sexta-feira, 4 de abril de 2014

Música do Dia

Achei um dos meus pianistas favoritos tocando Chico Buarque.


Conclusão: não é preciso ganhar na mega sena para ganhar o dia.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Esteriótipos (I): Os Ingleses

O blog está meio às moscas porque ando viajando muito. Sinto como se tivesse ganhado a sorte grande: cada semana um país diferente. Maior parte das viagens à trabalho. Portanto, os gastos são mínimos e a diversão é muita. 

Meu itinenário em fevereiro:
1) primeiro fim de semana: Noruega;
2) segundo fim de semana: Itália;
3) terceito fim de semana: Nova Iorque;
4) quarto de semana: Portugal (passei a semana toda lá. Portanto, foram dois fins de semana);

Daí entra março e as viagens não param: assim que voltei de Portugal, fui para Berlim. 

Se alguém me dissesse, nos anos em que eu estava cursando meu doutorado, que seguir carreira acadêmica era forma mais efetiva de viajar de graça e comer muito bem, eu não acreditaria. Pois, cá estou...

Além de comer muito bem nessas viagens, estou aprendendo muito. Em especial sobre esteriótipos. Uma parte dos esteriótipos é verdadeira, mas não pelas razões que pensávamos. 

Tome, por exemplo, os ingleses. Eles, de fato, falam muito sobre o tempo. Mas não fazem isso porque são uns chatos e não tem nada mais interessante para conversar. Ao contrário do que reza a lenda, descobri que, na Inglaterra, o tempo é tão imprevisível que é impossível não pensar no assunto. E, assim como os ingleses, os estrangeiros não estão imunes. Meu tio, que esteve aqui no ano passado, tinha dois comentários sobre a viagem: (1) amei Londres; (2) chove várias vezes, mas você entra em um café, espera um pouco e a chuva passa.

De fato, chove uma média de três vezes por dia, às vezes com intervalos super ensolarados. Para vocês terem um idéia da instabilidade: tem dias em que eu acordo e está chovendo; entro no banho e, dez minutos depois, quando saí do banho,  já parou de chover; enquanto eu preparo meu café e saio de casa, abre o sol; caminho feliz da vida até o escritório; assim que entro no meu escritório começa a chover de novo. Se entre 7 e 9 da manhã já aconteceu tudo isso, imagina o resto do dia. 

E se considerarmos os agitados pubs, que se enchem de grupos falantes e animados quase todas as noites, e o Monty Python aí sim é que temos a certeza de que os ingleses não são nada chatos. Muito pelo contrário!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Degustação Acadêmica



Visitei Oxford na semana passada. A cidade respira academia por todos os poros. Todos são estudantes, professores, pesquisadores. A cada esquina, um prédio histórico revela um departamento, uma biblioteca, ou uma sala de leitura. E, escondidos pela cidade, há passeios charmosos, em meio a jardins e campos, para caminhadas meditativas. Há uma aura de seriedade em todo ser que lá habita.

Eu estava, todavia, esperando ter um pouco de diversão. Meu cicerone havia me convidado para participar de um evento de degustação de vinhos. Segundo ele, um grupo de estudantes havia organizado uma sociedade degustadora de vinhos. Eles se reuniam todo sábado para duas rodadas de degustação. Enquanto os turistas veriam apenas a aura austera da cidade, eu estava esperando ter acesso à alma dela: os salões secretos, escondidos nos subterrâneos dos prédios, onde a máscara caia e rolavam verdadeiros carnavais. E eu, por mero acaso, teria acesso a uma dessas festas clandestinas e aguardava ansiosamente pela experiência. 

E qual não foi minha surpresa ao encontrar um grupo de mais ou menos 20 estudantes, sentados comportadamente nas mesas, com suas folhas de anotações, aguardando o vinho ser servido. E assim foi. Durante duas horas, esses jovens de 19, 20, 21 anos, permaneceram calados, provando do vinho e fazendo anotações metódicas. Nada de festa. Nada de piadas. Nada de brincadeira. Ao contrário, o diálogo era sério e crítico, quando a instrutora do grupo questionava a avaliação que eles teriam feito do vinho tal ou do vinho qual. A maioria deles cuspia o vinho no baldinho. Ou seja, não era sequer uma embriaguez coletiva silenciosa o que estava ocorrendo ali.

Não me surpreende que tenha sido nessa cidade que algumas das mais criativas obras de literatura tenham surgido. C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien  são os melhores exemplos da literatura de fantasia que saiu desse lugar tão bem comportado. Lá, veste-se de forma elegante, porta-se de maneira impecável, conversa-se sobre temas de alta relevância intelectual, e bebe-se como se fosse um exercício de treinamento militar. Alguma hora, o que há de humano, orgânico e espontâneo dentro desses seres, por menor que seja, precisa se manifestar. 

Até eu, depois daquelas duas horas de degustação verdadeiramente acadêmica, estava pronta para trombar com Harry Potter e um dragão na próxima esquina.  Mas nem depois de 12 taças de vinho muito bem saboreadas eu consegui encontrar eles...

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Numa tarde quente, fui me embora de Brasília...

Achei essa música por acaso, e as memórias foram muitas. 

Oswaldo Montenegro era o que eu ouvia crescendo em Brasília. 

E a letra da música tem tudo a ver comigo: "fui me embora de Brasília num submarino no Lago Paranoá".


Mas o mais legal mesmo foi ver a mãe do Oswaldo, Dona Elvira Montenegro, com todo o entusiasmo que lhe é característico, sentada na platéia cantando junto. Maravilhosas lembranças da minha professora de filosofia da 5a série no colégio Alvorada....

P.S. - E de canja ainda tem Léo e Bia com participação especial de Zeca Baleiro. "No centro de um planalto vazio...."

 

domingo, 19 de janeiro de 2014

Viajando no Direito Inglês


Ontem fiz uma pequena viagem de London até Salisbury, onde se pode visitar a famosa catedral com o mesmo nome, e o monumento pré-histórico Stonehenge. Achei tudo bonito e interessante, tirei fotos como qualquer turista, etc, etc. 



Mas o passeio teve uma outra dimensão, que eu apenas pude apreciar porque dou aula de direito, e mais especificamente porque vivo em um país que não apenas usa o sistema da common law, mas que ainda é bastante influenciado pela legislação inglesa. 

A common law, diferentemente do sistema brasileiro e da maioria da Europa Continental (civil law), é baseada em casos. Há muito poucas leis escritas e toda e qualquer disputa trazida perante a corte é decidida pelo juiz, com base em bom senso e, se possível, fazendo referência a casos anteriores que enfrentaram a mesma questão. 

Um dos primeiros casos que meus alunos lêem no curso de contratos trata de um comerciante inglês no século XIX que programou uma viagem de negócios após consultar os horários disponíveis de trens, segundo informação fornecida pela empresa (Denton v. Great Northern Railway Company, 1865). O viajante conseguiu ir de London até a primeira cidade, mas ao tentar embarcar para a segunda cidade descobriu que aquela linha não estava mais em operação. Processou a empresa pelo prejuízo que teve. Como ele não tinha comprado a passagem, mas simplesmente planejado a viagem, a pergunta era se havia um contrato entre ele e a empresa, que havia sido quebrado. A corte decidiu a favor do consumidor, criando um dos precedentes mais controversos do curso. 

Assim que eu comecei a programar minha viagem, consegui ver claramente o resultado do caso: as empresas de trens colocam os horários disponíveis na internet, mas avisam que não se responsabilizam por mudanças. Basta dar uma olhada nas letrinhas pequenas no último parágrafo do panfleto com os horários (aqui) E para aqueles que estão achando um absurdo as letrinhas pequenas que ninguém vai ler, há dois outros casos que discutem quão pequenas e visíveis as letrinhas devem ser. A resposta, basicamente, é: depende de quão abusiva (e portanto inesperada) for a cláusula. Nesse caso, como trata-se de senso comum, não se espera muita visibilidade. Ou seja, proteção ao consumidor aqui começou há muito tempo atrás.


Já no final do curso, discutimos um segundo caso, no qual um sujeito que tinha comprado uma pintura da catedral de Salisbury, alega que a mesma não tinha sido pintada pelo famoso John Constable (Leaf v. International Galleries, 1950). Na falta de um "satisfação garantida ou seu dinheiro de volta", o caso foi parar no judiciário inglês. A pergunta que a corte teve que responder era a seguinte: o comprador pagou pela pintura que estava na frente dele, ou ele pagou por uma pintura do tal do John Constable. No primeiro caso, se ele assumiu erroneamente que era John Constable, problema dele. No segundo caso, o fato da pintura não ser o que estava estipulado no contrato invalidava a transação e dava a ele o direito de recuperar seu dinheiro. A corte acabou não respondendo a pergunta, pois disse que reclamar cinco anos depois da compra era tarde demais. Portanto, a questão da anulação do contrato devido a "erro" teve que ser decidida em outros casos. 

Foi fascinante não apenas ver a famosa catedral de perto (por fora e por dentro), mas o mais interessante foi encontrar na lojinha de conveniências vários cartões postais com a famosa pintura de John Constable, que discuto todo ano com meus alunos. 


  

 Por fim, dentro da catedral, encontra-se uma das quatro cópias da Magna Carta, assinada em 1215 pelo rei João 1o. Todas as cláusulas estão em uma única página, afinal, papel não era fácil de achar naquela época! 



Para caber em uma única página, o documento -- disse a guia -- contém tantas abreviações que é praticamente impossível de ler sem ser um especialista. A boa notícia é que eles oferecem uma tradução em inglês que eu e minhas colegas, todas advogadas, obviamente paramos para ler cláusula por cláusula. Tem muita coisa interessante lá (assunto que vou deixar para outro post). 



Duas cláusulas que achei particulamente interessantes: 
 


  • – Logo que uma mulher fique viúva, receberá imediatamente sem dificuldade alguma, seu dote e herança, não ficando obrigada a satisfazer quantia alguma por esta restituição, nem pela pensão de viuvez, de que for credora, no tocante aos bens possuídos pelo casal, até à morte do marido; poderá permanecer na casa principal deste por espaço de quarenta dias, contados desde o do falecimento; e se lhe consignará, entretanto, dote, caso não o tenha sido antecipadamente. Estas disposições serão executadas, se a sobredita casa principal não for uma fortaleza; mas, se o for, ato contínuo, será oferecida à viúva outra casa mais conveniente, onde possa viver com decência até que se designe o seu dote, segundo aviso prévio, percebendo dos bens comuns de ambos os cônjuges o necessário para sua honesta subsistência. A pensão será conforme a terça parte das terras possuídas pelo marido, a não ser que lhe corresponda menor quantidade em virtude de um contrato celebrado ao pé dos altares ( " ad ostium Ecclesiae" ).
  •  


  • – Nenhuma viúva poderá ser compelida, por meio do embargo de seus bens móveis, a casar-se de novo, se prefere continuar em seu estado; ficará, porém, obrigada a prestar caução de não contrair matrimônio sem nosso consentimento, se estiver debaixo de nossa dependência, ou do senhor de quem dependa diretamente.


  • Em um dos cursos que ministro, tenho uma aula dedicada a gênero e desenvolvimento. Nesse aula, os alunos descobrem que esse tipo de garantia sucessória básica para mulheres, estabelecido na Inglaterra em 1215, ainda não existe em muitos lugares do mundo, especialmente na África. Ou seja, 9 séculos depois, ainda há países que não incorporaram esse tipo de legislação.

    E o Brasil não tem muito do que se orgulhar também.  Nosso código civil de 1917 incluiu no seu artigo 219, a seguinte cláusula: "Considera-se erro essencial sobre a pessoa do outro cônjuge: (...) IV – O defloramento da mulher, ignorado pelo marido.” Ou seja, a mulher era tratada como uma pintura de Constable. Se não fosse mais virgem, o marido tinha o direito de anular o casamento (assim como o comprador podia anular o contrato de compra e venda). E o prazo para fazer a reclamação também era limitado: dez dias. A isso de acrescenta uma série de outras barbaridades, como o art. 242 que proibia a mulher de exercer qualquer ato da vida civil (assinar contratos, aceitar heranças ou ingressar com uma ação na justiça) sem autorização do marido. Não me surpreenderia, portanto, se em pleno início do século XX o Brasil não concedesse às mulheres direitos sucessórios que a Inglaterra havia garantido em 1215...

    E não é só com relação às mulheres que o Brasil faz feio. A Magna Carta afirma:
     



  • – Nenhum bailio ou outro funcionário poderá obrigar a quem quer que seja a defender-se por meio de juramento ante sua simples acusação ou testemunho, se não for confirmado por pessoas dignas de crédito.

  • – Ninguém poderá ser detido, preso ou despojado dos seus bens, costumes e liberdades, senão em virtude de julgamento de seus Pares segundo as leis do país.



  • – Não venderemos, nem recusaremos, nem dilataremos a quem quer que seja, a administração da justiça.
  •  


  • Basta olhar para tortura policial, para Pedrinhas e para a quantidade de presos aguardando julgamento no Brasil para descobrir que quase 1000 anos depois, nós ainda não implementamos nada disso.

    Em suma, há um aspecto invisível das visitas a locais e monumentos que é difícil penetrar. Mas quando conseguimos acesso a esse mundo (seja através de guias, seja por causa da nossa profissão), a visita se torna muito mais rica e interessante. Não se trata apenas de uma janela para o passado, mas essa é também uma oportunidade para compreender melhor tudo que temos e vivemos hoje. Oxalá um dia as elites brasileiras comecem a vir para a Europa não apenas para se deslumbrar com a civilidade das pessoas, com a segurança e com a limpeza das ruas, mas também aproveitem a visita para aprender sobre os pilares invisíveis de tudo que nós admiramos por aqui, e gostaríamos que existisse no Brasil também. 


    sábado, 11 de janeiro de 2014

    O taxista londrino

    A viagem foi longa. Do aeroporto até o apartamento que eu tinha alugado em Londres, daria mais ou menos uma hora, me informa o taxista. "E vai chover", adicionou ele. 

    Como era de se esperar, o comentário sobre a chuva não parou ali. Recebi um relatório detalhado sobre a temperatura e a quantidade de chuvas na semana que tinha passado e uma comparação do volume de chuvas esse ano com o do ano anterior. Quando acabou o relatório sobre o tempo em Londres, comecou o relatório sobre o tempo no resto do país. Terríveis temporais e alagamentos, pessoas desalojadas de suas casas, etc, etc.

    Começou a chover. Olhei no relógio: 20 minutos tinham se passado desde que saímos do aeroporto. Estava curiosa para ver se o taxista iria passar os 40 minutos restantes falando sobre o tempo. Afinal, esse é o esteriótipo, não? Ingleses conversam sobre o tempo. Pois eu já estava pronta para aprender tudo o que há para se saber sobre a previsão meteorológica de um país onde chove 90% do tempo. Será que eles teriam mais de 50 palavras para descrever chuva, assim como os Inuits (habitantes do norte do Canadá) têm para descrever a neve?

    Mas para minha surpresa o taxista mudou de assunto. Tinhamos entrado na cidade e ele resolveu servir de guia turístico. Me indicava as ruas, os museus, os monumentos. Me disse que as filas nas entradas dos museums sumiriam depois do fim de semana, quando acabavam as férias escolares. Sugeriu que eu esperasse até segunda, salvo se eu gostasse muito de crianças e da companhia delas, acrescentou com uma gargalhada.... 

    Daí entramos em um rua comercial movimentada. Vi algumas lojas que eu conhecia, mas o taxista fez questão de me mostrar a Harrods. Disse que eu podia comprar de tudo lá. Perguntei se era uma loja de departamento. Ele disse que sim, mas que era muito completa. Como eu não dei muita atenção para o assunto (afinal, consumo de bens não percevíveis não é um dos meus fortes), ele completou: "você pode até comprar animais na Harrods". 

    Animais? Animais, respondeu ele entusiasmadamente.

    E daí veio a grande história sobre a Harrods. Diz ele que antigamente a Harrods não apenas vendia animais de estimação, como vende hoje, mas vendia qualquer tipo de animal. Bastava fazer o pedido e eles traziam o que você quisesse para Londres. Zebras, girafas, elefantes, etc. Enquanto listava os animais, o nível de entusiasmo do taxista ia aumentando. Mal sabia eu a história que me aguardava!

    Segundo ele, foi nesse esquema da Harrods que um sujeito resolveu comprar um leão. Criou o leão em um apartamento, até que o bicho ficou muito grande para permanecer dentro de casa. O dono resolveu então doar o bicho para uma reserva na África, onde ele viveria com outros leões, mas sob cuidados. E a história do reencontro do leão Christian com os donos foi filmada e está disponível na internet:



    Disse o taxista que, ao contrário dos donos de Christian (que foram responsáveis  e mandaram o leão para um local apropriado), muitas pessoas simplesmente soltaram seus animais em território londrino. Uma boa parte delas estava tentando evitar a multa imposta por uma nova lei, que proibia a posse de animais silvestres em residências. O taxista tinha um relatório detalhado do ano e local em que vários animais exóticos tinham sido vistos por transeuntes. Eram leopardos, onças e todo tipo de bicho nas áreas rurais de Londres. As histórias eram tantas que eu não consigo lembrar de todas. Disse ele que uma parte das histórias eram mentiras, e outras eram puro engano: a pessoa vê um bicho grande, não sabe o que é, e sai pelo mundo proclamando que era uma onça.

    E foi assim que eu descobri que o Londrinos não são apenas obcecados com o tempo, mas são obcecados também com histórias bizarras, como a do leão Christian e encontros inusitados com animais exóticos. Afinal, não dá pra passar tanto tempo dentro de um pub como eles passam só falando do tempo...

    E a viagem terminou com uma comparação cultural: 

    - "Senhor, é praxe dar gorjeta para taxistas aqui?" 
    - "Algumas pessoas dão, mas não se preocupe. A gente não é como aqueles lunáticos de Nova Iorque". 

    E enquanto ele descia do carro para carregar minhas malas até a porta do apartamento, eu pensei:  de fato, não são mesmo! Ainda bem.

     

    quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

    Minha Terra Tem Palmeiras...

    Diante desse texto de Vinícius de Moraes, desisti de tentar descrever a sensação de voltar ao país:

    "Vejo de minha janela uma nesga do mar verde-azul de Copacabana e me penetra uma infinita doçura. Estou de volta à minha terra... A máquina de escrever conta-me uma antiga história, canta-me uma antiga música no bater de seu teclado. Estou de volta à minha terra, respiro a brisa marinha que me afaga a pele, seu aroma vem da infância. Retomo o diálogo com a minha gente. Uma empregada mulata assoma ao parapeito defronte, o busto vazando do decote, há toalhas coloridas secando sobre o abismo vertical dos apartamentos,dá-me uma vertigem. Que doçura!

    Sinto borboletas no estômago, deve ter sido o tutu com torresmo de ontem misturado ao camarão à baiana de anteontem misturado à galinha ao molho pardo de trasanteontem misturada aos quindins, papos de anjo, doces de coco do primeiro dia. Digiro o Brasil. Qual o canard au sang, qual loup flambé au fenouil, qual pâté Strasbourgeois, qual nada! A calda dourada da baba de moça infiltra-se entre as papilas gustativas, elas desmaiam de prazer, tudo desagua em lentas lavas untuosas num amoroso mar de suco gástrico...

    É a brazuca! -- disse-me Antônio Carlos Jobim balançando a cabeça com ar convicto, enquanto empinava o seu VW em direção ao Arpoador."

    Trecho do livro Pois Sou bom Cozinheiro: receitas, histórias e sabores da vida de Vinícus de Moraes, p. 82.

    P.S. - Obrigada, prima, por esse delicioso presente!  

    domingo, 8 de dezembro de 2013

    Relatos do Brasil e do Amor

    No fim de semana passado, tive a oportunidade de assistir dois filmes no festival brasileiro de cinema de Toronto. Flores Raras é uma história de amor entre a poeta norte-americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares. Olga é outra história de amor entre uma revolucionária comunista alemã, Olga Benário, e Luiz Carlos Prestes. 

    As histórias tem muito em comum. Nos dois casos, duas estrangeiras vem ao Brasil com um propósito definido e acabam se apaixonando por brasileiros. Olga veio a mando do partido comunista numa missão para proteger Prestes, enquanto Bishop veio espairecer, buscando inspiração para voltar a escrever. O país, ou as respectivas paixões, incentivam a poetisa a voltar a escrever, e fazem a durona comunista amolecer. O resultado, nos dois casos, são histórias de amor conturbadas, sem finais felizes. 

    O pano de fundo são as reviravoltas políticas tão comuns na história do país. Vargas declara estado de sítio na época de Olga e o golpe militar de 64 acontece durante a estadia de Bishop. Nas duas histórias, as estrangeiras se apaixonam por pessoas profundamente envolvidas com a cena política, mas de lados opostos. Enquanto Prestes tentava derrubar o regime, através de uma revolução comunista, Lota tinha fortes laços com Carlos Lacerda, o governador do Rio que apoiou o golpe. 

    Outra semelhança é que ambos os filmes são baseados em livros. Flores Raras foi feito a partir da biografia romanceada de Carmen de Oliveira, enquanto Olga é baseado no fascinante livro de Fernando Morais. 

    As semelhanças, todavia, param aí. O relato das duas histórias é feito de forma bastante distinta nos dois filmes. Ambos os diretores estão focados na história de amor, mas enquanto Bruno Barreto celebra e trabalha em cima da complexidade das personagens e da relação entre elas, Jayme Monjardim faz exatamente o contrário.  

    Com diálogo artificiais e engessados, o diretor de Olga tenta retratar comunistas como idiotas robotizados, sem dar qualquer informação sobre o contexto político da época. Para tornar as coisas piores, o tom artificial dos diálogos em Olga não é abandonado nem no momento em que eles se apaixonam e viram protagonistas de um verdadeiro dramalhão mexicano. A quantidade de minutos usados na cena em que o regime nazista se apropria do bebê de Olga é, com certeza, um dos maiores desperdícios de película da história do cinema. Como se a história não fosse dramática o suficiente, o diretor decide jogar um pacote inteiro de açucar dentro da lata de leite condensado. 


    Flores Raras, em contraste, não ignora a realidade política do país, mas o faz sem abandonar o foco na vida pessoal das protagonistas. A cena mais marcante do filme, para mim, é o anúncio do golpe militar no rádio. Após ouvir a notícia, Bishop se dirige à janela e, para sua surpresa, vê que as pessoas estão na praia, se bronzeando e tomando sol, como se nada tivesse acontecido. Mas a surpresa maior vem quando ela descobre que Lota celebrou o golpe no gabinete do governador. O tema torna-se então um ponto de conflito entre as duas. 

    A estética também não podia ser mais diferente. Enquanto Flores Raras tem uma fotografia belíssima, com cortes e cenas estéticamente impressionantes, Olga tem um figurino que deixa a desejar, em um cenário que, de tão exagerado, parece falso. A neve de mentira apenas deixa as coisas ainda piores para o espectador.

    As diferenças não deveriam ser uma grande surpresa. Enquanto Bruno Barreto é um renomado diretor, com uma filmografia respeitável, Jayme Monjardim faz novelas para TV. Portanto, Olga não passa de uma novela com duas horas de duração. Recomendo, no caso de Olga, deixar o filme de lado. Vale mais a leitura do livro de Fernando de Morais. O filme Flores Raras, em contraste, vale a pena assistir. Assim que eu terminar de ler o livro de Carmen de Oliveira volto aqui para dizer se vale a pena também.