quarta-feira, 1 de julho de 2009

Pobreza e personas non-grata na America Latina

Nesse verão visitei dois dos países mais pobres daAmérica Latina: Cuba e o Paraguai. Ver pobreza não é chocante pra quem vem do Brasil, afinal vemos isso por todos os lados por aqui. O chocante foi ver tipos de pobreza tão diferentes da brasileira.

No Paraguai, por exemplo, mesmo as áreas mais ricas e sofisticadas tem rédios, lojas e carros que não considerariamos de luxo aqui no Brasil. Os bairros mais ricos e as pessoas mais afoturnadas por lá parecem ter o nivel de vida da classe média-baixa brasileira. E a pobreza não está presente somente na vida privada. Ao visitar o Congresso paraguaio, vi que prédio tinha sido financiado pelo governo de Taiwan (sabe-se la em troca do que…) e ao sair pela porta da frente do Congresso, me deparei com uma favela do outro lado da rua. Literalmente, havia porcos comendo lixo na frente do Congresso nacional.

Cuba, por outro lado, tem uma pobreza de infraestrutura. Na parte mais antiga da cidade, os prédios da década de 50 não foram reformados desde então. A mesmo coisa para ruas e calçadas. Varios carros dessa época ainda estão circulando. Fora dos locais turísticos, não há ar condicionado, e mesmo no museu de arte cubana o ar condicionado estava quebrado há três meses. Não havia previsão de concerto (fiquei com medo dos quadros e dos vigias do museu derreterem naquele calor infernal das salas de exposição). Outras tecnologias como computadores e internet também não são de fácil acesso (nem para turistas). Os celulares chegaram a pouco tempo na ilha e faz alguns meses que os Cubanos foram autorizados a comprá-los.

A pobreza material de Cuba, todavia, contrasta com a pobreza humana do Paraguai (e do Brasil em grande parte) . Os pobres do Paraguai moram mal, se vestem mal, se alimentam mal, têm baixa escolaridade, têm doencas, são privados de assistência médica e sofrem muito com tudo isso. Em contraste, o povo de Cuba mora mal, e não tem roupas sofisticadas, mas eles têm o que vestir, o que comer e -- o que mais impressiona -- têm altíssima escolaridade e muita saúde. De fato, os níveis de escolaridade e saúde de Cuba são tão altos quanto os dos Estados Unidos, que é a maior economia mundial e investe bilhões de dólares na população para conseguir esses resultados. Minha conclusao foi que em Cuba está tudo caindo aos pedaços, menos as pessoas.

Ninguém sai de uma experiência dessa sem questionar um pouco o que é pobreza. O Banco Mundial classifica os países pela renda per capita, o que torna Cuba um dos paises mais pobres do globo. O Paraguai também não se sai muito bem nesse quesito. A ONU, por sua vez, considera além da renda os níveis de saúde e educação, e aí Cuba não fica tão mal. Ia ficar melhor ainda se a ONU não considerasse renda... Mas tem um pessoal que desenvolveu um índice de felicidade nacional e apesar deles não terem medido Cuba ou o Paraguai eu tenho impressão que as pessoas são mais felizes com saúde e podendo ler, do que com acesso a bens materiais de todo tipo. Mas ainda que a gente abdique da idéia de felicidade, acho que todo mundo concorda que ter saúde, comida e acesso a informação é mais importante que ter camisetas da moda, tênis de marca e carro do ano.

O mais interessante da experiência, todavia, foi descobrir as causas da pobreza nesses dois países. O embargo norte-americano teve um impacto negativo considerável na economia cubana. E o discurso anti-americano é muito forte na ilha, desde a época da revolução (uma visita ao museu da revolução foi bastante reveladora nesse sentido). Mas encontrar gente no mundo que odeie os americanos não é novidade. O que foi revelador foi descobrir que o grande causador da pobreza no Paraguai foi o Brasil. Pouco antes da Guerra do Paraguai, Francisco Solanos Lopez estava promovendo uma política agressiva de desenvolvimento, financiando a industrialização no país e fazendo investimentos pesados em educação. Uma aliança de países liderada pelo Brasil decidiu entrar em guerra para "garantir sua hegemonia na região" (i.e. para impedir que o Paraguai se desenvolvesse e se tornasse um império). O resultado foi desastroso para o Paraguai: metade da população foi morta, o país viveu dez anos sobre ocupação militar, perdeu uma parte significativa de seu território, e ainda teve que pagar uma pesada indenização. O resultado? Hoje eles são um dos países mais pobres da América Latina. E os culpados? Somos nós, brasileiros.

Enfim, ao visitar o Paraguai eu me senti como um Americano em Cuba. E, devo confessar, não foi uma sensação agradável. Afinal, ver pobreza e se preocupar com pessoas pobres é uma coisa, mas ser o causador de todos esses males é algo completamente diferente. Além disso, assim como os Cubanos os Paraguaios não se acanham em dizer que nós somos os culpados or grande parte dos problemas deles hoje. Nesse sentido, a pobreza nesses dois países é muito diferente da pobreza no Brasil, já que os pobres por aqui não parecem estar procurando culpados. Afinal, "Deus quis assim". Isso não quer dizer que não sejamos (nós, classes média e alta) culpados também na nossa própria terra. Basta ver o histórico das políticas desenvolvimentistas no Brasil, desde o primeiro governo de Getúlio até o fim da ditadura militar, para ver quem saiu ganhando. Como diz um economista indiano famoso, chamado Amartya Sen: "there is much evidence in history that acute inequalities often survive precisely by making allies out of the deprived (...) It can be a serious error to take the absence of protests and questioning of inequality as evidence of the absence of that inequality (or of the nonviability of that question)".

Como eu digo para meus alunos no Rio: os pobres nas favelas estão armados e poderiam a qualquer momento descer do morro e matar todos nós, promovendo o equivalente da revolução cubana. E o fato de que não haja riscos disso ocorrer agora, não significa que isso nunca vai acontecer. E ainda que não aconteça, pode ainda chegar o dia em que eles vão perceber quem ganha e quem perde nessa sociedade desigual em que vivemos, e deixem transparecer em toda e qualquer conversa nossa responsabilidade pela miséria alheia, como fazem os Paraguaios. Nesse dia, vamos descobrir que somos diferentes do Cubanos e dos Paraguaios em pelo menos uma coisa: nosso maior problema somos nós mesmos.













In history class, in seventh grade (or as we like to say in Canada, grade seven) we learned the story of the American Revolution — from the British perspective. Turns out you were all a bunch of ungrateful tax cheats. And you weren’t very nice to the Loyalists. What I miss most about Canada is getting the truth about the United States.

— MALCOLM GLADWELL, a staff writer for The New Yorker and the author, most recently, of “Outliers: The Story of Success”

O aniversário do Canadá

Hoje é Canada Day , o dia em que se celebra a promulgação do British North America Act de 1867, que transformou o Canadá em um país (ou um reino) composto por quatro províncias. Para celebrar a data, o New York Times convidou onze canadenses vivendo nos Estados Unidos para escrever sobre o que eles mais sentem falta. Vale a pena ler o artigo todo, mas seguem abaixo algumas coisas que chamaram minha atenção.

Um dos canadenses convidados pergunta, de onde veio esse nome? De 1867 a 1982, esse dia chamava-se Dominion Day, porque o ato de 1867 criava um "federal dominion" de quatro províncias. Em 1982, foi promulgado o Canada Act que eliminou os resquícios de controle da Inglaterra, e promulgou a Constituição Canadense. Daí passou a chamar Canada Day.

Daí ele pergunta, porque não chamam de Dia da Independência? Porque é difícil identificar o momento em que isso ocorreu: de 1867 a 1982 o governo da Inglaterra foi progressivamente concedendo mais poderes para o Canadá, mas foi provavelmente o processo de independência mais longo da história...

Esse outro deu uma descrição muito acurada dos Canadenses, que eu traduzi mal e porcamente:

"O aniversário do Canadá vem e vai sem muito alarde todos os anos. Sempre há promoções na lojas e o feriado, claro. Mas não têm muita pompa e circunstância na celebração canadense. O Canadá não é muito bom em encher os postes com bandeiras, e jogar papeizinhos pelas janelas dos prédios. Também não tem acrobacias aéreas, show de fogos, desfiles com bandas, e toda a pompa militar.

Os Canadenense preferem ficar na deles. Nós economizamos dinheiro e não cruzamos a rua fora da faixa (é ilegal, hein?). Nós ficamos parados quando a luz está vermelha para pedestres, ainda que não tenha um único carro na rua. Nós esperamos pela luz verde, indicando que é a nossa vez de passar. Daí nós enfiamos nossas cabeças dentro dos cachecóis, com um único olho de fora, quase fechado, tentando vencer a força do vento, cuidadosamente, discretamente, modestamente."

Um terceiro diz, "O que eu mais sinto falta? Do seguro saúde gratuito e universal."

Um quarto responde à acusação de que não há comida típica canadense indicando que há Coffee Crisps. Eu não faço a menor idéia do que isso seja, mas eu posso garantir que tem uma comida típica canadense que eu adoro: poutine. Segue a receita no final do post, que eu tirei de um site qualquer.

Uma canadense de poucas palavras diz apenas que ela sente saudades do u in color, afinal no Canada se usa o inglês britânico (colour).

E é bom lembrar que os laços com a Inglaterra não terminam aí. A rainha da Inglaterra ainda é a rainha e a Chefe de Estado do Canadá, como todas as notas de dólar canadense fazer questão de nos lembrar. Apesar do vínculo, para minha sorte, os canadenses parecem menos preocupados com as fofocas sobre os príncipes do que os ingleses. Mas talvez isso explique porque não dá para chamar o dia de Independence Day...

Um outro diz que sente falta da neve, que nos Estados Unidos é como o sistema de saúde: esporádica, não confiável, e é distribuída de forma desigual entre a população do país.

Por fim, um dos depoimentos que eu mais gostei foi a dona de uma livraria que disse que sentia falta da literatura canadense. Eu concordo que a literatura Canadense é muito diferente da americana. Para os curiosos, recomendo essas cinco palestras de uma das maiores escritoras Canadenses, Margaret Atwood sobre o livro mais recente dela, Payback. São cinco horas de palestra, mas já que não tem parada militar e show de fogos de artifício, podemos comemorar ouvindo isso. E eu garanto: vale muito a pena.

Happy Canada Day!


"Veja, aqui, como preparar uma poutine simples, "de microondas":

Ingredientes:

3 batatas grandes
óleo para fritar
1 xícara de molho de tomate pronto (sabor "pizza")
1 cubo de caldo de bacon
molho inglês
1 xícara de queijo muzzarela ralado grosso ou picado


Preparo:

Corte as batatas em palito, frite normalmente e escorra em papel-toalha.

Enquanto isto, aqueça no microondas o molho de tomate, misturando o caldo de bacon e uma colher, de chá, de molho inglês.

Distribua as batatas fritas em 4 pratos fundos ou tigelas. Regue com o molho de tomate, aquecido. Espalhe, por cima, o queijo ralado. Leve ao microondas até derreter o queijo.

Sirva em seguida."

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Enquanto eu visitava a China...

...a noviça rebelde deu um pulo na Bélgica.

Finalmente, alguém que me entende

"all academics are besieged by doubts as to the relevance or impact of our work. (...) Law-and-development scholars have even greater reason than usual to feel a sense of impotence. Perhaps the only salve for this nagging doubt is to engage in concrete work in developing countries, as many of these scholars do."

Brian Tamanaha, The Lessons of Law and Development Studies, The American Journal of International Law, vol. 89, n. 2 (April 1995), p. 486.

domingo, 21 de junho de 2009

Comendo e aprendendo

Ninguém precisa ir até a China para descobrir que nossa cultura é diferente da deles. O que você descobre lá é que nossa cultura é diferente nos menores e mais inesperados detalhes. E o momento em que essas diferenças ficam mais evidentes é durante as refeições.

A primeira coisa que chamou minha atenção foi ver como os chineses te servem sem a menor cerimônia. Considerando que todas as refeições são banquetes de mais de vinte pratos, e acrescentando-se a isso o fato de que mais da metade dos pratos são absolutamente irreconhecíveis para ocidentais, ser servido sem ser consultado se torna uma aventura à altura do Indiana Jones.

Essa coisa de ser servida me chamou a atenção por uma razão especial. Em abril, no último mês de aulas, uma aluna chinesa que está fazendo o mestrado em Toronto levou eu e um colega para jantar em um restaurante chinês. Ela disse que tinha gostado muito do curso, e queria nos agradecer. Durante o jantar, todavia, ela passou a noite toda nos servindo, sem nos consultar. Na época, fiquei um pouco ofendida e um pouco confusa com a experiência. Foi só durante a viagem à China que compreendi que esse era o comportamento natural dos anfitriões por lá.

A segunda coisa que chamou minha atenção são as regras, bastante específicas, de onde anfitriões e convidados devem sentar. Umas duas ou três vezes eu cheguei no restaurante, fui sentando, e de repente recebi ordens para ir para o outro lado da mesa. Há vários simbolismos e significados por trás dessas regras, que basicamente dizem quem tem que ficar de costas para a porta ou de frente para a janela, ou uma combinação dos dois. Eu seria incapaz de indicar qualquer regra com precisão, muito menos de reproduzir a explicação que me deram para a existência das mesmas. Mas fica o aviso: se forem à China, aguardem as instruções antes de sentar.

Um terceira coisa interessante que descobri (desta vez lendo as dicas do meu guia sobre como me portar à mesa), é que é falta de educação não deixar comida no prato. Comer tudo indica que seu anfitrião é pobre e na casa dele ou dela não há fartura. A regra vem muito à calhar num contexto em que sempre há um banquete com mais de 20 pratos e as pessoas não param de colocar comida no seu prato sem te consultar.

Por fim, uma das coisas mais intrigrantes de toda a experiência foi descobrir que todos restaurantes têm salas privativas. É basicamente um quartinho com quatro paredes e uma mesa. A princípio, achei bastante estranho ir a uma restaurante e ficar trancada numa sala com a pessoas com quem você está jantando. Porém, depois eu pensei que talvez isso garanta que haja sempre uma janela e uma porta para que todos ficam de costas ou de frente, como mandam as regras. Além disso, é um excelente antídoto contra um outro costume chinês: o de ficar encarando as pessoas. Sempre que vou ao Brasil demoro um tempo para me acostumar com o fato de que as pessoas olham pra você e para suas roupas descaradamente, em qualquer local público (afinal a regra anglo-saxã é evitar contato a qualquer custo, mesmo que seja por olhar). Mas enquanto os brasileiros dão uma olhadelha não discreta, os chineses não se limitam à curta olhadelha. Eles param, e ficam te encarando, por longos minutos. Por causa disso, ao final da viagem, era quase um alívio chegar no restaurante e poder entrar em uma sala longe da vista de todos para cometer todas as minhas gafes mais à vontade!



segunda-feira, 15 de junho de 2009

Meu Brasil brasileiro vai à China junto comigo


Estou eu do outro lado do mundo, com 12 horas de diferença no fuso horário e, de repente, quando menos espero, dou de cara com os brazucas. Sem negar sua natureza gregária, eles vêm sempre em bandos, falando muito e principalmente discutindo tudo. Param na frente da bilheteria para discutir se vão entrar ou não. Quando decidem que vão entrar, engatam em um longo processo deliberativo para decidir quem vai pagar e quem deve quanto pra quem. Depois que entram, dicutem incessantemente se devem contratar um guia real (uma pessoa) ou um guia eletrônico (uma fitinha que vai narrando todas as informações relevantes, enquanto vc visita o lugar).

Meu passeio na cidade proibida foi incessamente interrompido por encontros com os mais diversos grupos de brazucas, o que já foi inesperado. Mas o mais inesperado foi encontrar a bandeira brasileira ao lado da chinesa em absolutamente todos os postes de luz em volta da Tiananmen square (conhecida em português como Praça Celestial), assim que saí da cidade proibida.





Explicação? Nosso Presidente estava fazendo uma visita oficial à China! Muita coincidência...

A maior coincidência, todavia, é que eu e o Lula estavamos lá pela mesma razão: nós dois queríamos estreitar laços com a China, pra promover desenvolvimento no Brasil. Enquanto o Lula estreitava os laços comerciais, eu estreitava os laços acadêmicos.

Apesar do propósito ser o mesmo, nossas visões de desenvolvimento são absolutamente opostas. Eu acho que reformas institucionais são a principal forma de deslanchar o processo (e queria entender como funcionam as instituições chinesas e como elas promovem desenvolvimento). Em contrapartida, nosso Presidente estava promovendo uma agenda de desenvolvimento através do comércio internacional e do fortalecimento das relações sul-sul (ou seja ,entre países em desenvolvimento) e do G-20.

Nota de rodapé para quem tem interesse no assunto: vale esclarecer que há evidência empírica favorável à minha visão, i.e. sustentando que são as instituições e não o comércio internacional os principais motores de desenvolvimento econômicos.

Apesar das nossas divergências sobre como promover desenvolvimento, foi ainda assim uma enorme coincidência. Só faltou uma chance de deliberar sobre isso com o Presidente, como deliberam os brazucas sobre absolutamente tudo em tudo quanto é lugar.

domingo, 14 de junho de 2009

Coisa de Cinema





A viagem à China me lembrou de dois filmes que assisti recentemente. Primeiro, o trajeto do avião foi completamente inesperado: ao invés de dar meia volta ao mundo, voamos sobre o pólo norte, passando por uma parte do Canadá que eu só conheço por fotos e filmes. Essa região chama territórios do norte (Northern Territories).

Há algumas semanas assisti um filme no festival de documentários de Toronto (hotdocs) chamado Experimental Eskimos. O filme mostra exatamente a vida dos povos nesses territórios do norte. Hoje em dia é politicamente incorreto chamá-los de esquimós. A palavra correta é Inuit. Independente da terminologia, todos devem ter uma imagem que representa a vida destes povos há algumas décadas: eles constroem iglus, tem charretes de neve puxadas por cachorros, e comem peixe cru, que eles pescam fazendo um buraco na neve e pescando naquele circulo que dá acesso à água, debaixo da camada de gelo. Devo informá-los que as coisas mudaram muito nos territórios do norte. Quem quiser se atualizar, assista o filme.

Um dos diálogos mais interessantes do filme foi um garoto de 11 anos da comunidade Inuit que havia sido “adotado” por uma família em Ottawa. Na entrevista, ele descrevia sua experiência ao chegar à cidade:

Garoto: - Eu vi muitas coisas das quais só tinha ouvido falar.
Entrevistador: - Tipo o que?
Garotro: - Tipo árvores.

A resposta fazia referência ao fato de que os territórios do norte ficam acima da chamada linha das árvores. Há um momento em que, devido ao frio, e à composição do solo, a vegetação deixa de existir. Os Inutis, na verdade, comem (ou comiam) peixe porque não há vegetais no território deles. Não há árvores, grama, ou flores. É só um mundão de neve, água, e pedra. Foi uma experiência inesquecível voar sobre os territórios do norte. A beleza dessa região é indescritível. Em contraste, a história deste povo -- em parte contada no filme -- não é tão linda. Se tiverem uma chance, recomendo tanto a viagem quanto o filme.

A segunda experiência foi a visita à Cidade Proibida em Beijing, onde vivia o imperador. A cidade é retratada no filme o Último Imperador, que também é excelente. O contraste da Cidade Proibida com os territórios do norte é que lá foi tudo construído por humanos, enquanto nos territórios é tudo beleza natural. Porém, a magnitude e a beleza da cidade é comparável àquela imensão branca acima da linha das árvores.







Enquanto Experimental Eskimos dá uma dimensão de como é uma vida de subordinação (ao governo Canadense) nesse território sem limites, o Último Imperador dá uma dimensão de como era uma vida sem subordinação (afinal, ninguém manda no imperador) dentro daquela clausura.

A cidade basicamente se divide em duas metades: as acomodações pessoais do imperador, que vivia com sua esposa e comcubinas, e a parte dos prédios públicos. A parte que eu mais gostei da cidade proibida foi a visita ao jardim privado do imperador.



Um dos imperadores decidiu construir um jardim para espairecer depois de um dia cansativo de trabalho, e afirmou que todo homem deveria ter seu próprio jardim para relaxar depois de um dia devotado às questões de interesse público. Fiquei pensando que talvez as invasões das áreas verdes nos terrenos do Lago Norte em Brasília (nos quais a pessoas cercaram terrenos públicos e tornam eles parte de suas casas), deve vir daí. Depois de um dia cansativo de trabalho, todo burocrata tem direito e espairecer no seu jardim privado, já dizia o imperador chinês. E, considerando que o burocrata dedicou seu dia ao interesse público, nada mais justo que o terreno do jardim seja público!

domingo, 7 de junho de 2009

No lugar certo, na hora errada...

Saí em quase todas as fotos da conferência. Juro que não foi de propósito...

Rumo à China, sem gripe suína

Embarquei pra China no dia 16 de maio e, em contraste com a viagem para os E.U.A., o vôo foi marcado pela neura com a gripe suína. A propósito, uma amiga me disse que o nome oficial é H1N1, graças às reclamações da indústria de carne suína que teve uma queda radical nas vendas depois que a epidemia começou.

Mas voltemos à neura.

Já na sala de embarque, a atendenfe pede para que todas as pessoas com sintomas de gripe e febre se identifiquem. E ela explica a razão: o governo chinês proibiu o embarque de pessoas potencialmente contaminadas. E esclarece que se alguém tentar passar desapercebido, não vai ser autorizado a desembarcar do avião na China.

Dentro do avião, vem uma nova triagem: ao invés do formulário da alfândega, recebi um formulário com diversas perguntas sobre meu estado de saúde atual e nas últimas duas semanas. O formulário pedia informações detalhadas sobre minha vida como, por exemplo, se eu tinha tido contato com alguém contaminado. E eu pensando: quem em sã consciência vai marcar sim nesse item? Daí eu descubro que tenho que assinar a parte inferior do formulário, declarando que todas as informações prestadas são verdadeiras. E um aviso: haverá sanções para quem fornecer informações falsas, incluindo prisão.

Nesse momento, comecei a refazer mentalmente o trajeto do cara contaminado. Ele decide não ouvir as instruções da atendente e embarca no avião, pensando que vai conseguir passar desapercebido. Daí, ao receber o formulário, ele percebe que acaba se de meter em uma grande confusão, pois agora as escolhas dele são: (i) dizer a verdade e ir direto pra quarentena; ou (ii) mentir e enfrentar o risco de ser descoberto, ir pra quarentena, e depois para a prisão. Difícil sua situação meu amigo...

Quando o avião pousou, o comissário anuncia que devemos permanecer todos sentados, pois as autoridades chinesas vão medir a temperatura de todos os passageiros. Nesse momento, eu tive certeza que o sujeito contaminado tinha definitivamente um problemão, e torci pra que ele tivesse ao menos preenchido o formulário com a verdade, pra pular a prisão...

Minha solidariedade se esvaiu, todavia, assim que eu parei pra pensar como que eles iam medir a temperatura das quatrocentas pessoas no vôo. Iam trazer termômetros, pedir para colocarmos debaixo do braço, esperar cinco minutos? A gente ia passar outras dezesseis horas dentro do avião... Estava eu preocupada com o assunto quanto entra um exército de oficiais chineses com máscaras
, luvas e um aparelho muito estranho, que eles apontavam pra testa das pessoas, puxavam um botão, olhavam no visor e passavam para a próxima pessoa. Calculei que eles estavam gastando 10 segundos por pessoa, o que diminuia o tempo necessário para 4000 segundos (ao invés de 16 horas...). Considerando que havia 20 oficiais no avião, e cada oficial precisava de 200 segundos, conclui que em quatro minutos tudo deveria estar finalizado...

Obviamente, minha conta estava errada, e a coisa toda demorou uns 15 minutos -- o que eu ainda considerei uma boa marca se comparada à minha previsão inicial.

Como o sujeito contaminado já estava sendo enviado pra quarentena, passei a me preocupar com o potencial sujeito que estava com febre por outras razões e ia acabar sendo levado também pra quarentena, além de passar por uma investigação para averiguar se ele não tinha mentido ao preencher o formulário. Estava eu pensando no azarado, enquanto caminhava pelo magnífico aeroporto de Beijing (que é de fato impressionante), quando fui surpreendida por mais um official, me pedindo o formulário da gripe.

Fui pega totalmente de supresa: achei que depois de tantas medidas de segurança, não sobrava mais nada pra checar. Mas os chineses são, de longe, mais espertos que eu. Eles tentaram evitar que o cara contaminado e com febre embarcasse. Caso ele tivesse embarcado, tinha evitado que ele desembarcasse. E tinham levado junto pra quarentena o sujeito que estava com febre, ainda que o mesmo não estivesse com gripe. Agora, no último posto de checagem, o official ia pegar o sujeito contaminado que não estava com febre, mas tinha ficado com medo de mentir no formulário. Enfim, a conclusão é que eu só vou adquirir gripe suína na China se algum sujeito contaminado, ainda sem febre, mentiu no formulário.

Em suma, risco de morte bem menor do que em Nova Iorque. Isso significa que eu não vou ter uma desculpa pra ir a nenhuma festa cool nessa viagem….