, ele me diz que o pé ainda está quebrado, mas que eu posso andar sem a bota ortopédica, porque parte do processo de recuperação envolve colocar peso no osso quebrado. Segundo ele, meu pé deve passar pelo mesmo processo de um astronauta que fica muito tempo no espaço e fica com os ossos enfraquecidos por falta de gravidade.

A explicação do astronauta dura exatos 15 minutos. Eu sei porque nessa segunda-feira eu estava ouvindo ela pela décima quinta vez. Acho que meu médico decorou um script para gastar exatos 20 minutos com cada paciente. O script garante que ele não precisa ter nenhum trabalho adicional (não precisa nem pensar sobre o caso), mas dá a impressão (para ele e somente ele!) que está dando um tratamento de primeira. Exceto pelo fato que ele esquece que eu já ouvi a lenga-lenga várias vezes.

Mas mesmo da primeira vez que eu ouvi o papo do astronauta, pensei: venhamos e convenhamos, não é a mesma coisa! O astronauta está com os ossos enfraquecidos porque ele estava em uma nave es-pa-ci-al! No espaço! Será que esse sujeito não consegue ver a diferença entre uma nave espacial e uma bota ortopédica? Eu explico: nave espacial é cool, bota não é cool. O astronauta é considerado um herói. Eu, em contrapartida, estou há quatro meses tendo que aceitar assentos cedidos por velinhas apiedadas no metrô. Entendeu ou quer que eu desenhe, doutor? 

2. Nunca tente justificar a má qualidade do serviço que você está prestando dizendo que  sua equipe não sabe o que está fazendo.
 
Terça-feira: visita ao consulado canadense em Nova Iorque.

Oficial #1
- Posso checar os documentos?
- Claro.
- Tá faltando as fotos. 
- O site diz que vocês tiram as fotos aqui mesmo.
- Sim, mas você precisa ter um cheque administrativo de dez dólares. Não aceitamos dinheiro, nem cartão de crédito. 

Vou eu até o banco comprar o cheque administrativo de dez dólares. Volto até o consulado. Passo pelo primeiro oficial de novo, que me manda para uma salinha, onde eu espero 15 minutos para ser atendida.

Oficial #2
- Posso checar os documentos?
- Claro.
- Só faltam as fotos.
- Trouxe um cheque administrativo pra tirar as fotos. Tá aqui.
-  Sim, mas o valor é dez dólares e oitenta e oito centavos.
- Mas o primeiro oficial me disse que era dez dólares.
- Ah, é que mudou recentemente e ele não deve ter sido informado da mudança.
- Então, das duas uma: ou vocês param de cobrar essa taxa de cinquenta dólares pelo serviço, pois vocês não merecem receber esse dinheiro; ou a pessoa que deveria instruir o primeiro oficial deveria estar no olho da rua, pois claramente estamos lidando com um incompetente. E fica a dica: da próxima vez, para não tomar uma bordoada dessas, simplesmente peça desculpas ao cliente (no caso, eu) e veja com seu superior se não dá para aceitar o cheque de dez dólares, já que o erro foi de vocês. 


3. Comparar a situação deprimente do seu interlocutor com algo não deprimente para chamar atenção para o que há de diferente entre as duas situações só vai fazer seu interlocutor se sentir um lixo. Evite.

Quarta-feira: trem de Nova Iorque para Boston tem inúmero problemas e é obrigado a parar por quase uma hora e meia no caminho, atrasando toda a viagem.

Depois de muitas explicações detalhadas do que estava acontecendo, e de muitos pedidos de desculpas (esses pelo menos receberam o treinamento que o pessoal do consulado não tinha recebido!), o condutor pega o microfone para anunciar que finalmente estamos partindo. 

- Senhores passageiros, infelizmente isso aqui não é um avião. O avião pode acelelar e recuperar um pouco do tempo perdido com atrasos no solo. Nós, infelizmente, estamos confinados a esses trilhos e aos limites de velocidade impostos pelo governo. Portanto, nós vamos chegar com uma hora e meia de atraso em Boston e não há nada que eu possa fazer sobre o assunto no momento. 

Podia ter oferecido um uísquinho e pulado a comparação com o avião, amigo.   

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O Garçom e a Revolução

Ao ver minha mãe sacar a carteira, o garçom se vira para meu pai:

- Opa! Tá errado. É o homem quem paga, doutô.

Tentando passar o recado sem comprar uma briga, meu pai responde:

- Amigo, hoje começa a grande revolução!

O garçom continua:

- Doutô, vou te falar: a revolução começou faz tempo! Tô cansado de ver um monte de engravatado, todos cheios de si, entrarem aqui pra comer. Quando vem a conta, quem paga é a única mulher da mesa, que tava ali quietinha o tempo todo. É a chefe de todos eles, acredita? Isso quando não é também a dona da empresa! Isso sem falar nesse país, com presidenta mulher, todas as ministras, juizas, etc.

Eu solto um "Pois é.", tentando evitar que o cara enrolasse ainda mais a corda no pescoço. Ao invés de aproveitar a deixa, ele resolve continuar:

- Essa mulherada veio com esse papo de igualdade, mas elas queriam mesmo era superioridade. E olha que passaram a perna na gente, doutô. Olha aí!

Meu pai continuava olhando pro lado, apesar do garçom continuar olhando na sua direção, insistindo numa suposta cumplicidade masculina contra toda essa opressão.

Minha mãe recolhe o cartão e consegue finalmente dar um fim à conversa:

- É. Só os fortes sobreviverão. 

Ele achou que era piada. Aposto que vai perder o emprego para dessas mulheres que ficam por aí tentando afirmar sua superioridade a qualquer custo... 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Plebiscito

Nesses épocas tão plebiscitárias, vale ler (ou reler) esse conto.

Plebiscito

Arthur Azevedo


A cena passa-se em 1890.

A família está toda reunida na sala de jantar.

O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.

Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.

Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

Silêncio.

De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:

— Papai, que é plebiscito?

O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.

O pequeno insiste:

— Papai?

Pausa:

— Papai?

Dona Bernardina intervém:

— Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.

O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.

— Que é? que desejam vocês?

— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.

— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?

— Se soubesse, não perguntava.

O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:

— Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!

— Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.

— Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?

— Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.

— Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!

— A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...

— A senhora o que quer é enfezar-me!

— Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!

— Proletário — acudiu o senhor Rodrigues — é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.

— Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!

— Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!

— Oh! ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: — Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho.

O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:

— Mas se eu sei!

— Pois se sabe, diga!

— Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!

E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.

No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...

A menina toma a palavra:

— Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!

— Não fosse tolo — observa dona Bernardina — e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!

— Pois sim — acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão — pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.

— Sim! Sim! façam as pazes! — diz a menina em tom meigo e suplicante. — Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangaram-se por causa do plebiscito!

Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:

— Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.

O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.

Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.

— É boa! — brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio — é muito boa! Eu! eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!...

A mulher e os filhos aproximam-se dele.

O homem continua num tom profundamente dogmático:

— Plebiscito...

E olha para todos os lados a ver se há ali mais alguém que possa aproveitar a lição.

— Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.

— Ah! — suspiram todos, aliviados.

— Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sobre a Pec 37: Entre Clérigos e Contrabandistas

Há um exemplo de reforma governamental nos Estados Unidos que nos ajuda a entender o debate sobre a PEC 37. O exemplo é conhecido como Clérigos e Contrabandistas. Para garantir que as pessoas compareceriam sóbrias às missas de domingo, e que observariam os preceitos religiosos de rezar e observar os mandamentos de Deus nesse dia, os clérigos propuseram que fosse proibida a venda de álcool nesse dia. Imediatamente a medida recebeu total apoio de um grupo que nada tinha em comum com os clérigos: os contrabandistas. Esses viram na proibição a oportunidade de ter um dia da semana na qual eles teriam o monopólio sobre a venda de álcool, o que aumentaria significativamente seus lucros. E assim a reforma passou, apoiada por dois grupos que, exceto por essa medida, não tem um único interesse em comum -- muito pelo contrário.

Os posts contra a PEC 37 que aparecem no facebook indicam, na sua vasta maioria, que a medida está sendo proposta pelos contrabandistas: políticos com interesses excusos que buscam na medida uma forma de continuar com suas atividades ilegais. Há, todavia, um outro lado da história: o dos clérigos. Ou seja, há aqueles que acreditam que a PEC 37 vai servir a um propósito válido: impedir que as investigações sejam guiadas pela mesma entidade que vai apresentar a acusação perante o judiciário. Por que isso é perigoso? Porque a investigação pode deixar de ser imparcial. Aquele que acusa alguém perante o judiciário fica tentado a apresentar apenas elementos que sustentem a tese da acusação, escondendo qualquer elemento que possa apoiar a inocência do acusado. E isso é, de fato, problemático. 

O problema é que os argumentos contra a PEC 37 também são fortes. Se há um monopólio do poder de investigação concentrado na polícia, casos que -- por alguma razão -- a polícia não tenha interesse de investigar acabam por passar incólumes. Por isso a independência do Ministério Público em iniciar a investigação sozinho seria importante. Isso permite que ele colete provas e procure evidências em casos em que, por exemplo, policiais corruptos podem estar recebendo algum tipo de pagamento para deixar a investigação de lado. Investigação de políticos corruptos seriam um importante exemplo aqui. 

Quais dos dois lados apoiar? A pergunta é difícil. Como toda reforma, cada um dos arranjos tem suas vantagens e suas desvantagens. A escolha, portanto, tem que ser pelo menor dos males. Talvez uma forma útil de pensar sobre o assunto seja notar que o Ministério Público já exerce o poder de investigar, ainda que não esteja expressamente autorizado a fazê-lo pela Constituição Federal. Portanto, já sabemos como as coisas funcionam quando o Ministério Público tem esse poder. Ou seja, se a PEC 37 não for aprovada, tudo continua como está. Isso ajuda a rebater grande parte dos argumentos sensacionalistas a favor da PEC 37 que prevêem um futuro tenebroso caso a mesma seja rejeitada, com o esvaziamento do poder de investigação da polícia e um estado de perseguições políticas infundadas. Já as mudanças positivas que são previstas a partir da aprovação da PEC 37 são mera especulação. Não sabemos se elas irão de fato ocorrer. Portanto, o risco é muito maior de um lado (aprovação da PEC 37) do que de outro (deixar as coisas como estão). 

Uma outra forma de decidir qual é o menor dos males é tentar fazer um cálculo de custos e benefícios. Quantas pessoas foram acusadas e presas de maneira arbitrária, porque o órgão de investigação era o mesmo de acusação, se comparado ao número de pessoas que foram investigadas pelo Ministério Público de maneira fundamentada (e não teriam sido investigadas pela polícia) se não fosse o poder de investigação dos promotores. Se o primeiro número for maior que o segundo, aprovamos a PEC 37. Se o segundo número for maior que o primeiro, rejeitamos a PEC 37. O problema é que, exceto por casos anedóticos, não temos como calcular isso de maneira precisa.

Em suma, a questão é espinhosa -- como são todas as questões de desenho institucional. A única certeza que devemos ter é que não faz sentido rejeitar uma proposta simplesmente porque ela é apoiada por contrabandistas. Ao fazer isso, corre-se o risco de jogarmos fora também as razões mais louváveis que levaram a proposta a ser formulada. Portanto, sempre procure os clérigos. Você irá encontrá-los em ambos os lados de qualquer proposta de reforma. E saiba que qualquer posição que você tome sempre te colocará, de alguma forma, ao lado de algum tipo de contrabandista.

Conversão Política

Quando o facebook deixa de ser um veículo de compartilhamento de filmes com filhotes de gatos para virar uma plataforma de debate político, quando o povo sai às ruas em massa exigindo reformas, e quando o nosso querido Patrinha deixa de publicar sua crônica semanal para falar dos protestos, você sabe que tem algo grande acontecendo. 

Por isso, fica esse blog convertido em uma plataforma política a partir de agora, e até que toda essa movimentação se dissipe. 

Quanto temos tantas coisas importantes pra discutir, não é hora de ficar escrevendo crônicas. 


A passeata 

Antonio Prata  

Sejamos francos: ninguém tá entendendo nada. Nem a imprensa nem os políticos nem os manifestantes. Tinha punk de moicano e playboy de mocassim. Patricinha de olho azul e rasta de olho vermelho. Tinha uns barbudos do PCO exigindo que se reestatize o que foi privatizado e engomados a la Tea Party sonhando com a privatização de todo o resto. Tinha quem realmente se estrepa com esses 20 centavos e neguinho que não rela a barriga numa catraca de ônibus desde os tempos da CMTC. (Neguinho, no caso, era eu). Tinha a esperança de que este seja um momento importante na história do país e a suspeita de que talvez o gás da indignação, nas próximas semanas, vá para o vinagre. 

Sejamos francos, companheiros: ninguém tá entendendo nada. Nem a imprensa nem os políticos nem os manifestantes, muito menos este que vos escreve e vem, humilde ou pretensiosamente, expor sua perplexidade e ignorância.

Anteontem, depois da passeata, assisti ao "Roda Viva" com Nina Capello e Lucas Monteiro de Oliveira, integrantes do Movimento Passe Livre. Ficou claro que, embora inteligentes e bem articulados, eles tampouco compreendem onde é que foram amarrar seus burros. "Vocês começaram com uma canoa e tão aí com uma arca de Noé", observou o coronel José Vicente. Os dois insistiram que não, o que há é um canoão, e as mais de 200 mil pessoas que saíram às ruas no Brasil, segunda-feira, lutavam por transporte público mais barato e eficiente. A posição dos ativistas de não se colocarem como os catalisadores de todas as angústias nacionais e seguirem batendo na tecla do transporte só os enobrece --mas estarão certos na percepção? Duzentas mil pessoas de esquerda, de direita, de Nike e de coturno por causa da tarifa?

"Por que você tá aqui no protesto?", perguntou a repórter do "TV Folha" a uma garota na manifestação do dia 11: "Olha, eu não consigo imaginar uma razão para não estar aqui, na verdade", foi sua resposta. Corrupção, impunidade, a PEC 37, o aumento dos homicídios, os gastos com os estádios para a Copa, nosso IDH, a qualidade das escolas e hospitais públicos são todos excelentes motivos para que se saia às ruas e se tente melhorar o país --mas já o eram duas semanas atrás: por que não havia passeatas? Será porque a chegada do PT ao poder anestesiou os movimentos sociais, dificultando a percepção de que o Brasil vem melhorando, melhorando, melhorando e... continua péssimo? Ou será porque agora o Facebook e o Twitter facilitam a comunicação?

Se as dúvidas sobre as motivações --que brotam do solo minimamente sondável do presente-- já são grandes, o que dizer sobre o futuro do movimento? Marchará ou murchará? Caso cresça: conseguirá abaixar a tarifa? E, no longo prazo, terá alguma relevância? Mais ainda: adianta ir às ruas, fazer barulho? Ou a própria passeata extingue o impulso de revolta que a criou e voltamos todos para o mundinho idêntico de todos os dias, com a sensação apaziguadora de que "fiz a minha parte"?

Não tenho a menor ideia, estou mais confuso que o Datena diante da enquete (migre.me/f4UCh), mas num país injusto como o nosso, em que a única certeza parecia ser a de que, aconteça o que acontecer, o Sarney estará sempre no poder, as dúvidas dos últimos dias são muitíssimo bem-vindas.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Paixão de taxista é dose

Estou há meia hora de pé, no meio de Ipanema, acenando para os táxis que passam. Hora do rush, todos com passageiros. De repente, um taxista pára na minha frente, desce do táxi e pergunta aonde estou indo. Para o aeroporto, respondo. Ele fica parado por cinco segundos, como se refletindo se valia a pena ir para o aeroporto ou não. Daí ele abre o porta-mala do carro e enquanto coloca minha mala, pergunta se eu tenho Nextel.

Enquanto especulo se o cara quer me dar algum calote, fico preparada para tirar a mala do carro e desistir da corrida, ainda que aquela talvez fosse a minha única opção de ir ao aeroporto naquele momento. Mas em dois segundos mudo de idéia. Numa reação quase instintiva, desisto de recuar e vou para o ataque:

- O senhor não tem celular?

Pergunta legítima, penso. Afinal, desde a época da privatização, as linhas de telefone móveis se tornaram acessíveis e quase todos os brasileiros. Portanto, a maioria das pessoas em grandes centros urbanos, como o Rio, tem celular. A resposta dele me assegura não é um esquema para engambelar turistas:

- Não. É que ELA tem Nextel.

“Ela”, pensei. Coisas do coração. O sujeito, atordoado pela paixão, desesperado para ligar para “ela”, não nota quão inapropriado é pedir para usar o Nextel do cliente. Ato mais do que compreensível, pensei. E respirei aliviada, pois um sujeito entregue dessa forma à paixão certamente não iria me dar um calote, montar um esquema para roubar turistas, ou fazer qualquer coisa de errado comigo. Não com maldade, ao menos.

Entramos no carro. De repente, ele olha para a banca da esquina e diz, me dá um minutinho que eu vou ver se eles vendem crédito pro celular. Penso com meus botões: corrida para o aeroporto, estou com mala, o sujeito devia ao menos ter perguntado se eu tinha tempo! Mas ele não perguntou nessa nem das três outras vezes em que ele parou no caminho, até achar uma banca onde ele pudesse comprar créditos para o celular dele. 

Cada vez que ele descia do carro, deixando a chave na ignição e o motor ligado, eu imaginava o que aconteceria se um assaltante oportunista resolvesse roubar o carro. Ia levar uma cliente de brinde! Imagine que noite bem-sucedida: rouba o carro do taxista e a cliente numa tacada só -- e quase sem esforço. E só entrar, engatar a primeira e pisar no acelerador. Coisa de filme, pensei. Mas como o Rio é uma dessas cidades em que coisas de filme acontecem todos os dias, achei que o risco de que acontecesse comigo não era pequeno. Pelo contrário.

Mas o assaltante não veio. Quem veio foi o taxista desesperado que agora, com crédito no celular, resolveu ligar para a Marcia. Mas a Marcia estava muito brava. Muito mesmo. Ele se desculpou muitas vezes, mas ela não cedia. Ele foi ficando cada vez mais desesperado. Pediu para passar na casa dela pela manhã, ela gritou que não. Ele insistiu e ouviu mais impropérios. Ele implorou para ela se acalmar e falou que eles precisavam conversar com mais calma. Sugeriu que iria passar na casa dela “mais tarde”. Marcia não arredava o pé. 

Erro grave que esse sujeito cometeu, pensei. Traição? Mentira? Roubou dinheiro dela? Difícil saber. A conversa não revolvia em torno do acontecido, pois a Marcia não queria mais saber dele. Não queria vê-lo nunca mais na vida. Ele tentava negociar apenas uma audiência. Uma chance de tentar falar com ela olhando no olho e talvez dissuadí-la da idéia de largá-lo. 

Enquanto ele temia pela perda da Marcia, eu temia pela perda da minha vida e do meu vôo. Quanto mais tensa ficava a negociação, mais rápido e desgovernadamente ele dirigia. Não sei se o calor da discussão estava sendo canalizado para o trânsito, ou se ele queria chegar logo no aeroporto para correr para a casa da Marcia. Eu também não sabia se torcia pelo primeiro ou pelo segundo. 

Se ele tivesse apenas atordoado com o calor da discussão, provavelmente não estava nem notando a forma perigosa como dirigia. Isso aumentava meu risco de vida. Se a pressa era para chegar mais rápido na casa da Marcia, o perigo diminuia um pouco (ele tinha mais ciência dos riscos que corríamos), mas a possibilidade dele parar o carro e me mandar descer a qualquer momento aumentava. Afinal, a prioriedade ali claramente era a Marcia, não eu. E pegar um táxi na Baía de Guanabara ou no aterro, naquele momento, não ia ser fácil. Mas, como eu disse, coisas que só acontecem em filme também acontecem no Rio todos os dias. E largar um passageiro no meio do caminho e correr para encontrar seu amor, convenhamos, é coisa de filme. 

Pensei em reclamar com ele que ele não devia ter pego um passageiro sem antes lidar com os problemas pessoais dele. Depois pensei em dar uma desconto. Afinal, coisas do coração nos fazem fazer coisas sem sentido. Somos humanos. Mas cheguei à conclusão que as coisas do coração perdem a licença poética quando afetam terceiros desinteressados, como eu. Afinal, eu não tinha nada a ver com o assunto. 

Na verdade, a coisa foi quase uma armadilha. Afinal, se ele tivesse me consultado anteriormente e perguntado se eu gostaria de ter uma corrida tão caótica e emocionalmente estressante para o aeroporto, eu recusaria. Quando descobri onde eu tinha me metido, todavia, eu não tinha como sair da situação.

E foi por isso que quando finalmente chegamos ao aeroporto milagrosamente sem sofrer nenhum acidente no caminho, eu resolvi pagar só a metade da corrida. O taxista protestou e por um segundo eu contemplei a possibilidade de fazer um discurso indicando tudo o que tinha de errado com o comportamento dele. Mas além de me chamar de paulistana enrustida, havia o risco dele querer discutir se eu estava certa ou errada sobre meu “código de conduta para taxistas apaixonados”. Para evitar esse risco, decidi falar o pouco de carioquês que eu aprendi na vida: 

- Depois de uma corrida dessas, preciso de um whisky. E quem vai pagar a conta é você, amigo.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Vidas Paralelas (2)

Recentemente terminei de ler o livro da Sheryl Sanderberg, Lean In, que foi traduzido no Brasil como Faça Acontecer. O livro apresenta, de maneira mais detalhada e cuidadosa, as idéias que a Sheryl já tinha apresentado na sua TED talk. 

Já tinha postado isso no blog, mas vale a pena ver de novo:


Diferentemente do vídeo, o livro tem sido alvo de críticas e debates. Um pequeno resumo dos debates saiu no New York Times, e depois a principal crítica da Sheryl escreveu pessoalmente um artigo sobre o assunto. Para os interessados, há uma possível resposta a essa crítica aqui. O debate, além de interessante, é super importante. 

Mas não é sobre isso que eu vim falar. Minha observação é muito mais mundana. Ou, como diriam em inglês, pedestrian. Depois de terminar a leitura, me aventurei pelos agradecimentos do livro e descobri ali três coisas. 

Primeiro, o livro tem uma co-autora cujo nome não está na capa. Nell Scovell, a jornalista que supostamente "ajudou" a Sheryl a escrever o livro, aparece na capa interna do livro, mas não na capa externa. A capa externa, não só omite o nome da co-autora, mas tem a foto da Sheryl  ocupando mais da metade do espaço. 

Segundo, a Sheryl contratou uma pesquisadora de Stanford que "ajudou" com todas as pesquisa interessantíssimas que ela cita no livro. Nos agradecimentos a Sheryl diz que ela foi a "coordenadora" ou "diretora" de todas as pesquisas conduzidas no processo de elaboração do livro. 

Terceiro, a Sheryl agradece a cunhada dela, que ficou tão animada com o projeto que passou a entrevistar todas as suas amigas-profissionais-que-viraram-mães. Segundo a Sheryl, ela coletou algumas das histórias contadas no livro, que ilustram bem claramente alguns pontos da autora, e fazem um contraponto refrescante aos parágrafos cheios de pesquisa e notas de rodapé. Afinal, ficar lendo só sobre pesquisa é coisa de acadêmico nerd, né? 

As palavras dos agradecimentos sugerem que essas três pessoas ajudaram muito a Sheryl. Mas para quem já escreveu um livro e ajudou outras pessoas a escrever livros, esses três agradecimentos revelam como que uma alta executiva do Facebook, que trabalha alucinadamente em tempo integral, além de ser mãe, conseguiu encontrar tempo para escrever. 

Basicamente, os agradecimentos sugerem -- ao menos para mim -- que a Sheryl se limitou a dar as diretrizes. Minha hipótese (que é meramente especulativa, vale frisar) é a seguinte: A jornalista escreveu todo o texto, as partir da estrutura determinada pela Sheryl. Daí, a pesquisadora mandou relatórios detalhados de pesquisa, que a Sheryl leu, selecionou o que seria incluído, e pediu para a jornalista encaixar no texto da melhor forma possível. Por fim, vieram as histórias de entretenimento, que foram coletadas e transcritas pela cunhada, lidas e selecionadas pela Sheryl, e incluídas no livro pela jornalista. E assim a Chief Operation Officer (COO) do Facebook escreve um livro -- sem tocar em uma única vírgula do que está ali, mas coordenando todo o processo do início ao fim. 

Há muitos acadêmicos que adotam esse mesmo sistema. Eu chama eles dos CEOs da academia. Eles arranjam financiamento para contratar um time no qual cada um tem um talento específico (escrever bem, fazer pesquisas cuidadosas ou ter suficiente contato com o mundo fora da academia para trazer anedotas ilustrativas) e fica encarregado de uma tarefa específica. Daí, como o regente de uma orquestra, ou o CEO de uma empresa, esses acadêmicos produzem papers, livros e fazem pesquisa, sem ter que colocar a mão na massa. 

Não condeno ninguém por fazer isso. Na academia, essa prática é o resultado de um mundo em que o nível de produção exigido dos pesquisadores é muito mais do que um ser humano conseguiria humanamente produzir sozinho.  Nesse publish or perish, quem não adota um sistema desses -- de algum modo, em algum momento -- acaba no olho da rua. E não deveria ser surpresa para ninguém que uma alta executiva de uma das maiores empresas dos Estados Unidos tenha ainda menos tempo que um acadêmico para escrever livros.

Fico desconfortável, todavia, com a idéia de que a Sheryl ganhe a fama e todas as outras pessoas que contribuiram de maneira tão significativa para o projeto -- e todas elas mulheres, vale notar! -- fiquem relegadas à obscuridade. Eu já estive de ambos os lados dessa equação e é meu sentimento de injustiça da época em que eu estava no lado mais fraco que me leva a colocar como co-autores os ajudantes de pesquisa que contribuem de maneira substantiva com o projeto. A Sheryl parece tentar reconhecer a importância da jornalista na capa interna, colocando-a como co-autora. Mas a capa interna é um lugar onde poucas pessoas vão olhar. Nos lugares de grande visibilidade, como a capa externa, a lombada do livro, e mesmo a descrição do volume na Amazon.com, tem apenas o nome da Sheryl.

Talvez a Sheryl me acuse de estar adotando uma postura essencialmente feminina, que é a de achar que todo meu sucesso e o produto do meu trabalho não se deve só a mim. Talvez ela sugira que eu volte a ler o livro dela, em especial o capítulo onde ela mostra que as mulheres precisam adotar uma postura mais assertiva sobre suas conquistas, como fazem os homens. Talvez ela esteja certa. 

Mas há uma pequena possibilidade de que eu esteja contribuindo pra criar uma geração que não vai mais se submeter a esse tipo de arranjo no qual as pessoas que trabalharam com a Sheryl se submeteram. E daí nos vamos ter livros com capas que incluem todas as pessoas que contribuiram para o projeto como co-autoras. E quem sabe nesse dia nós estejamos um pouco mais perto de alcançar um mundo onde haja igualdade de verdade, como tanto quer a Sheryl.