segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A Ansiedade do Brasileiro

Como eu não consigo passar pelo Brasil sem fazer uma crônica cultural do país, aqui vai a mais recente. O brasileiro é muito ansioso. Se eu estivesse encarregada da política de saúde do país, a primeira coisa que eu ia fazer era recomendar ansiolítico pra todo mundo. E colocar cartazes por toda a cidade: "Calma! Sua mãe não está na forca e o mundo não vai acabar amanhã."

Veja, por exemplo, o comportamento do brasileiro em viagens internacionais. A ansiedade começa na sala de embarque. A companhia aérea americana te dá um bilhete dizendo de qual grupo você faz parte. A atendende no balcão da sala de embarque anuncia que o embarque vai começar em instantes e que será organizado de acordo com os números nos cartões de embarque. Imediatamente, todos os brasileiros se levantam e se aglomeram na frente do portão. A aeromoça repete o recado -- as pessoas vão embarcar segundo a ordem dos grupos, 1, 2, 3, 4... -- e pede para que as pessoas não se aglomerem, para dar passagem para aqueles que vão embarcar. Em vão. Uma vez formada, a aglomeração permanece ali, inerte, bloqueando a entrada de que tinha que embarcar, atrasando a entrada deles mesmos, e deixando a atendente rouca de tanto pedir para que abram caminho.

Daí vem a ansiedade na chegada do avião no destino final. O avião pára no portão, mas as luzes de manter os cintos apertados continuam acesas. Isso significa que ainda não é seguro tirar os cintos e se levantar. Mas para o desespero do comissário de bordo, a vasta maioria dos passageiros levanta-se de supetão e corre para pegar sua bagagem nos compartimentos acima dos bancos. Quando o sinal de apertar os cintos finalmente se apaga, uns dois minutos depois, já estão todos amontoados nos corredores, feito sardinhas e lata, como se estivesse participando de uma corrida para ver quem vai sair mais rápido avião. Parece que ninguém sabe que ainda vamos ficar lá mais uns dez minutos aguardando de pé o procedimento de abertura de portas. O comissário ainda olha para aquilo tudo sem poder acreditar no que vê. 

E durante todo o trajeto, incluindo na chegada do avião ao destino final, o brasileiro não controla sua ansiedade com os procedimentos na alfândega. É preciso checar a informação vinte vezes, como se fossem surdos, ou burros, ou muito desconfiados de que alguém ali está organizando uma pegadinha do Faustão (ou do Silvio Santos, que é muito mais radical...). No balcão de check-in, a funcionária informa que todos os passageiros precisam pegar a bagagem em Washington, mesmo aqueles que vão fazer conexão. Dentro do avião, o comandante repete a mensagem, e a única comissária que falava português traduz a mensagem do comandante. Ou seja, o problema não é a barreira linguística. Ainda assim, o sujeito sentado do meu lado me pergunta sobre as bagagens. 

- É pra pegar a bagagem? Mas eu vou fazer conexão. 
- Sim. Todo mundo tem que pegar a bagagem. 
- Mas como que eu faço? 
- O senhor pega a bagagem, passa pela alfândega, e entrega ela de novo para a empresa aérea, como eles acabaram de explicar. 
- Mas porque eles não transferem direto para o outro avião? 
- Porque o senhor precisa passar na alfândega. 
- A empresa podia transferir direto, né? Ia ser tão mais fácil. 

Na saída do avião, ainda vejo outro perguntando para o comissário sobre as bagagens. Fiquei com vontade de falar para o sujeito que tinha sentado do meu lado: os passageiros também podiam não ficar questionando as informações que recebem cinco vezes. Também ia ser bem mais fácil...

Eu ainda não elaborei um explicação de porque o brasileiro é tão ansioso, mas o fato é que essa ansiedade impacta no comportamento social de maneira muito negativa. Por exemplo, se aglomerar na porta de entrada do metrô, da mesma forma como se aglomeram no portão de embarque, só atrasa a vida de todo mundo. A pressa para ser o primeiro a levantar é a mesma pressa de passar na frente do outro no meio do engarrafamento, para ficarmos todos parados lá juntos, sem ir a lugar nenhum. Isso sem falar no fato de que essa pressa cria uma total falta de cordialidade no trânsito, que faz as ruas do Brasil parecerem uma guerra civil. Por fim, a quantidade de conversas desnecessárias que ocorrem só porque o sujeito quer checar a informações sobre qualquer coisa pela décima quinta vez deve consumir, no mínimo, uns 5% do PIB (pois reduz a quantidade de horas trabalhadas). 

E assim vão os brasileiros, todos querendo que o Brasil vá pra frente, mas com tanta ansiedade que acabam impedindo que qualquer coisa aconteça.


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