sábado, 21 de maio de 2011

Primeiros Sinais da Primavera

Todo mundo nota quando a primavera chega. De repente, todas as roupas na sua gaveta parecem muito quentes. E você começa a procurar as roupas de verão, que foram devidamente encaixotadas e colocadas no fundo de um armário quando começou a nevar. Afinal, não há nada mais deprimente do que ver aquela blusa regata na sua gaveta quando a temperatura está menos 30 lá fora.

Mas há alguns sinais da primavera que os recém-chegados ao Canadá não percebem, mas o canadenses sim. Um primeiro sinal são os pássaros que migraram para o sul e estão voltando. Sim, os pássaros não tem essa compulsão de provar que são bravos e fortes e conseguem conquistar a natureza e passar o inverrno por aqui. Muito mais sabiamente que nós, humanos, eles se vão para terras mais quentes assim que começa a esfriar. E os canadenses sabem qual o pássaro que volta junto com a primavera, o robin. O robin se diferencia dos outros pássaros por ter asas pretas e o corpo vermelho. Ou seja, se você sabe o que é um robin, e o que eles significa, você não vai deixar de notá-lo. O problema é que os imigrantes como eu não fazem idéia de que o robin é o sinal da primavera. Portanto, ficamos a ver navios, ao invés de ver robins... 

Um segundo sinal são as tulipas. Quase todos os canadenses têm jardins. E no outono, os canadenses enterram os bulbos de tulipa nos seus quintais. Não sei direito o que os bulbos fazem durante o inverno, mas se você não pode voar em direção ao sul, certamente ficar debaixo da terra me parece uma melhor idéia do que ficar em cima dela, como nós, humanos. Sabiamente, as tulipas florecem apenas quando o tempo esquenta. E os primeiros sinais delas nos jardins serve pra indicar para os canadenses que a primavera chegou.Entretanto, os imigrantes não tem o hábito de plantar e muitos, como eu, sequer têm jardim. Ficamos, portanto, com a opção de olhar pela janela e continuar sem saber se está quente ou frio lá fora...

Enquanto os canadenses observam os sinais bucólicos da primavera, a única coisa que resta para imigrantes como eu são os sinais nada bucólicos da estação. Na falta de robins ou de um jardim com tulipas, observo os canadenses com chinelos, shorts e blusas regatas quando a temperatura subiu para 15 graus celsius. O fato de que eles estão vestidos para o verão enquanto eu ainda estou precisando de um cachecol é, pra mim, o primeiro sinal da primavera.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mandando bem, como sempre

Texto publicado na Folha de S. Paulo
Domingo, 8 de maio de 2011

HÉLIO SCHWARTSMAN

Felizes para sempre

SÃO PAULO - Por 10 votos a 0, o Supremo Tribunal Federal estabeleceu que a figura da união estável vale também para casais homossexuais. Já não era sem tempo.

O que dois ou mais adultos fazem consensualmente entre quatro paredes em matéria de sexo é assunto que diz respeito apenas a eles.

Desde que em comum acordo e sem envolver menores, não há nada de intrinsecamente errado com homossexualismo, masoquismo, sadismo, fetichismo, coprofilia, zoofilia (se o animal em questão não se opuser) e nem mesmo com a vida monástica. Se há um comportamento reprovável do ponto de vista da boa convivência social, ele está não no homossexualismo ou no que a psiquiatria chama de parafilias, mas no desejo incontido de controlar a sexualidade alheia.

E, se é justo que casais heterossexuais possam herdar os bens um do outro, estabelecer vínculos previdenciários e adotar crianças, não há nenhuma razão para deixar de estender esses mesmos direitos a pares do mesmo sexo. Um cidadão é um cidadão independentemente de seus hábitos copulativos.
É pouco provável, porém, que a decisão do pretório excelso ponha fim às guerras culturais em torno do tema. A razão é simples: o julgamento tem como objeto apenas as uniões civis, deixando de fora o casamento propriamente dito.

Tenho, porém, uma modesta sugestão para solucionar de vez o problema. No rastro de Richard Thaler e Cass Sunstein, autores de "Nudge - O Empurrão para a Escolha Certa", proponho que o Estado caia fora do ramo de casamentos e passe a reconhecer apenas uniões estáveis. Elas dão conta de tudo o que importa para a vida civil. E que cada igreja ou associação celebre o casamento da forma que bem entender.

Os católicos, por exemplo, poderão continuar a oferecê-lo só a pares heterossexuais e em caráter indissolúvel, enquanto a ABGLT poderá instituir suas próprias regras. E todos vivem felizes para sempre.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Vitórias, no plural!

Folha de S. Paulo

São Paulo, sexta-feira, 06 de maio de 2011

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Vitória gay, vitória do país

SÃO PAULO - Não foi apenas uma vitória dos homossexuais. Foi uma afirmação do Estado laico, do espírito democrático e do pensamento progressista. Não é pouco no Brasil.

Basta lembrar, por exemplo, que na campanha presidencial o aborto foi objeto de uma gincana obscurantista entre os candidatos "esclarecidos". Ou não esquecer que gays (de fato ou presumidos) são espancados por gangues nas ruas, como aconteceu outro dia na Paulista. Ao reconhecer como legal a união estável entre pessoas do mesmo sexo, o STF estendeu a esses casais os direitos dos heterossexuais -partilha de bens e herança, pensão, declaração conjunta de IR etc.

Mas, além disso, ao facultar aos gays o direito de constituir família, o STF vai contra a discriminação e a favor de uma sociedade mais tolerante e inclusiva, capaz de lidar de maneira civilizada com suas diferenças e a multiplicidade da vida.

Eram dois os argumentos legais dos adversários da causa gay: 1) a Constituição diz que "é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar"; 2) para ampliar esse conceito aos gays, seria preciso mudar a Carta, tarefa que caberia ao Congresso.

Gilmar Mendes respondeu a essas objeções no seu voto: "O fato de a Constituição proteger a união estável entre homem e mulher não significa negar a proteção à união do mesmo sexo. É dever desta Corte dar essa proteção se de alguma forma ela não foi concedida pelo órgão competente (o Congresso)".

Mas feliz, de verdade, foi a fórmula do relator do caso, ministro Ayres Britto: "Aqui é o reino da igualdade absoluta, pois não se pode alegar que os heteroafetivos perdem se os homoafetivos ganham".

Mesmo sem perder nada, foram derrotados aqueles que se sentem ameaçados pela sexualidade alheia (ou antes a sua própria). Perderam a igreja, os conservadores em geral e os homofóbicos em particular. Nem sempre o Brasil nos decepciona. Avançamos. Com a omissão do Congresso, pelas mãos do STF.

domingo, 1 de maio de 2011

Estou na moda, finalmente!

Pela primeira vez, minha mãe achou que eu estava na moda, com meu novo corte de cabelo. Segundo ela, meu cabelo está igual ao da Camila (ou Carolina?) Pitanga na novela. Julguem vocês mesmos:



Ter o mesmo corte de cabelo da personagem principal da novela é uma boa coisa, segundo minha mãe.... Quem sou eu, com toda minha candanguice pra questionar?

A tarefa árdua de atrair talentos

Na semana passada, o ministro da Ciência e Tecnologia Aloizio Mercadante anunciou que o governo vai criar um programa para atrair talentos brasileiros que estão no exterior. A idéia é que, ao voltar, esses cidadãos possam contribuir para o desenvolvimento do país. Alguns dias antes, a Folha já havia noticiado a criação de programas na mesma linha, entitulado “Governo cria programas para repatriar profissionais brasileiros”. Considerando a importância da mão de obra qualificada, da inovação científica e do desenvolvimento tecnológico para o crescimento econômico, o objetivo desses programas parece acertado, a princípio. O problema é como alcançá-lo.



A revista inglesa The Economist indicou em matéria de 06/01/2011 (“Go south, young scientist”) que o governo brasileiro tem a seu favor uma reputação acadêmica cada vez mais respeitável: (i) produz-se duas vezes mais doutorados (10.000 por ano) no Brasil do que há duas décadas atrás; (ii) entre 2002 e 2008 a produção de artigos científicos brasileiros aumentou de 1.7% para 2.7% do total de artigos produzidos no mundo; (iii) o país é o líder mundial em pesquisa sobre doenças tropicais, bioenergia e botânica; (iv) gasta-se 1% do PIB em pesquisa, o que representa quase o dobro da média gasta em outros países da América Latina; (v) os cientistas brasileiros estão colaborando cada vez mais com cientistas estrangeiros (atualmente 30% dos artigos de autoria de cientistas brasileiros tem um co-autor estrangeiro). Além disso, nos últimos anos, os fundos para pesquisa foram reduzidos nos Estados Unidos e na Europa, o que cria um momento favorável para atrair ao país jovens talentos em geral - e brasileiros em particular.

Todavia, atrair brasileiros que optaram por sair do país não é uma tarefa tão fácil. Segundo a reportagem da FSP, “Mercadante acredita que o Brasil seria um destino atraente para brasileiros hoje no exterior se forem oferecidos salários de nível mundial e excelentes condições de trabalho e pesquisa na área de ciência e tecnologia”.  Oferecer um salário compatível com aquele oferecido no exterior é um bom começo, mas é preciso definir o que seriam exatamente essas “excelentes condições de trabalho”.  Frequentemente, essas pessoas decidiram deixar o país porque encontraram no exterior um ambiente mais propício para pesquisa acadêmica e melhores condições de vida. Seria possível criar condições semelhantes no Brasil, como quer Mercadante? Como fazê-lo?

As universidades públicas brasileiras estão, em muitos casos, afogadas em brigas políticas contra-producentes, ineficiências administrativas e falta de profissionalismo. Isso cria obstáculos significativos para a produtividade acadêmica e representa um custo difícil de contrabalançar, mesmo com atraentes benefícios financeiros.  Portanto, “criar excelentes condições de trabalho” exigiria reformas significativas nas nossas instituições de ensino e pesquisa. Sem instituições funcionais e pesados investimentos, programas de estímulo ao retorno de pesquisadores correm o risco de se tornar apenas mais uma fonte de desperdício de recursos públicos. Por exemplo, se tais programas oferecerem apenas melhores salários, e não fizerem um processo seletivo cauteloso, pode ser que o governo acabe investindo uma quantia significativa de dinheiro para atrair apenas aqueles profissionais que não tinham perspectiva de ter uma carreira no exterior e voltariam ao país de qualquer forma, com ou sem benefícios.

Outro risco é que o governo de fato consiga atrair quem iria ficar no exterior, mas esses iniciariam suas carreiras aqui para logo depois deixar o país. Segundo a The Economist (06/01/2011), ainda que os salários de pesquisadores jovens já sejam relativamente competitivos no Brasil, o mesmo não é verdade para pesquisadores mais experientes e renomados. Além disso, as universidades públicas não têm flexibilidade para negociar salários caso um pesquisador receba uma oferta mais atraente de outra instituição. Ou seja, é possível que nossos jovens talentos estejam em breve recebendo ofertas tentadoras de universidades no exterior e não há nada que os diretores das faculdades brasileiras possam fazer para convencê-los a ficar no país.

Reformas institucionais são um processo amplo e demorado. Ou seja, não vão acontecer nos “próximos seis meses”, que é o prazo que o ministro estabeleceu para a implementação dos tais programas para atrair talentos brasileiros no exterior. Uma possível solução seria criar o que eu chamo de ‘institutional bypass’, ou uma “ponte de safena institucional” . Ao invés de tentar mudar as instituições universitárias e de pesquisa que atualmente apresentam problemas, o governo deveria criar novas instituições. Essas novas instituições poderiam ser focadas apenas em pesquisa, o que as tornaria mais atraentes para os pesquisadores no exterior, já que lhes permitiria produzir pesquisa acadêmica num centro de excelência sem precisar dar aulas e/ou dar conta de funções administrativas, como ocorre atualmente nas universidades brasileiras. Além disso, por serem instituições novas, elas poderiam ter uma estrutura administrativa e de governança desprovidas dos problemas e vícios das instituições que existem atualmente no Brasil. No âmbito das ciências sociais, há alguns modelos. A Índia, por exemplo, criou nas últimas décadas 27 institutos de pesquisa autônomos, apartidários e financiados pelo governo. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) seria o que temos de mais próximo desse modelo no Brasil. Por isso, a criação de novas instituições de pesquisa talvez seja uma opção mais promissora, se estamos de fato preocupados em atrair verdadeiros talentos e mantê-los no país para promover desenvolvimento.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

De volta às origens

Estava eu checando uma palavra qualquer no dicionário, na letra "c" e resolvi checar a palavra "candango". Sempre digo às pessoas que sou candanga, que é o termo usado para pessoas que nasceram na capital, Brasília. Para minha surpresa, todavia, essa definição não estava no dicionário. E para piorar as coisas, as definições que estavam lá não eram muito elogiosas: 

Candango s.m.  
1. nome que os africanos davam aos portugueses (derivado do kangundu que significa vilão, ruim, ordinário);
2. indivíduo desprezível, abjeto;
3. indivíduo destituído de bom gosto;
4. nome que designa cada um dos operários que trabalharam nas grandes construções da cidade de Brasília (DF);
5. cada um dos primeiros habitantes de Brasília;

Para não ter uma nova crise de identidade (a última que tive foi quando meu cabelo encaracolou...), estou tentando me encaixar nas definições, numa tentativa desesperada de permanecer candanga:


1. ainda que eu não seja portuguesa, sou descendente. Portanto, posso ter adquirido o título (de vilã) por herança;
2. tenho certeza que quando meus alunos recebem as notas alguns deles acham que sou um ser desprezível e abjeto. Portanto, sou candanga ao menos duas vezes por ano;
3. sempre que desembarco no aeroporto, minha mãe manifesta seu horror com minhas roupas fora de moda, que não combinam uma com a outra (até hoje lembro do "você não pode usar uma calça marrom com uma blusa azul, Mariana!). Portanto, tenho certeza que ela e todas as pessoas que entendem de moda iriam dizer que sou destituída de bom gosto;
4. minha grande construção em Brasília foi a plataforma que construí quando tinha uns 9 anos no topo da árvore perto da garagem do prédio. Serve?
5. acho que meus pais foram um dos primeiros habitantes de Brasília, se a gente estender o conceito de primeiro uns bons 10 anos depois da criação da cidade. Talvez possa adquirir o título por consaguinidade...
6. também posso argumentar, como boa advogada, que o dicionário ainda não incorporou o uso moderno do termo, porque a língua é muito mais dinâmica do que qualquer dicionário... 

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Certezas da vida

"Nada é certo na vida, exceto a morte e os impostos."  Quando Benjamin Franklin escreveu a frase que iria ficar tão famosa (na língua inglesa, pelo menos), ele claramente não tinha contemplado os níveis de sonegação fiscal que alguns países em desenvolvimento conseguem alcançar. Há nações em que o estado recolhe apenas 40% do total dos impostos devidos. Ou seja, pra um monte de gente por aí, só tem uma coisa certa na vida, a morte. Os impostos devidos podem desaparecer em um piscar de olhos, dependendo das circunstâncias.

Foi com esse pensamento que eu saí do escritório da contadora hoje, depois dela avaliar os dados pra minha declaração do imposto de renda. Se eu declarasse a renda que obtive com consultorias no Brasil (algo em torno de 7.000 dólares canadenses), teria que pagar 3.000 dólares de imposto. Se eu não declarasse essa renda, não devia nada para o governo. A decisão -- e a responsabilidade -- eram minha, disse a contadora, uma senhora indiana simpática e sorridente. Depois de me recomendar um restaurante indiano, ela sugeriu que eu fosse pra casa pensar sobre o assunto e voltasse lá quando eu tivesse decidido o que fazer. 

A tentação de sonegar o imposto era grande. Significava que minha poupança ia ter 3.000 dólares a mais no fim desse mês; ou que eu podia viajar pra Cuba durante o verão; ou que eu podia comprar uma Vespa e sair pela cidade livre, leve e solta; ou podia significar duas ou três passagens para o Brasil, com toda a comida e diversão que as viagens para o Brasil incluem. Enfim, 3.000 dólares não é uma quantia que se joga pela janela assim sem pestanejar.

Enquanto eu caminhava pela rua, me lembrei da conversa que tive com minha consultora financeira sobre o assunto. Eu tinha mencionado que era provável que eu teria que pagar impostos, se eu declarasse a renda que recebi no Brasil. Tivemos essa conversa antes mesmo de saber os montantes. Ela não pestanejou: - Pague. É melhor prevenir do que remediar ("You better be safe than sorry"). Ligar para ela a essa altura do campeonato, portanto, não ia ajudar. Ainda que minha poupança (a principal preocupação dela) fosse sofrer, ela ia me mandar voltar imediatamente para a contadora pra declarar tudo e pagar o imposto.

Por que os impostos eram certos para Benjamin Franklin, mas não são pra mim? Por que eles são certos para minha consultora financeira, mas não pra minha contadora? Uma dupla de pesquisadores americanos argumentaria que a razão é que Franklin e minha consultora são americanos, enquanto que eu e minha contadora somos do Brasil e da India. Ou seja, o problema é cultural. 

Esses pesquisadores fizeram uma pesquisa interessante sobre diferentes culturas e sua relação com leis. Basicamente, eles pegaram todos os representantes da ONU de diversos países que moram em Nova Iorque, e calcularam com qual frequência (i) eles estacionavam ilegalmente, e (ii) pagam as multas que recebiam. O experimento se torna particularmente interessante porque os funcionários da ONU são considerados corpo diplomático e, por causa disso, são isentos das multas. Ou seja, se eles estacionarem ilegalmente, vão receber o papelzinho da multa mas o governo nunca vai cobrar a quantia. Para quem não tem muita propensão a cumprir a lei, é o paraíso. E foi exatamente isso que os pesquisadores mostraram: diplomatas de países como Brasil e India estacionavam ilegalmente com uma frequência muito maior (às vezes o dobro ou triplo de vezes) que dos países anglo-saxôes e, em especial, dos países Nórdicos. E esses outros diplomatas quase sempre pagavam as poucas multas que recebiam, ao contrários dos brazucas e seus coleguinhas do sul do equador...

A pesquisa é reveladora porque quebra com um dos pressupostos mais básicos com os quais muitos juristas operam: as pessoas obedecem a lei porque senão elas serão punidas, ou porque vivem em um ambiente em que outras pessoas obedecem a lei. Ao contrário disso, o experimento mostra que as pessoas que tendem a obedecer a lei o fazem independente de punição ou do local onde se encontram. E eu, com toda a minha dúvida, parecia estar me encaixando muito bem no protótipo da cidadã subdesenvolvida que não obedece as leis. 

Fiquei meio deprimida e revoltada com essa conclusão, afinal esse tipo de comportamento é exatamente a coisa que mais me causa ojeriza quando vou ao Brasil. Ainda assim, toda minha revolta comigo mesma não me fez dar marcha ré e voltar para o escritório da minha contadora imediatamente pra pagar o que eu devia. 

Tentei me convencer de que eu certamente seria pega em algum momento. Em vão. A probabilidade do governo canadense conseguir obter algum tipo de dado do quanto eu ganhei no Brasil parecia ínfima, em especial porque o próprio pessoal que me pagou no Brasil não sabia direito quanto eles tinham me dado, e quanto de imposto eles tinham recolhido (se é que recolheram alguma coisa)...E ainda que eu conseguisse me convencer que eu ia ser pega, os pesquisadores de Nova Iorque iam falar que minha cultura ainda ia me impedir de obedecer a lei. Mas eu estava decidida a provar para eles que minha cultura não é determinante do meu comportamento, senão além de não pagar imposto preciso desistir da idéia de que dá para melhorar o Brasil...


Daí eu tentei pensar que, diferentemente do governo brasileiro, aqui eu tenho assistência médica gratuita, segurança, e paz de espírito. Ou seja, eu deveria estar pagando meus impostos sem pestanejar, pois era até um preço baixo por todos os benefícios que eu estava recebendo. Lembrei inclusive do episódio em que eu liguei para a polícia as 3 da manhã porque eu tinha ouvido "alguém" quebrar um vidro no meu quintal, que era dividido com outras casas. Em menos de 10 minutos tinha uma equipe de quinze homens armados no meu quintal, vasculhando tudo com lanternas, enquanto a mulher do serviço de emergência estava comigo no telefone, me dando instruções para ficar dentro de casa até que eles tivessem terminado as buscas. Eles terminaram as buscas, e um oficial bateu na minha porta, com seu fuzil, colete a prova de balas, capacete e lanterna para me informar que tinha um guaxinim no meu quintal vasculhando o lixo. Fiquei rouxa de vergonha, e comecei a me desculpar. O oficial me interrompeu no meio da frase e disse que eu fiz o certo. Se eu ouvisse barulhos no quintal de madrugada, não interessa quais fossem, eu tinha que chamar a polícia. Esse era o trabalho deles: garantir que eu estava segura. Fui dormir naquele dia pensando como eu amo esse país! Ainda assim, hoje eu não conseguia me convencer que 15 policiais armados no meu quintal as três da manhã valiam 3.000 dólares...


Foi aí que eu entendi o que estava acontecendo. Era o que em inglês se chama ownership bias, que eu não sei muito bem como traduz mas seria algo como o efeito de ter uma propriedade (recomendo o livro do Dan Ariely sobre o assunto). Baseados em experimentos, alguns economistas mostraram que bens de mercado não tem um valor absoluto. Ao contrário, as pessoas valorizam mais as coisas depois de adquiri-las. Por exemplo, um dos experimentos perguntava quanto algumas pessoas estavam dispostas a pagar por uma caneca de café. Daí essas pessoas recebiam canecas gratuitamente. Depois de um tempo, essas pessoas tinham a possibilidade de vender as canecas. Como as canecas tinham sido gratuitas, vender elas seria sempre lucrativo, a qualquer preço. Mas havia uma expectativa de que as pessoas iriam pedir mais ou menos o preço que elas tinha declarado antes de ganhar as canecas. Todavia, não foi isso que aconteceu. As pessoas que tinham ganhado as canecas pediram preços muito maiores do que haviam declarado anteriormente, e alguns apenas concordaram a preços extorsivos (ou seja, preços muito maiores do que o valor de mercado das canecas).

Era exatamente isso que estava acontecendo comigo, o ownership bias. Eu pago mais do que 3.000 dólares de imposto por mês, mas eu nem noto porque o valor é deduzido do meu salário antes do montante ser depositado. Portanto, penso que pago isso de imposto todo mês e não me incomoda. O problema é que o dinheiro do Brasil entrou na minha conta. Ou seja, eu adquiri propriedade sobre aquele montante (como as pessoas que ganharam canecas), e agora eu valorizo isso muito mais do que eu valorizaria se alguém tivesse me falado que iam deduzir 3.000 antes de fazer o pagamento. Eu sei que 3.000 dólares são 3.000 mil dólares, e não interessa se eu perco o dinheiro antes ou depois de receber o pagamento. Mas esse raciocínio não elimina a sensação -- totalmente psicológica e irracional -- de que perder 3.000 dólares que eu tinha ganho é pior do que deixar de ganhar 3.000 dólares. Conclui que os governos são muito expertos de recolher imposto na fonte, pois caso contrário a tentação de sonegar ia ser muito grande.   


Voltei para o escritório da contadora e falei pra ela que ia declarar todo o montante. Ela soltou alguma piada qualquer e me deu o boleto para pagar no banco. Ainda não consegui decidir se paguei os 3.000 dólares por causa do risco de cair na malha fina, ou da reprimenda moral da minha consultora financeira, ou do meu medo de ser confundida com pessoas de países subdesenvolvidos que não obedecem a lei, ou da minha paúra de ver que eu estou agindo de maneira completamente irracional, por causa do ownership bias. No momento, estou achando que eu paguei só pra poder escrever essa história no blog. Afinal, se eu tivesse sonegado, não ia ficar declarando isso por aí em público. Portanto, sinta-se prestigiado: você acaba de ler uma história que me custou 3.000 dólares!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Crianças em desenvolvimento

Em homenagem a todas as minhas amigas que nos últimos anos viraram mães e agora andam com seu pimpolhos, seguem minhas impressões de como os bebês crescem:

Fase 1: antes de conseguir andar, eles dançam na cadeirinha e choram quando não tem música (afinal essa vida de cadeirinha deve ser muito monótona....)




Fase 2: eles começam a andar e agora podem dançar a vontade, celebrando toda a liberdade de não ter que ficar preso(a) a uma cadeirinha




Fase 3: Daí eles começam a falar. As crianças dos Estados Unidos contam histórias sobre mercados (venderam os robôs), guerras (destruíram o planeta) e poder (não mexa com Vader)



Enquanto isso, do outro lado do oceano, as crianças francesas estão preocupadas com liberdade (no final, todos podem fazer o que querem, até as crianças), igualdade (veja a preocupação dela com os animais pobres que não tinham dinheiro pra comer), e fraternidade (o leão mata o hipopótamo e perde todos seus poderes) 


Once upon a time... from Capucha on Vimeo.

Fase 4: Daí eles(as) cansam de contar histórias, voltam a dançar e cantar, e soltam a franga...





Fase 5: Daí eles(as) se formam na faculdade, arranjam um emprego, começam a ter filhos e todo o ciclo começa novamente....

Ps - Thanks J. and tia for the videos!