domingo, 3 de junho de 2012

A arma do crime

Quando entrei no banheiro do hotel e vi as toalhas brancas e a pia toda manchada, fiquei atônita. Parecia que uma guerra havia acontecido ali e, durante a confusão, ninguém conseguiu conter muito o dano. Meu pai, quase em pânico, me dizia que tinha decidido usar o banheiro para não sujar o quarto do hotel, mas ao tentar cortá-la, aquele líquido de cor fuzilante espirrou para todo o lado, deixando o banheiro na situação em que se encontrava.

- Precisamos limpar tudo, antes que o pessoal da limpeza veja isso! Falei, tentando não me deixar afetar pela cena de horror que presenciava.

E começamos a limpeza.

Mas diferentemente de outros líquidos, facilmente removíveis com água e sabão, aquele deixou sua marca em todos os cantos do banheiro. Por mais que lavassemos as toalhas, elas continuavam manchadas. Mas o pior era a pia. Ainda que os tons mais fortes saíssem com relativa facilidade, os resíduos permaneciam lá, como se tivessem penetrado nos poros da pedra e se recusassem a sair. Ou seja, as evidências – ou reminiscências -- do que tinha acontecido permaneciam no lugar, por mais que tentássemos removê-las.

Enquanto limpava, pensava como tínhamos chegado nesse ponto. Lembrei então que tudo começou com minha faxineira trazendo a arma do crime na sua bagagem, quando voltava da Jamaica. Pensei que ela teria algum esquema bem bolado para esconder a dita cuja, mas ela simplesmente colocou-a na mala, sem maior cerimônia. E assim a arma chegou as nossas mãos, em território canadense, sem ser confiscada pelas autoridades que supostamente devem fiscalizar os aeroportos e outros pontos de imigração. Chegou mais por sorte do que por mérito da nossa courier, mas ainda assim chegou. Uma mistura de medo e animação tomou conta de mim. Pensei como a facilidade de contrabandear coisas ilegais abre um mundo de possibilidades para mim, e fico animada. Penso, todavia, que as mesmas possibilidades estão abertas para outras pessoas, de reputação menos ilibada e que podem ser ainda mais perigosas para a saúde pública e a paz social do que eu. Daí o medo. Ao olhar para aquele banheiro naquele estado, todavia, pensei se de fato eu estava no grupo de pessoas com reputação minimamente ilibada...

Não olhei no relógio para ver quanto tempo havia durado a limpeza. Não queria também pensar no que aconteceria se alguém descobrisse o que havia acontecido ali. Fiquei, durante aquele tempo todo, focada no objetivo principal: eliminar todo e qualquer resquício do evento. Ao final do processo, meus músculos doíam. Mas o banheiro parecia estar de novo limpo. Ao menos não levantaria suspeitas do ocorrido naquele quarto hotel, do qual sairíamos na manhã seguinte. Meu momento de alívio, todavia, foi interrompido por um pequeno pânico. Ao olhar para a lata de lixo vejo ali, totalmente à mostra, a arma do crime. Decidi fechar o saco de lixo e levá-la para o carro. O odor ainda era forte e certamente ficaria pior se passasse a noite ali. Decidimos descartá-la na estrada, em algum lugar distante, no dia seguinte.

Até o momento, posso afirmar que cometemos o crime perfeito. Permanecemos incólumes. Ainda assim, vou pensar duas vezes antes de deixar meu pai comer manga jamaicana no banheiro do hotel da próxima vez que ele vier ao Canadá.

Nota: Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com locais, pessoas ou acontecimentos reais não passa de mera coincidência.

sábado, 7 de abril de 2012

O segredo do sucesso acadêmico

Peço licença aos meus leitores para trazê-los por um momento para esse mundo estranho e frequentemente incompreensível da academia. Esse é o mundinho que eu habito e, por causa disso, queria deixar aqui uma janela para vocês poderem espiar esse universo estranho, habitado por gênios, loucos e gênios loucos. 

Na maior parte do tempo, o mundo acadêmico e o mundo real não se encontram. Passo boa parte do ano trancada no meu escritório escrevendo minhas idéias. Na outra parte do ano, viajo pelo mundo apresentando as idéias em conferências, que são frequentadas por pessoas que também ficam trancadas nos seus escritórios e pouco sabem da realidade lá fora. E daí o paper é publicado em journals (revistas acadêmicas), que basicamente tem um critério de seleção definido por acadêmicos e regras rígidas que também são únicas da academia. 


Para dar uma idéia da falta de contato com a realidade que temos, note-se que eu marquei office hours (horário em que alunos podem vir ao meu escritório solucionar dúvidas e fazer perguntas) na sexta-feira santa. Esqueci que era feriado. Apenas descobri que tinha algo errado quando cheguei na faculdade e encontrei o prédio trancado e as luzes apagadas. E não foi a primeira -- nem será a última -- vez que faço isso. Os alunos acham estranho, mas decidem não reclamar (o que é sempre uma boa política com alguém que vai te avaliar no fim do semestre...).

Mas a falta de conexão com o mundo não afeta apenas meus pobres alunos que tem que vir pra faculdade em pleno feriado. Às vezes ela acaba afetando as idéias que formulamos também. Não me esqueço do dia em que um professor de Yale deu uma palestra para os estudantes de pós-graduação e nos revelou o grande segredo do sucesso acadêmico. Ele disse: escreva um paper com uma idéia que seja 1) engenhosa, 2) controversa e 3) completamente errada. Esses são os três pontos que garantem que as pessoas vão prestar atenção no seu paper. 

A engenhosidade prova que você consegue pensar coisas que a maioria das pessoas teria dificuldade em imaginar. A controvérsia garante que muitas pessoas vão prestar atenção no que você está dizendo, caso contrário sua idéia pode ser engenhosa mas vai basicamente atrair a atenção de meia dúzia de gatos pingados que se importam com aquele tópico. Por fim, sua idéia precisa estar errada para as pessoas se animarem a escrever contra você. E esse último elemento é --- sem dúvida -- o mais importante. Pois na academia a importância do seu trabalho é avaliada por quantas vezes você é citado. E se muita gente estiver escrevendo contra seu paper, ele vai ser citado muitas vezes. 


Não é difícil ver que esses incentivos geram papers questionáveis. Um bom exemplo é um paper que meu primo M. citou em um comentário no mês passado. O paper argumenta que recém-nacidos não são pessoas e, portanto, podem ser tratados como fetos que não nasceram ainda. Assim, concluem os ilustres autores, se por alguma razão você não fez o aborto (apesar de estar legalmente autorizada a fazê-lo) você pode matar seu recém nascido. O que leva acadêmicos a publicar esse tipo de coisa é a busca pelo sucesso rápido e fácil. São os Michel Telós da academia. Eles provavelmente não acreditam em uma palavra do que estão falando, mas querem subir na vida. Daí optam por um paper controverso e absolutamente errado. Minha previsão, todavia, é que esse paper não vai fazer sucesso porque falta engenhosidade. Eles conseguiram atenção da mídia, mas minha hipótese é que vão ser ignorados pela comunidade acadêmica. Afinal, se você se der ao trabalho de responder a uma idéia estúpida, a conclusão é que você também não é lá muito inteligente.

Se alguém quiser um exemplo de um paper que poderia ser citado como um modelo desse tipo de método para o sucesso acadêmico imediato, veja esse texto que propõe um mercado para compra e venda de bebês. O texto argumenta que o sistema de adoção gera uma alocação ineficiente de recurso e, de alguma forma, pais ricos saem com vantagens que não são devidamente reguladas. Portanto, o texto propõe oficializar a existência de um mercado e propõe um modelo regulatório. O texto se tornou um verdadeiro clássico, por conter os três elementos que mencionei antes. 


Daí meu leitor se pergunta: e você, não vai fazer o mesmo? Pois é, depois de um mês terminando três paper (razão pela qual o blog ficou às moscas), descobri que meu primeiro paper não é engenhoso, o segundo não é controverso, e o terceiro não tem qualquer um dos três elementos. Ou seja, ainda sou aquele músico estupidamente talentoso (e pouco modesto!), que informalmente conhece todos os músicos famosos, mas ainda não chegou ao estrelato. E a não ser que eu queira ser um Michel Teló da academia, ainda vai demorar uns anos pra eu chegar lá...

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A louça e o choque de ordem

Antes de sair de férias e viajar para a Jamaica, minha faxineira me chamou na cozinha, apontou pra pia e falou: - lave a louça assim que usar. Se você fizer isso, sua pia sempre vai estar assim! Ela terminou a frase apontando com orgulho para sua obra-prima: a pia brilhante na minha cozinha. Eu já tinha deixado registrado aqui toda a sabedoria da minha faxineira em questões de segurança pessoal em um post em 2009. Mas mal sabia eu que ali estava ela, mas uma vez, compartilhando comigo seu vasto conhecimento de novo.

Primeira semana: lavei toda a louça, assim que usei. Chegava em casa, cozinhava o jantar e lavava a louça em seguida. Segunda semana: os prazos começaram a apertar. Eu era obrigada a deixar a louça para lá e voltar para o trabalho. Na manhã seguinte, todavia, eu tomava meu café da manhã e lavava tudo antes de sair. Na terceira semana, a memória da minha faxineira me dando instruções já estava meio vaga na minha memória. Eu estava definitivamente me sentindo menos pressionada pela figura daquela senhora baixinha e bem humorada que basicamente governa minha vida e dá todas as ordens na casa. Daí chegou o belo dia em que não deu pra lavar a louça depois do jantar e também não deu pra lavar de manhã. E a vaca foi para o brejo. A louça começou a acumular na pia. Eu levantava de manhã e tinha que procurar espaço pra fazer café. Um belo dia, não tinha mais talheres limpos. Eu tentava me convencer que o problema era a falta de tempo. Três papers para terminar até o fim do mês, sem tempo para  dormir, escrever no blog, lavar a louça ou manter a casa minimamente organizada. Essa era minha desculpa. 

Mas logo descobri que isso não passava de balela. E -- pasmem -- descobri isso um dia, tarde da noite, trabalhando no meu paper sobre abuso policial e segurança pública. Conhecida na literatura acadêmica sobre criminalidade como “teoria da janela quebrada” (broken window theory), a idéia básica é que uma pequena janela quebrada em uma casa é interpretada como sinal de que a casa está abandonada e faz com que as pessoas passem a se sentir a vontade para vandalizar a casa. Ou seja, uma pequena janela quebrada gera invasões, pichações e vandalismos de toda ordem. Nesse sentido, quanto mais pequenos desvios de comportamento são permitidos, mais aumenta o risco de que outros crimes ocorram naquele local. Por isso o Paes está proibindo absolutamente tudo na zona sul do Rio. A política faz parte da campanha Choque de Ordem que impôs restrições dacronianas ao comportamento do carioca na zona sul do Rio. Não se pode mais fazer xixi na rua, levar cachorros pra praia, jogar futebol na areia fora do horário determinado, ou fazer comércio ilegal.

Pois é. Ao mandar eu lavar a louça depois de usar, minha faxineira estava usando do mesmo mecanismo: choque de ordem. E funciona da mesma forma que o crime: se não tem nada lá, você não deixa louça suja na pia. Daí se você faz uma refeição e não lava aquela louça, é como a janela quebrada. Já não lavei aquela louça, então não preciso lavar essa também. E daí a coisa vai escalonando até o momento em que você não encontra uma colher limpa pra comer seu iogurte de manhã. A pior (pra mim) ou a melhor (pra minha faxineira) parte da história é que há um forte precedente a favor do choque de ordem.  O prefeito Rudy Giulliani ficou famoso por ter reduzido drasticamente os índices de criminalidade em Nova Iorque no início da década de 90 graças à sua política de tolerância zero . A cidade, segundo aqueles que tiveram a oportunidade de visitá-la antes e depois, mudou da água para o vinho. 

A questão é: se tudo que se fala sobre a política de segurança de Nova Iorque é verdade, como explicar esse vídeo, no qual um cineasta roubou a própria bicicleta três vezes antes de ser interpelado pela polícia? Note-se que a polícia interpelou ele somente quando ele estava em uma praça pública bem movimentada, usando uma serra elétrica (!) para quebrar a corrente.




 
Minha interpretação? O choque de ordem não dura pra sempre e não tem como durar. As coisas degringolam em algum momento. A não ser que haja policiais na rua o tempo todo vigiando tudo e todos, a política não é viável. Ou seja, a não ser que eu soubesse que minha faxineira estava lá pronta para me dar uma bronca no dia seguinte, os incentivos para lavar a louça são mínimos. Pra ter tolerância zero, alguém tem que estar lá manifestando intolerância. Pra ter choque de ordem, alguém tem que estar lá pra dar o choque quando a desordem começar a aparecer. E esse é o vídeo que eu vou mostrar pra minha faxineira quando ela voltar de férias e perguntar como minha pia ficou nesse estado...

quinta-feira, 8 de março de 2012

O neurótico é um péssimo economista

Para alegria do povo e felicidade geral dos colaboradores e leitores desse blog, o Antônio se redimiu. Estamos agora eu, ele e minha irmã em busca da cura para a culpa cristã (vide meu post anterior). Espero que vcs se deliciem com o texto tanto quanto eu!

ANTONIO PRATA

Inveja dos finlandeses

Entro no bar, a vejo, vejo que ela me vê -e, durante o longo segundo que dura o resvalar de nossas pupilas, vivo aquele microdilema da vida social: vou até lá e dou oi ou abaixo a vista e finjo que não a reconheci?

Não lembro seu nome. Marcela? Margarida? Maristela, talvez. Faz uns dez anos, namorou um conhecido meu. Naquela época, dividimos a mesa duas ou três vezes, trocamos algumas frases -nunca os telefones-, mas ela sabe quem eu sou, eu sei quem ela é, e isso é razão suficiente para que eu tenha que dar oi. Ou não?

Ah, ser brasileiro dá um trabalho! Aposto que um finlandês de seis anos já sabe exatamente quem precisa cumprimentar, diante de quem pode passar reto, qual o grau de proximidade que permite apenas um tchauzinho, de longe.

Aqui, contudo, estamos sempre tropeçando nos cadarços desamarrados de nossa cordialidade. Um tchauzinho de longe é quase um insulto. Um oi deve necessariamente ser seguido por uma conversinha sobre o tempo, lamentos sobre o longo intervalo desde o último encontro, uma breve entrevista acerca dos parentes, cônjuges, amantes, amigos, inimigos, o cachorro e o papagaio, promessas de nos vermos mais, um convite para o almoço semana que vem, quem sabe restabelecer aquele futebol das terças, fundar uma revista literária ou voltar pra Caraiva; ah, 1997, aquilo sim é que foi Réveillon!

A brasilidade não admite meios tons: ou se é ou não se é, e com todo o peso de nossa desfraldada sociabilidade sobre minhas cansadas retinas, decido não ser; as volto para o chão, dou uma coçada na barriga, simulo grande interesse no piso, passo reto e sento no fundo do bar.

A culpa, contudo, é como uma espinha na bunda: espeta assim que botamos as nádegas na cadeira, e como o neurótico é um péssimo economista, que prefere pagar dez de juros aos cinco da dívida, tenho a ideia de jerico de ir até a garota -não apenas para dar oi, mas pedir desculpas e explicar que passei reto pois não a reconheci.

Mal termino de cumprimentá-la, vejo em seus olhos o brilho opaco do horror. Claro, ela tampouco pretendia me dar oi -e se um olá de passagem já seria trabalhoso, o que dizer dessa missão diplomática de Brancaleone?

O que se segue é uma cena de cartoon, os dois fugindo do silêncio como personagens subindo uma escada a desmilinguir-se: falamos sobre o tempo -"O dia mais quente em março, desde 1943!"-, sobre "o pessoal" -"A Ju? Agora, assim, não tô lembrando..."-, ela me diz que vai para o interior, na Páscoa- "Nossa, Páscoa, já? O ano voa!"- e que sua filha, Gabriela, vai ficar com a mãe. Empenhados em alimentar o papo, apressado e chocho como uma fogueira de jornais, não deixamos pausa para uma retirada. Estamos num labirinto, afundando na areia movediça da afabilidade e é ao me ouvir elogiando a qualidade das estradas paulistas que me dou conta: é tarde demais, jamais conseguirei romper aquele laço, estou condenado a continuar a conversa para sempre, adotar a tal Gabriela, aceitar a nova sogra, ir pro interior na Páscoa, conhecer a Ju -e torcer para que, até lá, eu lembre o nome daquela mulher. Marcela? Margarida? Maristela, talvez.

Às vezes, tenho inveja dos finlandeses.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Quando a maré não está pra peixe...

Há uns dois anos, recebemos a visita de um ilustre professor australiano que veio dar um curso aqui em Toronto. Eu fui encarregada de ciceronear o sujeito e estava a caminho do escritório dele, para ver se ele precisava de alguma coisa, quando encontrei ele saindo da faculdade. Era quarta-feira, 3 da tarde. 

- Está tudo bem? Perguntei.
- Sim. Tá tudo ótimo. Só estou muito improdutivo agora. Então vou dar uma volta. Acho que vou no cinema. 
- No cinema????

Acho que o tom da minha pergunta revelou meu espanto. Nunca tinha visto nenhum dos meus colegas sair da faculdade no meio da tarde para ir ao cinema. Tá certo que nosso emprego não tem chefe, nem ponto, nem horário. Desde que você faça suas pesquisas, publique seus artigos e dê as aulas, ninguém quer saber se você está no seu escritório, no cinema ou onde quer que seja. Mas o fato é que a maioria dos meus colegas está no escritório das 9 as 5pm de segunda a sexta, assim como eu. E vários de nós ficamos até tarde, quando temos que terminar algo. 

Sair no meio da tarde para ir ao cinema, portanto, parecia um ato de rebeldia. E a justificativa tornava a coisa ainda mais enigmática pra mim. Apesar de ter abandonado a religião católica, a culpa ainda está arraigada dentro de mim como uma praga. Todas as tentativas de arrancá-la foram em vão. Portanto, a idéia de me divertir na quarta a tarde, ao invés de me trancar no meu escritório como penitência pela minha improdutividade, contraria muitos valores enterrados lá no fundo do meu ser. Acho que minha cara revelou minha desaprovação e meu espanto.  

Dada minha reação, o visitante se sentiu compelido a se explicar:

- Se eu ficar aqui, vou demorar três ou quatro horas pra fazer algo que eu demoraria uma hora pra fazer. Então vou relaxar e amanhã eu faço isso em 1/3 do tempo que precisaria hoje. 

Há momentos na vida em que é melhor não discutir. Como diz meu outro primo, "tá feliz? deixa". Deixei o cara ir ser feliz no cinema e fui lidar com minha culpa cristã no meu escritório. Mas a coisa não saia da minha cabeça. A idéia de que alguém pudesse viver assim, tão livre de amarras virou um enigma a ser desvendado. 

Uma semana depois, durante um almoço, achei que tinha achado a solução para o enigma: o cara era surfista. Surfava regularmente, viajava para vários lugares do mundo pra surfar, etc. "É isso!", pensei. O cara não é o tradicional professor de direito. Ele, na verdade, é um surfista que ganha a vida como professor de direito. Por isso que ele tem esse desprendimento e consegue sair do escrtório no meio da tarde, com a desculpa de que ele não está sendo tão produtivo quanto poderia. "Típico pensamento de surfista! Aposto que fuma umas também...", pensei. Depois desse almoço, considerei o mistério resolvido e não pensei mais no assunto.

Isso aconteceu há uns dois anos. Na semana passada, todavia, descobri que eu estava totalmente errada. Estou lendo um livro chamado "Thinking Fast, Thinking Slow" de um pesquisador que ganhou o prêmio Nobel de economia, por descobrir como nosso cérebro funciona. No livro, ele discute o exemplo dos taxistas na cidade de Nova Iorque. Diz ele que os taxistas tem uma meta de renda diária. Portanto, quando está chovendo muito eles conseguem pegar passageiros com facilidade e vão pra casa mais cedo. Em contrapartida, quando o tempo está bom, eles precisam trabalhar longas horas para conseguir atingir a meta diária de renda. O livro mostra como nosso cérebro nos convence a fazer isso, e mostra como essa é uma alocação totalmente ineficiente de recursos. 

O cálculo seria mais ou menos o seguinte: um taxista quer ganhar $100 por dia. Em geral, ele consegue $100 trabalhando 8 horas. Nos dias de chuva, todavia, ele consegue $100 trabalhando 4 horas. Nos dias de sol, em contraste, ele consegue $100 trabalhando 12 horas. Segundo a pesquisa, os taxistas fazem o seguinte:


Dia 1 (sol): $100 por 12 horas de trabalho
Dia 2 (chuva): $100 por 4 horas de trabalho
Total em dois dias: $200 por 16 horas de trabalho


Em contraste, se o visitante surfista estivesse dirigindo o táxi, ele iria fazer o seguinte:


Dia 1 (sol): $0 por zero horas de trabalho
Dia 2 (chuva): $200 por 8 horas de trabalho
Total em dois dias: $200 por 8 horas de trabalho (e um cineminha no dia improdutivo...)


Ou seja, a decisão do surfista era totalmente racional e economicamente eficiente. Não tinha nada a ver com irresponsabilidade, desprendimento, ou qualquer outro poder metafísico que é apenas dado as pessoas que aprendem a surfar. É um simples cálculo para alocação racional e eficiente de recursos. 


Decidi, portanto, adotar a filosofia surfista na minha vida. Agora estou esperando chegar na parte do livro em que o prêmio Nobel explica como a gente se livra da culpa cristã, que é a única coisa que no momento me mantém presa ao escritório as 3 da tarde de uma quarta-feira...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Ah, se eu te pego, Antônio!

Depois da minha declaração de amor ao Antônio Prata, quero matar o sujeito. Estou aqui, na maior correria, sem tempo para respirar, fazendo um esforço pra preservar meu precioso sono e obviamente sem tempo para escrever no blog (como vocês devem ter notado). Apesar disso, reservo um momento semanalmente para ler o Antônio. Sempre alegra meu dia. Quando ele está inspirado, alegra minha semana toda. Mas essa semana, o Antônio me deixou na mão. Escreveu uma droga de uma crônica que transcrevo abaixo.  

Crônica decepcionante para uma fã estressada que estava aguardando ansiosamente a leitura? Imperdoável. Um amigo, poeta, ainda tentou defender o sujeito. Disse que ninguém acerta toda vez. Em especial quando se escreve semanalmente. Trouxe como exemplo as crônicas do João Ubaldo no Estadão. Ainda assim, não perdoei o Patrinha (apelido carinhosamente dado a ele pelo meu primo). Erra a mão qualquer outro dia, meu amigo. Mas essa semana, não!

Dada a gravidade do assunto, resolvi declarar guerra. Segue aqui minha respota à coluna da semana anterior, na qual o tal do Patrinha, muito jocosamente, tira um sarro do pessoal que se recusa a ouvir recados no celular e pede para as pessoas não gravarem mensagens. Diz ele que a moda pegou, graças a crença de todos de que estão tão ocupados, com tarefas tão importantes, que sequer sobra tempo para pegar um mero recado. Não se trata disso, meu amigo. Ninguém está em busca de eficiência e bom uso do tempo. O pessoal está em busca de paz. 


Há tempos que eu eliminei o telefone da minha vida. Primero, só tenho celular. Não tenho telefone em casa. E não dou meu número para ninguém, exceto para as pessoas que sabem que não devem ligar a não ser em caso de emergência. Semana passada, um amigo com quem encontro quase toda semana brincou comigo, falando que até hoje não tem meu telefone. Eu disse que não gostava que as pessoas me ligassem. Ele disse que notou isso no dia que a gente se conheceu, pois ele me passou o telefone dele e eu dei meu email, acrescentando: - esse é o jeito mais fácil de entrar em contato comigo. 


Anti-social? Não. Sou anti-caroneiros (free-riders em inglês). As pessoas tendem a achar que seu ouvido e seu tempo livre estão à completa disposição delas. E daí tomam carona no seu tempo, sem seu consentimento. E o telefone, infelizmente, é uma tecnologia que tornou essa -- falsa -- crença em uma realidade dolorida. As pessoas ligam e perguntam o que você está fazendo. Se a resposta é: "- nada, estava lendo uma revista no sofá", elas se sentem na liberdade de engatar em uma conversa contigo. O pressuposto é sempre que a não ser que você esteja ocupada, você quer falar com a pessoa -- nunca o contrário. Mas a verdade, ao menos para mim, é sempre o contrário: eu não quero falar com as pessoas, em especial quando aproveitando meu tempo livre!

O problema todo é que a gente criou regras sociais em que não é aceitável você virar pra pessoa e falar: - "Eu prefiro continuar a ler a minha revista, cujas reportagens são infinitamente mais interessantes do que seus problemas pessoais. Com licença." Resultado? Angústia. Milhares de pessoas, permaneciam lá, presas naquela ligação, sem poder usufruir de suas revistas, do sofá, ou do silêncio, por causas desses pentelhos que usam e abusam da maravilha tecnológica que é a telefonia. Por causa disso, alguém inventou a secretária eletrônica. Bem me lembro do dia no qual eu pude, sentada no sofá, lendo minha revista, ficar apenas esperando o recado, ver quem estava ligando, e decidir se eu queria falar com a pessoa ou não. Um maravilhoso mundo novo -- um mundo cheio de paz e liberdade -- se abriu com as secretárias eletrônicas. 


A liberdade recém adquirida com essa maquininhas parecia não ter mais fim, até chegarem os celulares. E aqui é que está o cerne do problema. Quando as mensagem ficam na sua casa, você liga de volta quando der (leia-se, quando você quiser). As desculpas são as mais variadas: estava viajando, passei o dia fora, cheguei em casa e não vi a luzinha piscando, etc. O problema é que com o celular não dá pra escapar. A pessoa espera que você ligue de volta. E ligue logo. E ela sabe que você vai ver que tem um recado e vai ouvi-lo. E daí você está perdido, de novo. Voltamos, portando, à prisão que existia no momento pré-secretária eletrônica. Exceto que agora esse pentelhos te acham mesmo quando você não está em casa. Não há local onde você esteja salvo. O momento de ler a revista no sofá talvez possa até ser preservado, por uma hora ou duas, mas nada mais que isso. 

Portanto, acho muito natural que as pessoas estejam tentando fugir disso com o pedido de não deixarem recados. Sim. Mensagens de texto não exigem resposta tão pronta, e facilitam escapatórias, pois tornam as desculpas esfarrapadas menos gaguejantes. Mais importante: as mensagens de texto (e os emails, no meu caso) preservam intacta todas essa nossa hipocrisia. Afinal, ninguém quer sair por aí falando diretamente na cara dos outros "não quero falar contigo, cai fora!". Então, continuamos a procurar maneiras diplomáticas de fazê-lo. A mensagem de texto hoje é a secretária eletrônica de ontem. 

Portanto, se liga, Pratinha: o pessoal só não quer que você fique enchendo o saco. Em vez de ficar ligando para as pessoas e perdendo tempo no telefone, você devia mesmo é trabalhar mais tempo nas crônicas pra não escrever de novo um desastre, como o dessa semana. Fica a dica. 

***






Antonio Prata
Plano

Juntar dinheiro; montar um bunker; roubar exemplares de Hamlet e, neles, inserir a frase 'Ai, se eu te pego...'
Descobrir qual é a atividade profissional mais bem remunerada. Fazer cursinho. Prestar vestibular para a área. Ser o primeiro da classe. Arrumar um emprego. Ralar, sem pensar em outra coisa, até juntar 20 milhões de dólares. Pedir demissão.

Comprar um sítio em Jundiaí. Construir um galpão subterrâneo. Adquirir as mais modernas impressoras industriais. Contratar excelentes artistas e produtores gráficos. Instalá-los no bunker.
Descobrir quais são os dez países em que mais se estuda e se monta peças de Shakespeare. Contratar quadrilhas especializadas em roubo nos dez países. Surrupiar das bibliotecas públicas e privadas, lenta e discretamente, o maior número possível de edições de Hamlet. Mandá-las para Jundiaí.

Produzir versões fac-símile destes livros, idênticas em tudo às originais, do couro da capa ao amarelo das páginas, a não ser por um detalhe: a inclusão de uma frase no final do segundo ato, uma ameaça do príncipe da Dinamarca a Cláudio, assassino de seu pai: "Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego!". Devolver as edições adulteradas às bibliotecas. Queimar as originais.

Comprar anônima e paulatinamente, nos sebos destes mesmos países, todas as edições de Hamlet que se puder encontrar. Mandá-las para Jundiaí.

Produzir versões fac-símile destes livros, idênticas em tudo às originais, dos furos das traças às manchas de café, a não ser por um detalhe: a inclusão de uma frase no final do segundo ato, uma ameaça do príncipe da Dinamarca a Cláudio, assassino de seu pai: "Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego!". Doar as obras adulteradas aos mesmos sebos em que foram compradas. Queimar as edições originais.

Comprar o silêncio das quadrilhas e dos artistas gráficos. Se preciso for, pagar mais às quadrilhas para matar os artistas gráficos e, depois, exterminar as quadrilhas.

Contratar hackers para adulterar as versões on-line de Hamlet e incluírem a frase "Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego!", no final do segundo ato. Comprar o silêncio dos hackers. Se preciso for, matar os hackers.

Sequestrar o crítico literário Harold Bloom. Mandá-lo para Jundiaí. Obrigá-lo a inventar uma explicação qualquer para a omissão do trecho "Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego", em diversas edições da peça. O erro de uma gráfica londrina, em 1756? A mão pesada de um editor marselhês, em 1809? Obrigá-lo a escrever um ensaio sobre Hamlet e citar, numa nota de rodapé, a omissão do trecho. Mandar o ensaio para a Oxford Literary Review. Dinamitar o bunker -com Harold Bloom dentro.
Esperar duas décadas.

Viajar para a Inglaterra. Reservar um camarote para assistir Hamlet, no Royal Shakespeare Theatre, em Stratford-upon-Avon. Mandar fazer um smoking sob medida. Contratar uma acompanhante eslava, loira, de olhos azuis e 1,82 m. Ir ao teatro com Nadia ou Milka ou Zora. Pedir uma garrafa de champanhe Cristal. Dar o último gole três segundos antes do final do segundo ato e ouvir o melhor ator da Royal Shakespeare Company recitar, para 1.500 homens de paletó e mulheres cobertas de brilhantes: "Oh, if I catch you, oh, oh, if I catch you!".

 Voltar para Jundiaí e passar o resto dos meus dias criando curiós.