Blog escrito em 18 de feveiro de 2009
Puerto Rico tem muito de América Latina, mas é praticamente território americano, povoado por cidadãos americanos, e vive sob os auspícios e caprichos do governo federal dos E.U.A. Por causa dessa ligação com os Estados Unidos, apesar da sua localização e da sua história, a cultura da ilha não é puramente latina.
Por exemplo, a temperatura aqui está ótima: oscila entre 20 e 25 graus celsius. Nada perto do calor insuportável de alguns verões que passei no Brasil ou no Canadá. ainda assim, não há um único lugar fechado onde não haja ar condicionado. E a temperatura média dos lugares fechados, em geral, é abaixo dos 20 graus celsius. Ou seja, estou passando mais frio aqui do que no Canadá já que passo a maior parte do tempo em lugares fechados. E quando comentei com um professor da faculdade isso, a resposta que recebi foi: "você não está sozinha. Um aluno que veio do Alaska no ano passado em um programa de intercâmbio passou o semestre todo reclamando do ar condicionado..."
Além disso, as pessoas pegam o carro para ir pra qualquer lugar. Em parte, eu entendo o porquê: o sistema de transporte público não é bom. E isso criou um circulo vicioso. Por causa da má qualidade do transporte público, pessoas compram carros para se locomover. Isso diminui a quantidade de pessoas pressionando o governo por melhorias no transporte público, o que faz com que mais pessoas comprem carros. O resultado é o que eu encontrei aqui: com uma população de 4 milhões de habitantes, a ilha tem 3,5 milhões de carros. E como carros são lugares fechados, eles não fogem à regra: andam sempre com ar condicionado ligado.
E as pessoas literalmente usam o carro para ir para qualquer lugar. Estou em um apartamento da faculdade de direito que fica a uma quadra da entrada do campus. Uma vez dentro do campus, em menos de dez minutos eu chego na faculdade de direito caminhando sem a menor pressa. E não tem razão para pressa: o caminho é cercado de jardins muito bem cuidados e avenidas rodeadas de palmeiras. Mas na segunda-feira o aluno encarregado de me levar para a faculdade -- que mora no prédio onde eu estou hospedada -- diz que vamos de carro. Eu digo que podemos ir a pé, pois eu não me incomodo. Pra minha surpresa, ele diz que vai de carro para a faculdade todos os dias. E me explica que ele não gosta de pegar sol, suar, e chegar na faculdade nesse estado para assistir aulas.
Depois dessa conversa, não foi uma surpresa ver que a faculdade de direito tem um estacionamento gigantesco. Absolutamente todos os alunos, professores e funcionários (do mais alto escalão até o faxineiro) vão de carro para a faculdade.
E para aqueles que estão pensando que provavelmente esse aluno é uma exceção à regra (ou seja todos moram relativamente longe e usam justificadamente o carro), devo mencionar que o diretor da faculdade, ao me convidar para almoçar na terça-feira, se ofereceu para me pegar de carro no apartamento. E toda vez que estou saindo da faculdade e encontro algum dos professores, a pessoa me oferece uma carona. Ou seja, acho que tendo opção, a maioria das pessoas iria dirigir, ao invés de caminhar as três ou quatro quadras que separam a faculdade do meu prédio.
Eu ainda não consegui definir se esse estilo de vida, pouco ajustado à preservação do meio ambiente, parece mais com os Estados Unidos ou com a América Latina. Acho que pelo menos a falta de preocupação com o meio ambiente, ou a falta de ambientalistas para fazer com que as pessoas ao menos se sintam desconfortáveis com seus hábitos, parece muito com a América Latina.
Mas os Burger Kings em todas as esquinas continuam a me lembrar estou no E.U.A.
Blog escrito em 16 de fevereiro de 2009
Sábado a noite cheguei em San Juan, Puerto Rico, onde vou passar uma semana dando um curso. Não levou mais de meia hora para eu perceber que estava de volta à panela.
Assim que saí do aeroporto, uma brisa quente com cheiro de maresia bateu no meu rosto. Apesar de ser quase meia noite, fazia 25 graus celsius, e eu tive que tirar imediatamente as três camadas de roupa com as quais saí do Canadá.
Mas foi quando eu pedi pra comprar algo para comer, que eu tive certeza que estava de volta à panela. O funcionário da faculdade de direito que foi me buscar no aeroporto me convidou para jantar na casa dele porque não íamos encontrar nenhum aberto tão tarde da noite. Pronto. Estava a esfera privada expandida, compartilhada, e aberta para quem quiser fazer parte das nossas vidas. Durante o jantar, descobrimos que tínhamos amigos e conhecidos em comum em Yale, no Canadá e, é claro, em Porto Rico. Depois do jantar, estávamos conversando como velhos amigos.
Devo adicionar que arroz e feijão no jantar foi essencial para me assegurar que estava de volta à panela.
Mas a gota d'água foi almoçar peixe frito no domingo, na vila dos pescadores (Piñones) de frente para o mar, tomando a cerveja local, chamada Medalla. O almoço me deu absoluta certeza de que eu estava na panela não tanto por causa da comida, mas por causa da mistura. Descendentes de escravos, dominicanos que imigraram ilegalmente em busca de uma vida melhor, e porto riquenhos dos mais variados tons de pele (como nós, brasileiros) se mexiam, andavam entre as mesas, falavam entre si, e brincavam comigo. Tudo borbulhava, ao gosto do domingo, do peixe frito, da cerveja, e do mar.
Todo mundo reclamou que tentou deixar um comentário aqui e não conseguiu. Tentem de novo, pois acho que eu resolvi o problema. Comentários para posts antigos ainda são válidos e muito bem-vindos!
Enjoy!
Those Dancing Days Are Goneby William Butler YeatsCome, let me sing into your ear;Those dancing days are gone,All that silk and satin gear;Crouch upon a stone,Wrapping that foul body upIn as foul a rag:I carry the sun in a golden cup.The moon in a silver bag.Curse as you may I sing it through;What matter if the knaveThat the most could pleasure you,The children that he gave,Are somewhere sleeping like a topUnder a marble flag?I carry the sun in a golden cup.The moon in a silver bag.I thought it out this very day.Noon upon the clock,A man may put pretence awayWho leans upon a stick,May sing, and sing until he drop,Whether to maid or hag:I carry the sun in a golden cup,The moon in a silver bag.
mas tenho amigos que garantem que minhas refeições sejam algo além de miojo e sopas campbell, seja preparando café da manhã do oriente médio (labneh e za'atar) pra mim;

seja mandando receitas simples com emails simpáticos, como esse aqui!
Subject: Para as minhas amigas que moram só ou quase só...
"Queridas,
Ganhei um livro de receita da Dani. Um daqueles crônica + receita. A fórmula é, em teoria, ótima, porque quem cozinha sabe que o encanto está na história da receita e não na discussão da exata medida de azeite que a receita deve ter. Um livro que te conta a história das receitas te permite roubar histórias dos outros e não ter que esperar para que suas próprias histórias aconteçam. Nem sempre funciona – a maioria dos livros são chatos porque os cozinheiros são bem pouco interessantes ou amam demais a comida e as receitas levam 3 dias para ficar prontas (eu não estou brincando) – Mas, no caso do presente da Dani, a fórmula funcinou com perfeição...Obrigada.
A crônica era boa e me fez ficar interessada na receita -- não tenho certeza que me interessaria não fosse a crônica. A receita era ainda melhor. É um prato para quem mora sozinha (não suja nem panela e pode ser feita no microndas – eu fiz no forno porque gosto do ritual) ou pode ser uma entrada de um jantar para muitas pessoas. A maior parte dos ingredientes é flexível, por isso, é perfeito para geladeira de solteiro. Não vai carboidratos, por isso, pode ser usado em regimes...e o melhor: é uma delícia. Eu ia mandar só para Dani, mas achei que poderia ser útil para vcs...
Ok, vamos lá. O nome é oeufs en cocotte, mas a autora (Rita Lobo) apelidou só de cocotte (o que eu acho que foi uma idéia excelente). Você pega qualquer coisa que tiver na sua geladeira (eu usei tomate e queijo branco temperados com azeite e manjericão; a autora usou cogumelos de paris, suco de limão e parmesão; mas ela deu dicas de ricota e tomate, cenoura e beterraba, shitake, etc... -- o único cuidado é usar pouco os ingredientes que soltam muita aguá -- como o tomate). Essa qualquer coisa que vc escolheu vai para uma tigelinha que possa ir ao forno. Quebre dois ovos em cima do recheio que vc escolheu (pode ou não rasgar a membrana da gema a depender se vc gosta de gema dura ou mole – se vc for fazer no microondas rasgue). Depois coloque 2 colheres de creme de leite temperado com sal, pimenta e noz moscada (a noz moscada é o importante – faz toda diferença, é o que deixa o prato especial). Para quem vai fazer no microndas, coloque para assar por 3 minutos. No forno normal, pré aquecido a 180 graus, leva 20 minutos e tem que colocar em banho maria (no meio de uma assadeira com água fervente). Se vc for usar de entrada de um jantar maior, faça em potinhos menores e coloque 1 ovo só. Fica super bonito e vcs não tem idéia de como fica bom...
Espero que seja útil...
Beijos e saudades de todas,"
Depois de um único dia de alívio, as temperaturas voltaram a cair no sábado. Fazia menos 28 graus celsius quando saí de manhã para fazer compras. À noite, as coisas não tinham melhorado muito: as temperaturas giravam em torno de menos 25 graus quando meu amigo mexicano (o da foto) chegou na minha casa em estado de choque e me perguntou como alguém, em sã consciência, pode escolher morar em um lugar tão frio.
Diz ele que a maioria dos canadenses não têm muita escolha, afinal nasceram, cresceram e têm suas raízes aqui (graças à inexplicável e incompreensível decisão de seus antepassados de habitar terras tão inóspitas...). Mas trocar o Rio de Janeiro por isso aqui, segundo ele, é totalmente incompreensível.
Minha resposta foi, basicamente, a seguinte: faz muito frio, mas todas as outras coisas boas compensam. Por exemplo, a cidade de Toronto acabou de implementar uma legislação que obriga supermercados a cobrar 5 centavos por cada sacola plástica utilizada. Além disso, há um projeto de lei para proibir adultos de fumar em carros com menores, inspirado por uma lei que já foi aprovada na província de Nova Escócia. E como se não bastasse, as cortes canadenses têm sido especialmente liberais no uso de maconha para propósitos medicinais, enquanto a polícia pega leva com usuários (mas não com traficantes). Por fim, o sistema de saúde é público e gratuito e funciona maravilhosamente bem, garantindo assistência médica de qualidade a ricos e pobres. Na verdade, funciona tão bem que há computadores nas salas de espera de hospitais, para aqueles que estão fazendo consultas poderem checar e-mails gratuitamente (eu mesma usei o serviço!).
Meu amigo não se convence com meus argumentos, e resolve o enigma de outra forma. Segundo ele, construir uma cidade totalmente planejada no meio do nada deve ter mexido com a cabeça das pessoas. Mais do que isso: nascer e crescer nessa cidade significa nascer e crescer com idéia de que você não deve se importar com o lugar onde mora. Portanto, a conclusão dele é que eu só consigo viver em Toronto porque sou candanga.
Talvez ele tenha razão. Brasília é uma das poucas cidades com hospitais públicos de ponta, como o Sarah Kubichek, e com políticas públicas admiráveis. A cidade foi pioneira no programa bolsa escola, que só foi implementado em âmbito nacional depois do sucesso obtido no Distrito Federal. Além disso, é uma das poucas (se não for a única) cidade onde motoristas são obrigados a parar para pedestres cruzando a faixa (e eles efetivamente param!). Além disso, Brasília tem os índices mais altos de desenvolvimento humano (IDH) e qualidade de vida no país.
Enfim, acho que eu concordo que eu só consigo viver em Toronto porque nasci na capital federal. Afinal, quem precisa de praia quando as coisas que realmente importam são de fato prioridade?
O Obama virou Presidente e até o tempo melhorou por aqui. Hoje está um grau positivo!