segunda-feira, 15 de junho de 2009

Meu Brasil brasileiro vai à China junto comigo


Estou eu do outro lado do mundo, com 12 horas de diferença no fuso horário e, de repente, quando menos espero, dou de cara com os brazucas. Sem negar sua natureza gregária, eles vêm sempre em bandos, falando muito e principalmente discutindo tudo. Param na frente da bilheteria para discutir se vão entrar ou não. Quando decidem que vão entrar, engatam em um longo processo deliberativo para decidir quem vai pagar e quem deve quanto pra quem. Depois que entram, dicutem incessantemente se devem contratar um guia real (uma pessoa) ou um guia eletrônico (uma fitinha que vai narrando todas as informações relevantes, enquanto vc visita o lugar).

Meu passeio na cidade proibida foi incessamente interrompido por encontros com os mais diversos grupos de brazucas, o que já foi inesperado. Mas o mais inesperado foi encontrar a bandeira brasileira ao lado da chinesa em absolutamente todos os postes de luz em volta da Tiananmen square (conhecida em português como Praça Celestial), assim que saí da cidade proibida.





Explicação? Nosso Presidente estava fazendo uma visita oficial à China! Muita coincidência...

A maior coincidência, todavia, é que eu e o Lula estavamos lá pela mesma razão: nós dois queríamos estreitar laços com a China, pra promover desenvolvimento no Brasil. Enquanto o Lula estreitava os laços comerciais, eu estreitava os laços acadêmicos.

Apesar do propósito ser o mesmo, nossas visões de desenvolvimento são absolutamente opostas. Eu acho que reformas institucionais são a principal forma de deslanchar o processo (e queria entender como funcionam as instituições chinesas e como elas promovem desenvolvimento). Em contrapartida, nosso Presidente estava promovendo uma agenda de desenvolvimento através do comércio internacional e do fortalecimento das relações sul-sul (ou seja ,entre países em desenvolvimento) e do G-20.

Nota de rodapé para quem tem interesse no assunto: vale esclarecer que há evidência empírica favorável à minha visão, i.e. sustentando que são as instituições e não o comércio internacional os principais motores de desenvolvimento econômicos.

Apesar das nossas divergências sobre como promover desenvolvimento, foi ainda assim uma enorme coincidência. Só faltou uma chance de deliberar sobre isso com o Presidente, como deliberam os brazucas sobre absolutamente tudo em tudo quanto é lugar.

domingo, 14 de junho de 2009

Coisa de Cinema





A viagem à China me lembrou de dois filmes que assisti recentemente. Primeiro, o trajeto do avião foi completamente inesperado: ao invés de dar meia volta ao mundo, voamos sobre o pólo norte, passando por uma parte do Canadá que eu só conheço por fotos e filmes. Essa região chama territórios do norte (Northern Territories).

Há algumas semanas assisti um filme no festival de documentários de Toronto (hotdocs) chamado Experimental Eskimos. O filme mostra exatamente a vida dos povos nesses territórios do norte. Hoje em dia é politicamente incorreto chamá-los de esquimós. A palavra correta é Inuit. Independente da terminologia, todos devem ter uma imagem que representa a vida destes povos há algumas décadas: eles constroem iglus, tem charretes de neve puxadas por cachorros, e comem peixe cru, que eles pescam fazendo um buraco na neve e pescando naquele circulo que dá acesso à água, debaixo da camada de gelo. Devo informá-los que as coisas mudaram muito nos territórios do norte. Quem quiser se atualizar, assista o filme.

Um dos diálogos mais interessantes do filme foi um garoto de 11 anos da comunidade Inuit que havia sido “adotado” por uma família em Ottawa. Na entrevista, ele descrevia sua experiência ao chegar à cidade:

Garoto: - Eu vi muitas coisas das quais só tinha ouvido falar.
Entrevistador: - Tipo o que?
Garotro: - Tipo árvores.

A resposta fazia referência ao fato de que os territórios do norte ficam acima da chamada linha das árvores. Há um momento em que, devido ao frio, e à composição do solo, a vegetação deixa de existir. Os Inutis, na verdade, comem (ou comiam) peixe porque não há vegetais no território deles. Não há árvores, grama, ou flores. É só um mundão de neve, água, e pedra. Foi uma experiência inesquecível voar sobre os territórios do norte. A beleza dessa região é indescritível. Em contraste, a história deste povo -- em parte contada no filme -- não é tão linda. Se tiverem uma chance, recomendo tanto a viagem quanto o filme.

A segunda experiência foi a visita à Cidade Proibida em Beijing, onde vivia o imperador. A cidade é retratada no filme o Último Imperador, que também é excelente. O contraste da Cidade Proibida com os territórios do norte é que lá foi tudo construído por humanos, enquanto nos territórios é tudo beleza natural. Porém, a magnitude e a beleza da cidade é comparável àquela imensão branca acima da linha das árvores.







Enquanto Experimental Eskimos dá uma dimensão de como é uma vida de subordinação (ao governo Canadense) nesse território sem limites, o Último Imperador dá uma dimensão de como era uma vida sem subordinação (afinal, ninguém manda no imperador) dentro daquela clausura.

A cidade basicamente se divide em duas metades: as acomodações pessoais do imperador, que vivia com sua esposa e comcubinas, e a parte dos prédios públicos. A parte que eu mais gostei da cidade proibida foi a visita ao jardim privado do imperador.



Um dos imperadores decidiu construir um jardim para espairecer depois de um dia cansativo de trabalho, e afirmou que todo homem deveria ter seu próprio jardim para relaxar depois de um dia devotado às questões de interesse público. Fiquei pensando que talvez as invasões das áreas verdes nos terrenos do Lago Norte em Brasília (nos quais a pessoas cercaram terrenos públicos e tornam eles parte de suas casas), deve vir daí. Depois de um dia cansativo de trabalho, todo burocrata tem direito e espairecer no seu jardim privado, já dizia o imperador chinês. E, considerando que o burocrata dedicou seu dia ao interesse público, nada mais justo que o terreno do jardim seja público!

domingo, 7 de junho de 2009

No lugar certo, na hora errada...

Saí em quase todas as fotos da conferência. Juro que não foi de propósito...

Rumo à China, sem gripe suína

Embarquei pra China no dia 16 de maio e, em contraste com a viagem para os E.U.A., o vôo foi marcado pela neura com a gripe suína. A propósito, uma amiga me disse que o nome oficial é H1N1, graças às reclamações da indústria de carne suína que teve uma queda radical nas vendas depois que a epidemia começou.

Mas voltemos à neura.

Já na sala de embarque, a atendenfe pede para que todas as pessoas com sintomas de gripe e febre se identifiquem. E ela explica a razão: o governo chinês proibiu o embarque de pessoas potencialmente contaminadas. E esclarece que se alguém tentar passar desapercebido, não vai ser autorizado a desembarcar do avião na China.

Dentro do avião, vem uma nova triagem: ao invés do formulário da alfândega, recebi um formulário com diversas perguntas sobre meu estado de saúde atual e nas últimas duas semanas. O formulário pedia informações detalhadas sobre minha vida como, por exemplo, se eu tinha tido contato com alguém contaminado. E eu pensando: quem em sã consciência vai marcar sim nesse item? Daí eu descubro que tenho que assinar a parte inferior do formulário, declarando que todas as informações prestadas são verdadeiras. E um aviso: haverá sanções para quem fornecer informações falsas, incluindo prisão.

Nesse momento, comecei a refazer mentalmente o trajeto do cara contaminado. Ele decide não ouvir as instruções da atendente e embarca no avião, pensando que vai conseguir passar desapercebido. Daí, ao receber o formulário, ele percebe que acaba se de meter em uma grande confusão, pois agora as escolhas dele são: (i) dizer a verdade e ir direto pra quarentena; ou (ii) mentir e enfrentar o risco de ser descoberto, ir pra quarentena, e depois para a prisão. Difícil sua situação meu amigo...

Quando o avião pousou, o comissário anuncia que devemos permanecer todos sentados, pois as autoridades chinesas vão medir a temperatura de todos os passageiros. Nesse momento, eu tive certeza que o sujeito contaminado tinha definitivamente um problemão, e torci pra que ele tivesse ao menos preenchido o formulário com a verdade, pra pular a prisão...

Minha solidariedade se esvaiu, todavia, assim que eu parei pra pensar como que eles iam medir a temperatura das quatrocentas pessoas no vôo. Iam trazer termômetros, pedir para colocarmos debaixo do braço, esperar cinco minutos? A gente ia passar outras dezesseis horas dentro do avião... Estava eu preocupada com o assunto quanto entra um exército de oficiais chineses com máscaras
, luvas e um aparelho muito estranho, que eles apontavam pra testa das pessoas, puxavam um botão, olhavam no visor e passavam para a próxima pessoa. Calculei que eles estavam gastando 10 segundos por pessoa, o que diminuia o tempo necessário para 4000 segundos (ao invés de 16 horas...). Considerando que havia 20 oficiais no avião, e cada oficial precisava de 200 segundos, conclui que em quatro minutos tudo deveria estar finalizado...

Obviamente, minha conta estava errada, e a coisa toda demorou uns 15 minutos -- o que eu ainda considerei uma boa marca se comparada à minha previsão inicial.

Como o sujeito contaminado já estava sendo enviado pra quarentena, passei a me preocupar com o potencial sujeito que estava com febre por outras razões e ia acabar sendo levado também pra quarentena, além de passar por uma investigação para averiguar se ele não tinha mentido ao preencher o formulário. Estava eu pensando no azarado, enquanto caminhava pelo magnífico aeroporto de Beijing (que é de fato impressionante), quando fui surpreendida por mais um official, me pedindo o formulário da gripe.

Fui pega totalmente de supresa: achei que depois de tantas medidas de segurança, não sobrava mais nada pra checar. Mas os chineses são, de longe, mais espertos que eu. Eles tentaram evitar que o cara contaminado e com febre embarcasse. Caso ele tivesse embarcado, tinha evitado que ele desembarcasse. E tinham levado junto pra quarentena o sujeito que estava com febre, ainda que o mesmo não estivesse com gripe. Agora, no último posto de checagem, o official ia pegar o sujeito contaminado que não estava com febre, mas tinha ficado com medo de mentir no formulário. Enfim, a conclusão é que eu só vou adquirir gripe suína na China se algum sujeito contaminado, ainda sem febre, mentiu no formulário.

Em suma, risco de morte bem menor do que em Nova Iorque. Isso significa que eu não vou ter uma desculpa pra ir a nenhuma festa cool nessa viagem….





sábado, 30 de maio de 2009

Recado para meus caros leitores

Estou passando aqui só pra avisar vocês que eu não morri de H1N1!

Voltei dos EUA e fui pra China. Voltei da China e estou me mudando pro novo apartamento amanhã. Embarco pro Brasil no fim de semana que vem. Enfim, a vida anda corrida.

Tentei atualizar o blog em Beijing, mas o governo chinês não deixou... Portanto, relatos e reflexões sobre tudo que aconteceu nas últimas semanas virão quando eu voltar a ter tempo pra respirar.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Rumo à gripe suína

Na quarta-feira deixei a pacata Toronto, cuja província tem apenas 62 casos da gripe suína, e mergulhei em Nova Iorque, que agora tem 174 casos. (como Toronto é uma cidade multicultural, vc encontra informações sobre o vírus no website do governo em muitas línguas, incluindo português!)

Já que eu estava correndo risco de morte, resolvi aproveitar a viagem ao máximo. Fui na minha empresa aérea favorita, a porter, que só não é mais perfeita porque não dá.

Encontrei a L., que estava em NYC para uma conferência, e fiquei hospedada da convite dela no Grand Hyatt. E já que estavamos hospedadas em grande estilo, o jantar não podia ficar pra trás: fomos jantar em um restaurante que a L. tinha me levado a muito tempo atrás, que eu adoro, o Spice Market.

Na quinta-feira, a L. fez um extreme makeover no meu guarda-roupa (fotos da nova Mariana em breve) e fomos depois comer brunch no Clinton St. Baking Co.. Eu comecei por um copão de café,


e nós tiramos nossas tradicionais fotos uma de cada lado da mesa (segundo a L., temos milhares de fotos nesse estilo),


A sobremesa foi arroz doce, nessa loja super cool no SOHO,



e eu me diverti tanto com os dizeres politicamente incorretos espalhados pela loja que quase esqueci de comprar meu potinho de arroz doce,


E daí nós tivemos direito a um momento verdadeiramente nova iorquino. Sentamos no parque pra comer o arroz doce, quando chega um cara de patins, senta e começa a ler o jornal (de patins). Daí chega um outro cara com um violão, senta e começa a tocar Baden Powell.



E depois de dar um pulo na loja do MoMa, que tinha uma linha especial feita por designers brasileiros (!) fomos cada um pro seu canto: L. tinha que voltar para o Brasil, e eu peguei o trem pra New Haven, onde estou agora numa conferência.

Os organizadores da conferência mandaram uma carta para os participantes com as seguintes instruções:

"devido à atual preocupação com a gripe suína, recomendamos que todos se comportem como americanos da Nova Inglaterra -- ou seja, reduzam ao mínimo a quantidade de beijos, abraços, e apertos de mão. Shoulder bumps are okay."

obs: não consegui traduzir a ultima frase. sugestões são muito bem vindas!

Amanhã volto pra Nova Iorque, porque a N. vai dar uma festa de arromba. Eu resolvi ir só porque ainda estou correndo risco de morte.





segunda-feira, 4 de maio de 2009

Aventuras culinárias...

...de uma pessoa que não sabe cozinhar.

Dia 1: eu chego em casa e descubro que todas as minhas bananas estão maduras demais para serem comidas. Daí eu cobri todas elas com açucar mascavo e coloquei no forno:


Na foto dá pra ver que elas ficaram com uma cor horrível. Eu, apesar de ser cozinheira de primeira viagem, deduzi que é humanamente impossível alguém poder controlar a cor com a qual sua banana vai ficar depois de assada. Fica uma pergunta para os entendidos: posso colocar a culpa no cara que encheu minha banana de fertilizante?

Dia 2: eu chego em casa e descubro tudo que há dentro da minha geladeira é um tomate, dois ovos, e um pedaço de queijo. Fui no armário procurar macarrão e molho pronto, mas nem isso tinha. O que eu encontrei foi uma lata de lentilhas (que eu não sei quando ou porque eu comprei...). O resultado foi que nesse dia eu jantei a famosa gororoba:



Ficou, de fato, tão ruim quanto parece na foto. Pra vocês terem uma idéia, no meio da refeição eu parei para tomar suco de laranja pasteurizado (aquele com gosto horrível, sabe?) e parecia o paraíso. Depois de terminar meu prato, eu decidi comer o pedaço de queijo na geladeira, e parecia um prato preparado por um chefe francês em um restaurante cinco estrelas.

Dia 3: Depois de comer mal prá burro, eu decidi que eu merecia uma refeição decente e preparei um brunch com waffles, brigadeiro (sim, eu sei fazer brigadeiro!), e morangos.



Pois é, acreditem se quiser: ficou bonito (e tão gostoso quanto parece ser na foto!).

Dia 4: eu chego à conclusão de que eu já sei preparar refeições saudáveis (1 e 2) e refeições bonitas e gostosas (3). O próximo passo é conseguir preparar refeições saudáveis que sejam bonitas e gostosas.

Aguardem as cenas do próximo capítulo das aventuras culinárias de M.!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Mulheres fortes, inteligentes e espirituosas

Essa semana N & N vieram para Toronto e foi bom, como sempre é, receber a visita deles. E durante as poucas horas que passamos juntos, me lembrei que eu preciso começar a anotar as frases geniais da N.

Durante minha visita a Nova Iorque, perdi a oportunidade de anotar várias (e é claro que eu não me lembro -- eu nem sei o que comi no almoço hoje...). Mas durante a visista dela a Toronto, eu aproveitei a oportunidade e decidi compartilhar com vocês um pouquinho da espirituosidade e bom humor dela:

- I don't need Yoga, I have New York (no jantar, quando eu tava falando que estava pensando em fazer Yoga).

- I went to therapy because I needed someone looking at me, instead of having a person who got distracted with something else everytime I was complaining (a frase foi seguida de um olhar fulminante em direção ao marido, o N., que apenas sorriu).

- Reality can never be more beautiful than your imagination (a frase é de um livro, não da N., mas foi citada no momento certo, de maneira que ficou sendo quase dela).

- I love meeting strong, inteligent women. (essa foi a frase da N., quando ela conheceu a D., de quem eu falei antes)

Pois é. Acho que mulheres fortes e inteligentes gostam de conhecer mulheres que também sejam fortes e inteligentes. E uma pitada de bom humor não faz mal a ninguém...

Temer não é saber

Semana passada, minha faxineira encontrou uma faca na escrivaninha do escritório e perguntou o que eu estava fazendo com aquilo lá. Eu expliquei que tinha ficado trabalhando até de madrugada, comecei a ouvir barulhos no quintal no meio da noite e resolvi pegar a faca, caso alguém invadisse a casa.

Na minha resposta eu omiti o fato de que a mesma coisa já tinha acontecido antes, mas da primeira vez eu liguei pra polícia (911). Em cinco minutos, vinte homens armados, com coletes a prova de bala e lanternas no capacete, estavam vasculhando meu quintal. Eles ficaram meia hora lá pra bater na minha porta logo depois (3 da manhã, diga-se de passagem) e me dizer que o barulho eram os guaxinims mexendo no lixo. Achei que minha faxineira ia pensar que eu era muito paranóica se ela soubesse deste precedente. Mas eu me enganei.

Ao invés de me achar paranóica, minha faxineira vira pra mim e fala: - "essa faca aí não vai te proteger de nada. Se o cara entrar aqui, você precisa chegar tão perto pra conseguir esfaquear ele, que provavelmente ele já te nocauteou antes de você começar a mover a faca na direção dele. Aém disso, ainda que você consiga encostar a faca nele, você provavelmente não vai ter força pra fazer nenhum dano significativo. Esfaquear gente não é fácil assim, minha filha.... O que voce precisa mesmo é de um taco de baseball!"

A explicação para o taco, como vocês podem imaginar, segue toda a lógica que ela usou para ridicularizar minha faca: não precisa chegar perto pra acertar o cara e não precisa de tanta força (o peso do taco com a gravidade resolvem o problema). A dica dela foi pra eu mirar na cabeça. Eu resisti à proposta: - mas se eu acertar a cabeça eu mato o sujeito! Ela não titubeou: - tem que matar mesmo. Entrou um sujeito armado na sua casa? É você ou ele."

Perguntei de onde ela tirou toda essa sabedoria sobre como matar sujeitos armados. Ela respondeu que fazia isso na Jamaica, porque ela não tinha uma arma. Lá, segundo ela, muita gente anda armada e as casas são invadidas com frequência.

Mais do que sabedoria sobre como se defender de homens armados, a conversa revela uma coisa muito interessante: nós duas transferimos a percepção de risco que adquirimos nos nossos respectivos países para o Canadá. Para confirmar minha hipótese, pergunto se ela se protege de invasões de casas e homens armados no Canadá. Ela me diz que tem um taco em casa. E explica que quando os netos dela ficam na casa dela, ela coloca todos eles pra dormir no quarto dela e dorme na sala com o marido. Ela tem medo que invadam o apartamento no meio da noite e levem as crianças. E acrescentou: só levam se passarem por cima do meu taco!

A triste conclusão é que é muito difícil racionalizar nossas percepções de risco. Eu me informo sobre as estatísticas de crimes em Toronto (que sào baixas), tenho todas as razões para acreditar que estou bastante segura na minha casa (que tem alarme, vale esclarecer) e, caso eu precise de ajuda, eu sei que a polícia aqui efetivamente faz valer meus impostos. Além disso, eu sei que tem quaxinims no meu quintal. Mas ainda assim, minha percepção de risco é provavelmente similar à que eu teria se estivesse no Brasil e o resultado é que eu fico alerta quando ouço barulhos no quintal as 3 da manhã.

O mais irônico desta história é que eu escrevi uma crônica em 2004 pedindo para meus pais -- e qualquer outro eventual leitor -- serem mais racionais com suas percepções de risco. Acho que meu pedido acaba de perder toda a credibilidade. Bom, fica a crônica original, pra vocês verem como o mundo dá voltas. Enquanto vocês lêem, vou comprar um taco de baseball e já volto.


Cada um acredita no que quer, e teme o quanto pode



A moda agora nos Estado Unidos é o aparelho portátil de música da Apple, chamado Ipod. Em todo lugar que você vai, todas as pessoas com menos de trinta e cinco anos têm um (e algumas acima dessa idade também têm). Para não ficar de fora, comprei o meu e comuniquei minha mais nova aquisição à família e aos amigos. Como todo(a) estudante, não tenho carro, casa própria e minha propriedade de maior valor no momento é o meu computador. Portanto, a aquisição de um Ipod me pareceu um momento merecedor de atenção.

Dois dias depois, recebo do meu pai um e-mail dizendo que saiu na Folha de S. Paulo que o índice de roubo de Ipods no metrô de Nova Iorque aumentou em 50%. Três meses depois, em julho de 2005, minha mãe me manda a notícia de que um jovem havia sido morto no Brooklyn quando se recusou a entregar seu Ipod para um grupo de assaltantes. Enfim, meus pais temiam que minha mais nova aquisição colocasse em risco minha segurança, ou mesmo minha vida....

Depois de investigar as notícias em outras fontes, descubro que o índice de roubo de Ipods em NY de fato aumentou. Em um ano, subiu de zero para cinquenta. Ou seja, no período de um ano, cinquenta Ipods foram roubados em NYC. Dentre esses, um dos roubos gerou uma briga entre a gangue de assaltantes e os moleques que estavam sendo atacados (todos da mesma idade). Essas estatísticas mostram que as chances do meu Ipod ser roubado são mínimas, em especial se você considerar que eu não moro em Nova Iorque, e que provavelmente nenhum incidente desse tipo aconteceu na minha cidade até hoje. Mas como diz o ditado popular, "tudo tem uma primeira vez", e "você pode ser a próxima (e a primeira) vítima". Caso a profecia do ditado se realize, podem ter certeza que eu não vou em envolver em uma briga de chutes e pontapés com moleques de quinze anos.Entrego o Ipod e cada um segue seu destino.

Em contraste com essa realidade, em 2004, morreram 38 mil pessoas a tiros no Brasil. Uma pessoa a cada 15 minutos. Portanto, meus pais precisam tomar muito mais cuidado com pessoas armadas no Brasil, do que eu com assaltantes em busca de Ipods nos Estados Unidos. Na verdade 24 em cada 25 vítimas de armas de fogo no Brasil são homens. (http://www.soudapaz.org). Portanto, meu pai precisa se precaver ainda mais que minha mãe...

O interessante de toda história é que ela mostra algo que acontece com muita frequência. Um amigo meu está escrevendo uma tese sobre como as percepções das pessoas, e não a realidade em si, afetam o comportamento humano. Segundo ele, o comportamento cotidiano de pessoas normais pode ser em grande parte explicado pelo modo como as pessoas processam as informações que elas recebem, e como elas o fazem de maneira bem pouco objetiva. Como resultado, tendem a se proteger de maneira excessiva de riscos que são bastante improváveis, enquanto vivem totalmente desprotegidas de coisas que de fato apresentam ameaçam concretas.

Exemplo: está na moda agora aqui nos Estados Unidos coletar sangue do cordão umbilical dos recém nascidos, para que eles possam ter uma chance de tratamento caso venham a ter leucemia ou alguma outra doença fatal. Semana passada me deparei com um artigo de um médico dizendo que, na véspera do nascimento do seu filho ele se deparou com a questão e resolveu fazer um pouco de pesquisa sobre o assunto. Acabou por descobrir que a probabilidade de seu filho ter alguma das doenças curadas pelo sangue do cordão umbilical (ou as células tronco do mesmo) é ínfima. Apesar disso, milhares de pessoas estão pagando fortunas para manter o cordão umbilical de seus filhos em bancos de células tronco.

Logo depois, encontrei em outra revista uma estatística assustadora: uma criança que acaba de nascer tem 50% mais chances de morrer afogada na piscina no quintal de sua casa, do que de acidente com uma arma de fogo que seus pais possuam. Apesar disso, alguns estão lutando arduamente para diminuir o número de armas de fogo no Brasil, enquanto continua aumentando o número de piscinas nos quintais (o que ainda cresce em proporções inferiores ao número de cordões umbilicais armazenados...).

Tudo isso é resultado de impressões. As pessoas recebem as informações, se impressionam, ficam com medo, e resolvem tomar medidas contra aquilo sem se perguntar de fato qual o risco que aquilo representa para elas. Sabe-se que há risco de que a criança tenha leucemia, então os pais guardam o cordão umbilical sem se perguntar quanto de risco essa doença de fato representa. Se os pais estivessem tentando pensar objetivamente sobre os riscos de morte de suas crianças, estariam elencando os mais diferentes fatores, analisando estatísticas, e estariam se perguntando também se se eles deveriam estar se livrando do revólver que têm guardado no armário, ou da piscina no quintal.

Entretanto, parece que guardar o cordão umbilical no banco de sangue já traz a paz de espírito necessária para muitas pessoas. Por que? Claro que há um mecanismo cognitivo que parece instrínsico a todo o ser humano. Mas junto com isso, parece também que algumas informações parecem receber mais atenção e destaque que outras. Parece que as pessoas são induzidas a consumir coisas que evitam riscos (como estocar as células tronco), mas parece haver muito menos informação para que elas deixem de consumir coisas que criem riscos (como piscinas e armas). Eu me pergunto até que ponto as informações (sobre as vantagens de estocar condões umbilicais) e a falta de informação (como os riscos de crianças morrerem afogadas em piscinas domésticas) que chegam até as pessoas comuns, que são em sua maioria consumidoras também, não tem alguma ligação com o interesse de algumas indústrias. Ora, se o cordão umbilical for jogado fora, o banco de sangue não ganha dinheiro algum. O mesmo acontece se piscinas não foram contruídas e armas não forem compradas. Não tenho provas contra ninguém. Estou apenas especulando....

Mas não me entendam mal. Não quero que as pessoas deixem de construir piscinas, dirigir carros, usar energia elétrica, etc. Todas essas coisas, além de trazerem riscos, trazem também vantagens e deleites. Ninguém ter por objetivo de vida conseguir respirar o maior número de vezes possíveis. Queremos todos aproveitar a vida, ao máximo. Portanto, à vezes queremos respirar melhor, ainda que isso implique o risco de respirar menos vezes. Não tenho nada contra isso. Minha sugestão, para não dizer súplica, é que as pessoas prestem mais atenção nos fantasmas reais, e se precavejam contra vendedores que estão prontos a fazer você gastar seu dinheiro com fantasmas imaginários: às vezes, aquele mesmo dinheiro poderia estar sendo usado para efetivamente salvar sua vida.

E aqui vai o recado para os meus pais, que motivaram todas essa divagação: os minutos de preocupação que vocês tiveram com meu novo Ipod poderiam ter sido melhor utilizados na apreciação de um bom vinho, de um bom filme, de um lindo por-do-sôl, ou (sem querer ser irônica) de uma boa música. Sabendo que vocês não são tão hedonistas quanto eu gostaria, talvez vocês prefiram continuar se preocupando. Nesse caso, vocês podem usar esses mesmos minutos para se preocupar com o risco de homicídio no Brasil e com maneiras de se proteger. Adotem isso como princípio, e, assim, poderemos ser todos mais tranquilos e felizes apesar dessas mentes traiçoeiras que vieram ao mundo junto conosco, e que foram implantadas dentro dos nosso crânios, e que não podem ser tratadas nem com nossas células-tronco...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

NYC com N & N

Passei o fim de semana passado em Nova Iorque com meus amigos N&N. Essa foi minha primeira visita depois desde Agosto do ano passado, quando eu e a N. ainda estávamos escrevendo nossas teses de doutorado.

Esse é o pré-tese (Agosto de 2008):


Esse é o pós-tese (Abril de 2009):


Dá pra ver que as teses não foram o período mais divertido de nossas vidas, mas compensamos tudo com dois cortes de cabelo radicais e um fim de semana memorável.

O fim de semana, na verdade, começou na sexta-feira, com turismo intelectual. N. estava se preparando para uma job talk (que é a entrevista que vc faz quando quer viram professor aqui) e eu tive o privilégio de assistir a apresentação dela na New School. A tese dela é sobre a guerra no Iraque e é uma das coisas mais interessantes e bem escritas que eu li esse ano. E não sou só eu que acho isso: ela acabou de ganhar o prêmio de melhor tese de doutorado escrita por um estudante estrangeiro da New School. E o debate depois da apresentação foi muito legal.

A viagem teve também, como não poderia deixar de ter, turismo gastronômico. N &N não só conhecem restaurantes ótimos, mas também cozinham maravilhosamente bem. Todas as refeições foram, portanto, inesquecíveis. Na sexta-feira, por exemplo, depois da apresentação da N., nós compramos sanduíches asiáticos e comemos na Madison Square. Mas o destaque, sem dúvida, vai para o brunch no domingo, no Public, um restaurante todo modernoso no Soho. O chef combinou duas coisas que eu adoro e como aos montes: sanduíche de banana com french toast. Foi tão inesquecível que eu nem tive tempo pra me aborrecer com o café horrível que eles servem...

Além disso, tivemos uma manhã frutífera de turismo consumerista: Apple (só pra olhar, e futucar, e admirar, e ficar com vontade de comprar tudo...), Banana Republic (pra procurar uma meia calça porque eu tava morrendo de frio...), e Mango, a loja da Penélope Cruz (pra gente achar que é chique e moderna). Acabei comprando só uma medalinha de cerâmica que você coloca no jarro de açúcar mascavo pra ele não endurecer. Estou agora monitorando meu pote de açúcar diariamente pra ver se funciona. Em suma, o veredito é que de chique e moderna eu tenho muito pouco, mas minha neurose com a qualidade do meu café e o açúcar que eu ponho nele é imbatível.

E já que era eu, uma professora, visitando um professor e uma quase professora, a viagem incluiu um pouco de turismo educativo: N. me levou para um tour na Alphabet City, que era uma parte da cidade que eu não conhecia. O tour contou com um histórico da vizinhança, que foi super interessante, e culminou com uma experiência gastronômica genuinamente japonesa: miojo. Não aquele pronto que a gente compra no supermercado, mas sim o prato que inspirou a versão instantânea que a maioria de nós conhece. A base é a mesma, com a diferença que a massa é fresca e o prato tem ingredientes de verdade (tipo pedaços de carne de porco) ao invés de um pó com gosto de ingredientes. O N. morou no Japão e me deu uma aula de culinária japonesa -- que para minha surpresa vai muito além de sushi. Para quem estiver passando por NYC, e quiser experimentar coisas novas, essa certamente é uma experiência diferente.

E, como pessoas interessantes atraem mais pessoas interessantes, teve também turismo social. Os amigos de N & N são tão legais, inteligente e engraçados quanto os dois. E eu me diverti muito na noite em que N & N deram uma "dinner party" na casa deles. Além de conversas boas e de vinho bom, N. preparou um spaghetti com berinjela para os vegans e vegetarianos que tava tão bom que eu até esqueci do peixe.

Mas ao invés de ficar enfatizando as qualidades de N & N como anfitriões, acho que o que melhor resume o espírito da viagem é dizer que o N. prepara um café latte divino todas as manhãs e a N. usa all star!